manuelamaro Manuel Amaro Mendonça

O sonho é o lugar onde muitas das vezes nos escondemos da realidade e onde, tantas vezes, aproveitamos para recuperar lembranças e rever aqueles que partiram...


Conto Todo o público.

#solidão #336 #conto #velhice #terceira-idade #portugal
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Rosa mexeu-se debaixo dos cobertores. Manteve a cabeça coberta pois não queria sair para o ar, que sabia estar frio. Ainda estava meio a dormir e deixou-se estar a ouvir os barulhos da casa: conseguia escutar os sons na cozinha: portas dos armários a fechar e talheres e pratos em movimento. A sua mãe deveria estar a preparar o pequeno almoço, bem quentinho, que ela devoraria num ápice. Depois sairia a correr, para ir ter com a sua melhor amiga, despachando um veloz “Até logo, mãe!” Eram eternas brincadeiras e correrias, mesmo quando tinha de ir à fonte buscar a água, nos tempos em que não havia canos que a entregassem em casa. Mas essas eram memórias antigas; o tempo em que vivia com a mãe, o pai, o avô e a avó numa modesta casinha. Já todos partiram, envoltos nas brumas da memória, há muito, muito tempo…

Relutante, espreitou por entre a roupa, enfrentando a luz que inundava o quarto; aquela não era já a pobre habitação dos seus pais, mas a casa que ela e o marido construíram com grande esforço. Agora, que os filhos já tinham seguido cada um o seu próprio rumo, parecia maior que nunca. Recolheu-se de novo para debaixo das mantas e esticou a mão para o outro lado da cama, vazio e frio. “Poderia ser ele quem estava na cozinha.”, pensou, tendo a noção de ainda não ter despertado completamente, “E daqui a pouco vem aí, ver se já acordei.” No sono semiacordado viu-se vestida de noiva, cercada da família de ambos, saindo da igreja num dia de sol… tantos que eles eram… e quase todos já deixaram este mundo. Olhou a sua mão pálida e enrugada e recordou-se de que, também ele, companheiro de uma vida inteira, se fora. Como todos os outros, não passava agora uns quantos fios que as Parcas fiaram e urdiram quando desenharam o seu destino, entrelaçado no dele.

A imagem do seu próprio rosto liso e pele macia, de longos cabelos negros, ainda estava fresca na sua memória, quando a porta do quarto se abriu suavemente deixando espreitar uma sorridente senhora na casa dos cinquenta anos.

— Bom dia dona Rosa. — Saudou melodiosa a recém-chegada. — Então, não queremos acordar hoje? Já cá estou há um pedaço, mas estava a dormir tão bem, que não a quis acordar. Sente-se melhorzinha hoje? Vamos fazer a higiene e tomar o pequeno almoço?

Com esforço, Rosa sentou-se na cama e esfregou os olhos que fitou na imagem do espelho da cómoda, mesmo em frente à cama: uma octogenária, de rosto enrugado e alvos cabelos revoltos, estava sentada numa cama em desalinho e devolvia-lhe o olhar.

— Vem almoçar à cozinha? — A cuidadora insistiu.

— Sim, vamos. — Respondeu com as lágrimas a correr no rosto. — Mas tape-me esses espelhos, que eu não quero ver essa velha!

30 de Janeiro de 2022 às 21:40 5 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Manuel Amaro Mendonça Contador de histórias, fascina-se com as dificuldades da vida e os relatos do passado. Gosta de espicaçar a lágrima no leitor, mas também de o deslumbrar com o pormenor dos cenários. Maravilhado com a grandiosidade da natureza, tem a pretensão de pintar as obras do Grande Arquiteto com as suas palavras. Foi há pouco tempo, que se decidiu a trazer as suas histórias ao mundo, mas agora não quer parar.

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LIPSTTER LIPSTTER
Olá? Faço parte da Embaixada brasileira do Inkspired e estou aqui para parabenizar pela verificação da sua nova história. Com uma bela capa junto de uma sinopse bem estruturada, assim, você me atraiu, querido autor. Um ótimo convite! Agora, gostaria de falar sobre Rosa, um ser devoto aos laços familiares, viajando no tempo através de seus devaneios. Caro autor, eu sinto que ela está à beira da morte, poderíamos facilmente julgar por conta da idade, mas há um detalhe interessante: suas possíveis alucinações (sonhos?). Gostaria de citar sobre um médico de cuidados paliativos chamado Christopher Kerr, não lembro agora seu país de origem, enfim, ele escreveu um livro chamado, em tradução livre, "A morte é apenas um sonho: encontrando esperança e sentido no fim da vida"; neste livro, ele relata que muitos, à beira da morte, acabam tendo alucinações, sonhos, aparentemente revivendo trajetórias de suas vidas e reencontrando entes queridos, como se fosse uma despedida antes da partida; é interessante, não? Eu gostaria de dizer que foi magnífico esta conexão de ideias e conceitos, se foi proposital ou não, eu adorei. Obrigado por me levar à grandes reflexões. Enfim, a cada nova camada desfeita, fui surpreendido; a construção do enredo foi feita de uma forma tão magnífica, foi uma leitura bastante fluída. Parabéns, querido autor! Sobre sua gramática e ortografia, eu gostaria de fazer uns apontamentos, como por exemplo em: "...despachando um 'até logo, Mãe!' Eram eternas brincadeiras e correrias..." em vez de "...despachando um 'até logo, Mãe!'. Eram eternas brincadeiras e correrias..."; enfim, são coisas que podemos passar despercebidos, a ausência de uma pontuação aqui ou ali, é bem comum, não se preocupe. No geral, o seu texto apresenta uma boa ortografia e gramática. Parabéns! Por fim, gostaria de dizer que adorei ser envolvido por sua história, me prendeu de uma forma adorável. Agora fico por aqui. Te desejo muito sucesso, você merece, querido autor!
February 06, 2022, 15:31

  • Manuel Amaro Mendonça Manuel Amaro Mendonça
    Acrescento que esta história foi baseada em conversas com a minha mãe, já falecida, que teve um dia uma expressão semelhante... ela deu o mote e eu preenchi o resto. Esta é das histórias que dão muita saudade... February 06, 2022, 23:47
  • Manuel Amaro Mendonça Manuel Amaro Mendonça
    Muito obrigado pelas suas palavras, escrever é o meu prazer, ser lido é uma alegria e apreciado um sonho. Continue atento aos meus trabalhos, Publico mais ou menos uma vez por mês, mas se gostou dete, recomendo-lhe que leia "A Última Habitante de Vale Santeiro" February 06, 2022, 23:43
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