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- Outro?

- Outro!

- Qual o problema?

- Você não acha que sua obsessão já tá nível medicação?

- Teu cu!

Ok, deixa eu explicar, meu niver de 16 tava chegando, nada de festa de arromba, dessa vez vamos na humildade, pra comemorar minha irmã decidiu que faria um bolo de chocolate, uma semana antes ela começou com os testes, fiquei meio ansioso porque a Juju quando tem ideia fixa é coisa de doido, a real é que eu tava até roendo as unhas, pra ser sincero não era só pelo bolo. Eu tô saindo com uma gatinha, minazinha moh princesa, tipo capa de revista, a gente tem se pegado com mais veemência e… Veemência, sério que a palavra que você vai usar é veemência? Qual o problema? Maninho sem querer criticar suas habilidades narrativas, mas você e a Camile é pegação doida, não “veemente”, é nojento mesmo! Teu cu! Eu te perguntei alguma coisa? Enfim, pegação e tals, ainda sou virgem, ela não, daí ela me mandou mensagem, por telefone, dizendo que queria um nude de certa parte da minha anatomia, mandei, claro! Pois é, o problema é que ela não respondeu, fiquei pensando se vacilei, que tinha perdido a mina, que vai ver ela queria ver o amiguinho murcho mesmo e… Pára! Que garota pediria uma foto dessas pra ver pau murcho? Eu sei que não faz sentido, mas tava nervoso, quando a gente fica nervoso aparece só as ideias cabulosa e, velho você não ia falar do bolo de chocolate? Eu vou, espera! Tô querendo dizer que não tava ansioso só pelo bolo.

- Quantos bolos você fez? - perguntou nosso pai quando deu com as formas de massa na cozinha.

- Nenhum! - a Juju respondeu claramente não levando em consideração os seis fiascos de cor escura e semelhança a, falta palavras, incomível! Não parecia com nada e era incomível. Não vai interromper? Não, incomível é certamente a palavra adequada.

Enfim, decidi ficar em casa, tenho passado pouco tempo com a Juju e até gosto da minha irmã, na real adoro todo mundo aqui de casa, a parada de adolescente revoltado não rola quando seus pais são as pessoas mais massa do mundo. Owwnnn. Cala boca! Eu sei que tenho ficado pouco com eles, mas a garota que tô pegando é fora do série, eu deveria escrever uma ode aos peitos da Camile. É aquela mistura de vontades, morder e apertar ao mesmo tempo, intoxicante, ela tem um jeitinho de colocar eles na minha cara e... Eco! Não quero ouvir isso, fala do bolo, o bolo é o tema do conto. Primeiro que o conto é meu, escrevo o que quiser, segundo que você está interferindo na atividade narrativa do próximo Cortázar aqui! Você vai ser o próximo Cortázar? Beleza, então eu conto a história do bolo, que você é um maluco iludido.

O aniversário do meu irmão se aproximava e ele é louco por bolo de chocolate, o cara não é de luxo e pra vestir uma roupa basta estar limpa, o garoto lê e se masturba, o que eu poderia dar… eu não só me masturbo, eu pego mina também, deixa registrado aí! É minha a narrativa, cê tá interferindo. Enfim, achei que cozinhar uma guloseima que ele adora seria ótimo presente, o fato é que ele tá certo, sou daquelas de ideia fixa, decidi que faria o bolo de chocolate mais gostoso da história, nós levamos uns dois dias pra… Não, foram três. Certeza? No terceiro dia foi o do vizinho. Ah, tem razão, o vizinho, pois a gente tem esse vizinho recém divorciado, 38 anos, sarado, gato pra caralho, não tínhamos mais forma nenhuma em casa porque acho que misturei cimento em uma das massas, é a única explicação, a custo de nada a mistura desgrudava, tentamos até por no fogo. Você e suas péssimas ideias! E como eu saber que você ia por fogo na forma de alumínio ao invés de colocar o trem sobre a chama? Por fogo e por no fogo são coisas diferentes “Cortázar”. Olha aqui garota você é que… Esquece! O vizinho é gato e não perco oportunidade de dar um confere, até de babá eu fico de vez em quando, veja você, ele ficou com a guarda do filhinho, detesto criança, mas pra olhar aquele rosto perfeito topo até cuidar do moleque, cá entre nós o menino deve ter problema mental, porque adora comer giz de cera. Juju! Toda criança enfia coisa na boca, é normal comer giz de cera. Não, não é. Então talvez você deva dar uma olhada na pasta Juju no computador do pai porque evidências mostram o contrário! Tá zoando! Onde você vai? Apagar as fotos! Mulher senta aqui e conta a história do bolo de chocolate. Onde eu parei? Ah tá, ele foi procurar as formas e eu fingi que dava atenção para o rebento comedor de giz de cera, mas tava era babando no bonitão, vontade de embrenhar minhas mãos naquele afro e puxar, meus lábios descendo pelo pescoço dele até achar o lugar que… Ecooo! Se eu não posso falar da minha gata você também não pode falar dos desejos pervertidos que alimenta sobre o cara ao lado. Tá, justo. Pois é, peguei todas as formas que os vizinhos desse andar tinham, e quando eu digo todas, digo todas.

- Você tem certeza que seguiu a receita? - o mano me perguntou olhando os desastres alinhados na bancada da pia.

- Claro!

- Então como é que um cresceu, outro embatumou e aquele explodiu?

- EU NÃO SEI! - respondi gritando. Nossa mãe entrou na cozinha, deixou um beijo na gente e saiu, é defensora pública, advogada fodona e fazemos questão de assistir todo julgamento de casos que ela pega, é um show de retórica. É, não é? boto fé que os sofistas gregos tomariam um pau dela.

Olhou os desastres e deixou 150 reais na mesa, sorri agradecendo, ela sabia que eu não ia desistir até ficar perfeito. Fomos comprar mais ingredientes, voltamos, e essa foi a tarde e noite do dia 2 e vimos que tava uma droga.

- Bora mudar a receita? - perguntei, mas o próximo Cortázar tava no celular - talvez ela não pode responder!

- Ou talvez meu pau é feio em foto e ela vai terminar comigo! - disse quase arrancando os cabelos. Oi? Que exagero! Eu estava um pouco inquieto, somente. Inquieto seu cu, você tava endoidando!

- Primeiro: - respondi colocando os ingredientes na ordem de uso – não existe pau bonito, o pênis é um órgão útil, mas feio. Segundo: foi ela quem pediu a foto!

- Cê acha que eu deveria ir lá? Talvez mandar flores? Sobrou do dinheiro que a m…

- Mano do céu, pára de ser desesperado, tem outras garotas no mundo!

- Com aqueles peitos e aquela cara? Só se for no teu mundo!

Fala do bolo de chocolate Juju! Eu tô falando do bolo! Não, você tá me fazendo parecer idiota contando minúcias que não são relevantes para o acontecimento. Oi? Não são relevantes teu cu porque se você não estivesse desatento, pensado sei lá no quê, teria lembrado de colocar açúcar na massa 4. Eu tava fazendo o favor de te ajudar! Não acredito que cê tá me culpando por um pequeno descuido. NÓS ASSAMOS UM BOLO DE CHOCOLATE SEM AÇÚCAR! Eu tava meramente pensando no nosso porteiro que é diabético e não pode comer açúcar. Aham tá, senta lá Cláudia! Quer saber? vaza do teclado, comigo tava melhor.

O dia três foi o último, a mina nada de responder à mensagem, quando levantei encontrei a Juju descabelada, suja de chocolate e farinha, nossa cozinha parecia cenário de guerra, uma população inteira de pessoas marrons e açucaradas deve ter explodido. Juju foi para o banho e me pus a limpar as evidências do conflito Juju X Bolo de chocolate. Ela cochilou e voltou nova em folha, limpar tudo demorou horas, horas esfregando, lavando, desgrudando, ralando as formas dos outros… Feliz aniversário pra mim! Pensei. Depois da cozinha impecável pedimos pizza, meus pais foram para o quarto. Passei uma hora com a Juju, ela tinha os cabelos em coque, o avental limpo e as mãos precisas, já quase não derramavam nada.

- Opa, a água é fervente mesmo? - perguntei curioso.

- Fervente. Acho que entendi a química da bagaça! - respondeu confiante, dei abraço e um cheiro na minha irmã e fui pra cama. O tempo dedicado ao pornô não funcionou, ao invés de relaxar via a cara da Camile, sentia ciúmes do macho atrás, ou por cima, ou do lado, a criatividade da indústria é enorme! Com risco de parecer desesperado fiz bico de tristinho, selfie, enviei. Peguei no sono ouvindo os sons abafados que vinham da cozinha, amo minha irmã, doida ou não. Owwn… cala boca, interlocutor não participa! Tá lendo pouco Machado de Assis! Beleza, corrigindo, interlocutor só tem a voz dada por mim, tá melhor? Tá, tá valendo. Onde eu estava? Sim, sonhei com a mina coberta de massa de bolo, colocava ela no balcão da cozinha e… Fala do bolo de chocolate! A história é do bolo de chocolate, olha ali o título. Claro, porque pensar no vizinho bonitão coberto de massa de bolo não te desconcentraria! Mas acho que tá faltando alguma coisa... Juju cê acha eu devia contar sobre quando o gás acabou, ainda no dia 1? foi engraçado a beça! Juju, JUJU, tô falando contigo, cacete. Exatamente no que eu tô pensando, cacete! Reaça que pariu, tira esse riso sacana da cara, depois sou eu o pervertido da família. Conto ou não? Contar o que garoto?

Esquece! Era alta madrugada, ou seja, meu aniversário, quando acordei ao som de Secos e Molhados, não me pergunte o porquê, mas minha irmã gosta de música de gente velha, quando descobriu Os Mutantes nosso pai cogitou colocá-la pra fora de casa, resumo da ópera: ganhou enormes fones de ouvidos no natal. Cheguei na sala esfregando os olhos e encontrei a mana dançando como se tivesse usado doce, amamos doce, quem não? Pela cara de feliz achou a bendita da receita perfeita. Quando deu por mim veio correndo na minha direção e pulou, quase não consigo aparar, agarrou meu pescoço e desejou feliz aniversário, naquele instante a mãe veio, seminua, falando palavrões, na verdade ela entrou depois, primeiro veio o tênis voador que acertou a caixinha de som. Acordar meus pais é crime passível de pena de morte, sem apelação. Nosso pai veio em seguida, também seminu, cara de puto. Muito puto. Juju fez pronunciamento como se recebesse o nobel e nos levou à cozinha, o espaço estava impecável e alinhados, meticulosamente, estavam 8 formas de bolo de tamanhos e formatos diferentes. Achei que eu morreria quando a mamãe percebeu que era pra isso que eu tinha acordado vocês. Também achei, mas se ela pudesse alegar alguma coisa que evitasse cadeia levo moh fé que agora seria filho único.

Enquanto a mãe falava um dicionário inteiro de profanidades minha irmã pediu que sentássemos e nos serviu de uma pedaço do primeiro bolo, a pedido meu, como presente de aniversário, minha mãe provou, disse que tava bom, quando eu e o pai provamos sorrimos, o bolo tava fodão de bom. Juju nos serviu de pedaço do segundo bolo, nossa mãe fez gesto obsceno pra ela e ameaçou nos colocar para adoção se fosse acordada. Não duvidamos, não sorrimos. O segundo bolo tava igualmente incrível, meu pai, educadamente, comeu até o quarto bolo, quarta forma, deu beijo na testa da filha e voltou pra cama me desejando feliz aniversário.

Quando chegamos na sétima forma julguei que fosse morrer. Você poderia ter provado só um pouquinho de cada! Queria aproveitar Juju, eu pensava: vai que o próximo tá intragável! Enfim, todos perfeitos, idênticos e o melhor bolo de chocolate já feito na história. A juju me deu um beijo e foi para o quarto, caiu de bruços na cama e apagou, contente de ter dado o melhor presente que eu iria receber.

Eu a cobri e… Não! O quê foi? Acho que você deve parar o conto aqui, comigo caindo na cama, amarra de um jeito mais bonito e pronto. Mais bonito como Juju? é uma pessoa exausta caindo na cama. O Cortázar faria! Teu cu, mas eu tento.

Minha irmã deitou-se na cama, exausta, cobri-a, deitei merecido beijo nos cabelos sujos de farinha e deixei que descansasse, fui pra cozinha, talvez mais um pedaço de bolo de chocolate não fosse mal.

Excelente! Sério? Sério maninho, muito bom. Eram dez da manhã quando despertei do cochilo, a casa estava escura e silenciosa, com medo de ser encaminhado para adoção levei minha existência patética para a cozinha e abracei o bolo sete, a essa altura não fazia diferença, é a primeira vez que vê meu pau e a mina corre, então sexo é sem cogitação. De boca cheia engolia a massa antes gostosa, agora sem graça, como minha existência. A Juju é doida, onde é que vou achar mina tipo a Camile? Meu celular toca, não importa, deve ser a vó, bebo copão de água pra me livrar da sensação do doce, passo um café? Parabéns pra mim que vou ter de me virar com as mãos nos próximos dias, o celular insiste e decido ir buscar, era a vó, depois a tia, uma série de mensagens, mas uma me deixa com frio na barriga, volto para a cozinha me sento diante do bolo oito. Intacto. A mensagem não era texto, mas fotos, uma dos peitos soberbos, outra da boca pintada de vermelho, sorri orgulhoso, parabenizei meu pau modelo e peguei o garfo, aos 16 inauguro o bolo de chocolate.

4 de Dezembro de 2021 às 19:35 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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