bolbatoux Bolba Olivier

Atormentado durante anos após um estranho evento envolvendo sua esposa e sua filha, William se encontra na mesma situação desesperadora durante uma parada no meio de uma estrada.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#paranormal #suspense
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Lembrança De Uma Queda

⠀⠀⠀⠀Era imprevisível se algo como aquilo iria acontecer novamente e isso se tornava preocupante toda vez naquele mesmo período do ano, quando as enxaquecas de William se tornavam constantes e não se sabia se era em decorrência de seu trauma ou de algo mais.

⠀⠀⠀⠀Os terrores noturnos o acompanhavam com as lembranças daqueles eventos desesperadores, agonizantes. Em seus sonhos, sempre tinha aquela visão enevoada, um peso no peito, enquanto tudo o que podia distinguir era a própria silhueta agarrada à criança, sem conseguir segurar a esposa. O mesmo sonho aflitivo e culposo, que William só conseguia pensar que essa teria sido a última visão de sua esposa desaparecida.

⠀⠀⠀⠀Naquela hora, dentro do carro, acordava de mais um desses pesadelos, espantado pela falsa sensação de queda, de seu peito sendo praticamente escavado e a infeliz impressão de estar escutando uma voz bem no fundo de sua mente, repetindo as mesmas palavras: A beira, a beira, a beira. Era uma das sensações mais aterrorizantes que podia sentir, e compreendido dos ocorridos, já estava farto de sempre acordar naquele desespero intenso e buscar Diane por todos os cantos que o cercavam.

⠀⠀⠀⠀Inspirava com força, ao ponto de seu peito inflar até uma leve pontada de dor.

⠀⠀⠀⠀Diane. Dias antes daquele infortúnio, repentinamente havia começado a repetir as mesmas frases, como se estivesse em um transe: "Will, a beira está me puxando", "Preciso pular", "Ela quer a Emily. Eu vou levar a Emily até ela". Aquilo nunca foi um alerta até o dia que ela realmente pulou e quase levou sua própria filha, depois disso apenas desapareceu.

⠀⠀⠀⠀Suas mãos saíram de seu peito e se debatendo um pouco pela tontura, apoiaram-se no banco do motorista que já o olhava um pouco alerta, talvez desconfiado. Marco sabia quando William tinha suas más recordações e os dramas que isso trazia.

⠀⠀⠀⠀— Se for vomitar, me avise para encostar o carro.

⠀⠀⠀⠀William ignorou, estava mais preocupado em ver sua filha dormindo no banco de trás, a cabeça sobre o colo de Jason, filho do amigo. Os dois a sono solto e isso o tranquilizava o suficiente para se recostar no banco mais uma vez. Mesmo depois de tanto tempo era gratificante ver como o adolescente havia se dado bem com aquela garotinha.

⠀⠀⠀⠀Ainda com a dificuldade de manter sua visão estável, massageou as têmporas com as pontas de seus dedos, também tentando controlar a respiração após o susto.

⠀⠀⠀⠀— Isso não acaba — murmurou de forma sofrida.

⠀⠀⠀⠀Por mais costumeiro que aquilo tivesse se tornado, William estranhou que Marco não havia aberto a boca nem mesmo para reclamar depois daquele despertar abrupto. O amigo também não estava em seu melhor estado e ele podia reconhecer aquilo.

⠀⠀⠀⠀— Onde nós estamos?

⠀⠀⠀⠀— Em lugar nenhum — Marco foi curto, até mesmo mal-humorado. — Parece que você está piorando.

⠀⠀⠀⠀— Sei disso.

⠀⠀⠀⠀Aquele comentário sobre sua piora só o preocupava ainda mais.

⠀⠀⠀⠀Sem parar no mesmo lugar por muito tempo, a cada ano, a cada sono, sonho e a instabilidade de sua sanidade ficava mais preocupado com a segurança de sua filha. Pensava e repensava suas decisões de retornar ao lugar onde aquilo havia começado. Somente pelo bem-estar de Emily e nada mais.

⠀⠀⠀⠀Da relutância de Marco em falar sobre aquilo, ele mostrava imenso ceticismo sempre. Tudo ao que chegava a dizer era sobre traumas, ou então o laudo que ele mesmo havia dado para Diane. "Ela era esquizofrênica", ele dizia. Inacreditável de se pensar aquilo quando os dois passaram anos convivendo com ela e nunca haviam passado por qualquer situação semelhante. Mas mesmo que ela fosse, que tipo de psicose explicaria um desaparecimento após uma queda de tantos metros sem um rastro sequer no solo?

⠀⠀⠀⠀Agora todos os anos vinha sendo assombrado por aquilo, sempre ouvindo de Marco que todos aqueles problemas eram somente um trauma.

⠀⠀⠀⠀— Isso está me perseguindo — insistiu.

⠀⠀⠀⠀O motorista não escondeu estar de saco cheio daquela história novamente, mas estava ainda mais irritado do que nos outros dias. Por mais de uma vez, sua preocupação com William era somente para que ele não prejudicasse aos filhos no banco de trás.

⠀⠀⠀⠀— Não posso mais continuar assim. É melhor irmos para casa e...

⠀⠀⠀⠀— O que disse ao Jason sobre a morte da Diane?

⠀⠀⠀⠀A pergunta de Marco foi repentina demais e totalmente inesperada por William, que mais uma vez vinha se desesperando por não saber de onde vinha aquela acusação. Nunca havia mencionado os últimos dias de Diane para o garoto a pedido de Marco, mesmo que não fosse, jamais o perturbaria com aquelas histórias, assim como preferia que a própria filha não soubesse o que havia acontecido.

⠀⠀⠀⠀Apavorado por qualquer reação mais agressiva de Marco, se exaltou um pouco ao responder:

⠀⠀⠀⠀— Eu não disse nada!

⠀⠀⠀⠀— Ele disse uma daquelas palhaçadas, William. Não sei o que da beira. De onde ele poderia ter tirado isso? Do seu diário dos sonhos? Não quero que você fique enchendo a cabeça dele com isso. Você sabe que...

⠀⠀⠀⠀Por mais que Marco continuasse falando tantas e tantas coisas, a bronca não tinha mais som aos ouvidos de William que sentiu seu sangue evaporar de seu corpo e sua visão escurecer como se ele fosse desmaiar de vez. Sentia a queda novamente, como se o banco do carro não estivesse atrás de si e ele estivesse infinitamente suspenso.

⠀⠀⠀⠀Não havia como Jason saber. Apenas se ele tivesse escutado uma conversa sem que soubessem, ou então bisbilhotado as coisas de William.

⠀⠀⠀⠀— Eu não disse...

⠀⠀⠀⠀Os argumentos não se formavam na mente do homem espantado. Não haveria como convencer Marco do contrário.

⠀⠀⠀⠀Ele não parava de falar, em um tom forte, porém volume baixo, como se não quisesse acordar os dois no banco de trás. E William pouco se importava com aquilo.

⠀⠀⠀⠀Via o adolescente dormindo profundamente. Nem a posição desconfortável de um corpo que crescia cada vez mais naquela idade, e nem o balanço do carro pareciam o incomodar naquele momento de total paz.

⠀⠀⠀⠀Diane havia começado assim. Nada incomum em seu comportamento, em sua doçura com a filha, mas então começaram aquelas falas estranhas.

⠀⠀⠀⠀Sem as melhores estruturas para discutir de volta com Marco, depois de tanto olhar para Jason em busca de qualquer sinal estranho, William somente se ajeitou de novo em seu banco, a boca entreaberta, convidando todo o oxigênio que fosse necessário para manter sua calma e algum raciocínio. Pela primeira vez em todos aqueles anos ele também queria acreditar que fosse sua própria mente o sabotando.

⠀⠀⠀⠀Para Marco o recado havia sido passado e havia uma conformidade com o silêncio que predominou o ambiente. Não era como se a reação esperada fosse tão diferente quanto aquela.

⠀⠀⠀⠀Como uma tentativa de distração, o motorista tentou ligar o rádio do veículo, antes que seu único entretenimento fosse tentar outra conversa com o homem catatônico ao seu lado. Infelizmente, nem o rádio e nem William estariam dispostos a produzir algum som.

⠀⠀⠀⠀Naquele trecho da estrada, William constatava a veracidade da informação que Marco o havia passado sobre estarem em lugar nenhum. Uma longa extensão rodeada somente por floresta, sem qualquer sinalização e que mesmo o carro em uma velocidade alta, não parecia estar próximo do fim daquele cenário. Queria pensar que ao menos não haveria perigo ali.

⠀⠀⠀⠀Era uma viagem longa, sem entretenimentos e agora uma atenção redobrada. Aquela informação não parava de bater em sua cabeça em uma nova forma de assombro e ele seguia tudo com o coração martelando contra seu peito, vez ou outra também levando as mãos até os ouvidos, como se fosse capaz de silenciar os próprios pensamentos.

⠀⠀⠀⠀A única distração que poderia ter era a do mapa, que também era mal sinalizado e abusava de sua capacidade em não se enjoar durante o percurso.

⠀⠀⠀⠀— O que é aquilo? — Marco questionou, chamando a atenção de William, que imediatamente baixou o mapa para compreender ao que o outro se referia.

⠀⠀⠀⠀Em um trecho mais à frente na estrada, a vegetação se abria e de onde estavam era possível ver duas estruturas: Um posto de gasolina e um pequeno prédio, ao qual a estrutura era muito escondida pelas árvores que ainda o cercavam.

⠀⠀⠀⠀— Pensei que não haviam paradas — ainda complementou ao lançar um olhar o amigo que servia de navegador.

⠀⠀⠀⠀Mais uma vez o mapa foi levantado, criando certa confusão, dado que não havia nada ali que indicasse aquela localização, por mais que estivessem no caminho certo.

⠀⠀⠀⠀— Não devia.

⠀⠀⠀⠀Sua voz continuava fraca, ele sabia disso.

⠀⠀⠀⠀Com a proximidade, se tornou possível ver mais algumas construções ali presentes que formavam o que parecia ser uma pequena cidade.

⠀⠀⠀⠀Mesmo sem conhecer o local Marco virava naquela curva, em direção ao posto de gasolina.

⠀⠀⠀⠀William não soube o que sentiu naquela hora, mas entrar no território daquela cidade havia piorado em mil as sensações que estava sentindo.

⠀⠀⠀⠀Olhar para Jason foi praticamente automático, no instante em que o jovem demonstrou alguns espasmos, até mesmo afetando um pouco a garotinha adormecida em seu colo.

⠀⠀⠀⠀— Marco, vamos embora daqui.

⠀⠀⠀⠀— Não está vendo que vou abastecer primeiro? O que deu em você agora?

⠀⠀⠀⠀Foi abandonado no carro antes que pudesse dar uma resposta.

⠀⠀⠀⠀Sentiu como se sua garganta fosse espremida impedindo a passagem livre de ar, fez de sua visão ainda mais turva. Nem as inspirações mais profundas sucediam em oxigenar seu corpo e algum calor o tomava.

⠀⠀⠀⠀Os gestos também se tornavam mais involuntários. Quando percebia, uma de suas mãos tremia enquanto a outra repetitivamente arranhava os próprios jeans e certo formigamento tomava conta de suas pernas. Queria correr, fugir, mesmo que soubesse que não podia.

⠀⠀⠀⠀O olhar estava vidrado em Jason.

⠀⠀⠀⠀Talvez fossem seus ouvidos, mas parecia que até a respiração do jovem adormecido ficava cada vez mais alta agora que estavam sozinhos no carro. A sensação era de que o garoto era uma bomba que poderia explodir a qualquer momento.

⠀⠀⠀⠀Tornou-se impossível ficar ali. A dependência que passou a ter em Marco era o que mantinha o restante de sua sanidade, e ele devia se preservar, não por si próprio, mas por Emily.

⠀⠀⠀⠀Do lado de fora vinha um quase alívio, mas não total. O vento batendo em seu rosto e as pernas esticadas agora pareciam de certo reconforto, por mais que aquele medo ainda o dominasse. Ele mal se atrevia a olhar para dentro do carro novamente.

⠀⠀⠀⠀Reparou que Marco havia deixado a bomba totalmente de lado. Ela sequer tinha mangueiras. Agora o motorista do carro estava um pouco afastado à frente do carro, olhando ao redor, como se tentasse identificar alguma coisa.

⠀⠀⠀⠀Pensou em o chamar, mas sequer sabia se tinha voz para isso.

⠀⠀⠀⠀Não precisou. Só de estar ali de pé, Marco já notou sua presença.

⠀⠀⠀⠀— Will!

⠀⠀⠀⠀Vinha se aproximando mais uma vez, agora já não parecendo tão zangado.

⠀⠀⠀⠀— É uma cidade fantasma. Deve ter sido tirada do mapa — passou reto por William enquanto tirava o maço de cigarros do bolso.

⠀⠀⠀⠀William também olhou ao redor, só então reparando o que seu nervosismo não o deixou perceber antes. O lugar não tinha qualquer movimento, nem sequer de algo inanimado sendo empurrado pelo vento. Mesmo assim, de todos os lugares que já haviam passado e se comparado, a estrutura daquela cidade não era preocupante, mas aquele mal-estar dizia totalmente o contrário.

⠀⠀⠀⠀— Então nós não temos por que ficar — mais uma vez sua ansiedade para ir embora falou um pouco mais alto.

⠀⠀⠀⠀Mais uma vez foi ignorado.

⠀⠀⠀⠀Para Marco, como sempre, aquilo era só mais um dos malefícios do trauma.

⠀⠀⠀⠀Apenas seguia o caminho até estar próximo do meio-fio.

⠀⠀⠀⠀Um verdadeiro cretino, apenas ignorando o quão assustado o amigo estava.

⠀⠀⠀⠀Aquele formigamento voltou, mas o primeiro passo que tentou dar, foi falho. A mão se apoiando na janela de carro, fazendo certo barulho. William pode notar os olhos de Jason se abrindo.

⠀⠀⠀⠀O susto havia sido suficiente para que ele se agitasse ao correr, com um nó doloroso se formando em sua garganta, ao ponto que se tivesse que falar alguma palavra, só choramingaria como um animal agonizando.

⠀⠀⠀⠀Agarrou-se às costas de Marco, que em resposta se debateu, com o cigarro aceso em mãos.

⠀⠀⠀⠀— William! Pare com isso! Me larga!

⠀⠀⠀⠀— Vamos embora logo! — suplicou. — Está errado! Eu não disse nada ao Jason! Eu não disse!

⠀⠀⠀⠀Finalmente havia desabado a chorar e aquela aflição finalmente haviam feito com que o outro o olhasse expressando a mínima preocupação. Nem mesmo quando se tratava de Diane, ele nunca havia presenciado aquele desespero vindo de William e se enrolava em saber como lidar, chegava a sentir culpa.

⠀⠀⠀⠀Agora já nem conseguia mais compreender o que o homem dizia aos soluços.

⠀⠀⠀⠀— O Jason.. O Jason... — eram as únicas coisas compreensíveis nas falas de William.

⠀⠀⠀⠀A respiração de Marco também havia pesado enquanto ele apoiava o amigo. Aquela reação realmente parecia grande demais para estar mentindo sobre Jason. Seus próprios pensamentos se tornavam uma bagunça por conta disso.

⠀⠀⠀⠀Tinha atenção demais naquele estado lamentável para olhar o interior de seu carro enquanto se aproximavam. Quando visto, Marco se tornou pálido, como se tivesse acabado de ver uma verdadeira assombração, ou naquele caso talvez fosse exatamente a falta dela.

⠀⠀⠀⠀William foi simplesmente largado sozinho, que ao perceber também, não conseguia se mover.

⠀⠀⠀⠀Nenhum sinal de Jason ou Emily dentro daquele carro.

⠀⠀⠀⠀Os músculos antes agitados de William agora e mostraram dolorosamente rígidos. Congelou ao ponto de não ser capaz de mover o pescoço para os lados e procurar as crianças desaparecidas, mas Marco já havia disparado na direção do carro e olhava tudo ao redor enquanto podia.

⠀⠀⠀⠀— Jason! — gritou à plenos pulmões.

⠀⠀⠀⠀Bruto e imediatista, ignorou os pensamentos de poucos segundos atrás. Agora, novamente em frente a William o balançava sem pena.

⠀⠀⠀⠀— Acorda! Nós precisamos fazer alguma coisa!

⠀⠀⠀⠀Largou-o mais uma vez em um quase empurrão.

⠀⠀⠀⠀Ver o desespero que Marco sentia era como assistir à uma lembrança ruim, como quando procurava sua esposa e filha na manhã em que tudo acontecia, aos berros sem haver uma resposta.

⠀⠀⠀⠀Pela primeira vez, Marco sentia na pele o mesmo que William. A cada chamado pelo nome do filho, era como se suas costas pesassem toneladas e aquele peso fosse atraído com cada vez mais força para o chão. Demorou até perceber que aqueles gritos não adiantariam.

⠀⠀⠀⠀Ambos tiveram que se esfriar. Já haviam passado por aquilo e precisavam ligar os pontos. Um pensamento quase impossível dada a confusão que estava dentro de sua cabeça. Mais uma vez, Will tapava seus ouvidos.

⠀⠀⠀⠀Tinha que focar. Daquela vez tinha que agir rápido.

⠀⠀⠀⠀Com aqueles sons isolados, fez com esforço de sua visão turva, mais uma vista panorâmica, e então como uma resposta óbvia, porém improvável, avistou uma escada de incêndio, em um prédio que ficava ali próximo.

⠀⠀⠀⠀Marco compreendeu sem ao menos ter que trocar as palavras. Mais uma vez disparava em direção àquela estrutura, aproveitando de sua maior reação comparado à William. Sua mente gritava que se ele não fosse rápido seria tarde demais, o que tornava aqueles lances de escadas incontáveis dada a velocidade que subiu até o telhado do prédio.

⠀⠀⠀⠀Sentiu-se encarado quando encontrou o filho ali com Emily em seus braços.

⠀⠀⠀⠀Tudo o que William lhe relatou havia ganho veracidade ali quando Jason se posicionou de costas para a beira do prédio.

⠀⠀⠀⠀Não. Não podia acontecer aquilo com Jason.

⠀⠀⠀⠀Sentiu-se sem escolhas e quando notou, já havia pulado também.

⠀⠀⠀⠀Todos os sentidos pareciam ter se esvaído exceto pelo tato, quando instintivamente pôde capturar um corpo em seus braços. Não se parecia nada como um sonho em que se acordaria a qualquer momento, mas naquela hora, sua mente estava cheia somente de ar.

⠀⠀⠀⠀Tudo havia se escurecido e um forte estrondo soou. O som havia voltado, mas aquele tato já havia se perdido. Os olhos não se abriam, mas era possível sentir o desespero no som dos passos pesados que se aproximavam de si. Marco sabia que não estava morto.

⠀⠀⠀⠀— Mark, Emily! — era a voz de William.

⠀⠀⠀⠀Por que não chamou pelo Jason?! O que foi aquele silêncio depois?

⠀⠀⠀⠀A preocupação o motivou. Esforçou-se para abrir os olhos, mas aquela primeira visão não era o que esperava.

⠀⠀⠀⠀Chegou a pensar que sim, ele estava morto, pois para ele não haveria outra explicação.

⠀⠀⠀⠀A imagem de Diane ali, de pé em frente aos dois homens. Descrita exatamente como estava no dia de seu desaparecimento e um olhar catatônico, sem qualquer brilho.

⠀⠀⠀⠀Respirava pela boca, como se não sentisse o ar há anos.

⠀⠀⠀⠀Não se sabia dizer se até aquele momento ela ignorava a presença dos dois homens, da própria filha, pois logo, seu olhar se voltou para cima e a mão foi até seu peito.

⠀⠀⠀⠀— Diane? — William chamou.

⠀⠀⠀⠀Aquilo esclarecia para Marco que não se tratava de algo que estava somente em sua mente.

⠀⠀⠀⠀— Se abriu mais uma vez — as palavras saíram da boca de Diane como um suspiro.

⠀⠀⠀⠀William não sabia como reagir. Nem mesmo Emily sabia como reagir e sua mínima reação era esboçar o início de um choro quando via sua mãe ali depois de tantos anos.

⠀⠀⠀⠀Mesmo que estivesse chocado com a presença de Diane ali, com a própria presença, toda a prioridade de Marco era outra:

⠀⠀⠀⠀— Onde o Jason está?! — rapidamente se levantou do chão. — Onde está o meu filho?!

⠀⠀⠀⠀Diane ainda parecia avoada, mas foi capaz de compreender a pergunta, e consequentemente a situação. De alguma forma, doeu dentro de si ver aquele homem já perturbado, ao qual sabia que a tendência seria piorar.

⠀⠀⠀⠀Em seus passos de quem parecia aprender a andar novamente, Diane caminhou até Marco.

⠀⠀⠀⠀Não tinham o mesmo ponto de vista, mas sequer era preciso. Ela podia reconhecer a dor que o antigo amigo sentiria dali pra frente.

⠀⠀⠀⠀O abraçou.

⠀⠀⠀⠀— Agora ele está na beira, Mark — sussurrou fantasmagoricamente em seu ouvido, enquanto por cima do ombro de Marco, olhava para o seu marido e filha. — E não sei como o tirar de lá...

⠀⠀⠀⠀A beira.

⠀⠀⠀⠀Tudo pareceu mais real para Marco com aquelas palavras sendo ditas mais uma vez.

⠀⠀⠀⠀A beira, a beira, a beira. Apenas devia ter acreditado antes.

22 de Outubro de 2021 às 02:25 0 Denunciar Insira Seguir história
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