brina Sabrina Leone

O ensino médio pode ser a melhor época da vida de alguém, mas pode ser um pandemônio também; principalmente quando a escola é regida por uma ditadura feminina de cores e costumes, uma hierarquia com as "Anne" no topo da cadeia alimentar. Como se isso não bastasse, a pequena e tranquila cidade de Riverwood fica de cabeça para baixo quando é atingida pelo misterioso desaparecimento de Anne Wayne, uma garota popular do ensino médio e membro da família dos banqueiros da cidade. Melissa Parker, a nova estudante e moradora de Riverwood, Martha Weaver, John Smith, Jackson Hill, Megan Walker e seus amigos exploram os problemas da vida cotidiana na pequena cidade, enquanto investigam o caso de Anne Wayne. Mas, para resolver este mistério, o grupo de amigos deve descobrir os segredos que estão enterrados profundamente na superfície da cidade, pois Riverwood pode não ser tão inocente como parece.


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Apenas Seja Uma Boa Garota


(Querido diário, sou eu de novo. Melissa Parker, afinal, quem mais poderia ser, não é? Dessa vez, não estou aqui para contar como foi meu dia, ao contrário, vim finalizar meu dias. Usarei as páginas desse diário para esclarecer algumas coisas e aqui deixar meu testamento, porque, sinceramente... Eu acho que não vou sobreviver até o final do dia de hoje.
Para minha mãe, deixo todas as lições de moral e as frases planejadas que ela um dia me deu. Para meu pai, aqui vai o meu mais sincero "hum", afinal, você adora dizer isso, não é, papai?
Tenho dezessete anos e passei todo esse tempo em Nova York. Digam o que quiserem, mas a realidade é a que eu amo essa cidade. No entanto, como nada na vida é eterno, eu fui brutalmente convidada a morrer em poucas horas. Há algumas semanas, assim como a maioria dos vizinhos, nós, os Parkers, fomos roubados. O assaltante só levou a televisão, o que eu acredito ser a coisa mais valiosa que tínhamos. Foi apenas isso, mas foi o suficiente para derreter o banana do meu pai. Assustado, com medo de ser morto ou algo assim, ele decidiu, do nada, voltar para a cidade natal dele e de minha mãe. Obviamente, minha mãe protestou e o xingou de palerma, dentre outras coisas. Meu pai, Howard, sofreu um acidente enquanto trabalhava em uma fábrica. Ele caiu, torceu o pé e hoje ganha um auxílio do governo. Ele é, basicamente, um aposentado, e não tem vontade alguma de voltar a trabalhar. Ou seja, ele não tem nada a perder nessa cidade. Por outro lado, minha mãe, Allice, é uma jornalista e trabalha no New York Times, e possuía muito o que perder.
Eu sinceramente não faço ideia de que tipo de feitiço o meu pai pregou para conseguir convencer minha mãe a abandonar uma brilhante carreira em um jornal famoso para se mudar para uma cidade do interior e trabalhar no único jornal local da cidadezinha conhecida como "Riverwood". Bem, não importava mais, pois agora quem estava na zona de perigo era eu. Por culpa do medo ridículo do meu pai, eu seria obrigada a terminar o ensino médio em uma escola nova, em uma cidade nova, deixando para trás tudo o que eu amo, meus amigos, meus sonhos, e até minha possível carreira. Muito obrigada, pai! Eu serei massacrada em um novo colégio!)
Melissa Parker guardou seu diário e pulou de sua cama de madeira pintada de branca com colchões fofos e cheirosos. Ela correu ao espelho de sua cômoda, escovou os cabelos negros longos e pintou seus lábios com um leve batom de cor rosa. Lavou seus olhos acinzentados em uma longa piscada enquanto procurava uma roupa. Escolheu, enfim, uma manga-longa vermelha de gola alta, vestiu uma calça jeans preta e cobriu-se com uma jaqueta branca de zíper negro. Estava pronta para seu primeiro dia em River Hight.
De repente, sua porta foi aberta bruscamente por Allice Parker, que invadira o quarto da filha como se houvesse um incêndio. A mãe, naturalmente loira, possuía um corpo de trinta e seis anos que escapou de uma gravidez totalmente ileso de qualquer sequela.
-Mel, esse ano é crucial para as faculdades- começou Allice, que usava uma camiseta social branca, um blazer azul ciano que era da mesma cor que sua saia social e sapatos. Ela estava nitidamente bem maquiada, com os cabelos bem penteados, as unhas e sobrancelhas bem feitas e seu perfume de praxe -As notas são importantes, atividades extracurriculares, esportes. Ter uma boa reputação é importante, eles olham isso.
-Pois é mãe- murmurou Melissa, fugindo das mãos grandes de Allice, que não conseguia resistir em ver o cabelo da filha solto -Só que vocês tiraram essas oportunidades de mim
-Quando uma porta se fecha, outra seabre- Allice recitou, como em uma poesia -É um mundo cheio de oportunidades, querida. Você não é a única a ter uma noite ruim. Vivemos em um mundo cheio de noites ruins. Não se esqueça pelo que estamos aqui- ela agarrou o rosto de Melissa com as duas mãos, a obrigando a se aprofundar nos olhos verdes da mãe -Estamos sendo gentis e dando apoio ao seu pai
-Apoiá-lo a ficar no sofá o dia todo?- questionou Melissa, irônica.
-Mel, por favor- Allice a repreendeu -Apenas sejauma boa garota
Melissa observou a tentativa patética de Allice em tentar remover um sorriso sincero da filha.
(Sério, ela parece uma Barbie assim, e isso é nojento)
Melissa deixou a mãe sorridente em seu quarto e desceu rapidamente a escada, deparando-se com seu pai, que assistia um jogo de futebol americano na TV.
-Já vai, querida?- ele perguntou. Howard, um homem que também parecia jovem para trinta e sete anos, possuía cabelos pretos sempre em um corte curto, não abria mão de sua barba e bigode. Usava roupas de um verdadeiro aposentado : um suéter marrom, calças bege, sapatos.
-Estou atrasada- ela apenas informou e saiu pela porta da frente.
Pelo menos, a escola não era tão longe. Apenas alguns quarteirões de distância. Melissa caminhou até ela e em poucos minutos já estava perambulando pelos imensos e largos corredores cheios de armários do colégio River Hight. E os mesmos corredores estavam lotados das mais curiosas criaturas. Ela podia identificar cada um deles. Podia visualizar o grupo dos atletas, dos nerds, dos músicos, das garotas populares. Por um momento, Melissa não se sentia mais desajustada. A realidade era a de que todas as escolas são iguais, e mesmo uma escola simples era idêntica à sua antiga escola no centro de Nova York. Observou todo aquele clima colegial e teve um insight. Ela podia presenciar toda a sua infância e em como se tornou uma adolescente, visualizou todo seu trajeto até ali. Não que a escola deixasse de ser um cenário de caos, não, de jeito algum. No entanto, ela viu que talvez estava exagerando. Que Riverwood talvez lhe trouxesse esperança.
(Era pequena e brilhante. Adorava brincar de pega-pega. Agora cresci, foi o problema e vi o gatilho vir então... A escola mais parecia uma arena. Mas... Dessa vez, eu podia ver que a vida era linda... Eu rezei por um jeito mais fácil, e talvez eu tenha encontrado. Eu mudei uma vez, posso mudar outra vez... Eu posso ser incrível... Não desta vez!)
Seu olhar esperançoso passou tão rápido quanto veio. Melissa foi brutalmente empurrada por um garoto de ombros largos, que usava a camiseta do time titular da escola.
-Hey, cuidado, vadia!- ele exclamou, se afastando com um sorriso doentio.
Após chocar as costas contra um dos armários, Melissa tentou se recompor e logo foi auxiliada por uma garota quefoi a única a demonstrar preocupação por ela. A garota erapálida assim como Melissa, usava uma camiseta branca, uma saia xadrez e sapatos brilhantes sob meias longas. Ela tinha o cabelo ondulado curto e castanho, estava um pouco acima do peso, e parecia ser de descendência escocesa.
-Você está bem?- ela perguntou, demonstrando seu devido interesse.
-Estou- respondeu Melissa, tentando repor um músculo no lugar.
-Derek Stone é um idiota- disse a garota -Espera, você é nova aqui, não é? Eu acho que nunca te vi antes
-Sim. Começo hoje. Sou Melissa Parker- ela estendeu a mão e a meninalogo a agarrou.
-Martha Weaver, prazer. Posso te acompanhar pela escola?
-Claro- elas começaram a caminhar.
-Bem, existem regras aqui. É melhor eu te dizer, antes que você acabe descobrindo por si só
-Regras?
-Sim. Regras de sobrevivência
-Não exagera- Melissa riu minimamente.
-Não, é sério. Existe uma hierarquia aqui
-Sei- disse Melissa com um leve sorriso de canto.
Enquanto Martha contava sobre os garotos e de como funcionava as aulas, Melissa sentiu o calor de todos aqueles corpos se esfregando contra o dela. Sem deixar de ouvir a nova amiga, Melissa começou a remover sua jaqueta branca e, misteriosamente, atrair a atenção de todos ao seu redor. Conforme removida sua blusa, ela podia notar as pessoas a encarando boquiaberta, se afastando e cochichos dirigidos a ela.
(O que está rolando aqui? Por que todos estão me olhando apavorados e aterrorizados?)
Olhou para o que usava abaixo da blusa, não havia nada de errado em uma blusa de manga-longa vermelha. Testou seu cheiro, o que poderia ser o causador de tanta balbúrdia. Não, não estava fedendo.
(O que poderá ser?)
-Meu Deus!- exclamou Martha, atemorizada, tampando a boca com as mãos -Você está maluca?! Quer morrer no seu primeiro dia?!
-O que... O que eu fiz?- indagou Melissa mais que confusa, parando de caminhar, notando que se formara um grande ciclo de exclusão ao redor das duas. Nenhum estudante se atrevia a se aproximar demais delas.
(O que está havendo? Somos leprosas?!)
-Você escolheu a morte- disse Martha, apavorada -Você cavou sua própria cova
-O que raios está havendo aqui?!- uma voz feminina e incrivelmente irritante surgiu do meio da multidão.
Como se as portas do inferno tivessem sido abertas, a garota fervente surgiu. Ela era pálida, tinha cabelos ruivos e ardentes, olhos castanhos, uma boca carnuda e bem desenhada, carregada com um corpo invejável. Estava maquiada, tendo as maças de suas bochechas rosas. Seus lábios carnudos estavam envolvidos em um batom vermelho vibrante e encharcados por glos brilhante. Os olhos com o mais negro e delicado rímel. Suas roupas baseavam-se em um casaco vermelho, colado ao corpo, com botões dourados, que deixava visível a ausência de um sutiã. Abaixo do casaco, uma camiseta branca com gravata fina em um laço vermelho. Sua saia, de cor escura em xadrez, ia até metade de sua coxa, deixando que sua meia em losangulos pretos e vermelhos cubram até metade de seu joelho. Seu cabelo do mais incrível ruivo estava preso de modo que um rabo de cavalo volumoso se tornava ondulado enquanto duas vinhas generosas caiam em perfeita harmonia até pouco acima de seus seios.
A menina, com certeza, parou o trânsito daquela escola, e pararia qualquer trânsito em que surgisse. Melissa podia ver inúmeros meninos e até meninas se perdendo na visão da ruiva. Ela rapidamente olhou para o centro daquela roda, notando a presença de Melissa e de Martha.
(Ela me olhou como um inseto... Um inseto que precisava ser esmagado)
-Eu não acredito no que meus lindos olhos de boneca estão vendo- disse a ruiva, se aproximado em passos lentos, fazendo com que seu sapato de couro vermelho, com a base e o salto negro seja o único som a repercutir em eco por aqueles corredores. Olhou para Melissa de cima a baixo, como se analisasse um objeto quebrado, e, em seguida, esfregou lentamente os lábios até se desgrudarem, o que, possivelmente, causou uma ereção em vários garotos à sua volta -Qual o seu nome, novata?
-Me-Melissa- ela gaguejou ao falar. Impressionante como a presença da ruiva impunha um ar rarefeito e pesado.
-Certo, Melissa. Eu vou te fazer apenas uma pergunta- ela se inclinou, deixando que Melissa fique cara-a-cara com seu decote generoso -Você tem artrite no cérebro?!
(Eu não entendi exatamente o que ela quis dizer, mas sabia que era em tom de ameaça. O que eu fiz de errado? Será que... Seriam as tais "regras" que Martha havia mencionado mais cedo?)
-Oh, Anne- Martha se adiantou -Releve, ela é nova. Não sabe como essa escola funciona
-Cale a boca, roliça!- exclamou a ruiva, como se cuspisse em Martha -Agora, sua xucra- ela voltou a encarar Melissa -Olhe ao redor. O que você vê?
Melissa olhou para todos ali parados. Estavam todos apressados, mas o tempo parecia ter sido congelados, pois ninguém mais estava correndo. Toda a escola estava ali, as olhando, o que trazia para Melissa uma atenção indesejada. Tudo o que ela queria era o anonimato, mas este não parecia estar no seu caminho.
Depois de uma rápida análise, não viu o que quer que a ruiva tenha em mente. Era uma escola comum. Alunos diferentes, com seus estilos próprios.
-Ok- disse a ruiva, entediada -Eu vou esclarecer as coisas para o seu cérebro de ervilha poder entender- ela limpou a garganta e apontou para ela toda -Está vendo? O que não está vendo nos outros?
-Eu...- Melissa tentou procurar algum destaque, mas ele nunca surgiu.
-Vermelho!- a ruiva exclamou -Vermelho é minha cor registrada
Melissa voltou a olhar para todos ao seu redor e pôde, em fim, perceber que não havia nenhum sinal da cor vermelha ali. Ela sentiu muito a falta da cor vibrante. Ninguém, absolutamente ninguém possuía sequer uma peça de roupa vermelha. Nenhum aluno se atreveria a infringir a cor destaque da ruiva. Melissa então percebeu que, além da ruiva, ela era a única a usar uma manga-longa vermelha.
(Ela está falando da minha roupa? Sério? Ela está usando o casaco do polegarzinho!)
-Tom- chamou a ruiva, e um garoto atleta, usando a camiseta do time saltou do meio de todos.
-Anne?- ele disse, nervoso.
-Tire a roupa- a ruiva ordenou, sem desgrudar os olhos de Melissa.
-Nossa, eu sempre sonhei com o dia em que você me dizia isso- alegrou-se o garoto, bobamente.
-Não se empolgue, pervertido!- exclamou ela, em negação -Apenasa camiseta. Suponho que tenha outra em seu armário?
-Tenho, claro- ele removeu a jaqueta, a jogou no chão e, em seguida, tirou sua camiseta branca, revelando seus músculos definidos.
-Vista- ordenou ela, assim que tomou a camiseta dele, jogando no rosto de Melissa -Não volte a cometer esse erro, novata.
Melissa encarou aquela camiseta masculina suada e fedida, enquanto a ruiva virava as costas para ela e se afastava.
-Eu não vou vestir isso- disse Melissa, incrédula, fazendo com que a ruiva pare de caminhar e volte a encará-la.
De repente, do meio da multidão, saíram mais duas garotas. Parece que a ruiva havia feito algumas conversões. A primeira possuía um tom de pele um pouco mais escuro, com um leve bronzeado. Ela tinha os cabelos castanho escuro, quase preto, olhos castanhos, e uma boca perfeitamente bem desenhada. Usava um casaco de tailleur amarelo com xadrez em linhas pretas, dando um leve tom executivo. As lapelas do casaco eram grandes e negras, dobradas sob seus seios. Seu pescoço, bem coberto pela gola branca de sua camiseta, com uma gravata em linha de um laço negro. Usava uma saia negra até a coxa de dois grandes botões, meias longas e negras, que quase alcançavam seus joelhos. Claramente, a cor que reinava nela era o amarelo, o que fez com que Melissa procurasse uma só pessoa que usasse uma camiseta ou uma calça amarela. Também não havia. A segunda era loira, pele clara e brilhante devido à maquiagem. Assim como a primeira, ela também usava um casaco de tailleur, mas de cor azul, com um xadrez feito por linhas brancas e vermelhas. Sua camiseta também cobria todo o seu pescoço, deixando a lapela dobrada e possibilitando a impregação de um broxe de uma rosa azul escura. Seus olhos eram azuis e brilhantes, sua boca, embora menor do que a da ruiva e a da morena, também era bem desenhada e de uma maneira delicada. Também vestia uma saia escura até a coxa, com meias negras até acima do joelho.
-Vamos ter um problema?!- a morena indagou, se aproximando, mas não se atrevendo a tomar a frente da ruiva.
-O que está havendo, Anne?- perguntou a loira, fazendo o mesmo que a morena.
-Eu não acredito nisso!- exclamou a morena, olhando para Melissa como se ela fosse o ser mais repugnante que já vira -Tem que tomar uma atitude, Anne! Não pode deixar isso continuar! É ultrajante!
-Cala a boca, Anne!- gritou a ruiva.
(Espera... As duas se chamam "Anne", e eu que sou a aberração?)
-Mas, Anne- tentou a morena.
-Anne, fica quieta!- ordenou a ruiva, rolando os olhos.
-Desculpe- pediu a morena, em um sussurro.
-Muito bem- a ruiva respirou profundamente e se aproximou com as duas a seguindo -Escuta aqui, sua mundana, eu sou o vermelho. Anne é o amarelo, e a Anne cuida do azul
(Calma aí... Três "Anne"? Isso foi do bizarro ao ridículo)
-Vocês não são donas das cores- desafiou Melissa, deixando toda a escola de boca aberta por sua audácia.
-É, mas nós usarmos tais cores é como tê-las inventado em River Hight- respondeu a loira.
-Não importa, não se explique, Anne- disse a ruiva -Eu estou num bom dia e vou te dar uma colher de chá. Você tem até o terceiro cino para limpar todos os seus rastros imundos dessa escola. Vá para a escola do lado sul, não importa. Apenas saia daqui
-Ou- disse a loira.
-Deixe de usar nossas cores- completou a morena.
-Por que estão fazendo isso?- indagou Melissa -É ridículo!
-Ah, é. Você é nova aqui- disse a Anne ruiva -Oi. Sou Anne Baskerville, a rainha dessa colmeia. O que significa que não preciso de motivos- ela informou se aproximando, sentindo o cheiro da apreensão de Melissa como um tubarão que encontra sangue na água -Sinta-se livre para tremer!
O sinal soou pelos corredores, fazendo com que todos voltem a se apressar. A escola, contudo, voltava a ferver e um mar de cores foscas voltava a sufocar Melissa Parker, que observava com destreza as donas das cores, e, consequente, das luzes da escola de afastarem rindo.
-Você vai usar isso aí?- perguntou Martha, contendo o sorriso.
-Eu não- Melissa jogou a camiseta no chão e voltou a vestir sua blusa.
-Então, eu ficarei com isso- alegou Martha, agarrando a camiseta do garoto e a cheirando.
-Você é nojenta- riu Melissa enquanto voltavam a caminhar rumo à sala de aula.
-É o mais próximo que posso chegar de um homem como Tom Keller- disse ela, com um ar de melancolia.
-Quer me dizer quem são as megeras?- sugeriu Melissa, tentando remover aquela nuvem cinza que surgira em Martha.
-Bom, a loira é Anne Wayne. Faz parte de uma das famílias fundadoras de Riverwood. Os pais controlam toda a economia da cidade, são donos do único banco daqui. Com certeza, Anne seguirá os passos dos Wayne e será contadora, bancária ou algo assim. E, se nada der certo, ela pode apostar firme na música que se daria muito bem
-Ela canta?
-E como- disse Martha, com uma pontada de ciúme -A morena é Anne Blackwood. A família dela basicamente construiu essa cidade. Os Blackwood transformaram sua fazenda de café no que está vendo agora. Ninguém sabe ao certo qual é o negócio da família dela atualmente, mas a mãe dela é a prefeita.
-Entendi- murmurou Melissa enquanto entravam na sala de aula.
-E, por último, Anne Baskerville. A "Vadia Mítica". Os pais dela gerenciam o negócio de Xarope do Bordo, que está em todas as casas de Riverwood. Eles mesmos os produzem na Fazenda Baskerville- contou Martha à medida que escolhiam seus lugares no centro da sala de aula -As três Anne mandam nessa escola. O que elas ditam, é lei. Elas têm tudo... As melhores roupas, frequentam as melhores festas, possuem os melhores meninos... Todo o universo conspira ao favor delas...
-Não deveria ser assim- murmurou Melissa, recolhendo seu material de sua bolsa, à espera do professor.
-Mas é. E eu acho melhor você não enfrentar a Anne- aconselhou Martha -Apenas evite o vermelho, o amarelo e o azul.
-Então elas simplesmente podem escolher que roupas devemos usar e ninguém faz nada?!- indagou Melissa, incrédula.
-Isso é uma ditadura- a professora, que acabara de entrar na sala, se intrometeu. Ela usava um tailleur vinho, que deixava visível as curvas de uma mulher de quarenta e poucos anos que estava em perfeito estado. Possuía os cabelos negros, tinha olhos grandes e verdes, abaixo de duas potentes lentes, um nariz protuberante e uma presença marcante -Censurar qualquer meio de expressão individual é uma ditadura- ela continuou, dessa vez para toda a sala, que se silenciava assim que ela botou os saltos na sala.
-Essa é a professora Mary Murphy- sussurou Martha, enquanto a mesma colocava suas coisas em sua mesa -A aula dela é a de literatura, mas, às vezes parece história, sociologia ou filosofia
-Outras ditaduras usam estratégias diferentes para controlar ideias- prosseguiu Mary Murphy -Baixam o nível da educação, limitam a cultura, censuram a informação. E é importante lembrar que esse é um padrão que se repete por toda a História.
(Por que Mary Murphy parecia ser tão legal? Ela parecia ser do tipo de mulher sensata, instruída... Desde já, algo me fazia adorar ela)
A professora Murphy caminhou pela sala até parar de frente para Melissa, a observou com um largo sorriso de dentes retos e brilhantes.
-Parece que temos uma neófita entre nós- disse Mary Murphy, alta e claramente -Gostaria de se apresentar para a sala?
-Eu acho que todos já me conhecem- respondeu Melissa, constrangida pelo ocorrido mais cedo.
-Bom, então, apresente-se para mim- pediu Mary, demonstrando um interesse incomum por ela.
-Tá... Bem... Meu nome é Melissa Parker, me mudei para cá há poucos dias...
-Vinda de onde?
-Nova York
-Incrível- disse Mary, sorrindo tanto com a boca quanto com os olhos -Estudava no Spencer?
-Sim- respondeu ela, surpresa pela professora ter acertado onde estudava.
-Certo, Melissa Parker. Sou Mary Murphy, e, devo dizer, seja mais que bem-vinda à Riverwood, a cidade da vitalidade!


7 de Janeiro de 2022 às 03:40 0 Denunciar Insira Seguir história
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