lslauri Liura Sanchez Lauri

Durante uma ida ao Rio Grande do Sul, surge a oportunidade de conhecer pessoalmente um grande amigo virtual, até um crush, como se diz hoje em dia e, durante um pôr-do-sol em uma praça, acontecimentos podem alterar a rotina dos personagens.


Conto Todo o público.

#platônico #amor-impossível #romance #pôr-do-sol
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I

- Vem comigo, eu preciso te mostrar o pôr-do-sol dessa praça, guria! – ele me convidou, subindo na moto, enquanto oferecia um capacete pra mim.

Era a primeira vez que nos víamos pessoalmente, depois de uma vida de troca de e-mails, uma ligação e tentativas fracassadas de contato via WhatsApp no qual só eu parecia interessada em manter a comunicação.

Há anos, quando praticamente não existia nada além de e-mail, era incrível como nos conversávamos todos os dias, como existia aquela ansiedade pela leitura dos pensamentos do outro, como cada assunto novo gerava uma faísca... A faísca da paixão cedeu lugar a amizade e, por vários anos, eu continuei a considerá-lo assim. Até quando não deu mais. Tentar represar o que eu sentia me fazia muito mal. E eu estava no momento do “dane-se”, especialmente, creio eu, por ter perdido meu pai tão recentemente...

Aceitei o capacete, subi na moto e agarrei firme, tirando uma risada dele. Como sou mais alta, consegui encaixar meu queixo no ombro e fomos assim até algum parque mais distante do centro. Pena tudo ser tão perto em Porto Alegre. Se estivéssemos em São Paulo, até encontrar um parque com um bom pôr-do-sol eu poderia passar mais tempo naquele aconchego!

- Chegamos! Preciso deixar a moto aqui, mas vamos caminhar uns cinco minutos ainda, tudo bem?

- Claro! Ainda estou apreensiva com a prova que fiz, vai ser bom mudar o foco...

- Bah! Não fique preocupada com isso! Ouça-se: o que tem que ser, é!

- Ah, amigo! É fácil falar pros outros, né? Difícil é usar das nossas frases de efeito quando é o nosso na reta. E não esqueça: já prestei essa mesma residência em São Paulo e, apesar do nome aparecer no Diário Oficial, eu fiquei em terceiro lugar de uma vaga!... A ansiedade é pior ainda, sabe?

Ele não respondeu com palavras, estendeu a mão para eu pegar e não me fiz de rogada. Enquanto ele carinhava com o dedão o dorso da minha mão e falava de como tinha sido a vida dele nesses últimos anos que não nos conversamos eu, sem querer, não estava prestando atenção às palavras – apesar de saber o quanto deveria, pois elas eram tão importantes quanto o mensageiro – mas me perdi em seus olhos castanhos, nos seus lábios, nos seus dentes. Precisei sacudir a cabeça uma hora pra parar de pensar nisso e voltar à realidade! Mas o fiz de modo tão automático, levando-o a perguntar:

- Você está bem? Parece meio distante... Ainda pensando na prova?

Sorri amarelo primeiro, pedindo desculpas por minha ausência e, depois, um sorriso franco apareceu:

- Que prova?! – rimos juntos – Só posso te agradecer por isso, estava com o pensamento bem longe dela! Valeu! Eu estava distante e, engraçadamente, bem próxima, viu? Apesar de não saber exatamente sobre o que você falava, eu poderia dizer sobre os leves raios esverdeados da sua íris... – e fiquei encabulada com a minha audácia. Certas coisas, independente da idade, nunca mudam...

Ele pigarreou e como é mais moreno que eu, foi quase impossível notar, mas ele também ficou levemente rubro com meu apontamento. Seguimos o curto caminho em silêncio até ele falar:

- Chegamos, amiga. Agora é esperar uma meia hora pro show do pôr-do-sol. Podemos nos sentar mais à frente. – e então ele soltou minha mão, pra tirar a jaqueta de couro dele e estender na grama pra eu sentar nela, próximo de uma árvore bem frondosa.

- Dá pra dividir o espaço. – comentei, enquanto me sentava na ponta da jaqueta e o sentia caminhar para a direção do espaço que deixei.

Assim que se sentou, percebi o quanto minha frase o deixou desconfortável. Esse é o defeito das palavras, uma vez proferidas, elas não podem ser esquecidas, ou pegas de volta. Mas é esse o grande poder delas também:

- Olha, eu até poderia pedir desculpas pelo que disse lá atrás, mas eu não me arrependo... Contudo, não queria te deixar desconfortável assim, então, esquece, vai?...

- Não dá pra esquecer se algo tem ressonância no coração, guria. Mas a gente não pode esquecer que eu ainda sou casado e meu casamento está bem.

- Cê tá certo, eu também não arriscaria o certo pelo duvidoso... Mas eu vou aproveitar a situação e chutar o balde, sabe? Você me trouxe nesse lugar lindo, provavelmente pra ver o pôr-do-sol mais perfeito da minha vida, mas, sinceramente, eu não vou conseguir parar de olhar pra você! Como se nesse momento isso fosse o centro das atenções pra mim... Também não quero incitar nada da sua parte, porque no lugar da sua mulher eu não ia querer que você cedesse. – nessa hora, ele me deu um olhar de compaixão e colocou a mão dele sobre uma das minhas mãos. Eu senti o toque, mas não desviei meu olhar.

- Olha, não me dá esse olhar! Isso é ruim! Eu não quero deixar de ver as belezas do mundo pra ficar focada em alguém. Uma parte minha até sabe que não é sadio uma pessoa ter tanto poder assim sobre a outra... Então, eu tô feliz por termos nos conhecido pessoalmente, mas mais feliz ainda por estar voltando pra Sampa amanhã cedo!

- Justo porque eu ia te pedir pra ficar?...

- Provavelmente sim. Justamente por isso, é melhor eu ir. Eu preciso treinar pra não falar tudo que estou pensando pra você, desse jeito... – e solto baixinho um “que raiva!”.

- Justo... Eu acabo guardando muito pra mim, mas é por muito já ter falado e, pensando agora, nem sei se as pessoas mereciam, guria!

- Merecendo ou não, elas ouviram e eu tenho o seu silêncio...

E parecendo quebrar várias barreiras dentro de si, ele não falou, mas me deu um sincero abraço, unindo nossos corpos a um estranho halo de energia salutar.

Fechei os olhos momentaneamente, quando recebi o abraço, mas logo depois os abri e vi as cores das nuvens mudando entre o laranja e o rosa e vários outros tons que não lembrava mais os nomes. Era, realmente, o pôr-do-sol perfeito! Isso durou alguns segundos em meu universo, até meus sentidos olfativos me puxarem de volta ao homem em minha frente. Maldição! Eu não podia me deixar pertencer assim a alguém. Fechei meus olhos e uma erupção de pensamentos tomou conta de mim. Esse era o motivo de eu não ter tido relacionamentos duradouros até ali! De que adianta você mudar sua visão de mundo, deixar de perceber as coisas ao redor, num salto de fé, no escuro?! Se a qualquer minuto, a outra pessoa pode sumir da sua vida? O que vai te sobrar? E, em apneia, eu abri novamente os olhos e o show da natureza continuava.

Peraí... Era essa a resposta? A Vida, como ela é, vai continuar, independente das pessoas ao seu redor? Independente do quanto elas fazem falta? Não é isso que acontece quando alguém próximo morre? No dia seguinte, os pássaros estão cantando, a chuva caindo, o sol aquecendo. Todo aquele caos diário é garantido, ininterruptamente, independente do que houver acontecido... Eu sorri, me permitindo novamente focar nele pela respiração.

- A gente precisa trabalhar essas palavras, cara... Por que elas saem tão bem no e-mail e no viva-voz, não?

Eu o sinto sorrir, seus pulmões se movimentando:

- Porque no e-mail tem como editar, oras!

- E aqui você pode contar com a minha memória falha, sempre! Se tem algo que é constante, é ela...

Ainda abraçados, ele solta:

- Você precisa mesmo ir, guria... Porque eu preciso entender o que eu quero.

- Perfeito! Agora sim, temos unanimidade!

- Mas por hora, podemos ficar assim?

Eu não tinha porque acabar com aquele abraço, positivei com a cabeça e uni um pouco mais nossos corpos, conseguindo sentir seus batimentos contra meu peito. O Sol se pôs e, foi só quando minha barriga, inconveniente, roncou de fome que nós nos demos conta do tempo passado ali.

- Bah! Tu deve estar com muita fome, te peguei direto da prova e não comeu nada desde então. Que descuido meu!

- Sério? Nem senti... Se não fosse minha barriga inoportuna... Não me sentia com fome, até começarmos a falar dela. – e olhando em volta – Nossa! Já escureceu! A iluminação desse parque é bem bonita.

- Você não janta, né? Vamos tomar um café reforçado? Conheço um ótimo lugar aqui perto.

Meu olhar foi de gratidão e meu semblante foi de “passo”, diante dessa reação, completei:

- Só quero ir pro hotel, amigo. O dia foi cansativo, mental e emocionalmente... – enquanto dizia isso, me levantava devagar e ouvia todas as minhas articulações estalarem.

- Sinto ter sido responsável por uma parte desse cansaço emocional. Se houver algo que eu possa fazer pra compensar, só dizer.

- Imagina, quem sabe tu até não ajudou a ser menos estafante? Eu só posso agradecer pela tarde de hoje, sabe? Eu vim com planos de te ver, mas ganhei muito mais do que isso. Consegui encontrar forças pra ser eu mesma, pra conversar sobre um assunto que me incomodava há tempos e, ainda por cima, ganhei uma visão perfeita de fim de tarde. – dei uma pausa proposital, mas como ele não se manifestou, completei: E não estou me referindo ao pôr-do-sol.

Ele finca os olhos nos meus, de um jeito que me deixa desconfortável, mas eu entendo o motivo. Provoquei demais, até pra alguém com uma paciência zen como a dele... Tento manter o olhar o máximo de tempo, mas o desconforto do silêncio me obriga a abaixar o rosto e, nesse momento, ela dá um passo largo, diminui a distância entre nós e me segura pelos braços, com uma força que não dói:

- Eu tenho sentimentos, guria! Tu não pode dizer algo assim e esperar que eu fique impassível, né?

- Ei! Eu sei que você tem, só não sei quais são e, sinceramente, isso está me incomodando muito! Há tempos! Mas não faça nada que se arrependa, por favor...

- E se eu temer mais me arrepender por não fazer, hein?

- Cada qual com sua consciência... – e meu rosto todo foi pra frente, buscando um beijo, enquanto o rosto dele foi para trás – Viu, o arrependimento seria por fazer, né? Decide, caramba!

O choque do corpo dele contra o meu nos levou a encostar no tronco da árvore e ficarmos distantes das luminárias do parque, distantes do olhar das poucas pessoas caminhando naquele momento.

- Tu não merece sofrer... – ele balbuciou, rostos colados, sem largar meus braços ele desceu as mãos para as minhas mãos.

- Acho que eu posso decidir isso por mim mesma, não? – e eu travei nossos dedos num aperto, enquanto nos beijávamos urgentemente. Como se anos de vontade pudessem ser encurtados em alguns minutos, enquanto durasse nosso fôlego, ou melhor, o meu... Afinal, ele ainda praticava esportes, enquanto eu estava sedentária!

Demorou um pouco pra ele perceber que eu não estava conseguindo respirar normalmente pelo nariz e precisava de espaço, mas quando ele notou, ao invés de se distanciar, apoiou a cabeça no meu ombro, sem largar minhas mãos. Eu precisava dizer:

- Pelo bem da sua sanidade, não racionaliza muito sobre isso não, hein? Eu vou procurar fazer o mesmo, pelo bem da minha, sabe? Seja capaz de viver o momento, sem querer prolongar ou entender todas as partes envolvidas... Senão eu vou dizer que você tá apto pra começar a escrever fanfics, já que nelas a gente sempre tenta se colocar no lugar do outro e de como ele responderia em determinada situação, mas isso não existe na vida real! Cê tá bem? – e forcei uma das mãos a soltar do aperto, para passar no cabelo dele.

- Você é capaz de me pedir pra não respirar, guria? Mesmo sabendo que eu preciso e que posso morrer se conseguir ficar sem ar? – ele comentou, depois de um tempo, se deixando ser acariciado.

- É o que eu sempre digo: muito mais fácil dar conselhos a segui-los, não? É uma diretriz, não uma norma. Eu sei que vou me lembrar desse momento, e vou brigar pra não ficar criando continuações dele! Os primeiros filmes são sempre os melhores...

Ele dá uma imensa inspiração antes de soltar a outra mão e dizer:

- Vamos, eu te levo pro hotel, apesar de não querer...

- Chamo um táxi? Sou da política de não fazermos aquilo que não queremos, amigo...

- Bah! Deixa de ser boba! Um táxi?! Não é que eu não queira te levar, eu não queria que o dia terminasse...

Olhei com a sobrancelha levantada pra ele, tenho dificuldades em entender quando as pessoas desejam coisas impossíveis. O dia vai terminar, é uma regra idiota que dura 24h... Imposta por nós mesmos, seres humanos, especialmente aos que precisam do trabalho para viver cada dia e deixar alguns poucos viverem suas vidas como bem inventarem...

Percebendo meu silêncio e expressões ele sorri:

- Vem, serzinho literal... Voltemos pra realidade, pois ela paga as contas...

- Ei! Se eu não fosse literal, você sabe que isso poderia ter me ofendido, né? – vou caminhando lentamente atrás dele, até ele estender a mão, pedindo a minha.

- Vai querer mesmo andar de mãos dadas com tantos fazendo caminhada nesse parque? – cochichei.

- Vou sim, exatamente por isso. E, com sorte, quando eu chegar em casa nem vou precisar começar a conversa, porque ela vai fazer isso por mim...

Diante desse argumento, eu não segurei:

- Não vou facilitar pra você...

- Você vai subir na garupa da minha moto, de qualquer jeito, tem grande chance de facilitar, guria...

- Seu malvado... Agora a ideia do táxi fica mais patente.

- Não ouse, senhorita...

Eu só bufo baixinho, andando ao lado dele, com uma das mãos no seu ombro.

- Eu sempre pensei que estaria salvo pela distância entre nós. Agora, essa mesma distância me dilacera o ser...

- Tenho um e-mail dizendo o quanto essa distância era menor do que imaginava, senhor...

- Nossa, eu disse?

- Escreveu... Sim.

- Que memória invejável.

- Conto que a sua não seja, para voltar ao que você chama de normalidade o quanto antes...

- Vai ser bem difícil, sabendo que em algumas semanas você mudará pra Porto Alegre e fará residência na patologia da UFRGS, tão perto daqui...

- Hum, temos um vidente entre nós... O que mais você vê, incrível Pietenpol?

Ele riu diante daquela lembrança, tirada das minhas memórias mais longínquas.

- Você vai passar, sabia? Já parou pra pensar onde vai ficar?

- Espero que bem perto da UFRGS, com um aluguel razoável pra mim, pelo menos, conseguir ir pro trabalho a pé. Mas eu não sei se passei, sinceramente. Expectativa zero. Pra tudo desse dia, viu?

O semblante dele entristece:

- Sério? Isso eu não consigo dizer...

- Cê não sabe se eu vou estar sentada em posição fetal na minha sala, tudo pra não pegar o WhatsApp e te chamar, mas eu não quero obrigar um compromisso aqui. Talvez – e eu friso essa palavra – eu fique esperando por um contato seu, quem sabe?... Uma psicologia reversa das mais vagabundas...

- Hum... pode funcionar. – me entregando o capacete.

Eu subo na moto, sem dizer mais palavra. E assim vamos até o centro, onde fica meu hotel. Desço quando ele estaciona a Suzi e tenho uma invejinha branca dela, por passar tanto tempo com ele, levando-o a lugares tão incríveis e guardando tantos segredos...

Ele tira o capacete e aceita o que eu dou, apoiando entre as pernas. Seus olhos ficaram pálidos e eu preciso intervir, conhecendo seu histórico de pessimismo:

- Ei, ei, que cara é essa, mocinho?! Sorrisão, não aceito nada menos! Foi uma tarde incrível, memorável, ainda mais se não analisável, então, nada de tristeza, me promete? Saber aceitar algumas coisas como são é muito saudável, migo...

- Como vocês dizem, “tipo”?

- Se eu precisar enumerar, vou sair do sério, hein?!

Ele sorri, comenta que essa seria a primeira vez. Eu emendo que é porque ele não me conhece tanto assim e solto:

- A convivência, no fundo, é uma merda, vai?

- Agora sou eu quem venho em defesa da convivência! Conviver com as pessoas escolhidas pode ter momentos difíceis, mas não é uma “merda”. Senão a gente ia dar mais valor às dificuldades do que aos momentos bons... – e, quando ele diz isso, eu concordo com a cara, abrindo minha expressão, como quem diz: eu estava falando isso antes! E, o fato dele ter dito em voz alta, valeu mais do que qualquer explicação minha. Seu semblante se iluminou um pouco e ele completou: ah! Agora te entendi...

- Nada melhor do que a experiência, né? Valeu.

Eu percebi o silêncio incômodo como um fundo para a formação de um novo beijo da parte dele e, para que isso não acontecesse, porque eu queria ter somente a sensação daquele pôr-do-sol, eu me adiantei e o beijei no rosto, tão perto do lábio que era quase possível prever um beijo, mas seguro o suficiente para isso não acontecer:

- Ciao, bello! Ci vediamo qualche giorno! (Tchau, lindo! Nos vemos!)

- Spero che presto! (Espero que seja logo!) – ele retruca, me olhando entrar no hall do pequeno hotel antes da porta fechar.

Cumprimento o recepcionista, do elevador vou direto pro quarto e me jogo na cama, ligo em casa, avisando meu irmão onde estava e que só ia tomar um banho, comer e dormir. Descansando pro voo matinal de volta pra Sampa.

- Depois da prova você fez o quê? – pergunta meu irmão, puxando papo.

- Eu fui até uma praça aqui perto, onde disseram que tinha o pôr-do-sol perfeito!

- E ele era?

- Ah, com certeza, mano! Eu nunca vi algo tão perfeito assim...

22 de Janeiro de 2022 às 22:56 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Liura Sanchez Lauri Gosto do universo dos quadrinhos. Em especial aquele onde está inserido o Wolverine. Apesar de ter gostado de alguns filmes, os quadrinhos são mais ;)

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