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PRIMEIRO FORAM AS ABELHAS

15 de janeiro de 2082.


- Primeiro foram as abelhas...

Falar sozinho não era um sintoma de sua condição de idade avançada, mas o pouco de família que lhe restava na terra achava que era. Camila era uma ótima bisneta, e uma das poucas pessoas que sabiam seu nome naqueles tempos de guerra. A perseguição não conseguiu alcançar esse professor. Camila se acostumou a chamá-lo pelo apelido e assim ficou:

- Biso? Que foi?

- Depois os mosquitos: desses ninguém reclamou.

- Vixi, começou de novo... Tomou seu remédio hoje?

- Mas depois sumiram as moscas, as mitingas, as formigas. Besouros, borboletas. As minhocas são insetos? Não me lembro direito bisneta... qual o seu nome mesmo?

- Camila Biso, Camila. Lembra se tomou o remédio?

Claro que não lembrava, quando ele começava a falar do passado, sua mente virava num trator que destruía tudo o que via de novo pela frente. O agora também era bem ruim então:

- Ah! Em homenagem a sua avó... que morreu com a segunda onda de Covid... sua mãe sofreu tanto, ela perdeu 13 parentes numa semana só... Nossa, já estamos há 60 anos da Covid... lembra como foi? Disso eu não consigo esquecer...

Camila tentava arrumar um pouco da bagunça que o Biso sempre fazia na cozinha, não entendia como conseguia tirar tanta coisa do lugar. Até pensou que ele fingia que cozinhava e depois lavava a louça suja de comida de mentirinha. Assim como faziam quando ela era criança e ele tentava contar como era brincar de cozinhar. Mesmo assim, ela conseguia conversar enquanto guardava os talheres.

- Biso, eu não tinha nascido ainda, e o Alzheimer tira as suas novas memórias. claro que não vai esquecer da Covid.

- Não me ofenda garota, eu sei disso, tô falando é que inventaram remédio pra viroses, pra impotência, pra substituir a academia, pra ruga, mas esqueceram do cérebro. Agora eu com 100 anos, sou musculoso, sem pelanca, posso transar, mas não lembro do nome da minha bisneta favorita... Indústria farmacêutica da porra, só pensa em dinheiro.

- Não quis te ofender Biso, só que você vive contando dessas teorias da conspiração e das histórias dessa época e... daqui a pouco vai falar de como os Iluminati queriam acabar com um terço da população. Nem as gripes fizeram isso. O mundo nem acabou e...

- Acabou sim. E você sabe que eu deixaria um terço da população viva. Ênfase no deixaria.

- Ah Biso... com essas palavras difíceis.

- Lembro do povo brigando por papel higiênico no supermercado. Bons tempos...

- Das gripes? Que começou essa desgraça toda?

- Não, das gripes não, dos supermercados.

- A gente podia ir em qualquer época do ano e comprar qualquer fruta ou verdura, ou legume, ou grão tudo fresquinho... Pãozinho feito na hora, leite de saquinho. Mas a maioria ainda preferia os industrializados. Mesmo tendo todo tipo de comida fresca o ano todo. Ah a cerveja... hum. Vinho...

- O que?

- Deixa pra lá, não quero te botar com vontade. Deixa eu com a minha saudade.

- Hoje temos esses industrializados Biso. Graças a Deus.

Camila pôs a mesa como se fosse um banquete, afinal a ração do dia tinha gosto de carne e a sobremesa, eram barrinhas de cereal sabor cereja. Biso comia com fome, mas tentava imaginar estar comento outra coisa.

- Como era bom o gosto da laranja de verão... ou de dar uma bela mordida numa banana... essa porcaria que o governo dá hoje em dia tem gosto de ração de cachorro, credo.

- É o que tem Biso, e essa ração é pra gente. Ser humano mesmo.

- Quem diria que isso iria acabar assim.

- Assim como?

Pergunta Camila já impaciente enquanto servia uma caríssima água torneiral. O velho volta a filosofar:

- Descobriram que não se come dinheiro. Sabe, todo mundo pensa que tudo acabou depois da covid...

- E não foi?

- Não... Quer a verdade?

- Quero.

- Então prepare-se, pois este velho vai sair do armário.

Camila no fundo sabia que Biso estava era preparando uma bomba. Ele sempre fazia isso quando estava entrando em surto, cercava, se fazia de sonso. O médico já tinha avisado. Lá foi ela buscar a medicação que com certeza ele não tomou. Mas antes, resolveu dar uma trela, era raro um momento de conversar com alguém para ele, pois vivia sozinho.

- Vish, vamo sentar que lá vem história.

- Muito bem. Eu vou te contar uma história. Uma das que nunca contei.

- É? Qual seria?

- É que tem uma parte da minha vida que ninguém sabe. E eu quero te contar antes que eu me esqueça.

- Vai falar que era professor de biologia na escola pública quando estourou a guerra civil?? Disso eu já sei. Eu tava no quinto ano lembra?

- Não, disso você já sabe, quero contar o que você não sabe.

- O que?

- Da verdade sobre o meu nome, sobre o meu cargo e sobre os meus insetos.

- Ah pronto, agora além desse lixo todo, você está acumulando bichos?

- Não são bichos! Não são esses Pets que você acha que são seus filhos! Eles são a nossa salvação! São insetos!

- Era só o que faltava Biso, nesse mundo só tem barata e pronto, sempre foi assim e sempre será... essas pragas.... onde elas estão? Logo vi que tinha muita louça...

- Tão tolinha, sempre enfurnada nas redes sociais e esquece da vida. Esquece de observar o que está na sua cara, que aliás a única coisa que vê é esse relógio. Essa é a praga que nunca acaba. Eu tô falando de outra verdade.

- Qual?

- A que eu não falo pra não morrer.

- Biso está delirando? Tô ficando com medo.

Biso deu um sorriso, desses de quem está aprontando, foi até a porta da rua e conferiu se tinha alguém suspeito por ali.

- Qual a verdade Biso?

- Deixa eu ver ali fora. Ninguém pode saber.

Enquanto isso ela descruzou os braços, se deu conta que estava presa ali com o Biso em surto, e a chave estava na fechadura:

- O que? Deixa essa porta aberta.

- A polícia governamental vai aparecer hoje... você se esconde aqui. Nessa sala.

Apontou ele para uma parede cheia de mofo, a única que estava vazia naquela casinha.

- Biso... que sala, aí é só uma parede!

- Promete que fica aqui hoje.

- Tá bom, prometo, mas deixa de ser gagá. Tomou seu remédio?

- Ou melhor você se tranca aqui comigo Camila. Até amanhã.

- Amanhã?

- Sim... Amanhã sim... eles virão nos buscar.

- O que?

- Por hora só ouve.

Camila já estava prestes a clicar no botão de emergência de seu govsmartwatch, Biso já havia surtado antes, mas hoje, parece pior. Até que ele percebeu e por fim usou os músculos para arrancar aquilo como se fosse um pirulito na mão de uma criança, Camila não chegou a conhecer um pirulito e nem os tempos de academia do Bisavô, nem tão pouco, que ele era faixa preta. Com o relógio dela na mão ele a prende pelos braços:

- Ouve... Lembra daquela vez que sumi, por dias, e do nada apareci aqui no quarto?

- Biso, está me assustando. Arranhou minha mão! Tá me machucando!

- Para de frescura e presta atenção. Eu estava aqui o tempo todo!

Camila não sabia mais o que pensar, mas até então tinha alguma lógica. Ele havia sumido dois dias, e do nada saiu do banheiro. Isso nunca ficou muito bem explicado. Foi então que ela parou um pouco para ouvir:

- Você já viu algum inseto?

- Você já me perguntou isso seu velho maluco, as Baratas?

- Não sua menina idiota, os outros...

- Que outros Biso?

Os safanões não paravam, Camila tentava fugir:

- Naquela época eu era jovem, no mês que a pandemia começou eu tinha apenas 20 aninhos, e eu entrei pra faculdade de biologia.

- Que outros insetos vô? Me solta!

- Tá bom, mas você tem que ficar quieta.

- Eu fico! Mas me solta.

O velho a largou, mas não saiu da sua frente, ela estava acuada num canto da sala:

- Eu estudei e amei tanto os nossos insetos que fui um dos primeiros que perceberam o que tava acontecendo, fui o primeiro que desconfiou do sumiço deles.

Era verdade, mas na época, Biso também foi chamado de louco, até pelo presidente da república. Ele continuou:

- Vem, eu vou te mostrar. Vamos ver se minha íris ainda funciona...

- Iris?

O velhinho quase encosta o olho num leitor antigo de dar dó que estava na parede logo atras deles, mas só funcionou depois de cinco tentativas, afinal o olho do velho já tinha passado por cinco cirurgias para grau, e era cheio de cicatrizes, por isso demorava tanto para o aparelho reconhecer. Sua bisneta já estava meio impaciente, não entendia por que o avô era preso a essas coisas velhas. Ele tentava explicar:

- Tenho um arquivo, guardei depois que tudo foi retirado da internet, da deepweb, da nuvem, do metaverso, e do ultraverso também. Tinham os livros, mas, tudo bem, ninguém usava mesmo... Não conta pra ninguém?

- Biso.... pra quem eu contaria?

- Eu tenho uma coleção. Não sei se você sabe, mas eu fui entomologista antes da guerra e, antes que você pergunte, eu era especialista em insetos, fiz parte da pesquisa da universidade quando elas ainda existiam.

- Biso, do que você está falando? De uma biblioteca?

- Deixa eu continuar. Até o final. Depois você vai entender.

Quando aquele velhinho de 100 anos ex bodybuilder fez a íris funcionar, e depois fazer a parede se movimentar para abrir, como se fosse um portão de prédio, Camila no alto dos seus 30 anos de idade mal podia acreditar no que via no lugar do que pensava ser sua vizinha, uma oficina de carros. Era uma mistura de terror, nojo e maravilhamento que não sentia desde que subiu ao espaço pela primeira vez. Bons tempos, como sempre falava Biso, comparados com o agora, que estavam confinados mais uma vez por causa do calor, das enchentes e claro da briga pela comida. Camila não queria falar para o seu Bisavô mas, a ração alimentar também já estava limitada a cinco quilos por família, papel higiênico já não existia desde 2050. O velho continuou enquanto ela caminhava pra dentro daquele lugar:

- Então como eu ia dizendo, primeiro foram as abelhas, depois os mosquitos desses ninguém reclamou, mas depois sumiram as moscas, as mosquinhas de frutas, as formigas. Besouros, borboletas, as minhocas são insetos? Não me lembro direito bisneta... qual o seu nome mesmo?

- Camila Bis...

- Relaxa, tô de brinks, você realmente acredita que tenho Alzheimer? Tolinha mesmo. Eu tenho a cura do cérebro também... há anos. Olha lá dentro...

Camila entrou e se deparou com um galpão imenso, que aliás era o prédio vizinho a eles, aquele velho colocou umas JBL antigas imitando barulho de oficina em looping. Como nunca prestou atenção, problema comum que piorava a cada geração com a falta de nutrientes e o excesso das redes sociais, era visível como eram realmente diminuidoras naturais de inteligência e concentração e por isso nunca nem viu nada de errado. Um único passo adentro ela se deparou com 2022. Seus olhos pareciam que estavam diante de um dinossauro, não, não o bisavô, e sim os enormes viveiros de insetos. E uma parede inteira com algo que ela somente tinha visto em velhas fotos de família, aliás antigamente todo mundo tinha uma tia das mudinhas e uma louca das plantas para chamar de sua, ela estava diante de uma parede inteira de folhagens e plantas, Biso tentava explicar.

- As plantas ainda não deram frutas mas...

- O que é isso? Uma floresta?

- Essas coloridinhas são borboletas... A nossa população de borboletas acabou em 2030.

- Não Biso. Esse galpão... o que é isso?

- Essas aí são joaninhas, temos várias cores, aposto que nos seus trabalhos de escola, você achava que elas eram de mentira, igual as fadas. Esses são grilos verdes, e louva-deus, também temos o bicho-pau, e vespas. Olha esse formigueiro e minhoqueira, sente esse cheiro de terra adubada! Lindo.

Camila não piscava e nem respirava direito.

- Essa aqui, é meu troféu. Minha colmeia. Quase não acreditei quando encontrei a minha rainha no dia que invadi a faculdade. Lembra? Vocês acharam que eu tava em surto.

Biso observava sua criação com o mesmo olhar de quando tinha vinte anos. Isso sim era novidade para Camila, ela nunca tinha visto um rosto sem depressão na vida, e nem tinha sentido o que estava sentido quando olhava no rosto de seu avô, ouvia o tom de voz animado, e respirava tanto oxigênio. Seria isso que sua mãe tentava explicar quando contava sobre felicidade?

- Cuidado!

- Au! Que foi isso?

- Calma, é só um mosquito, não mata ele Camila!

- Parece mentira... Ai que coceira.

- Sabe? Insetos podem ser bem irritantes, com seus zumbidos, picadas ou quando entram no nariz. Mas talvez se a gente tivesse pensado duas vezes antes de exterminá-los com os inseticidas, teríamos comida de verdade hoje.

- O que eles têm a ver com a comida vô? O problema não foi a falta de pesticidas?

- Ouve o que você está falando sua burra, pesticida, matador de peste, insetos não são pestes, são polinizadores!

- Calma Biso, só fui pra escola no primário, elas acabaram lembra...

- Desculpa, fico puto com isso, mas eram eles que faziam a maior parte do trabalho na produção de alimentos. Você poderia ter aprendido isso no quinto ano.

- Não sou burra...

- Quando todos eles acabaram no mundo, nós também começamos a morrer, levou apenas dois anos pra isso, desde então, a gente só se vira com monocultura.

- O mundo inteiro era assim?

- Era, cheio de bicho, mas não é só de polinização, eles também limpavam o planeta, reabasteciam o solo, ajudavam na decomposição, por isso temos hoje usinas de esgoto e de cremação. Ou você acha que a nossa ração só tem soja? Os insetos de debaixo da terra e da água, também sumiram.

- Biso para com isso... chega.

- Espera, calma! Eu preciso de você na hora que estourar.

- Estourar? Outra guerra?

- Antigamente, quando tudo se perdeu, a coisa era limpar a cidade ou produzir alimentos. O governo só queria limpar a sujeira.

- Mas por que temos que ficar em silêncio aqui, se ainda tem jeito?

- Ainda temos que organizar a salvação dos insetos, tem vários galpões desse pelo mundo. E outra coisa...

- Que outra coisa? Por que não solta esses bichos agora?

- Não podemos! Não sem antes, terminar a limpeza.

- Que limpeza vô?

- A dos humanos, extinção em massa. Fazemos parte do terço que vai ficar.

- O que?

- Pensa Camila, quem faz essa sujeira toda? É por isso que preciso que você fique aqui, com seus filhos. Não podemos sair na rua. O governo vai começar a agir hoje.

Camila agarrou seus gatos numa tentativa inútil de protegê-los. Ainda tinha esperança de que essa parte não passasse de um delírio de Biso. Apesar de estar cercada de mato e centenas de caixas de vidro cheias de insetos dentro. Mas foi quando viu um hibisco pink no cantinho do galpão que ela cedeu. Parecia um quadro de tão perfeito. O sol entrava pelas basculantes que estavam quase no teto, e a iluminava elegantemente.

- Você tá louco, isso sim!

- No dia que sumi, meu olho não lia de jeito nenhum nessa merda de fechadura. Sabia?

- O que tem a ver isso Biso?

- Daí coloquei outra coisa.

Ele fecha o portão com um controle remoto antigo. E depois corre para pegar a bisneta pela cintura e jogá-la sentada em seus ombros, assim como fazia quando ela era criança.

- Como assim Biso? Para me bota no chão!

Mas ele continuou a falar correndo com ela nos ombros:

- A ideia foi minha. Sabe na minha época eu adorava assistir documentários e tinha uma série chamada “O MUNDO SEM NINGUEM”, mostrava o que aconteceria se os humanos sumissem, o que eu vi, foi a natureza tomando o seu lugar original. Foi por isso que escolhi biologia.

O portão terminou de fechar, e ele a pôs no chão como se ela tivesse 10 aninhos.

- A gente sabia que se os insetos desaparecessem a vida na terra iria durar alguns anos. E o mundo iria acabar. Mas o contrário...

- O que aconteceria Biso?

- Em algumas semanas... a natureza se reconstrói. E nós do governo pensamos... Que solução temos hoje? Se ainda temos alguns insetos preservados pelo mundo o que poderíamos fazer?

- Então a solução é... acabar com os humanos?

- Realmente, você não é burra! Vamos voltar ao paraíso! Ouve!

E exatamente às 13h começou uma barulheira de metralhadora pela rua, pessoas gritando e chorando, depois mais e mais tiros e depois silêncio. Foi assim ainda por sete dias, tempo que levaram para matar quem deveria morrer. Sim, seria mais fácil alguma bomba química, ou outro vírus, mas como não restou muita gente depois das gripes, o mais viável eram os tiros mesmo. Afinal munição estava sobrando no planeta todo e talvez quem ficasse não quisesse mais usá-las. Biso não quis arriscar as consequências de contaminação seja lá do que fosse.

O velho assistia tudo pelos monitores de segurança, com um sorriso no rosto. Camila não conseguiu avisar seus poucos amigos.

Ela ainda não sabia se tinha medo ou admiração pela coragem do seu amado Biso.

Afinal foi ele que deu alguma chance para os humanos nessa nova terra.

Seu nome era Salvador.

21 de Maio de 2022 às 21:12 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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