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Adam Silverman


As verdades que cercam a mente humana não são sombrias, mas como a mentira parece doce, ela se torna conveniente. Não se engane, tome cuidado com o que lê, nessa história de família, nada é o que parece.


Drama Todo o público.

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Os Botões

As circunstâncias da vida são fáceis de definir, quando você sai do útero da sua mãe, já te recebem com sorrisos, abraços e esperança. Mas o que dizer das circunstâncias da morte? Talvez você diga :

"Ahhhhhh qual é?... todo mundo vai morrer!"

Mas, se você conhecesse Caíque Belgrano, mudaria rapidamente de opinião. O fato é que, já vi muitas mães, entranhadas com um punhado de Terra entre as mãos, soltas, loucas, pobres, nobres, indagarem a mais nua e crua das perguntas. Por quê? . Na língua portuguesa existem muitas formas informais de perguntar isso. Mas, como sou amante da mutualidade ostentosa da língua, de acordo com a gramática, só existem 2. A diferença entre elas, caso você não conheça, não direi. Mas, eu sou bonzinho vou te responder contando a história da morte de Caíque

Belgrano.

Maroto, de sorriso singelo e estatura média, amava seu cavalo mecânico de 2 rodas. Polida, cintilante, brilhante, minha amante, assim ele a chamava. Estudava no Colégio estadual Adamastor Pitaco, era um bom menino, namorava, brincava, fumava e transava. Mas, imperfeito ou não, o pretérito do cavaleiro mecânico que galopava nas vielas do morro de Santa Acácia, o que mais se fez em sua infância foi chorar. Não o Caíque, se dizia ele doente, ele era um triste de poucas lágrimas, dava-se mais sorrisos, mesmo que forçado. Sua mãe comia farinha seca com carne de urubu, prato finíssimo servido do pelo subchefe da fome, a seca no nordeste do Brasil. Contava-lhe na infância sempre um episódio de quando migrou com seus pais para o sudeste do país . O sol se escondia atrás das cinzas, era a vez do céu chorar. Seus pés já se partiam em vários pedaços sangrentos de tanto andar, seu pai era forte e taludo, mas ruim e raçudo, recusou-se a carregá-la. Sua mãe perguntava:

" Vai deixá-la morrer? sua única filha? . Ele respondeu :

"Terei mais quando você morrer com ela."

Não se assuste com o que ele disse, é pior o que ele vai fazer. Ao cair da noite, 3 horas após o céu chorar, chegaram numa fazenda de milho no interior da Bahia, próximo da casa do velho Chico. Lá morava um coronel barrigudo que caçava os pobres devedores de terra que roubavam suas plantações. Um velho conhecido de seu pai. Empachou então seus pés com água-ardente e espinho-do-cão para cicatrizar as feridas. Sua mãe estava sendo vendida como mulher de ganho ao coronel para divertir o grupo de jagunços, junto com as outras em um bordel local. Recusou-se claro, mas apanhou como égua até que se permitiu a montagem. Infelizmente, a freira não resistiu a porrada e morreu alguns dias depois. Mas, o fato foram suas palavras como charadas insolucionáveis a sua filha:

“ Aproxime-se Charita”, assim chamava: " sou a graça da conversa, mas o desgaste de toda pressa, o que eu sou ?

“Mãe”.. ela disse ...

“Quem dera eu!” Ela respondeu. “E já foi” , disse sua mãe. Meio triste não? .

Charita mudou-se para os vales do lagos em Minas Gerais, saiu corrida, estava suja, descabelada e nua. Nada levava consigo, só a vida. Lutou muito, virtuou-se pouco, mas quem pode julgar a moça maldita, que dessa vida perdida foi morta por uma ferida? Charita trabalhava numa fábrica chamada “Belos Grãos”. Fábricas de confecções e costuras no pé do morro de Santa Acácia. Comia entre agulhas e acordava entre linhas. Caíque cresceu solto nos arredores da fábrica. Vivia contando quantos pontos levava o botão de uma camisa. Sim. Entre gudes, peões, arraias e pipas, o garoto era colecionador de botões. Havia um vaso que para ele escondido , guardava alguns milhares, milhões, migalhas. O vaso era transparente, límpido, reluzente, um reduto de ambição. Para alguns, a graça de uma criança , para outros a raiz de toda ganância. Não podemos dizer que ele era afamado em beleza, cultualidade ou força física, o que se chamava a atenção em caíque Belgrano?”A sua nadisse”, dizia sua mãe. Quando pequeno, miúdo e de olhos esverdeados, era leve como algodão e frágil de pele, dizia ela. Mas ousado, encarou a vida de peito aberto e foi pra guerra vencer como esperto. Tinha amigos caíque Belgrano? Eu não sei responder, mas se soubesse, diria que estavam tapados, tinha mania de posse o garoto mirrado.

Uma certa vez, sua mãe cortou o dedo no filete de corte de selagem de tecidos, era de costume isso acontecer. Mas desta vez foi diferente. O corte a matou, ninguém sabe como , ou porquê, mas morreu Charita Belgrano, mãe de caíque Belgrano. Antes de ir , disse-lhe ela:

“ botões, são seus, todos eles, os botões, os grãos... E então morreu a Charita.

Tinha seus 15 anos quando aconteceu, moravam no aluguel da fábrica, como não haviam parentes, lhe permitiram ficar até o conselho decidir com quem ele ficaria. Com o professor ele ficou. De biologia, sua matéria preferida. Faltavam alguns meses para sua maioridade, eram amigos, dialogavam, fumavam, cantavam. Em um desses pretéritos, lembro do dia que ensinou-lhe sobre os contos da Agatha Christie. Chamou-lhe atenção, não os fatos ou os mistérios, mas a nadisse de tudo aquilo. Quando seu período de estadia com a família do professor terminou, ele lhe deixou um dos botões, e um dizer:

“são os botões'', ela disse, são os botões. Tinha razão, são os botões”.

Passaram-se 20 anos até que se toparam, caíque era Belgrano dessa vez. Um relógio cromado a ouro, reluzia fortemente, seu cabelo catolicamente desenhado exalava beleza e cheirava à realeza. Mudava seu cavalo mecânico com facilidade, uma mais bonita, e mais cara que outra, sua "nadisse", ainda estava ali. Mas, agora” há botões” disse ele, “há botões”. Era reverenciado como Belgrano, " seu Belgrano", o chamavam. Agora, era diretor interino da fábrica onde sua mãe trabalhou e morreu. Com a sua sagacidade e inteligência começou como coletor do escape de botões, evoluiu para gerente de corte, em seguida, mestre de apresamento, e agora diretor geral de processos da fábrica. Belgrano demitiu todos os funcionários de fora do morro, e capacitou todos os que moravam na sede de Santa Acácia. Incentivou as escolas a profissionalizar os alunos para ocuparem cargos de liderança dentro da fábrica. Os donos, com medo do tráfico, viam Belgrano como um laranja da assistência social, usaram sua boa vontade para ajudar a afastar do tráfico a intenção de tomar o poder da fábrica e influenciar sua produção. Belgrano deu título de posse a todos os moradores que moravam nas casas da fábrica, isso evitaria despejos. Certa vez, indagado sobre suas ações respondeu sobre protestos :

" botões, são os botões, eles têm a resposta”.

Da vidraça da sua sala, fumava e via a produção assim como o pôr do Sol. Mas, os botões trancados num pote límpidos e guardados, reservam sua ambição. Não dá pra esconder que a essa altura, o Belgrano , homem de pele frágil, tinha o prestígio do morro de Santa Acácia, não era um benfeitor, um bom interventor, dizia ele:

" Eu não quero mudar o mundo, e não quero vingar ninguém, eu só vi a oportunidade e fiz por aqueles que não podiam fazer por eles mesmos."

Mas, espere. Essa história é um pretérito de “porquês”. E um dia o pretérito bateria na porta de Belgrano. Bateu, era o professor, Hugo. Não disse o nome dele, Hugo era o nome dele.

- o que aconteceu com as suas mãos?

-Amassei uma placa maldita com as mãos!

- Meu Filho...você sumiu por 20 anos.20 anos Caíque. Eu fui ao julgamento naquele fatídico dia em que acabou a custódia, para dizer ao juiz que Alice e eu seríamos seus pais. Minha mãe, sua avó, estava num hospital, eu a deixei lá para ir atrás de você, para provar o amor da nossa família por você, e o que você fez? Sumiu 20 anos ? Sem notícias, sem nada. Só me diga uma coisa. Por..

- Por favor, eu odeio que me chame assim, “Meu Filho”,”Meu”, “Seu Filho”. E essa pergunta, não faça essa pergunta. Pra que falar do passado, pra quê ? O tribunal, a casa, a corte, nada mais importa. Aaaah, e a velha eu agradeço muito ela. No fundo ela estava certa sobre mim, eu não sou um Sargaça.

- então eu não importo? Alice não importa ? Seus irmãos não importam?

- Ahhh meus irmãos, eu os amo tanto....

- então volta pra nós... Volta pra casa .... você não foi pra lá só com 15 anos, você já era nosso Filho desde quando sua mãe teve eclâmpsia, e Alice cuidou de você até se recuperar. Vimos seu primeiro chorinho, seu primeiro soluço, seu primeiro sorriso. lembra que você puxava minha barba para não entrar na banheira? E das vezes que sua mãe viajava para Terra dela? Você já cuidou muito dos seus irmãos... você era feliz!

- Curioso.. já percebeu como as pessoas gostam de compensar o sofrimento alheio com os seus próprios? Alguma vez você já me perguntou se eu era feliz?

- E não era?

-Pai.....eu sei que eu fui ingrato e que eu os abandonei. Mas, eu sou assim, tenho dificuldade em estar com outros, em viver com outros. Não vejo lógica nessa necessidade.

-Mas, e das vezes que sorrimos, brincamos, e você , Talita, Lauro? Não foi de ver...

- não, nunca foi de verdade. Eu sempre fingi estar feliz. Eu queria que vocês se sentissem bem. Mas, eu não estava bem . Eu via a Talita e o Lauro te chamando de pai, eu sei que você queria que eu te chamasse de pai, eu te amo, você é meu pai. Mas, eu me acostumei com a minha existência única, sólida, reservada. Eu.. sinto muito meu pai, mas você tem que ir embora.

- Então... Tudo que a nossa família já viveu, foi uma mentira ? Tudo que fomos pra você foi uma mentira?

- Não ! Vocês não, mas eu sim . Eu sempre fui a mentira, a incoerência, a distorção... Uma piada sem graça da vida.

- o que você não está me contando ? Tem alguma coisa? Não, pera aí ... Tem sim. Logo depois que você sumiu do tribunal eu perdi meu emprego, eu e todos que moravam fora do morro, foi você não foi? meu filho? Como você pode fazer isso com seu pai? Eu tirava a comida da minha família daqui ... Você não pensou que eles poderiam passar fome ?

- De verdade? Não! Você fala de fome, e eu de vida.

- você tem razão, você sempre foi uma mentira, o burro fui eu, que tentei fazer de você uma verdade.

--"Verdade? Deixa eu te dizer a verdade”. Disse ele com lágrimas nos olhos. “Eu nunca te pedi nada . Nada, eu nunca te pedi nada, eu não te devo nada. Vá embora Sargaça”. E cuspiu no chão. Talvez esse diálogo te pareça incoerente. Mas, tenha calma. Você não sabe de tudo.


27 de Novembro de 2021 às 20:19 0 Denunciar Insira Seguir história
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