silva_writer Silva

O povo sempre teve história. A crendice era coisa corriqueira, mas me lembro bem do monstro encapetado que saia durante a noite.


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O Causo

— Alô? Será que isso tá ligado? Oxe, e o Zé do buteco disse que era só apertar no botão vermelho... Ah! Esse tal de rec aqui... É, acho que tá gravando. Me desculpem esse enrolamento todo, ainda tô aprendendo a mexer nesse negócio de celular. Já faz um tempo desde que alguém chegou aqui pra ver esse veio buchudo, e meus netos não tem paciência de me ensinar então vou mexendo, espero não fazer nenhuma besteira. — Seu Juca deu uma risada rouca enquanto segurava o aparelho. Coçou o bigode e passou a mão na careca pouco antes de tossir preparando a garganta. Deu um gole na xícara e prosseguiu:

— Ah café... Nada como um cafezinho nessas noites chuvosas pra levantar os ânimos... Hoje a gente tem essas cafeteiras, é tudo mastigadinho, mais moderno, mas nada se compara ao café que Dona Lindomar fazia pra mim. Aquele mesmo, moído no pilão! Oh saudade danada da minha madrinha! Dona simpática, muito amiga dos meus pais. Ela sempre trazia biscoitos de forno, e molhava no leite... Era bom demais! Tava olhando umas fotos hoje e lembrei da minha infância. Lá nas brenhas do meu Pernambuco, quando a iluminação vinha da lua e dos poucos candeeiros a gente tinha, eu cresci ouvindo cada causo que cês nem imagina. Oxe, e eu acreditava viu? Medroso que só a gota era eu.

O povo sempre teve história, a crendice era coisa corriqueira, mas me lembro bem do monstro encapetado que saia durante a noite. Meu pai criava galinhas e cabras, era metido à valente, resolvia as briga no grito e atirando pra cima com a espingarda. O problema começou quando os bicho da região amanheceram tudo mortinho da silva. Cabras, novilhos, e até os cavalinhos tavam tudo sendo atacados. O que todo mundo dizia era que tinham marcas no pescoço de onde algum bicho havia chupado o sangue. Na minha cabeça eu logo pensei que pudesse ser uma onça, mas nunca tinha visto uma naquelas bandas. O povo começou a desconfiar que algum fazendeiro soltava algum cachorro grande pra prejudicar outras propriedades, mas a cada noite, outras fazendas eram atacadas. Até o dia que a coisa ficou mais séria e uma criança também foi morta. Daí quando dava umas quatro horas da tarde minha mãe já mandava eu pegar o beco da rua e voltar logo pra dentro de casa antes que ela me batesse com o cipó de goiabeira. Não podia sequer ficar na rede do terraço quando a noitinha chegava.

Já que não podia sair, pegava o meu badoque e mirava nas lagartixas que subiam nas paredes. Uma vez, uma das grandes caiu na cama da minha mãe, ela deu um grito daqueles e meu pai já entrou armado achando que tinha alguém na casa. E como dizem os antigos que mente vazia é oficina do diabo, eu devia ter é ido dormir naquela noite. Meu pai ficou no terraço, do lado do candeeiro, sentado na cadeira de balanço com seu chapéu de palha, a espingarda na mão e um facão por dentro da calça, atento a qualquer coisa que se movesse naquele breu. Quando eu tava zanzando pela cozinha ouvi um barulho vindo lá de trás. Parecia que uma telha tinha quebrado. "Oxe, que misera é isso?" Pensei logo pegando uma vela acesa e fui até lá. Tinha um negócio estranho, uma goteira vermelha caindo do telhado. Quando levantei a vela eu o vi pelo buraco. Feio como o capiroto, magro e cinza. Suas duas presas tavam cravadas no pescoço duma cabritinha, sugando-a como um cão chupando manga... A cabrita deu um ganido horrível enquanto ele rosnava. Eu me tremi todinho feito vara-verde, tava com tanto medo que nem consegui gritar. Aí o miseráve quebrou outra telha e pulou ali bem na minha frente. Caiu com os dois pés, já mostrando os dentes naquela boca toda suja de sangue.

— Sai daí fi da peste! — Meu pai chegou por trás, já atirando. A bala pegou na porta, fazendo o chupa cabra pular de volta para o telhado enquanto o matuto atirava naquela desgraça. Ainda consegui ouvir o urro quando um tiro pegou nele. Minha mãe acordou assustada e nós ainda fomos lá fora ver onde o corpo daquele tinhoso tinha caído. Só que num tinha nada, só um rastro de sangue nas telha. O bicho fugiu, e depois daquela noite ele não apareceu mais. Os ataques acabaram e o povo ficou pouco aliviado depois de tanto desespero. Eu demorei um tempo pra me acostumar a sair de noite, e sempre que saia, ia rezando pra nenhuma aparição dessas ficar no meu caminho. Deus me livre! Um negócio desse na minha frente de novo é caixão e vela preta pra esse véio aqui. Mas as vezes minha gente, mesmo depois de tanto tempo... eu confesso, ainda tenho pesadelos com essa criatura dos infernos.

26 de Outubro de 2021 às 13:35 3 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Silva Alguém que escreve para escapar das garras do tédio.

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Joalison Silva Joalison Silva
Com certeza precisamos de mais relatos do seu Juca, considere o assunto KKKk No geral, gostei. A narração é boa e fluída e o regionalismo dá um toque especial ao conjunto. O relato em si me trouxe boa, se é que essa é a palavra certa KKKkk, lembranças da minha infância, com meu avô e meu contando os causos de quando ainda viviam na roça. Muito bom, merece umas boas continuações. Até a próxima
CC C Clark Carbonera
Adorei o relato do Seu Juca, quero mais...Talvez esse véio tenha algum diário chutado bem fundo numa gaveta velha 👀 Posso te dar uma sugestão na narrativa, Silva? Eu gosto demais da conta de ler narrativas que trazem o regionalismo das personagens, sem falar do jeitinho de elas falarem, e a gente vê isso no relato do Seu Juca. Mas penso que você poderia dar uma revisada no texto, focando no jeito dele falar, porque em algumas partes são usadas palavras corretas gramaticalmente e em outras vem esse regionalismo mais forte que normalmente (com a oralidade) não segue a mesma regra. Ao invés de misturar os dois, escolha um e segue com ele até o final. Numa boa...eu escolheria o regionalismo e o jeitinho do Seu Juca falar e deixaria a gramática formal de lado 😏
October 26, 2021, 16:17

  •  Silva Silva
    Oi Clark tudo bem? Valeu pelo feedback, dei uma ajustada no texto ;) Valeu mesmo <3 Quem sabe tem mais relatos do seu Juca kkk October 26, 2021, 18:04
~