johnathan-silva-oliveira Johnathan Silva Oliveira

Dimitri tem apenas oito anos. Ele, a mãe e a irmãzinha moram no pacato vilarejo de Haujam, incrustado entre as montanhas. Um dia o pequeno Dimitri vai ao bosque próximo de sua casa e encontra um esquilo que lhe mostra um lugar escondido, onde as plantas frutificam permanentemente. Contudo, o que no início era apenas uma despretensiosa aventura, torna-se um mistério que tem ligação com seu pai desaparecido, uma fruta azul, um urso de cara azul e um livro também azul. Ele desvenda a associação dos intrigantes acontecimentos, quando sua vó lhe revela as origens desses fatos, que remontam a um passado distante, de um planeta igualmente distante. Esse conto é um dos muitos que orbitam a lendária saga da Noz Dourada. Para aprofundar-se nas raízes dessa história, do tamanho da Via-Láctea, leia também 'A Noz Dourada', que consta das origens desses relatos, e 'Contos estelares', onde mais aventuras do menino Dimitri e outras são contadas.


Conto Épico Todo o público.

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Dimitri e o esquilo Town


Tinha épocas que apresentavam invernos mais rigorosos no pequeno vale de Haujan. Mas este não foi um desses anos. espia pela janela, enquanto mexe o mingau à beira do forno à lenha. Tendo a atenção afiada que toda mãe possui, ela suspende a saída de fininho do menino Dimitri:

_ Epa, mocinho. Espere aí! Leva esta cesta, por favor, e vê se consegue encontrar algumas frutas silvestres que dê para fazer uma torta. Podemos fazer a receita da vovó. Que achas?
_ Hum! Tô indo. Já sinto o gostinho...
_ Leve o casaco. Não demore!


Mas foi exatamente isso que ocorreu. Pois enquanto mordiscava algumas frutas que colhera, aproveitou para ler um pouco e terminou se distraindo.
Um esquilo parecia demonstrar que estava gostando, então se aproxima do garoto e senta-se, como se esperasse que o menino continuasse a leitura. Dimitri não se assustou, mas fixou o seu olhar em uma mecha de pêlo que erguia-se da cabeça do roedor.

Assim ficaram quase uma hora inteira, quando por fim ele estagnou a leitura na parte que mencionava uma 'torta'.

_Nossa! Esqueci-me completamente das frutas da mamãe. Desculpa amiguinho. Preciso colher as frutas para ela fazer uma torta.

_ Posso ajudar você a encher essa cesta. _ voluntariou-se o ágil esquilinho marrom.

Encheram rapidamente a cesta. Dimitri ficou muito grato ao esquilo, e perguntou o seu nome:

_ Como posso lhe chamar?

_ Eu me chamo Town.

_ Obrigado Town. Agora devo ir, se não mamãe fica preocupada. Preciso ajudá-la com minha irmãzinha caçula.
_ Você pode vir mais vezes e ler os seus contos pra mim? Posso lhe mostrar um lugar secreto cheio de amoras.
E assim se deu.

No dia seguinte, lá estava Dimitri com seus livros, presos por uma alça de couro em uma das mãos, na outra uma rede para pôr as frutas que conseguisse coletar. Town cumpriu o que havia prometido. Depois de ter encontrado com o garoto no mesmo lugar do dia anterior, seguiram rumo ao 'esconderijo das frutas', como Dimitri chamou mentalmente o próspero refúgio das árvores que sempre frutificavam. E a descrição que o esquilo deu a Dimitri não mostrou-se nem um pouco exagerada. Quando viu as árvores arreadas de pomos de várias cores e infestadas de abelhas, borboletas e outros animaizinhos que se banqueteavam naquela doce fartura, sim, após ver tudo isso, Dimitri disse:

_ Tua descrição passou longe da realidade. Como pode ser isso? Aqui tem árvores, frutas e flores que nunca vi aqui no vale, nem na aldeia grande, nem nas planícies do outro lado do condado onde vovó mora. Qual o nome dessa? Olha como é vermelha! E essa roxa, aqui?... Como se chama essa cheia de cachos amarelos? E aquela ali, comprida e com uma amêndoa na ponta?...


_ Vejo que você, assim como todos os que já vieram aqui, está realmente encantado com o Domo._ disse o esquilo Town.

_ Você disse Domo? É assim que vocês chamam?

_ Sim. Mas não costumamos colocar nomes nas frutas. Colocamos nome no lugar porque é útil quando temos alguma reunião para fazer, ou apenas queremos comer juntos com os amigos. Então dizemos: 'vamos ao Domo'. Quase sempre é aqui que fazemos tudo. É aqui que boa parte dos animais fazem seus ninhos e têm seus filhotes, visto que se sentem seguros e protegidos.

O menino ouvia atento, mas sem tirar os olhos das árvores. Ele olhava admirado para cada uma, assimilando suas aparências. Uma chamou-lhe atenção especial.

_ E aquela pendurada no alto do rochedo? Algum de vocês chega até lá?

_ Acho que os pássaros sim. Mas tem tantas em toda a volta, que eu não tinha notado ela. Afinal é só um pequeno arbusto.

Era de fato apenas uma arvorezinha solitária no paredão do Domo. Porém, seus frutinhos possuiam um azul cobalto brilhante de encher os olhos. Dimitri deixou-se distrair pelas criaturinhas que iam e vinham, entre os ramos pendentes de frutinhas douradas, ou entre as raízes que saltavam da grama densa e relvosa, salpicada por diminutas flores delicadas, com suas abelhas zelosas.

-Acho melhor começarmos, não acha? Eu disse à mamãe que hoje eu iria levar muitas frutas para ela fazer outra torta. Nós comemos aquela toda, ontem, pois levei alguns pedaços para a professora e meus amigos de classe.

Esses momentos repetiram-se igualmente por um mês inteiro, até a neve começar a derreter. Dimitri imaginava que o Domo fosse estar mais florido e cheio de fartura. Mas ele estava exatamente igual: caiam frutas, nasciam frutas, murchavam e refloresciam os botões de flores, os brotos rebentavam do chão e alguns eram roídos por camundongos, chinchilas e outros pequenos animais. Nunca mudava. Naquele dia, porém, Dimitri notou uma minúscula diferença. O arbusto de frutinhas azuis do alto do rochedo havia produzido miúdas florezinhas brancas, que de tão delicadas pareciam efemérides. Como elas não se mechiam, Dimitri concluiu que eram flores de fato. Um detalhe curioso, mas ele decidiu deixar pra lá. Não devia ter nada ali que os costumeiros habitantes não soubessem.

Meses se passaram. Dimitri continuava levando livros que pegava na biblioteca da escola, para ler junto com seu amigo esquilo. Certa vez, ele remexia alguns livros em uma das prateleiras empoeiradas, e achou atrás deles um livrinho fino e que quase cabia inteiro em suas duas pequeninas mãos. A capa estava gasta, mas ainda dava pra ver que era azul. O título já estava muito desbotado, porém ele identificou a gravura no centro. Era a reprodução de um frutinho azul e uma flor branca pequena. Completamente intrigado ele mostra para a professora.


_ Acho que hoje vou levar só esse, professora Mirtys.

— Tudo bem, meu querido. Posso ver o título?

O menino entrega-o a ela, mas a professora não demonstrou familiaridade com o exemplar. Franzindo a testa, ela comenta baixinho, quase para si mesma:

— Estranho. Eu nunca tinha visto esse livrinho aqui. Não tem título também... Ah, desculpe querido. Pode levá-lo. Vou só escrever algo na capa para poder identificá-lo.

Quando Dimitri o recebeu, viu que estava escrito 'o livro azul'.

Ajudou a mãe com a irmãzinha caçula, e já ia saindo com a cesta e a mochila a tiracolo. A mãe chama-o e lhe adverte:

— Sabes que já é época dos ursos saírem de hibernação...

— Sim, mamãe. Não irei para a Floresta Funda. Já disse à senhora que só vou até o Riacho do Texugo.

— Sei. Eu me esqueço, Dimitri. Só fico preocupada com esses ursos. Mesmo que eles nunca tenham vindo até o riacho. Mas no dia que teu pai desapareceu havia ursos andando por essas bandas.

— Como a senhora soube disso?

— Ah, eu não te contei, não? Claro. Verdade... Tu ainda era muito pequerrucho. Achava que não ia entender. Mas os pastores disseram que tinham topado com alguns ursos jovens. O compadre Hugo até contou uma história estranha sobre um urso com a cara toda azul...

— Azul?— pergunta o menino quase exaltado.

— Sim, azul. Mas porque você ficou assim?

— Nadinha mãe. É que não existem frutas azuis em todo condado. Achei estranho.

— Nem me diga. Foi o que todo mundo falou naquela época. Começaram a dizer que compadre Hugo estava caducando, ou que a morte de teu pai havia causado um efeito muito negativo nele. Teve gente até que andou dizendo que tinha ficado maluco. Mas é pura bobagem. Compadre Hugo é muito é esperto, isso sim. Mas podes ir. Não vou te encher mais com essas histórias.

Foi-se, portanto, o jovem Dimitri, remoendo a história do urso junto com a do livro azul. Ao chegar, expressou a preocupação de sua mãe pelos ursos.

— Town, os ursos costumam vir até o Domo?

— Sim. Todos os animais vem ao Domo...

— Você me diz isso só agora? Eu estou correndo perigo se ficar aqui. Não há saída. E se um urso aparecer?

— Os ursos e os outros animais carnívoros que vêm ao Domo, não fazem mal a nenhuma das criaturas que entram aqui.

— Existe uma magia neste lugar?

— Não existe magia nenhuma. É uma lei que nós mesmos criamos. A única lei do Domo é não molestar de qualquer maneira algum dos seres que aqui adentram.

— E quem me garante que eles vão obecedecer?

— É apenas a palavra deles...

Enquanto ainda falava, Dimitri soltou um grunhido e começou a recuar, sem tirar o olhos dos dois ursos que acabavam de entrar no Domo. O garoto não percebera antes, mas abaixo do arbusto de frutos azuis ele encontrou algo que lembrava uma escada tosca esculpida na parede de terra. Rapidamente subiu por ela, até chegar ao arbusto. Ficou lá quietinho, olhando e ouvindo a conversa de Town com os ursos.


— Sejam bem-vindos, meus senhores ursos. Vocês sabem de alguma novidade da floresta?

— Nada, meu pequenino amigo. Tudo na santa paz e perfeitamente normal. — respondeu o urso Buggo.

— Como nada? E as árvores cada vez maiores e mais densas? Isso muda muita coisa. A quantidade de luz no centro da floresta está cada vez menor, e isso torna o alimento escasso. Só conseguimos comer algumas nozes e cogumelos. Por isso tivemos que vir aqui. — o urso Huff tinha mais experiência, pois era um urso mais velho, com os pêlos começando a ficar acinzentados.

— Por que seu amiguinho humano fugiu e se escondeu lá em cima? Ele não está com medo de nós, está?

— Você acertou senhor Buggo. Ele ficou com medo. Afinal, não é comum humanos virem ao Domo.

— Amiguinho, pode descer. Só viemos comer algumas frutas e mel. Hum... Sinta esse cheiro, Huff! Os favos devem estar pingando.

— Estão mesmo, como sempre. Em nenhum outro lugar encontra-se mel de boa qualidade e o tempo todo. Só aqui no Domo. — completou Huff.

Enquanto os três animais conversavam, só então ele notou que os dois ursos tinham o mesmo tufo de pêlos no alto da cabeça que Town tinha. Inicialmente, quando se conheceram, ele não havia indagado por achar que fosse um acaso. Mas agora, vendo que o tufinho dos ursos era igual, fica extremamente curioso. No entanto, ele adia a indagação, por querer acreditar que eram apenas coincidências, resolvendo se concentrar nas características daquela plantinha única. Ele carregara o livro azul dentro do bolso. Aproveitou, então, para comparar as ilustrações com as flores e frutas da erva. Coincidentemente, era a mesma espécie de planta. Dimitri começou a ler uma nota abaixo da gravura do fruto. Uma expressão de surpresa estava se formando em seu rosto. De boca aberta e prestes a chamar o esquilo Town, é interrompido por Buggo.


— Garotinho, qual o seu nome?

— Dimitri. Eh... Town, você pode vir até aqui?

— O que aconteceu? Está tudo bem?

— Sim. Sem problemas...

— Você pode aproveitar então que está aí em cima, e nos jogar algumas frutinhas azuis? Elas são uma delícia. Nada se compara...— pediu o urso Buggo.

— Seria bom você não comer. Aqui no meu livro diz que essa fruta possui propriedades transmutativas.

—Trans... o quê?— indagou Buggo.

— Nós sempre viemos aqui, e sempre comemos de todos os frutos. Embora só tenhamos comido dessa apenas uma vez, não é Buggo? Aquela vez que o humano estava pendurado e com medo de nós, assim como você, menininho. Mas nós comemos a frutinha azul e não aconteceu nadinha conosco.— explica Hugg.

— Tudo bem, então. Mas eu avisei... Ei, mas como vocês conseguiram pegar, se elas estão nessa altura? Essa escada é estreita demais para vocês, ursos pesadões.

— Ele está nos chamando de gordos, Buggo. —disse Huff

— Desculpa. Não é isso.

— Bem, nós pedimos ao humano pra ele jogar algumas frutas, do mesmo jeito que pedimos a você.

— E ele conseguiu entender vocês?

— Acho que sim. Porque jogou várias. — dessa vez foi Buggo quem falou.

Encheu, portanto, os seus bolsos e levou aos ursos.

— Você perdeu o medo?— perguntou Town, com um sorrisinho no rosto.

— Ora, eu não poderia ficar lá em cima o resto do dia. Além do mais, já está na hora de voltar. Vou só colher as frutas para a torta que iremos fazer pra vovó. Vamos visitá-la.

Ele falava essas coisas sem desgrudar os olhos de Hugg e Buggo. Não mais por medo, mas por curiosidade. Ele queria ver de perto o que aconteceria aos ursos depois de comerem o frutinho.


— Não aconteceu nada. Acho que o livro estava errado. Bem, de todo modo, preciso ir. Ah, quase ia me esquecendo, Town. Amanhã e depois eu não poderei vir, pois estarei na casa de minha avó. Mas no início da semana, eu venho sem falta.

— Tudo bem, Dimitri. Obrigado por me avisar. — respondeu o esquilinho.

— Até mais, amigos.

— 'Até mais Dimitri',— todos disseram juntos.

Sua mãe reclamou um pouco da demora. Contudo, como ainda estava concentrada em preparar a bagagem para o passeio, deixou a bronca para quando estivessem a caminho da aldeia.

— Pronto. Acho que não esqueci nada. Agora vamos ver as frutas que você trouxe hoje?

Ela descascou algumas das maçãs e prepararam o recheio juntos. Depois puseram na massa que já estava pronta, esperando para assar.

— Você devia ter vindo mais cedo. Fiquei lhe esperando para coletar os feixes de lenha. Tive que procurá-los sozinha. Porque demorou tanto?

— Desculpa, mãezinha. Eu fiz novos amigos, por isso me distraí.— Tudo bem. Mas deves parar de conversar tanto os bichos. Algum dia desses alguém pode ver e vão pensar que tu estás biruta.

A mãe dei um beijo na testa do filho, e assalhou seus cabelos dourados. Dimitri não entendeu muito quando ela disse que as pessoas achariam estranho se vissem ele falando com um bicho. Afinal, os bichos também falavam com ele. Mas ele não ligou pra isso.