izarodrigues Izabelly Rodrigues

Certamente em algum momento de sua vida você precisou ir até o cemitério, seja para dar adeus a um amigo, parente, ou visitar o túmulo caso tenha alguma religião ou acredite em superstições. Já passearam pelos corredores de inúmeras lapides e observaram que todas tem datas. De vinda e ida desta vida. Aposto que você fazia as contas para saber a idade dos mortos e imaginando que tipo de pessoa era, do que gostava, se era boa ou má, e principalmente como morreu. Venha, eu vou te contar as histórias que eu colhi. Um dia, a sua também fará parte do meu livro.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#felicidade #vida #amor #morte #contos
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Genaro: 1920 - 2006



O que mais admiro nos humanos, são seus ingênuos filhotes. Eu conheci muitos durante toda a minha existência, muitos mal chegou a respirar pela primeira vez, e eu já o tive que carregar. Vinham a mim de muitas formas.

Eu os observo de longe, muitas vezes estamos tão perto que até mesmo eu me assusto.

Um homem de poucas palavras, solitário, que vivia dando comida aos pombos para passar os finais da vida com a mente ocupada.

Quem o via ali até sentia pena de sua solidão, mas não havia uma alma que pudesse lhe fazer companhia, exceto os espíritos do passado que o atormentava.

Um dia ele resolveu contar uma pequena parte de sua vida ao comerciante, este que sempre o via sozinho no banco recém pintado de branco na praça.

As crianças eram proibidas de chegar perto ou de trocar qualquer palavra com o velho, ele não aparentava ser alguém de confiança. Pelo menos, aos olhos dos demais humanos, é claro.

O movimento da barraca de cachorro-quente estava fraco, as crianças estavam mais empolgadas em brincar ou implorar por sorvete da barraca que concorria do outro lado da praça. Alguns casais ainda preferiam encher a pança com pão e salsicha, portanto o seu dia de trabalho não seria um fracasso total.

O velho solitário ali comentou com o comerciante frustrado.

Ele teve uma filha, fôra soldado de guerra em sua juventude e se lembra bem do horror da guerra. Ele era jovem, aventureiro, cheio de vida e só tinha olhos para o sucesso. Nada naquela vida poderia atrapalhá-lo. Ele era piloto, segundo em comando de sua unidade de aviadores da aeronáutica brasileira. Movido a honrar o nome da família como o melhor dos melhores, nisso ele nunca falhou, havia uma outra paixão que o tomava de seus pensamentos profissionais.

Quanto bla bla bla

Mas você não contou tudo a ele, não é mesmo, Genaro.

Um belo e jovem piloto. Tinha apenas duas paixões em sua vida, pilotar e uma fêmea, bela e delicada. Ela se chamava Virtudes, era enfermeira, cuidava de todos os soldados. Jovem, bela, talentosa e muito culta. Seus cabelos encaracolados acima do ombro com seu uniforme branco preenchiam os olhos dos homens, e seus pensamentos de luxuria e malignidade.

Magnifica, ele a descrevia.

Demorou para criar coragem para chamá-la para sair, ela não aceitou de primeira, mas logo viu no rapaz um bom partido, para a época, as moças precisavam de bons partidos para ter boa vida, e um militar era mais do que um ótimo partido.

A primeira noite saíram para um restaurante pouco luxuoso, no próximo uma sorveteria e no outro um novo restaurante. O casal apaixonado vivia juntos, e todas as missões de Genaro, Virtudes esperava pacientemente por seu retorno.

Uma noite, Virtudes resolveu agradar seu amado oferecendo-o seu bem mais precioso. Sua pureza, a beleza agraciada de suas curvas nuas. O toque suave de sua pele se misturava com o suor de seu amado, o prazer que nunca havia sentido antes em sua vida, agora estava misturado aquele amor que duraria para sempre.

Genaro partiu na manhã seguinte para sua missão, e Virtudes ali trabalhando como enfermeira todos os dias rezando para que seu amado voltasse aos seus braços.

Podia-se dizer que se passaram pouco mais de 7 meses desde que Genaro saiu para sua missão em direção a Alemanha nazista. Ele nunca mais voltou.

Virtudes havia perdido as esperanças, com as notícias da guerra só era desastre e muitos brasileiros perderam suas vidas. Conheci todos eles, é claro.

Desolada, grávida, e agora sem família, pois se tornou a vergonha, não sabia o que fazer, mas estava feliz por ter se relacionado com um herói que deu sua vida a pátria.

Em uma noite, após sair do hospital onde trabalhava, Virtudes caminhou a rua escura, como de costume, para ir para sua casa que ficava a quatro quadras. A rua estava deserta e ela caminhava a passos largos. Havia notícias nos jornais sobre estupradores pelas redondezas e ela não queria ser pega de surpresa, ainda mais carregando um bebê em sua barriga.

A cada passo que dava era como se estivesse cercada por monstros do além, se sentia vigiada, seu corpo capitava perfeitamente a sensação de perigo e sentiu que algo a seguia. O escuro e as sombras dos objetos faziam com que a caminhada se tornasse cada vez mais assustadora. Até que teve coragem pela primeira vez de olhar para trás. A sombra de um homem a seguia também a passos largos. Ela aumentou a velocidade quase que tropeçando em seus próprios pés, o medo tomou conta de seu corpo e ele todo tremia diante da ameaça. O homem também acelerou assim que foi notado, ela quase corria, com a barriga enorme e pesada, seus olhos se encheram de lágrimas quando percebeu que suas pernas não lhe ajudariam por muito tempo e a boca tremia de medo, a ameaça estava quase ao seu alcance. Para sua sorte, no caminho o bar estava aberto e a noite era lucrativa. Virtudes não se viu com uma alternativa a não ser entrar no bar pela porta dos fundos e se esconder até que o homem fosse embora. “Vagabunda esperta” o ouviu reclamar quando a perdeu.

A noite era de comemoração, sabe-se lá deus o quê, mas homens e mulheres festejavam naquele bar. Quando Virtudes entrou roubou sem querer a atenção para si. Uma jovem barriguda vestida de enfermeira, toda descabelada e suada entra em um bar. Nada apropriado para uma mulher de família.

Ela se sentou nas cadeiras do balcão apenas para esperar a ameaça ir embora. Precisou responder sobre isso ao homem que servia as bebidas e dono do bar, uma vez que mulheres corretas não entraria neste tipo de local, ainda mais gravida.

O homem todo gentil a deixou ficar e garantiu que seu tempo no estabelecimento não seria incomodada pelos clientes pervertidos e bêbados. Ele ofereceu a ela água com açúcar, pois seu estado estava na cara que precisava.

Homens e mulheres da vida festejavam, se beijavam e bebiam. Algumas passadas de mãos nas partes íntimas, deixavam os homens cada vez mais malucos. Se dirigiam para partes mais reservadas e ali continuavam a festas nus. Muitas vezes em grupos, mais homens menos mulheres, mais mulheres menos homens. Os que tentavam qualquer gracinha com Virtudes era imediatamente afastado pelo dono do bar. A propósito, se identificou como Luiz — Eu ainda não o conheci.

Pelo tempo que a jovem passou no bar, com toda certeza já teria se livrado de sua ameaça. Agradeceu ao gentil homem que o ajudara e foi em direção a saída, no caso, pela porta da frente. Ao se deparar com Genaro, quase nu no meio do bar aos beijos e perversidade com outra mulher. Ele a encarou e fingiu que não a conhecia, ignorando totalmente sua presença. Para não sofrer mais nenhuma humilhação a jovem foi embora, entrou em sua casa e chorou até seus olhos ficarem inchados.

O amor de sua vida estava de volta, mas não estava com ela.

Semanas após o ocorrido Virtudes deu à luz a Maria Luz, saudável e parecida com a mãe. Agora mãe solteira e sem apoio, Virtudes se viu em um estado desolador.

Enquanto isso, Genaro retornou da guerra 7 meses após o episódio horrível com a ex paixão. Ignorando completamente a existência de Virtudes, para o tempo que estavam separados não sabia dizer se Maria Luz era sua filha, por mais que Virtudes dissesse que sim, ele seguia acreditando em suas próprias mentiras. A verdade, é que após a única noite em que tiveram antes de seguir sua missão. Genaro se viu satisfeito, percebeu que não era tão apaixonado por Virtudes quanto pensava, bastou 4 dias de cama na Alemanha para se envolver e dormir com outra enfermeira, e lá se vai todos os pensamentos que Virtudes ocupava em sua mente e coração.

Filho? Nunca! Genaro não tinha essa vontade, muito menos queria uma responsabilidade dessas para sua vida. Ele estava subindo em sua carreira, estava sendo o melhor dos melhores como queria. Mulheres era algo que não lhe faltava, então para que assumir uma responsabilidade dessas? Para ele: a culpa era de Virtudes, afinal, mulher direita não abria as pernas.

A justiça havia determinado que Genaro deveria pagar a pensão de sua filha, mas ela nunca recebeu nem um centavo do que tinha direito.

Mais velho e cansado de gozar de uma vida confortável, cheio de luxuria, luxo e glamour, Genaro se viu em uma situação que jamais imaginaria, a guerra havia acabado há muito tempo.

Em um dia de sol, Maria Luz esperava perto ao portão da escola para ser levada para casa. Genaro se aproximo da criança e tentou de alguma forma conversar com ela, porém a menina se assustou e entrou para dentro da escola, notificando que havia um homem estranho sorrindo para ela. A professora por sua vez manteve Maria Luz ao seu lado até que um parente fosse buscá-la.

Genaro ficou ao lado de fora observando a menina através do vidro, até que um homem apareceu. Luiz conhecia Genaro há muitos anos. Ele gostava de frequentar seu bar quando mais jovem, eles sorriram, apertaram as mãos, conversaram um pouco até que Maria Luz saiu às pressas da escola e abraçou o homem, que retribuiu o carinho beijando o topo de sua cabeça. Luiz muito sem graça pegou Maria Luz pela mão e a conduziu para longe de Genaro. Ele ficou observando os dois se afastarem, a menina pulava e sorria, além de chamá-lo constantemente de pai. O que Genaro nunca pensou foi que seu coração se quebraria e estaria em mil pedaços dentro do peito.

Genaro não aceitou a rejeição de sua filha, não aceitou ser substituído. Confrontou Virtudes inúmeras vezes, mas ela não poderia fazer nada a respeito, pois ele não era pai de Maria Luz, nem na certidão de nascimento da menina ele era mencionado, enquanto Luiz fez o papel com perfeição desde sempre, além de ser um excelente marido para Virtudes, tudo o que ela havia sonhado com Genaro, realizou com Luiz.

Genaro jurou infernizar a vida de Virtudes se isso não fosse consertado, mas o que conseguiu foi uma medida permanente de afastamento da família, sendo reconhecido como descontrolado e abusivo.

Maria Luz nunca soube quem de fato era o homem que sorria para ela na frente da escola, mas sempre ouviu a mãe para nunca mais se aproximar de Genaro.

No fim, Genaro passou seus anos jogando comida aos pombos, sonhando com o dia em que sua filha o reconheceria, mas nunca aconteceu. Agora, uma mulher, deixa a neta de Genaro na mesma escola em que estudou, mas sempre com o mesmo alerta, nunca se aproximar do homem que dá comida aos pombos.

Os únicos que ali prestaram homenagem ao grande guerreiro que passou pela vida, apenas o coveiro e seu ajudante. Nenhum parente para homenagear aquele homem, nenhum de seus amigos soldados estavam lá, mas Genaro já sabia como seria seu fim.

A morte acolheu Genaro no dia 25 de agosto de 2006, vítima de um infarto.

25 de Outubro de 2021 às 21:52 0 Denunciar Insira Seguir história
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