asheviere Marianna Ramalho

Uma escritora entra em bloqueio criativo, e, enquanto a história não pode avançar, o Herói e o Vilão discutem seu processo de escrita. E julgam. Ou: Conto sobre bloqueio criativo escrito durante um bloqueio criativo na tentativa de acabar com o tal bloqueio criativo. E funcionou.


Conto Todo o público.

#bloqueio-criativo #vilão #herói #oneshot #conto #comédia #Humor
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Plot holes por toda parte

Era o apogeu do conflito entre aquelas duas almas decididas a se destruírem, sem nunca se permitirem reconhecer o quanto eram parecidos. Parecia inadequado que uma disputa tão grandiosa fosse acabar ali, na viela mais baixa, em meio a noite chuvosa, escondidos de todos os olhos que admiravam sua dança autodestrutiva no grande palco do destino. Porque naquele momento, somente eles importavam: o Herói e o Vilão, apenas, e o futuro do mundo dependia daquela luta que ninguém iria testemunhar.

O Herói estava vencendo, é claro, porque é isso que Heróis fazem, mas não sem perda ou dor. Sangue nas mãos, joelhos na lama, ele desferia socos contra o Vilão caído no chão que já quase não reagia, enquanto a chuva escondia as lágrimas que inundavam seu rosto, enquanto lembrava de tudo o que tinha acontecido, de tudo o que ele tinha feito, e o alívio de saber que impediria que o Vilão continuasse com seus planos.

Termine – provocou o Vilão, os dentes vermelhos de seu próprio sangue apareceram por um instante. – Ou tem medo de vencer? Tem medo de matar?

O Herói rangeu os dentes. Uma mão no pescoço do Vilão, outra tateando em busca da faca que tinha sido tirada de suas mãos.

Depois de tudo o que fez, matar você seria o maior bem que eu poderia almejar! – O Herói ergueu a faca, decidido a descê-la sem hesitação. – Tudo isso vai acabar hoje! Então…

Então…

Então…

Então…

.

A faca continuou no ar. A frase permaneceu inacabada.

Em algum outro lugar, onde não chovia e o sol brilhava forte, a escritora se afasta do teclado e afunda o rosto nas mãos em um longo suspiro de frustração.

Hoje não”, ela pensa, antes de se levantar.

.

O Vilão estreitou os olhos, estranhando a hesitação do Herói, que ainda o encarava com raiva e querendo recuperar o pensamento que estava na ponta de sua língua… Mas o pensamento se perdeu. O pensamento, o propósito, a intenção. Seu olhar confuso cruzou com o olhar confuso do Vilão, embora as confusões tivessem causas diferentes.

Como se falasse com um colega de trabalho em vez de seu arqui-inimigo, o Vilão sussurrou, meio preocupado, meio zombeteiro:

— Tá passando mal?

— Aconteceu de novo – respondeu.

— Hã?

— Aconteceu de novo, droga! – Arremessou a faca no chão, com raiva. Tinha todo o direito de estar com raiva.

A compreensão passou pelos olhos do Vilão, antes que uma gargalhada preenchesse o lugar, mais alto que os sons da chuva.

— Está rindo do quê? Bloqueios criativos não são engraçados, são um pesadelo!

— São mesmo um pesadelo para você. Por isso os acho engraçados. Bom, sabemos que ela não volta a escrever tão cedo, então, nesse caso, sai de cima de mim.

O Vilão empurrou o Herói, que caiu espirrando água para os lados, o que quase o fez se arrepender. Por um momento, ficaram os dois com as costas no chão, sentindo os pingos da chuva. Não tinham muito o que fazer durante os limbos. Eram momentos em que a história simplesmente não avançava, momentos de pura estagnação provocados pelos bloqueios criativos de sua “escritora de determinação oscilante”, como o Vilão carinhosamente a apelidou. Eles podiam conversar para passar o tempo, mas o Herói não parecia gostar muito disso. Justamente por isso que o Vilão gostava tanto.

— Sabe, até que estava demorando para acontecer de novo.

— Cala a boca.

— Só estou dizendo que já passamos da metade da história, ela geralmente entra em crise bem antes disso.

— É o quarto bloqueio criativo nos últimos doze capítulos! – protestou o Herói.

Se o Vilão tinha um apelido carinhoso para a escritora, o Herói, menos carinhosamente, apenas a achava preguiçosa. Era nítido que o Vilão gostava mais dela do que sua contraparte heroica, e talvez isso fosse normal. Talvez o final da história não fosse gentil para vilões, mas, até lá, a escritora permitia que ele agisse com todo o caos que quisesse causar. Seria preso ou morto no final? Seria, mas não foi uma história divertida? Demais! Já seu adversário… Bom, ele tinha sido arrancado do conforto da primeira fase da Jornada do Herói, sendo obrigado a aceitar um Chamado Para a Aventura que o jogou em uma sequência de situações extremamente alarmantes, embora a maioria executada diretamente pelas mãos do personagem ao seu lado, todas foram provocadas pela escritora acima dos dois. Tudo o que ele queria era que a história terminasse logo para que ele pudesse se recuperar de todos os eventos que o enredo jogou como pedras, ou melhor, granadas, em suas costas. Mas a história nunca terminava, porque a escritora estava sempre voltando àqueles bloqueios. Então sim, escritora preguiçosa era o que ele achava dela. Nenhum herói são da cabeça gosta de quem escreve sua história.

— Ainda assim – disse o Vilão. – Podia ser pior.

— Como podia ser pior?!

— Se ela tivesse parado um parágrafo depois, eu poderia estar morrendo. Sabemos que às vezes os bloqueios duram meses, imagine só passar meses morrendo, até ela decidir voltar e terminar a cena.

O Herói o encarou de lado, pensativo. Depois voltou a olhar para cima, resmungando:

— Eu gostaria de ver isso.

— Rude.

— Tudo isso acabaria hoje… E então, livres de você, todos nós poderemos voltar a viver em paz.

O Herói parou de falar. O Vilão ergueu uma sobrancelha. Era a frase inacabada, que agora as letras surgiam uma após a outra, em um ritmo lento e persistente.

.

Hoje sim!”, a escritora pensa, antes de correr de volta para o teclado do computador.

Força-se a digitar letra após letra após letra.

Após letra.

Não está com a mínima vontade de escrever, mas se recusa a ceder. Ela deseja terminar isso tanto quanto seus personagens. Então faz esse esforço. E quanto esforço… O que sempre foi fácil e intuitivo é agora uma tarefa hercúlea. As teclas estão duras, a gravidade está mais forte, dificultando cada movimento como se estivesse digitando imersa na atmosfera de Júpiter.

Depois de todo esse esforço, ela termina a frase inacabada. Respira, aliviada.

Mais da metade da página ainda está em branco.

Ela deita a cabeça na mesa, irritada. Cede e se afasta do arquivo em andamento.

É, hoje não.”

.

— Metade de uma frase! Ela voltou para escrever uma mísera metade de frase! E parou de novo! – praguejava o Herói.

— Cara, é melhor assim. Sempre que ela escreve sem vontade, tudo fica extramente entediante, você não ouviu o que acabou de falar? – E em uma péssima imitação da voz do Herói, o Vilão repetiu: – Ah, então poderemos voltar a viver em paz, blá blá blá. Sério, eu quase pensei em deixar você me matar para não ter de ouvir essa ladainha genérica. Nossa querida escritora de determinação oscilante pode fazer bem melhor que isso, dê tempo a ela.

— Bajulador – resmungou o Aliado do Herói, em tom acusatório.

— Há quanto tempo você está aí?

— Acabei de chegar da cena vizinha. As coisas estão paradas por lá também, então vim dar uma volta pelo enredo.

— Pra quê?

— Estou tentando chamar a atenção da escritora. Eu marquei dois plot holes que acho que são a razão do bloqueio criativo atual. Dois diálogos meus não fizeram muito sentido, acho que se ela reler essas cenas, pode resolver mais rápido.

O Vilão fez um gesto de indiferença, se sentando. O Herói o imitou. Bloqueios criativos já eram deprimentes o bastante, não precisavam ficar deitados na chuva como cachorros sem dono.

— Deixem ela resolver quando quiser, não se manda no processo criativo de ninguém.

— Você só está com medo dela continuar a nossa cena e entrar em bloqueio depois de eu te esfaquear – o Herói criticou.

— Mas é claro. Não quero ficar como seu amiguinho, preso numa cena de morte por meses.

— Eu estou vivo! – protestou o Aliado.

— Por enquanto. – O Vilão apontou para uma área distante do enredo, onde o Aliado estava caído por causa de um ferimento grave, inerte.

— Porcaria de processo de escrita não linear… – O Aliado desviou o olhar com um calafrio. – Ela escreve essas cenas super em antecedência e temos que seguir com a história já sabendo o que acontece. Foi você?

— Pior que não dá para saber. Ela só escreveu a parte da morte, mas não escreveu a parte em que você é golpeado, ainda não dá para saber quem foi. Nossa, mas tomara que tenha sido eu… – O Vilão deixou escapar um sorriso, ainda encarando a cena do futuro.

— Desprezível – resmungou o Herói.

— Odioso – o Aliado concordou.

— Eu nunca sei reagir a elogios. – O Vilão sorriu. – Mas sério, já pararam para pensar que vocês não me odeiam de verdade? Vocês acham que me odeiam, porque ela escreveu que é isso que devem sentir?

— Não viaja. – O Herói revirou os olhos, mas algo chamou sua atenção. – O que é isso no seu cabelo?

— O quê?

— Está seco.

— O seu também.

O Herói e o Vilão perceberam que seus cabelos e roupas estavam perfeitamente secos, enquanto a chuva ainda caía forte. Era sempre estranho quando isso acontecia, mas a história já durava tempo o bastante para eles entenderem a situação.

— A escritora esqueceu que estava chovendo na cena. Viu só o tipo de coisa que acontece quando ela tenta escrever sem disposição?

— Essa não… – O Aliado massageou as têmporas, quase sentindo toda a dor de cabeça que a escritora teria para corrigir todos os erros na revisão do texto. – Uma terceira incongruência de enredo é tudo que não precisamos!

.

No outro lugar, a escritora escreve compulsivamente em um caderno. Às vezes, mudar o veículo de escrita ajuda a superar os bloqueios. Trocar o computador por um caderno é como uma mudança de ares sem sair de sua casa. Tem a sensação de ter errado em alguma coisa, mas não pode conferir o resto do arquivo no computador. Essa é a desvantagem do método. Se tivesse olhado o texto anterior, perceberia que ignorou completamente a chuva.Como em outra cena, duas personagens se teleportaram da cozinha para o quintal por uma momentânea desatenção.

Dessa vez, o caderno não ajuda. É oficial: está em crise criativa e procrastinatória. Deixa o caderno de lado.

Triste, insatisfeita e decepcionada, ela decide assistir televisão.

.

— Faz alguma coisa! – O Herói implora para o Vilão, que acha a situação engraçada.

— O que acha que eu posso fazer?

— Ah, nem vem com essa. Você é o favorito dela, ela deixa você agir por conta própria às vezes. Então faz isso agora, toma uma decisão sozinho, isso costuma ajudá-la a voltar a escrever.

— Há controvérsias – o Aliado opõe. – Os dois últimos bloqueios criativos aconteceram porque essezinho agiu fora do planejamento e ela não soube o que escrever mais. Eu nunca vou entender porque ela deixa você fazer o que quiser.

— É uma prerrogativa dos vilões… – Ele sorriu, convencido. – Todo escritor deixa o vilão agir por conta própria de vez em quando, assim a ajuda deles é mais necessária para os heróis.

— Isso não faz nem sentido.

— Como não? Não enxerga a beleza disso? – perguntou, os braços abertos em um gesto dramático. – Deus dando poder ao diabo para que continue a ter relevância, para que vocês se voltem para o escritor com suas preces, pobres almas indefesas, necessitadas de um Deus Ex Machina, de uma interferência superior.

.

No outro lugar, a escritora desliga a televisão.

Essa frase é boa”, pensa e tropeça nas cobertas tentando escapar do sofá para alcançar algo que possa usar para anotar aquela ideia antes que ela fuja.

.

O Aliado, porém, não se impressiona.

— Só ouço uma frase arrogante dita por um personagem arrogante para inflar o ego de uma escritora arrogante.

— Entende que é por isso que você morre, não é?

— Porque ofendi a escritora?

— Não, sua falta de visão poética das coisas. Toda luta tem um pouco mais de convicção quando se enxerga a filosofia por trás dela, ganha aquele que estiver mais convicto de seus ideais e os defenda com mais ardor. Acredito que de todos nós, eu seja essa pessoa. Há sinceridade em cada um dos meus atos atrozes, senhores.

— Eu acho que está funcionando, continua falando aí, suas besteiras reascendem a inspiração dela. – O Herói falou, percebendo a agitação no ar sempre que a escritora estava a ponto de trabalhar na história novamente. Mas algo que passou despercebido na fala do Vilão chamou sua atenção. – Espera, você fala como se fosse ganhar. Você não vai ganhar, você é o Vilão.

— Eu posso até não ganhar a guerra, caro adversário, mas eu apostaria tudo que é você quem morre nessa cena.

— O quê? Por quê?!

— Não é tão difícil assim matar um vilão, mas um herói? Precisa ser digno, precisa ser relevante, ainda mais do que para um Vilão importante. Ela sempre tem bloqueios criativos antes de matar um personagem do lado bonzinho. E aqui estamos nós, estagnados nesse bloqueio justo no nosso maior embate. – Um sorriso cínico surgiu no rosto do Vilão. Estava ciente de que tudo isso podia ser bobagem, mas gostava de assustar o seu colega. – Não pensei que diria isso um dia, mas… acho que vou sentir sua falta.

— Do que é que você está falando?! Dois parágrafos acima e você estava com a cara na lama levando uma surra! Eu não posso morrer, pelo amor de Deus, eu preciso de paz!

— E você terá, eu garanto. Requiescat in pace.

O Herói pensou em responder alguma coisa. Mas aquela Jornada do Herói só parecia ir ladeira abaixo, já tinha ferrado tanto com sua vida que talvez ser cortado do enredo fosse uma coisa boa.

— Se ela der um jeito de me trazer de volta, eu juro que toco fogo nesse manuscrito.

— Nah, ninguém gosta de plot de ressurreição. – O Vilão garantiu. Estranhamente, foi a coisa mais reconfortante que o Herói e o Aliado ouviram. Não podiam confiar muito na escritora nem mesmo para escrever, mas ao menos sabiam que quando morressem, seria definitivo. Então o Vilão estreitou os olhos, sentindo que algo estava diferente. – Ela mudou meu background.

Os outros trocaram um olhar inquieto. Isso nunca era bom sinal, só podia indicar uma mudança significativa no enredo.

— Com licença? – Uma nova voz chamou a atenção deles. – Eu sou novo aqui, vocês podem me atualizar sobre a história? Acabei de ser criado.

— Quem é você?

— O Vilão Final.

Os três trocaram olhares preocupados. Nos rascunhos da história, aquele que antes era o Vilão sentiu uma alteração importante no seu personagem. Agora, ele era o “Antagonista em Redenção”.

— Ah, que saco… – resmungou o Antagonista em Redenção. – Parece que eu vou para o time de vocês.

— Essa história está a maior bagunça. – O Aliado quase gritou, apontando para o novato. – Do nada, agora tem um Vilão Final? Sem uma linha de foreshadowing em 23 capítulos?! Ainda bem que eu não tenho que participar dessa palhaçada até o final.

— Sobre isso… – O Antagonista em Redenção coçou a nuca, parecendo sem jeito. – Acho que meu arco de redenção culmina em salvar você… Então… Você não vai mais morrer. Parabéns?

O Aliado ficou em silêncio e quase controlou muito bem seu estado emocional, mas a pálpebra tremendo lhe traiu. Saiu, pisando firme e resmungando:

— Toda humilhação é pouca para um coadjuvante, pelo visto.

— É sério, gente, eu não sei o que está rolando aqui – falou o Vilão Final, aterrorizado com a folha em branco que era o arquivo de seu personagem. Mas aos poucos, a escritora preenchia sua personalidade, e ele foi se adequando ao ambiente. E conforme ela preenchia seu background e seus objetivos, ele disfarçou uma risada e um olhar curioso para os outros personagens. – Ok, esqueçam, acho que já descobri. Continuem suas cenas, rapazes, as coisas ficarão interessantes.

— Aquele cara me deu a impressão de que não quero ficar contra ele – disse o Antagonista em Redenção, apreensivo, enquanto o Vilão Final se afastava.

— Bom… Então aproveite enquanto ainda está do lado dos vilões e pode agir por fora do planejamento.

— Hm… Acho que não dessa vez. Vou confiar na nossa escritora de determinação oscilante. Quem sabe? Meu arco pode ser bem divertido…

— Por divertido você quer dizer caótico e dramático?

— É claro. Todo drama é um momento no foco da narrativa, eu jamais recusaria. Se acha isso tão ruim, deveríamos trocar nossos papéis.

O Herói riu e recolheu sua faca. Tinha a impressão de que precisaria dela em breve, podia sentir a escritora se preparando para voltar a escrever, com a inspiração renovada.

O Antagonista em Redenção também sentia o mesmo. Se levantou, pronto para voltar à luta interrompida. Mas dessa vez, sabiam, não seria o fim da história para nenhum deles.

16 de Janeiro de 2022 às 01:53 3 Denunciar Insira Seguir história
2
Fim

Conheça o autor

Marianna Ramalho Também posto no Nyah, no Spirit e no Wattpad sob o nome de Jupiter L. Se houver interesse pela minha escrita de forma "integral", sugiro acompanhar pelo Nyah ou Inkspired. Nem todas as histórias são postadas no Spirit e no Wattpad.

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Sandy Lane Sandy Lane
Sério, eu amei!
February 11, 2022, 21:21

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