eugenia-rodrigues1636213629 Drifting Rat

Nunca pensei que o ia conhecer. Nunca pensei que fosse assim que o ia conhecer, Yves Elliot, o meu cantor favorito. E nunca pensei que fosse preciso chamar um ambulância no dia em que eu o fosse conhecer. Ele ensinou-me que um gato malhado e uma rosa não são assim tão diferentes.


Romance Romance adulto jovem Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#amigos #amizade #vida #amor #gato #romance
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Tu tens o teu sarcasmo. Eu tenho os meus demónios. Todas as pessoas tem direito a ter os seus demónios pessoais e i—ntransmissíveis.


— Não, não e não! Não é nada disso, — ela abanava a cabeça em negação e cerrou os lábios — nem é o facto de eu gostar ou deixar de gostar desse indivíduo. Como sabes, eu respeito o trabalho dos artistas em geral e aprecio o de alguns em particular. No teu caso — fez uma breve pausa. — Eu já não te consigo ouvir!

Ela levantou-se da cadeira e começou a andar às voltas no meio do quarto azul, a gesticular com as mãos e a rodar nos calcanhares.

— É Yves Elliot para aqui, é Yves Elliot para ali… É “o Yves é tão lindo!”, “Ele canta tão bem, não achas?”, “Ele é tão perfeito!”, “O meu Deus, o cabelo dele é tão lindo!”… Poupa-me! — parou de rodar e coçou os olhos com uma das mãos, a outra ainda tinha as unhas cravadas na palma. — Já estou a ficar um bocadinho farta disso, sabias? Sabes o que é que eu vou fazer? Vou estudar para o escritório porque aqui já não se aguenta! Se eu chumbar a culpa é toda tua, ficas já avisada! — parou de falar, mas tinha um dedo em riste. — Risco-te os CDs todos e depois quero ver o que tu fazes.

— Tu não és capaz! Sofia Raquel!

— Nem comeces! Se me acontecer alguma coisa, alguma coisa que seja, depois vês… — ela levantou-se com dois cadernos na mão e bateu com a porta.

A maçaneta caiu, mas não me dei ao trabalho de a ir apanhar.

A Sofia era uma exagerada, eu não estava assim tão obcecada com o Yves Elliot, nunca vi nenhum concerto dele, por exemplo, eu passo essas alturas a ver os diretos que os outros fazem dos concertos dele agarrada a uma almofada enquanto choro para dentro de um balde de quilo de gelado de chocolate ou o primeiro que eu veja na arca frigorífica. (É esta a explicação para o “Mistério do gelado desaparecido”, caso alguém precise.)

A única coisa que me consola é o facto dele não ser um artista assim tão conhecido, não chega a ser um astro. Um meteoro é mais adequado. (O Sérgio diria que é poeira espacial, mas quem é ele para julgar?)

Eu só achava engraçado recortar fotos dele das revistas e colar nas paredes com fita adesiva, mas nunca encontrei nenhuma foto dele com a família: o pai latino, a mãe francesa, ou belga, não tenho certeza, só sei que tem um nome lindíssimo, Eleonor, e também tem duas irmãs mais velhas, a Marie Clarice e a Míriam. Mas nunca consegui fotografia alguma e o meu quarto estava cheio delas: algumas novas, algumas ainda da era do “cabelo azul”.

Todas as fotografias, todos os recortes, toda a informação que tinha era a partir do momento em que ele começou a atuar a solo, antes disso tinha uma banda chamada “Old Video Recorder” que não correu muito bem porque a namorada do Yves começou a andar também com o baterista, um tal de Bruno Amaral, o “Tartaruga” como o chamavam (porque o pai dele era corcunda).

Só tenho um nome para ela: é uma grande cabra, trocar o Yves pelo baterista chega a ser cliché!

Fiquei no quarto, deitada de barriga para cima a apreciar pela enésima vez a pintura que a Ângela fez do meu ídolo depois de uma extenuante negociação de gomas de ursinhos. Ela desenha bem, ficou bastante realista, só era pena ela ser um pouco, como hei de dizer… Ela é muito chata. Muitíssimo chata. Insuportavelmente chata. (Acho que já se percebeu a ideia).

A minha irmã tinha deixado uma caixa com CDs no outro dia para que eu tivesse o que ela chama de, e passo a citar, “cultura musical”, mas, acima de tudo, para que eu parasse de a atormentar com, e passo a citar, “a porcaria do Yves Elliot!”

Resolvi erguer-me nos cotovelos e dei uma vista de olhos à dita caixa que estava a servir de pisa papéis, a minha irmã deu-se ao trabalho de me deixar um bilhete.

“Para a minha irmãzinha mui estimada e querida. Se estragares ou riscares ou fizeres algo que danifique moral ou fisicamente o conteúdo da caixa, podes dizer adeus ao teu cabelo porque eu o vou cortar a meio da noite para o vender para fazerem perucas. Se algum estiver partido, tenho todos o direito de fazer valer os meus direitos.

Atenciosamente, a tua irmã que te adora mais do que tudo neste mundo, Sofia Raquel Silveira Matos”.

— Nome e apelido, a rapariga anda a esforçar-se — comentei e atirei o papel para um lugar qualquer.

Da última vez que lhe pedi uma camisola emprestada, ela deixou-me um bilhete onde me tratava por “sua reverência altíssima”, seguido de uma ameaça de arrancar a cabeça às minhas bonecas todas.

Passei os dedos pelos CDs, alguns mais antigos, outros nem tanto; muitos nomes desconhecidos com a excepção de um álbum dos “Lagartos”, a banda favorita do Edgar, que rapidamente escondi debaixo da minha cama, assim já não precisava de pedir e escusava de ouvir um redondo “não” da boca dela.

A Sofia é só dois anos mais velha, mas a diferença parece ser ainda maior: eu pareço mais nova e ela parece mais velha, maioritariamente devido à maquilhagem que usa às escondidas dos nossos pais, visto que à frente deles ela usa sempre a roupa horrível que a tia Odete nos dá pelo Natal ou nas festividades afins, tipo aniversários e coisas do género, mas lá na escola (quando ainda andávamos na mesma escola, velhos tempos) ela usava sempre roupa preta, correntes nos pulsos, e headphones igualmente pretos. Ah, e as botas com coisas pontiagudas, acho que ela era “emo” ou algo do género.

Ela passava muito tempo no quarto quando estavamos em casa, geralmente com os auriculares nos ouvidos e, quando lhe perguntam o que é que ela está a ouvir, normalmente ela é muito erudita e responde algo como Bach, Beethoven ou Mozart e Chopin, nos dias em que está com menos paciência para responder.

O meu telemóvel começou a vibrar e olhei para o ecrã, era a Ângela. Falando do diabo.

— Estou… ?

— Acreditas que és a única pessoa que está a pé? Já liguei para toda a gente e nada! Tudo para a caixa postal! Sinceramente! Não há uma única alma que esteja a pé! Impressionante! Quando preciso ninguém atende! Obviamente que eu não estava a falar de ti, mas olha, podes fazer-me um favorzinho muito, muito pequenino? É que eu não vou puder ir ao teste amanhã devido a… — fez uma breve pausa e ia dizer-me, mas arrependeu-se — a forças maiores… e, como tu és uma das pessoas com mais lábia que eu conheço, fazias o favor de convencer a chata da setora que eu estou doente ou coisa do género.

— Eu…

— Vá lá! É só um favor pequenino, não te custa nada. Se fosse o Jonathan aceitavas logo! Não respondes? Eu tenho razão, não é? Se fosse esse idiota era logo, mas eu, que sou tua amiga, não, não é? Não te custa nada!

— Vou…

— Eu sabia que ias chegar à razão, só era preciso um empurrãozinho. Se não fosses a única pessoa a pé acredita que não te ligava, mas enfim… Boa noite , salvo seja.

— Boa… — mas ela desligou-me na cara. Demónio com penas, era o que ela era.

Abri a minha agenda cinzenta para apontar o “favorzinho” que a Ângela me pediu e reparei que no sábado era o aniversário do Jonathan, sim, o Jonathan que a Ângela tinha usado como exemplo e que tinha chamado de idiota.

O Jonathan… ele era outra história. Ele era o presidente da associação de estudantes, capitão da equipa de voleibol e fazia voluntariado. Muito bonito, com os seus caracóis negros e pele de ébano, os grandes olhos da cor da noite, a melhor definição era dizer que é um Adonis com bom coração.

Logo, a casa dele era pequena demais para receber a gente toda que iria aparecer na festa dele e eu nem sabia onde a ia fazer, mas a Cláudia devia saber, ela trabalha para o jornal, isso tem de servir para alguma coisa.

Toda a gente que viesse era automaticamente convidada, ou seja, eu teria de pedir à Sofia ou à minha mãe para me levarem, mas, até lá, o melhor remédio era ouvir música ou enlouquecia de vez.

8.23 da manhã. Orvalho matinal.

Cheguei morta de sono e com a mochila da “Mia, the Katz” ao ombro, porque a mochila que a Sofia me comprou teve um pequeno acidente de percurso, digamos que tem a ver com leite a ferver e marcadores cor-de-rosa florescente pelo meio…

A parte fácil foi falar com a “vampira sanguinária que empalava as suas vítimas”, a mais difícil foram as cinco folhas agrafadas no canto superior esquerdo.

Resumindo, as perguntas eram confusas e as respostas eram ainda piores, sem falar da quantidade absurda de tinta utilizada para riscar tudo o que estava mal. (Se fôssemos por aí, eu riscava tudo religiosamente.)

Eu era um mero espectador no espetáculo do mundo a desfazer-se à minha frente, ao ritmo de um coração nervoso e assustado e com um saco de pipocas dos grandes: o estado normal de qualquer coração adolescente.

Quando acabou o tempo, eu tinha metade de um lápis roído e três respostas, três de dez, feitas. Seja como for, dane-se! Ia tirar negativa e ia.

Saímos da sala e fui arrastada para a conversa do costume.

— Então? Como é que correu?

— Bem, acho eu. E tu?

— Vou tirar vinte, não se vê logo?

— Pontos, só se for — desataram a rir.

— Idiotas! E tu? E tu? E vocês as duas?

— Positiva, não mais. O resto é milagre.

— Cinco é vitória!

Fui para a biblioteca, nunca aguentava estas conversas durante muito tempo. Já foi. Já aconteceu. Já estávamos tramados.

— Olá, como estás? — ele estava sentado num sofá de pernas estendidas em cima de um puf, com um calhamaço de um polegar de espessura no colo aberto numa página aleatória.

— Olá, Edgar, o que andas a fazer?

— Trabalho de História. Que cara é essa, flor? — ele não tirou os olhos da página, eu sentei-me no puf e atirei as minhas coisas para o chão.

— Queres ajuda? — arranquei uma folha do caderno e comecei a fazer um origami.

— Não, não é preciso. Vais fazer um origami de quê? — virou a página e penteou a franja loura para trás.

— Quando é que cortas o cabelo?

— Não sei — virou para a página anterior, talvez para verificar alguma coisa. — Já agora, vais fazer um origami de quê?— ele olhou para mim e empurrou os óculos para trás.

— Finalmente! Estava a ver que tinha de te arrancar isso das mãos! Vai ser um rato.

— Eu gosto da minha franja e conheço muita gente que também gosta, tipo tu, que adoras despentear-me, não é verdade? Se o que te chateia é o facto de não olhar para ti enquanto estás a falar comigo, só te digo que o teu cabelo continua igual ao que estava ontem e a tua camisola fica-te mal. Era isso que querias que eu visse? — ergueu uma sobrancelha e voltou ao livro. Ele não disse aquilo por mal… desde quando é que ele tinha direito a opinar quanto à minha roupa? Desde quando?

— Tu não estavas a olhar para mim e perguntaste “que cara é essa?”

— Quer dizer, então, que eu tenho razão — ele voltou a puxar os óculos para trás num gesto reflexo.

— Confirma-se.

— Motivo?

— Teste.

— Mau?

Comecei a enumerar pelos dedos.

— Bem, vejamos: morri, ressuscitei, morri outra vez, ressuscitei outra vez, morri e, para minha desgraça, aqui me vês.

— O Apocalipse aproxima-se?

— Cada segundo está mais próximo.

— Eu sabia! — fechou o livro com força, tanta que as empregadas da biblioteca se espantaram, mas rapidamente nos mandaram fazer pouco barulho. Ele apontou para elas. — Elas repararam em mim, tu viste!

— Assustaste-as. É a única maneira de alguém olhar para ti, mesmo.

— Que querida — ele voltou ao livro e eu agarrei-lhe a manga do casaco e comecei a puxá-la freneticamente.

— Edgar, tive uma ideia!

— O que é que queres?

— Para que não haja problemas, julgo que seja importante a gente fazer alguma coisa para impedir o Apocalipse.

— Estás a gozar, certo? Estás a pensar fazer o quê? Pôr as mãos em oração e começar a rezar? — riu-se e tapou a cara com a mão.

— É uma ideia… Porque não?

Ele desceu do sofá e foi para ao pé de mim no puf apertado. (Uma coisa são os pés, outra é o corpo todo!)

— Oremos, irmã — ele tentava parecer sério e fechou os olhos, murmurou alguma coisa e eu imitei-o. Depois tivemos a linda ideia de nos empurrar-mos e em vinte segundos estávamos um em cima do outro a rir e a senhora da biblioteca a dar-nos sermão daquilo ser uma biblioteca e não um circo.

— Mas o que raio é que vocês estão a fazer?

Tinha de aparecer aquela besta de duas patas que tem a mania de me chatear o juízo e que só aturo porque ele é o melhor amigo do Edgar.

Olhei para cima e ele ajudou-nos a levantar, já me atormentava só de estar ali.

— Bom dia também para ti, Sérgio. — comentei de forma seca.

Ele sentou-se numa das pontas do sofá, ao pé das almofadas e pôs uma em cima do colo.

— Cala-te, piolho, estava a falar com o Edgar — ele atirou a mochila para o chão e pôs os pés em cima do puf apertado. (Mais um?!) Pegou no calhamaço do Edgar e riu-se — andas a ler a “ História Universal”, Edgar?

Eu levantei-me do puf, depois de estar a levar patadas e de haver pouco espaço porque o Edgar também lá estava sentado, e sentei-me na outra ponta.

— Que eu saiba, e corrige-me se estiver errada, tu perguntas-te “ o que raio estão vocês a fazer?”

— Mas era para o Edgar, não era para ti, micróbio.

— Nota-se que tens um bocado de falta de vocabulário, homem de Cro-Magnom!

— E tu de criatividade, franjinhas.

— Isso foi falta de criatividade. Mórbida — o Edgar a rir-se muito discretamente, como se pode imaginar, não lhe fosse cair um dentinho.

— Espécime de gnomo de jardim — murmurou e agarrou a almofada contra si.

— Se eu sou um gnomo de jardim, tu és o quê?

— Eu sou o quê? — ele estava irritado e divertido, parecia curioso para saber a minha resposta. Estava a testar-nos: eu e a minha paciência. O Edgar pensou, sabiamente, que talvez fosse melhor intervir e sentou-se no meio, só para o caso de aquilo dar para o torto ou algo do género.

— Tu és um monstro sanguinário, cruel e sem coração, injusto e hipócrita.

Ele levantou-se, pegou na mochila dele e saiu.

— Pelo amor de Deus, Sérgio Valadares!

— Talvez seja bom ires falar com ele… — o Edgar tossiu duas vezes. — Pedir desculpas era uma boa ideia, sabias?

— Vai lá tu falar com ele, foi ele quem começou!

— Deixa de ser infantil!

— E eu é que sou infantil?!

— Tu é que estás a fazer beicinho, não é ele — mostrei-lhe a língua e ele ficou aborrecido.

O Edgar pôs as mãos em cima dos meus ombros e tentou acalmar-me, acho que ele ficou chateado a sério. Olhei para o outro lado e cruzei os braços, que chato! E o Sérgio não merecia que me preocupasse, seja como for.

— Ele só está a fazer fita, sabes?

O Edgar empurrou-me para fora do sofá e apontou para a saída. Que bruto!

Levantei-me, limpei os joelhos e saí da biblioteca. Fui encontrar o Sérgio a jogar um jogo no telemóvel encostado à casa de banho dos rapazes.

— Sérgio…

— O que é que queres, micróbio? — ele não tirou os olhos do aparelho e eu aclarei a garganta.

— Desculpa — olhei para baixo e comecei a coçar o cotovelo. — Desculpa aquilo à bocado, eu exagerei… Desculpa — olhei para cima e fiz um nano sorriso.

Ele parou de jogar e arrumou o telemóvel no bolso de trás das calças.

— A sério? Estás a falar a sério? Sabes que é a primeira vez que me pedes desculpa?

Encolhi os ombros e tentei fazer um exercício de memória para me lembrar da última vez que tinha feito tal empreitada. Nada. Rigorosamente nada, não me lembrei de nada.

— Acredito que seja.

— Sabe bem. Especialmente vindo de ti — começou a rasgar um sorriso, mas arrependeu-se. — Espera aí, foi o Edgar que teve a ideia, não foi?

— O que é que isso interessa?

— Foi ele. Perdeu um bocado da piada, mas pronto… — agarrou-me pelo pescoço com o braço e começou a despentear-me.

— Para com isso, seu idiota!

— Não! — agarrou com mais força contra ele e eu tentava libertar-me do meu predador.

— Para com isso! Estás a estragar-me o cabelo!

— A ideia é essa — ele estava a rir-se e não ouvia nem uma palavra do que eu dizia. Tive de bater o pé.

— Valadares!

Largou-me e estive quase a levantar a mão, mas ele interrompeu o meu projeto de vingança.

— Eu até que vou ter saudades tuas quando sairmos do secundário. És uma miúda… especial, sabias? — tossiu e olhou em volta. — Acho melhor irmos ter com o Edgar, senão ele ainda acha que nós nos matámos ou algo do género.

Desencostou-se da parede e fomos até à biblioteca, ele com um dos braços apoiado no meu ombro, enquanto falávamos de coisas aleatórias, como do novo casaco que tinha comprado na loja que abriu ao pé da praça, muito perto de um escritório de advocacia.

De alguma forma, as palavras dele não saíram da minha cabeça.

— Tinha pelo e tudo! Para além do preço, aquilo foi uma ninharia!

— Tens de o trazer um dia destes, ou talvez mo emprestes, quem sabe…

— É capaz de te ficar grande… — parou de caminhar e mediu-me com o olhos, com os polegares e os indicadores a formarem um quadrado, qual realizador de Hollywood. — Não, vai-te ficar grande de certeza. Eu visto o XL, uma pessoa com 1.97 não pode vestir muito menos. Tu vestes o quê? Acredito num L ou num M, duvido que uses o S, tens os ombros demasiado largos.

— Visto M e, só para que tu saibas, eu gosto de casacos grandes. São confortáveis.

O Sérgio abriu a porta da biblioteca e sentámo-nos no sofá, alheios à presença do Edgar.

— Se quiserem eu ponho-me a andar… pelos vistos vocês os dois já fizeram as pazes, não é verdade? — só aí reparei que o Edgar estava na ponta do sofá, com o calhamaço nas mãos e que o Sérgio e eu estávamos no meio e outra ponta, respetivamente.

— Edgar! Desculpa, não te tinha visto. Estava aqui entretida a falar com o Sérgio que nem sequer reparei que estavas aí…

— Percebo que sou um bocado invisível, mas acho que ainda existo, sabiam?! E, já agora, eu estou aqui desde que vocês se chatearam, mas pelos vistos já fizeram as pazes… — coitado, o rapaz nunca gostou de ser ignorado durante muito tempo, apesar de não parecer. Isto soou terrivelmente mal.

— Edgar, também não tinha reparado em ti, desculpa, mano — ele fez um gesto com a mão como que a desculpar-nos. — Já agora, o que é que aconteceu à pouco? Tipo, quando cheguei vocês estavam um em cima do outro a rir-se no meio do tapete de arraiolos da dona da biblioteca…

O Sérgio arqueou uma das sobrancelhas e deu uma pequena risada, eu fiquei um pouco constrangida e o Edgar resolveu explicar tudo em poucas palavras.

— Ela teve teste à bocado e estávamos a rezar para que não nos caíssem mais desgraças, como o Apocalipse, por exemplo, pelo menos durante umas quarenta e oito horas ou coisa do género.

O Sérgio levantou um dedo e o Edgar calou-se.

— Espera aí, deixa ver se percebi. Então vocês estavam a rezar e acabaram por cair um em cima do outro e levar um sermão da dona da biblioteca?

— Resumindo, é isso.

O Sérgio riu-se, riu-se demasiado alto, a beirar as lágrimas e quase foi expulso da biblioteca.

— Eu não acredito — começou a limpar as lágrimas à camisola — rezar por causa de um teste é ridículo, até para ti, Edgar. Para ela nem tanto, é a pessoa mais crédula que eu conheço, acredita nessas coisas do Além… — dei-lhe uma cotovelada e ele riu-se ainda mais.

— Copiaste por quem, Sérgio?

— Podes pedir a essa gaja que se cale?

— Eu só me calo se bem me apetecer — íamos voltar ao mesmo depois de dez minutos de trégua? Por mim, tudo bem.

— Vocês não vão começar outra vez, pois não? — certo, o Edgar tinha razão. Ele não gosta de trovoadas e eu também não e, para ser sincera, não vou queimar um único neurónio a irritar-me com o Sérgio, era o que mais me faltava! — Continua, Sérgio. Porque é que é ridículo?

— É supersticioso e anti século XXI — fez uma pose superior e levantou-se do sofá, como se se preparasse para um discurso à muito esperado, nunca duvidei dos seus dotes de oratória. — Vocês acham mesmo que, por dizer meia dúzia de palavras, não vão levar com um tornado ou que alguém com uma doença terminal não vai desta para melhor? Se pedirem com muita força, todos os vossos desejos fúteis e supérfluos se vão concretizar? É inútil, é estúpido. O que acontecer, acontecerá, não importa sequer o que pensem acerca do caso. Ou, sequer, se pensam. Estamos condenados ao fatalismo do Destino.

Bati palmas, ele fez uma vénia e o Edgar riu-se.

— Estamos condenados ao fatalismo do Destino. É possível — comentou o Edgar, talvez tão espantado com o discurso como eu, ou espantado só pelo facto de aquele discurso ter existido, que era o mais certo.

— Ela é como a irmã, uma exagerada — pena ter perdido a pose de orador, ficava-lhe bem.

— Valadares! — o Edgar estava sentado na ponta do sofá com o livro da “ História Universal” no meio das pernas e a bater com as pontas dos dedos numa mesinha pequena.

— Já me calei, já me calei, pronto — ainda resmungou para dentro impropérios que eu não cheguei a ouvir bem. — Mudando de assunto, onde é que a gente vai almoçar hoje?

— Sinceramente, — o Edgar pôs o livro em cima da mesinha, não valia a pena continuar com ele porque não o ia ler — não faço a mais pequena ideia.

— Pergunta mais parva, no Caami, como é óbvio, almoçamos sempre lá!

— A Cláudia uma vez disse que viu um rato, por isso acho que é uma má ideia lá irmos — e não era o Edgar a defender a princesa Cláudia, revirei os olhos.

Tínhamos de decidir entre a Cláudia e o velho Carlos do Caami e a escolha era óbvia.

— Caami? O velho Carlos faz sempre bons descontos porque a gente vai lá almoçar muitas vezes!

— Sim, e dar o couro porque temos de preparar as mesas e a comida para o almoço.

— Não é bem isso, eu só acho que quando saímos mais cedo ou estamos de férias, não custa nada ir lá dar uma ajudinha.

— Só que ele precisa sempre de alguém quando lá estamos. Imagino como é que se desenrasca quando não está lá ninguém.

— Pelo menos ficamos com as gorjetas, pensem nisso.

— A menos que sejam como eu que fico sempre na cozinha!

— Pois… Sendo assim, que tal a gente ir àquele restaurante que abriu ao pé do centro comercial? — perguntei.

— Acho que se chama Pérola — o Sérgio enrolou o nome na língua para tentar dar um ar mais chique, mas ficou piroso.

— Tem que ser algo que a gente possa pagar e isso soa-me a caro — reclamou o Edgar e fez uma careta.

— A mim também, mas acho que lá devíamos ir talvez no fim do ano ou num aniversário… Parece que vamos almoçar em casa da Cláudia, mesmo.

— Se ela não tiver uma das cinco mil associações em casa dela. Já está a ficar chata com a história do jornal… — reclamou o Sérgio.

— Sempre a falar mal de mim, não é, Valadares? — perguntou uma voz infantil com um leve sotaque francês. — Já agora, alguém vai ao aniversário do Jonathan?

Encolhi os ombros, os rapazes bem deviam saber do que ela estava a falar.

— Eu não sei. Ele é um retardado de primeira, super convencido, seja como for — rodei o pulso e fechei a mão, ela topou-me logo e eles estavam a leste.

A Cláudia sentou-se no puf ao pé dos pés do Edgar e pousou a mochila no chão. O Sérgio, fingindo-se ofendido, bateu com a palma da mão no peito.

— O que é isso? Eu não era o “retardado de primeira”? Que eu saiba, foi esse o título que vocês as duas, sim, vocês as duas — apontou para mim e para a Claúdia — me deram.

— Ninguém to tira, não te preocupes! — respondi. — Se preferires, o Jonathan é um retardado de segunda, de terça, de quarta, de quinta, de sexta, de sábado e/ou domingo. Melhor, meu caro?

— Melhor. Cláudia, faz favor — fez um gesto para ela continuar e ela assentiu com a cabeça.

— Bem, como eu estava a dizer antes de ser barbaramente interrompida — lançou um olhar acusador para mim e para o Sérgio — o Jonathan Mendes vai fazer anos no sábado.

— Este sábado? — o Edgar pegou no telemóvel para ver as horas e depois arrumou-o — vai haver campeonato juvenil…

A Cláudia nem se deu ao trabalho de ouvir e desceu três tons para que nos aproximásse-mos

— Sim, este sábado, amanhã, para ser ainda mais exata. A festa vai ser no Land, já agora.

— E é esta a parte em que nos explicas porque que é que queres que a gente vá, certo? — dei-lhe uma cotovelada e ele calou-se.

— Pelo que ouvi dizer, aquilo soa-me a interessante. Primeiro a gente vai jantar no Pérola, aquele restaurante chiquérrimo que abriu a semana passada, e depois, lá para as dez ou onze e tal, vamos para o Land onde vai haver um concerto.

— E sabes quem é que vai atuar? — eu fiquei entusiasmada, o Edgar ficou aborrecido por causa do campeonato juvenil e o Sérgio limitou-se a pegar no livro do Edgar. Muito eles gostavam da “História Universal”!

— Isso é que eu não sei — a Cláudia continuava a empurrar os pés do Edgar para fora do puf e o Sérgio estava com o braço à volta dos meus ombros e o livro no colo.

A biblioteca estava abafada e as gotas de chuva continuavam a bater nos vitrais. O Sérgio fechou o livro e tocou-me na cara com o antebraço.

— Aposto que deve ser algo como a banda do teu primo ou quê. Alguma coisa bastante deprimente e barata.

— Ei! A banda do Leonardo anda muito bem, sabias? Eles vão atuar nas Festas de Santa Emília este verão.

— Não me digas que já houve um festival qualquer a convidá-los para serem cabeças de cartaz!

— Valadares — eu levei os indicadores às têmporas para ver se me acalmava, não queria chatear mais a cabeça ao Edgar. — Sérgio, faz um favor a ti próprio, vê se te calas!

— É uma pena que eu não saiba quem vai atuar… — ela estava um bocado abatida e bufou. — É mau para a minha reputação de jornalista, sabiam?

— Não se perdia nada em lá ir… — atirei o barro à parede para ver se alguém me tinha ouvido e, curiosamente, foi só o Sérgio. Impressionante.

— Agora estás interessada? E o Jonathan que era um retardado de segunda?

— Pura curiosidade, só isso, e ajudar uma amiga em apuros. Sou só e apenas uma alma caridosa, mais nada.

— Claro, pura caridade. Sem quaisquer segundas intenções.

— Mas como é que ele tem dinheiro para isso tudo? — perguntou o Edgar, na tentativa de mudar de assunto. Agradeci mentalmente.

— História clássica: os pais dele são ricos e divorciados. O pai dele tem uma fábrica de calçado e a mãe é advogada naquela multinacional que está ao pé da praça,não sei se conhecem… — explicou a Cláudia e o Edgar ergueu as sobrancelhas de espanto

— A sério? Esses advogados são caríssimos! Lembram-se quando o meu tio foi preso, certo? A minha tia contratou um desses engravatadinhos e quase lhe arrancaram os olhos da cara! Mas eles são bons, mesmo bons, baixaram a pena quase para metade.

Levantei-me, para espanto do Edgar e da Cláudia, e susto do Sérgio que já estava quase a dormir no meu ombro.

— Espero que não tenham planos para este sábado, porque eu acho que devíamos ir a essa festa. Especialmente, a Cláudia. Não trabalhas no jornal?

— Sim, — fez um ar importante e afastou o cabelo para trás com as costas da mão — com muito orgulho, como é óbvio, eu transmito a informação para toda a gente e privilegio a que sei que mais irá agradar ao meu público-alvo…

— Cláudia, cala-te! — respondemos em coro e ela cruzou os braços, a resmungar em cima do puf. Tentei fazer-lhe uma festa no cabelo e ela afastou a minha mão, enquanto fazia uma cara de roedor raivoso.

— Com a fama do Jonathan ainda tens um artigo de graça. Vocês vão?

— Por mim na boa — ele encolheu os ombros várias vezes.

— Era para levar os juvenis, mas isso é só de manhã. A que horas?

— Sei lá… lá para as onze no Caami? — arrisquei, sabendo perfeitamente qual a opinião da outra rapariga do grupo.

— Não achas um pouco longe? E há a história de eu não confiar minimamente nesse lugar maldito cheio de ratos! — reclamou a Cláudia.

— Menos, princesa, menos. A casa do Sérgio era uma boa ideia.

— Até era, se eu não vivesse a anos luz daqui, vocês tínham de fazer um desvio enorme. Edgar?

— Na minha casa, também não dá, está lá a minha avó, ela está doente e é chato. Cláudia, tu que estavas a reclamar da distância, que tal em tua casa?

— O meu cão anda solto porque rebentou a coleira e ainda não lhe comprei outra. E o Selvagem não gosta do Sérgio, vá-se lá saber porquê… — eu e Cláudia entreolhámo-nos e chocámos os punhos a rir.

— Cláudia! — resmungou. — Quer dizer que hoje não vamos almoçar em tua casa, Cláudia.

Olharam todos para mim e eu abanei as mãos em desacordo, tinha três pares de olhos a observar-me fixamente.

— Não, não e não. Nem pensar. A Sofia mata-me se entrar alguém em casa! Vocês conhecem a Sofia.

— A tua casa é a que está mais perto do Land! Da tua irmã trato eu, não te preocupes.

— Por acaso… Mas não é caso para… — suspirei alto. — Vou pensar nisso e depois ligo-vos.

— Ok, mas pensa bem, estou a avisar-te — o Sérgio despenteou-me e os outros dois riram-se de mim.

Passei o resto do dia a pensar em quem é que iria atuar na festa do Jonathan e acabámos por almoçar no Caami, com o Sérgio a moer-me o juízo, a Cláudia e o Edgar com as teorias da conspiração, e o velho Carlos com a desculpa que já tinha raízes de que a cozinheira estava de baixa e lá convenceu o Sérgio a fazer os almoços, pelo menos tinha a sorte de que eram só seis pessoas e ele deitou mais sal no meu prato de propósito.

Para mim bastava estar ao pé do Joni uma vez, uma vez que fosse durante a festa toda. Não era todos os dias que se faziam dezoito anos, certo? Quando os fiz, foram uma seca, foi tão, tão aborrecido porque toda a gente estava de férias: o Edgar foi para as montanhas e o Sérgio e a Cláudia foram para a praia. E eu fiquei em casa com o meu querido gelado a derreter.

Mas voltando à vaca fria, quando cheguei a casa ouvi a água a correr, devia ser a Sofia na casa de banho a tirar a maquilhagem.

Bati com os nós dos dedos, abri a porta devagar e encostei-me ao lavatório.

— O que queres? — ela tinha uma caixa de toalhitas em cima do lavatório.

— Estava a pensar numa coisa… a Cláudia, o Edgar e o Sérgio podiam vir cá a casa?

— O Quarteto Maravilha? Bem, depende… Quando? — ela tirou as correntes e limpou o batom preto.

— Amanhã às dez. O que achas? Não te importas, pois não?

Ela pegou numa toalhita e acabou de tirar o rímel das pestanas.

— Amanhã não ia haver o aniversário daquele rapazinho? O … o .. aí, como que ele se chama? — começou a estalar os dedos, era assim que conseguia pensar, apesar de ser irritante. — Aquele que tu gostavas?

— O Jonathan? — corei num tom de salmão fumado, mas ela nem deu conta.

— Esse mesmo! — passou a cara por água e pegou num toalha para a limpar. — Pensava que ias ao aniversário dele. Onde é que é mesmo?

— No Land.

— Podiam ter escolhido qualquer coisa melhorzinha, nem gosto muito de lá ir. Diz-se que dá azar, que aquilo é terra maldita...

— E és tu a acreditar nessas coisas. — revirei os olhos enquanto ela se penteava, mas limitou-se a sorrir.

— É divertido pensar nisso. Tu tens o teu sarcasmo. Eu tenho os meus demónios. Todas as pessoas tem direito a ter os seus demónios pessoais e intransmissíveis. O princípio é o mesmo.

— Juro que nunca te vou compreender, Sofia. Juro mesmo.

— A ideia nunca foi essa — riu-se, mas não com aquele riso maquiavélico de quem anda a aprontar alguma.

— Agora é aquela parte em que me explicas porque é que eu não posso ter gente cá em casa, certo? Visto que os pais não vão cá estar e não — falei o óbvio.

— Vou ter uma reunião hoje dos Amnoky e é muito importante, muito mesmo.

— Um grupo de góticos? — cruzei os braços, ainda encostada à porta.

— Não, não, nada disso! Tanta falta de sensibilidade, meu Deus! — abanou a mão e penteou a franja para trás. — Mas, como eu ia a dizer, a Amnoky é uma associação que tenta ajudar animais abandonados, a reunião de hoje é para aprovar projetos para angariar verba para construir um canil com sala operatória para tratar dos animais quando eles aparecem aleijados.

— Muito nobre da tua parte, não haja dúvida e olha que não estou a ser sarcástica. É uma atitude louvável — cerrei as sobrancelhas. — E é a que horas, se posso saber?

— Onze e meia, se não me engana a memoria.

Engoli em seco e pisquei os olhos várias vezes.

— Sofia! Não estás a falar a sério, pois não? É hora e meia de diferença!

— Eu sei — pegou num pano para limpar a cara. — E não me ouviste dizer que eles não podiam vir, pois não? Vocês só cá ficam até às nove e meia, ainda tenho de preparar tudo para quando os meus colegas aparecerem. Comida, bebida e tal…

— Mas a gente combinou aqui às dez!

— Passa a ser às nove! — ela estava a começar a ficar chateada, eu compreendia que ela tinha a tal reunião, mas eu não tinha nada a ver com isso. E era hora e meia de diferença!

— Com uma condição. Tu levas-nos na Vitória — a carrinha de férias que não é ligada à dois anos e ela engasgou-se, tive de lhe bater nas costas para ela voltar ao normal.

— Na Vitória?! Mas tu estás boa da cabeça?

— Pensa um bocadinho, Sofia — pus as mãos em cima dos ombros dela, a água ainda corria. — Eu, o Edgar, o Sérgio, a Cláudia, e tu vamos ser…

— Cinco. Eu ainda sei fazer contas, sabias? Não sou assim tão burra!

— Pois, somos cinco, de facto, tens toda a razão, mas há um problema crucial: o pai levou o carro e isto é o melhor que a gente tem. Ainda é um bocado até ao Land , sabias?

— Aquilo não está propriamente na sua primeira juventude! Se andar mais de cinquenta metros é milagre!

— Ela chama-se Victoria por alguma razão.

Ela recusou-se a conduzir aquele chaço velho com um vidro estalado, com uma porta um bocado amolgada e com a pintura a sair. E com fugas de óleo. E filtros entupidos. E algumas velas já foram à vida. E um dos faróis não funciona. E o ar condicionado está permanentemente no frio. Recusou-se determinantemente

26 de Janeiro de 2022 às 11:10 0 Denunciar Insira Seguir história
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