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Quinta, 18 de junho, às 02:51 AM

Há algumas horas houve uma queda de energia geral na pacata cidadezinha em que vivo. Sempre que algo acontece que interfere na distribuição de energia de alguma parte do lugar, todas as luzes são apagadas e surge aquele alvoroço das pessoas que estão na rua seja lá por qual motivo. Mas esse dia a qual me refiro foi diferente. Quando tudo foi engolido pela escuridão não houve o menor ruído na rua, excerto de algumas gotas de chuva que insistiam em cair ao longo da madrugada. Fora de casa o silêncio era tamanho, que pensei que os sons também haviam se esvaído junto com a luz.

Desde muito pequena eu gostava dessas quedas de energia, pois em noites assim usávamos velas para iluminar a casa, e as formas e sombras que a chama projetava nas paredes eram fascinantes. Levantei da cama e fui à porta da frente ver a rua e todas aquelas casas embebidas pelo silencioso breu. Aquela visão me fez querer sair para o nada, adentrar naquele manto negro e deixar que ele me possuísse por inteira...

Fui dispersa do devaneio quando, distraída, senti algo peludo e quente passando por entre as minhas pernas; era o meu gato, que tácito e sorrateiro viera trazido pela calmaria da noite. Fechei a porta logo atrás dele e fui para o quarto acender a vela em homenagem aos velhos tempos, percebi que continuo gostando de como a chama bruxeleia e afasta de forma tão bonita e singela a escuridão que nos consome.

Como se para completar aquela atmosfera lúgubre, fui imbuída por uma vontade insaciável de escutar música, achei que situação necessitava de uma trilha sonora, então escolhi a linda instrumental de piano de Tim Burton, do Clássico 'A noiva cadáver'.

A medida que o tremeluzir da vela cria sombras dentro e fora da minha cabeça, a música acalenta até as partes mais inquietas da minha alma, e por um momento gostaria de sentir essa paz melancólica para sempre. Mas isso provavelmente me mataria, mesmo sabendo que artistas como eu vivem de morte. É divino e ao mesmo tempo devastador, traz paz e inquietude, sentimentos opostos que se fundem numa mistura de adorabilidade e agonia. Dois extremos de emoções que parecem pegar o coração com as próprias mãos e ao mesmo tempo que canta uma canção de ninar e o afaga, o sufoca, o dilacera, o mata aos poucos.

O vento lá fora sopra com força, uivando, serpenteando em todas as direções e arrastando consigo folhas e galhos secos que estão espalhados no quintal. Não entendo muito de estações do ano, mas deve ser outono. Parece que tudo conspira a favor desse soturno da madrugada. Penso que um vinho seria ideal para afogar tantos pensamentos aterradores.

Apesar desse turbilhão de emoções e da enchorrada de agruras, diante do ronronar do meu gato dormindo aos meus pés, do bruxelear da vela e da melodia calma, chego a achar que me sinto bem.

Quase...

Por um instante...


4 de Dezembro de 2021 às 18:49 0 Denunciar Insira Seguir história
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