the9intheafternoon Layse Amaral

Una sempre esteve fugindo. Desde muito cedo, correr, se esconder e não olhar para trás faz parte de seu instinto. Entretanto, após um acidente, Alana Holland entra no seu caminho e sente que jamais poderá simplesmente fugir. Depois de 80 anos como lobisomem, Una já não consegue se ver continuando com a maldição que está atrelada ao seu sangue. Maldição de Sangue é a segunda parte da série especial de Halloween, I'm Not A Woman, I'm A God.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#Halloween
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Capítulo Único

Você não escolhe por quem vai se apaixonar. Você apenas um dia atravessa a rodovia, correndo, atendendo a todos os seus instintos, sem uma única vez olhar de um lado para o outro. Então você não vê a caminhonete vindo, em alta velocidade, silenciosa com todos os amortecedores que a engenharia automotiva poderia criar e vender a preços astronômicos. E sente em seu corpo o impacto feroz daquela máquina pesada quando o motorista não consegue nem mesmo desviar a tempo. Você sabe que não vai sentir nada, porque, honestamente, não vai ser um mero automóvel que vai causar danos a seu corpo de 80 anos. Mas sabe que quem está lá dentro, entretanto, pode estar tendo seus últimos momentos. É quando você recua e olha para dentro dele.

E se fosse outra pessoa, se fosse outra situação, se fossem outras circunstâncias, ela teria voado do banco de trás e atravessado o parabrisa, dando adeus a sua coluna cervical e potencialmente a sua existência nesse mundo. Mas há uma redoma ao redor dela, enquanto seus olhos estão fortemente apertados. Seus amigos estão presos pelos cinto de seguranças e enquanto o carro arrasta para trás por causa do impacto, eles vão se machucar, é claro, e você percebe que ela vai sair no máximo com uma dor de cabeça, pelo esforço que faz para se proteger, e muito sem querer, pela forma abrupta e instintiva. Ela espera pelo impacto, é óbvio, mas não vem.

É quando você é impactada. E você olha para aqueles olhos que aos poucos se abrem e você pensa, dentro da sua mente animalesca:

"Quem e o quê é você?"


Para as coisas darem certo, você primeiro tem que tentar tirar o ocorrido da sua cabeça. Ao amanhecer, como quem não quer nada, você se embrenha na cidade, dirigindo a própria caminhonete e se escondendo atrás de jaquetas pesadas e bonés puídos. Se misturar aos moradores como mais uma trabalhadora da classe C é o mais fácil quando você tem algo para esconder. Porque ninguém pensa em um ser sobrenatural vivendo em meio a pobreza; a primeira ideia é que em anos tenham acumulados bens o suficiente para viver em meio ao luxo. Ninguém pensa na parte em que correr e fugir constantemente é algo que é mais do que natural, deixando sempre tudo para trás quando a menor das desconfianças começam. E elas sempre surgem, depois de uma elevação muito grande do número de pessoas que desapareceram sem muitas explicações. "Algo de ruim está acontecendo". Você é a própria coisa ruim, e sabe disso. É algo que nunca te abandonará. Enquanto dirige devagar, o carro passando pela paisagem conhecida, pronta para descarregar material de construção em uma obra no centro da cidade, você a vê.

Nenhuma cicatriz. Na verdade, parece estar nervosamente escolhendo flores na floricultura pequena e abafada. Vai visitar os amigos depois do acidente, é claro. Na luz do sol, a pele negra dela parece ter notas de dourado, mas você sabe que isso é graças ao que assistiu durante o acidente. Os músculos dos ombros são firmes enquanto se inclina para apanhar um arranjo de flores brancas. O cabelo crespo está preso em um penteado que deixa os fios levemente soltos e saindo do coque no centro da cabeça. Os olhos são espertos, amendoados e parecem procurar por algo específico, que nem sabe exatamente o que quer, mas irá entender quando visualizar. O corpo parece frágil, mas você que o seja depois do que viu. E não sabe como, mas se vê estacionando. Precisa ver de perto que ela está bem, mesmo que não tenha nada de errado com ela. Você desce do carro, se esgueira, se coloca entre leguminosas, e então escuta a voz:

"Eu vou levar essas. Sim, a com esse amarelinho no meio".

Ela é tão doce. Você respira fundo e é tão grata ao faro canino e em como pode sentir distintamente o perfume amadeirado da mulher misteriosa. Você fecha os olhos e tão logo consegue perceber notas mais profundas no aroma. E quando começa a se perder no modo complexo que ele se mostra, você escuta:

"Visualizar onde vão as plantas sempre é bom, mas se quer uma dica, eu iria primeiro nas que saberia que conseguiria deixar vivas mesmo passando o dia fora", ela diz para você, com aquela vontade de ajudar ao próximo. Você se vira e ela está ao seu lado, em toda a sua glória, com aquele vestidinho amarelo e branco, acinturado e a fazendo parecer tão jovem e tão pura que você se arrepender de estar ali, com o risco de corrompê-la. Mas ela sorri para você, as flores nos braços, e você acha que é a melhor visão do mundo. "Eu me chamo Alana. Sou mãe de planta, praticamente, então pode confiar".

"Eu sou…" e você não sabe realmente o que é, não diante daquela mulher. Você é uma alma amaldiçoada para sempre, especialmente na lua cheia. Você viveu mais do que deveria, como toda a sua matilha. Você é uma fugitiva, uma farsa ambulante. Você está intrigada por ela. "Eu me chamo Una".

"Bem, Una, eu acho que você poderia começar por cactos. Não são assim tão difíceis de lidar. E eles só querem paz e um pouco de sol todas as manhãs", e a forma como ela fala como se vocês fossem grandes conhecidas a pega desprevenida. Como pode alguém ser assim tão natural? "Afinal, acho que é o que todo mundo quer, não é mesmo?"

"Claro… claro".

E é nesse momento em que você percebe que não tem palavras para se comunicar com ela. Porque ela te deixa nervosa, aquele nervosismo de querer agradar e não saber por onde começar. E isso juntamente com a curiosidade transforma tudo em um conceito de rir, se perguntando como se controlar e ser discreta. Mas ela pega sua mão, os olhos atentos.

"Posso ser honesta? Eu sinto que já a vi em algum lugar antes. E sei que é papo de maluco, mas eu posso jurar…"

"Eu também. Eu posso jurar que já nos vimos antes", você fala, apressadamente. E sorri para ela.

O toque de sua mão na dela é como uma conexão poderosa. E em todas as duas décadas nesse mundo, você nunca sentiu nada parecido. E entende que não pode fugir, não daquela mulher.


Quando as coisas ficam mais intensas, você entende que não há exatamente o que esconder dela.

"Eu sou descendente de lobos", você solta casualmente, em uma noite, tomando chá na casa decorada por plantas e flores de Alana Holland. Ela não se impressiona. Na verdade, ela se inclina para a frente, como se esperasse mais explicações. "Meu pai… ele era um lobisomem. Que teve um relacionamento com uma mulher que também era e… eu nasci. 81 anos atrás, agora."

"Eu sabia que você não era apenas mais alguém cruzando o meu caminho, desde o dia que nos conhecemos", ela diz, com tranquilidade, apoiando a xícara sobre a mesinha de centro.

"É, eu meio que estava farejando você no dia da floricultura."

Mas ela a interrompe, um balançar de cabeça em silêncio. "No dia do acidente."

A forma como você fica sem palavras de cara prova o ponto de que você não fazia ideia de como ela sabia disso. Mas ela sabia. Sempre soube.

"Um lobo daquele tamanho não era natural."

Ah. Claro que não era. E você deveria saber disso.

"Isso não te assusta? Que eu seja uma criatura imortal…?"

"Quase imortal. Ainda morreria com uma bala de prata."

"Você está fugindo da pergunta…"

"Eu sou descendente de uma linhagem de bruxas. Desde a fundação dessa cidade. E eu achava que isso tinha escapado por meus dedos, pulado uma geração, algo do tipo, mas no dia do acidente isso se provou ser apenas o que eu desejava ter acontecido. Então, não, nada que você me conte irá me chocar."

"Eu acho que estou presa a você."

"Eu sei. Eu também tenho a impressão que estava destinada a encontrar você."

Há um silêncio sincero entre as duas, até que você a olha, com sinceridade, e vê ali a calma de uma mulher de vinte e muitos anos que não liga se você é parte monstro. Ela está ao seu lado. Em vários sentidos.


Vocês nunca falam sobre qual o nível de conexão que as une, mas sabe que toda lua cheia é doloroso demais. Porque enquanto você corre, invencível, ela está sozinha e frágil na própria casa. E um dia ela não estará mais lá, enquanto você ainda estará fazendo a mesma coisa, ciclo após ciclo.

"É uma maldição", você diz, deixando suas roupas dobradas com cuidado na cadeira de balanço no quintal dela, com os olhos de Alana sobre você. "E tudo o que queria era que isso não fosse me perseguir para sempre."

E você quer dizer mais do que isso. Quer dizer que a ama e sente que está destinada a passar todos os dias de sua vida fugindo, mas ao lado dela. Mas não consegue. Algo fica preso em sua garganta. E você escolhe que correr para o mato e se deixar transformar é melhor do que continuar aquela conversa com a sua possível única amiga naquela cidadezinha inteira.

"Eu vou quebrar a maldição. Eu vou salvar você", ela promete, com os olhos brilhando sob o luar. "É o que amigas fazem, apoiam uma a outra."

Você então se vira, as patas pesadas afofando a terra, antes de sair em disparada, se embrenhado entre as árvores e as folhas caídas pelo chão, deixando tudo mais liso e lamacento. Porque você sabe que não pode ser salva, não importa o que aconteça. Não há mais uma alma para salvar. Depois de oito décadas, você é apenas uma entidade de outro tempo e outra cultura, até mesmo outro mundo. Quando você nasceu, não era possível, nada daquilo, e ainda é difícil entender que não existe realmente algo de ruim em uma loba cruzar a linha e se envolver com uma humana – seus pais diriam que você está brincando com a comida. E todos os conjuntos de regras a perturbam, e irão a perturbar até o fim dos tempos. Ela aprendeu a ser livre enquanto você corria procurando justamente por liberdade.

E você lança sua cabeça, e uiva para a lua, procurando respostas em meio a própria tormenta.


26 de Outubro de 2021 às 01:19 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Layse Amaral Escritora desde o começo de 2010, acrescentando referências a cultura pop em qualquer ocasião possível desde sempre. Fanfics postadas na conta @notaqueenakhaleesi.

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