the9intheafternoon Layse Amaral

Três irmãos habitam a casa do final da rua abandonada. Ninguém os viu chegar, entretanto. Muito menos sabem que adormecem dentro de caixões e definitivamente seus hábitos alimentares são uma ameaça aos moradores daquela cidade. Evangeline, a mais nova do pequeno grupo, recebe a missão de encontrar uma forma de proteger a si e ao resto de sua família contra forças maiores que eles próprios antes que seja tarde demais. Este é o Conto 01 do evento de Halloween I'm Not A Woman, I'm A God.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#Halloween
Conto
0
459 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Capítulo Único

Obter a propriedade em um lugar afastado como aquele foi o mais fácil de todo o seu plano. Evangeline precisou apenas usar parte de seu charme durante uma conversinha que não levaria a lugar nenhum, mas que uma pessoa paralisada por sua beleza de matar conseguiria fazer render o suficiente apenas para permanecer no estado de graça que era ter a atenção de alguém como ela para si. Bastou sorrisos e olhares trocados e o antigo proprietário revelou estar escondido ali para vender "o que ele tinha de melhor", e que ninguém de fato possuía a casa, que era uma das propriedades que deveria ir para leilão, mas que enquanto seguia em impasses jurídicos, não tinha exatamente um dono para reinvindicar o local. Foi por isso que ele a fez de laboratório de metanfetamina. E foi por isso que Evangeline sorriu largamente antes de colocar suas mãos magras ao redor de seu pescoço e o torcer, como se fosse um gravetinho de nada. Seu corpo foi enterrado na floresta a alguns quilômetros dali, um presente para os animais e vermes da região.

Ela preferia se alimentar de algo mais saudável que um potencial usuário de drogas. Não queria estragar o funcionamento de seu corpo secular assim.

Complicado foi trazer para a casa, sozinha, os caixões.

Três caixões, cada um para cada membro ainda existente de sua família, ela inclusa. Seria um momento bastante embaraçoso e que teria que escolher entre apagar a memória ou, sabe, apenas eliminar as testemunhas. Mas ainda assim não seria tão complicado e ridículo como foi manter os caixões em um ferro-velho, se sentindo vulnerável e exposta a qualquer curioso. A mudança acabou sendo feita em dois dias, sempre durante a noite, com a ajuda de dois rapazes da companhia de mudanças que contratou. Mentiu que eram câmaras de bronzeamento e que ela tinha escolhido aquele design peculiar por uma piadinha. Óbvio que precisou alterar suas memórias, especialmente quando obtiveram o vislumbre de uma de suas pinturas. Mas nada que a denunciasse.

Depois de 170 anos, se tornou ainda mais cautelosa em deixar rastros; a cultura pop deixou a sua existência em evidência. Maldita Stephenie Meyer e sua história de vampiros apaixonados que brilhavam no sol!

Entretanto, era uma verdade, poucas coisas podiam matá-la. Se fosse desmembrada, ainda iria conseguir sobreviver, seus pedaços retornando um a um ao seu local de origem, como uma maldita enviada do inferno – como todos de sua espécie eram. Amaldiçoados, meras criaturas nascidas da dor e do profano. A autora dos vampiros brilhantes também acertou em algo: dividiam uma rixa pessoal com os outros. O seu predador natural. Claro, não pelos motivos citados na obra. Aquilo foi apenas apropriação de uma lenda para vender um romance adolescente. Mas se odiavam, fortemente, desde a sua criação.

Admirava a silhueta do entregador correndo por sua vida, literalmente, adentrando aquele carrinho e arrancando da frente da residência. Suspirou, sentindo que tinha medido errado a quantidade de persuasão a ser utilizada sobre o homem. Bem, seria um problema. Esperava usar aquelas taças novas com a sua pulsação as preenchendo, mas pelo visto, teria que se virar e atrair presas. O olhar recaiu no jardim, bem cuidado, aparado e verdejante. Gostava de sua beleza e de apreciá-lo do lado de dentro da residência. Era uma pena que até o final da noite, estariam profundamente maculados.


O antigo laboratório ficava no andar subterrâneo da casa. Agora, era o espaço onde descansava, assim como seus irmãos. As luzes frias acendidas a modo de gerar uma meia luz eram o suficiente; na verdade, as mantinha assim por um capricho, já que poderiam os três enxergarem no mais profundo breu. Com delicadeza, destravou as traves que encerravam as tampas dos caixões, que tão logo foram empurradas sem problema algum pela mulher. O ar parado foi substituído pelo aroma de produtos de limpeza e velas acesas do andar de cima. O seu próprio ficava ao centro, com a tampa repousando encostada apenas a base, esperando o momento em que a ruiva iria adentrar o espaço e se permitir dormir novamente. À direita, repousava Adelaide, sua irmã mais velha, com os cabelos escuros como a mais pesada noite. Assim que seus olhos estavam abertos, era notável a profundidade que tinham, assim como a própria Evangeline. Cassius, entretanto, repousava à sua esquerda, com seus cabelos em um tom de ruivo mais escuro que os da sua irmã caçula. Com delicadeza, se encostou contra o seu dormitório. Tinha trocado as vestimentas de mais cedo e trajava um vestido que estava completamente imundo de sangue e terra. Parte do líquido viscoso estava em seus cabelos, como se tivesse sido banhada com ele. Bem, é o que se acontece quando se parte uma pessoa ao meio a erguendo acima de sua cabeça.

— Hora do jantar, gracinhas – os incentivou, enquanto os via levantar e colocar os pés, de modo trôpego sobre o chão empoeirado.

— Por que você parece ter saído de um abatedouro? – Cassius perguntou, próximo o suficiente para tocar em seus fios ainda gotejando sangue.

— Ah, bem, não tive muita sorte com a caça. Ela era mais arredia que o esperado – respondeu, empurrando de modo implicante os dedos longos do mais velho, antes de fitar Adelaide. — Parece um pouco confusa, irmã.

— Fica mais difícil levantar desse caixão com o passar do tempo – ela sussurrou, como se fosse difícil também se expressar.

Evangeline trocou brevemente um olhar preocupado com Cassius.

— Vamos alimentar você – decidiu, tocando a mais velha em seu braço e o enlaçando no seu. — Vamos. Eles estão no jardim.


A madrugada já era nebulosa quando Cassius revirava a terra imaculada para dar um fim aos resquícios dos nove corpos que agora se amontoavam sem vida em uma grande pira que queimava dentro da floresta. Como sempre, esconder os vestígios era crucial. Trabalhava sob o olhar atento de Evangeline, que bebericava vinho em sua taça recém-comprada. Em seu colo, a cabeça de Adelaide repousava em um cochilo não muito profundo.

— Ela está enfraquecendo – comentou com o irmão, em um tom de voz baixo. Sabia que ele a escutaria de qualquer forma.

— Eu sei. Sempre pensei que fosse algo súbito, mas pelo visto, todo sofrimento é pouco para nós – o mais velho respondeu, sem levantar a cabeça, mantendo o mesmo tom de voz da ruiva. — Nós temos que encontrá-la.

— Como? Toda noite eu reviro os documentos da cidade e nunca chego a linhagem correta…

— Não é tão difícil…

— Então por que você não procura a maldita bruxa no meu lugar?

Cassius então virou a cabeça para encarar Evangeline e um segundo depois estava a encarando, furioso, os olhos brilhando com a fúria avermelhada.

— Porque foi você quem nos colocou nisso – as palavras foram cuspidas pelo mais velho, causando no corpo de Evangeline um arrepio de ódio. Eram feras, e se ouriçavam quando acuadas. — Porque você, querida irmã, trouxe a desgraça para todos nós.

— Eu não sabia.

— Você deveria saber.

— Eu não… – O tom irritado fez com que Adelaide se remexesse, inquieta. Por instinto, Evangeline tocou o rosto da irmã com cuidado, afagando e indicando que estava tudo bem. Podia sentir seu corpo mais quente, como se estivesse ao sol – quando ainda podiam permanecer ao sol. Adelaide seria consumida por chamada dela mesma, em breve, mas não tão breve que ela pudesse não sofrer e sentir cada um dos efeitos. — Ele queria morrer. Ninguém com poderes como ele iria escolher ser drenado por uma vampira a tentar se proteger.

— Isso não importa agora, Evangeline. O que importa é que o maldito coven nos quer mortos. E vão conseguir, um por um. A não ser que consigamos uma outra bruxa para reverter o feitiço – seu tom de voz era taxativo, o que fazia Evangeline o encarar com desprezo enquanto o via se voltar ao trabalho braçal mais uma vez.

— Se ela quiser reverter o feitiço – ela o lembrou, pensando que não era a primeira vez que tentavam.

O primeiro membro a ser atingido foi o pai de todos eles; o criador do clã foi se deteriorando aos poucos, até se consumir, dentro do próprio caixão, em fogo. Combustão espontânea, não restando mais nada. Sentiram o perigo eminente, sabendo que alguma coisa estava a caminho de todos eles. Então a companheira de Cassius se lamentava de estar fraca, não importando a quantidade de sangue que ingerisse. Se questionaram se, após tantas décadas, era possível adoecer com o sangue de suas presas. Só então Evangeline revelou ter se alimentado de um bruxo, alguns meses antes. A ideia de alguma vingança mágica os atingiu de imediato. Procuraram combater fogo contra fogo, mas de nada adiantou. Quem iria querer estar a serviço de criaturas tão abomináveis? A companheira de Cassius partiu dias depois, mas ele não se conformou e decidiu que iriam retirar aquela segunda maldição de cima de sua família. Custasse o que fosse.

— Ela vai.

O som longínquo do uivo de um lobo cortou o silêncio daquelas últimas horas da noite.

— Talvez tenha razão, caro irmão – Evangeline pronunciou, com cuidado, tomando mais um gole de vinho enquanto acariciava os fios do cabelo da irmã mais velha. — Nós somos o que existe de mais próximos de rivais à altura deles. E isso é de um grande valor.


21 de Outubro de 2021 às 00:13 0 Denunciar Insira Seguir história
0
Fim

Conheça o autor

Layse Amaral Escritora desde o começo de 2010, acrescentando referências a cultura pop em qualquer ocasião possível desde sempre. Fanfics postadas na conta @notaqueenakhaleesi.

Comente algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~