lucie Lucianealves

Bella é uma princesa presa em uma maldição... Allan um rapaz tímido com o "suposto" poder de quebrá-la. Uma versão nova do clássico contada pelos olhos do belo. Mas não se preocupe, não teremos uma garota parcialmente desfigurada transformada em monstro. Apenas alguém livre que sabe que toda rosa por mais linda que seja pode aceitar seu destino de viver resguardada entre seus espinhos.


Fantasia Medieval Todo o público.

#romance #lobos #amizade #maldição #clássicomoderno
1
345 VISUALIZAÇÕES
Em progresso - Novo capítulo A cada 15 dias
tempo de leitura
AA Compartilhar

CAPÍTULO 1

Os primeiros raios de sol do amanhecer começam a entrar sorrateiros pelas frestas das paredes do quarto, tirando Allan de um sono tranquilo e repleto de sonhos recheados com as mais diversas aventuras. Desperto, o rapaz levanta, troca de roupa, arruma seus cabelos escuros bagunçados e após jogar um pouco de água fria no rosto, sai para seus afazeres.

O rapaz cheio do vigor da juventude, mas um pouco atrapalhado pelo sono, cumpre suas tarefas costumeiras com a peculiar destreza de sempre. Trata das galinhas com alguns grãos, busca água fresca no poço e cata alguns gravetos secos para acender o fogo.

Voltando para dentro da cabana, ele se põe de joelhos na frente do fogão. Após um tempo, a chama brilhante se acende entre a madeira seca. Pondo uma velha chaleira com água para o chá sobre o fogo, ele levanta-se, batendo a poeira das calças surradas na região dos joelhos.

ㅡ Allan...?

A voz fraca de sua avó o chama de seu quarto. Ele segue para lá rapidamente, encontrando a velha senhora sentada na beira da cama, lutando para levantar-se.

ㅡVovó... ㅡ ele a ampara e ajuda a pobre velhinha a erguer o corpo frágil da cama. ㅡ Fique deitada. Eu trago a sua comida aqui se quiser.

ㅡ Não precisa, querido. ㅡ a voz tranquila dela o deixa mais confortável. ㅡ Está um dia bonito demais para ficar na cama.

ㅡ Mas...

Ela o corta com um gesto da mão e ele desiste. Aquela velha ainda era teimosa demais para se entregar fácil para o cansaço. Amparando-a com o braço, ele ajuda a idosa a chegar na cozinha e depois a acomodar-se sobre uma das duas cadeiras que haviam ali.

A cabana era pequena e composta apenas por dois cômodos. O quarto de sua avó e a área da cozinha, onde ficava o fogão feito de barro e tijolos, a mesa com duas cadeiras e uma estante feita com tábuas na parede, onde ficavam os utensílios de cozinha. O quarto do rapaz ficava num cantinho, separado por uma cortina de retalhos, onde havia apenas a cama, um baú pequeno com suas roupas limpas e uma bacia com água para lavar o rosto, esta posta sobre mesinha improvisada, ao lado de seu precioso livro de contos de fadas.

ㅡ Está um dia quente hoje. Acho que estamos entrando na estação do calor. ㅡ a avó diz, olhando pela janela.

ㅡ Sim. ㅡ Allan concorda, pondo folhas secas de ervas na chaleira de água quente.

Após preparar o chá, ele o serve em duas canecas e entrega uma à sua avó. Remexendo nas prateleiras, ele pega dois pães meio ressecados e junto com um pote de mel, entrega um nas mãos enrugadas da senhora.

Os dois tomam seu desjejum em silêncio. A comida estava escassa nos últimos dias e as coisas não estavam fáceis. Mesmo assim, sua avó tentava manter um sorriso no rosto e também desejava o ver em seu neto, um rapaz tão jovem, mas fadado ao cargo de cuidar de alguém tão decrépta como ela.

ㅡ Eu vou até a cidade depois. Acho que consigo trocar umas galinhas por pão e outros produtos. ㅡ Allan fala baixinho, com a caneca de chá nas mãos.

ㅡ Tudo bem. ㅡ ela diz, com um sorriso afável.

ㅡ A senhora vai ficar bem enquanto eu estiver fora?

A velha sorri. Ele jamais deixaria de pôr as necessidades dela acima das suas. Isso a entristecia tanto por dentro. Ele merecia mais do que viver preso em uma choupa-na velha com alguém à beira da morte como ela.

ㅡ Não se preocupe, eu ficarei bem.

Nesse instante, batidas fortes se fazem ouvir do lado de fora.

ㅡ Quem será? ㅡ ela pergunta, olhando desconfiada para a porta.

Allan vai até a porta receosamente e a abre. Era o Doutor Davis.

ㅡ Bom dia. Como estão? ㅡ o homem baixinho de meia-idade já vai entrando mesmo sem convite. ㅡ Que dia bonito, hein, senhora Campbell?

ㅡ Sim, Carllos. Está um dia muito bonito hoje.

O homem se senta na cadeira antes ocupada por Allan e o mesmo serve uma caneca de chá para o doutor. Seu comportamento não era dos mais educados, mas isso se devia ao fato de a quase cinco anos ele tratar da saúde da sua avó sem receber pagamento em troca. Por isso, Allan não se importava em ser deixado de lado naquela visitas e nem de oferecer um pouco da escassa comida que tinham a ele.

Deixando os dois conversando na cozinha, o rapaz se dirige ao seu quarto, onde pega seu livro e sai da cabana para o ler. As páginas já estavam amareladas pelo tempo e ele sabia a história de cor, mas a sensação de abrir o livro e mergulhar naquelas palavras conhecidas nunca mudaria.

Ele amava ler. Amava viver as aventuras contidas naquelas páginas junto com os personagens fortes e destemidos. Era como conhecer o mundo sem precisar sair de sua própria casa.

ㅡ Sair da minha própria casa... ㅡ ele diz baixinho, escorando o corpo no tron-co da velha árvore, onde por anos ele sentou-se à sombra para relaxar e ler um pouco.

Seu pensamento voa ao olhar para uma nuvem solitária pairando no céu. Como seria viver algo diferente? Algo desconhecido e totalmente inusitado. Talvez uma fantasia? Ou um romance? Não, não. Romance era... Ele sente suas bochechas arderem com o pensamento. Romance era algo com o qual ele não poderia sonhar. Nenhuma das moças de sua idade se interessaria por ele. Um rapaz simples, pobre e com uma avó doente. Não que pudesse usar sua avó como desculpa para isso, mas era a realidade.

Ele não tinha como deixá-la quando ela mais precisava dele. E os tempos eram difíceis em qualquer lugar do pequeno vilarejo. As pessoas se viravam como podiam. Os impostos eram absurdamente altos, o rei era um tirano e nada prosperava no reino a não ser o que ficava dentro dos muros do castelo.

Por isso ele apenas podia sonhar. Sonhar com um mundo onde pudesse viver e ser realmente feliz.

ㅡ Allan...? ㅡ a voz aguda do doutor Davis o tira de seus pensamentos.

O homem o chamava da porta dos fundos da pequena cabana. O rapaz, preocu-pado que pudesse ter acontecido algo à sua avó, levanta-se de imediato.

ㅡ Sim? ㅡ ele pergunta, entrando na casa.

ㅡ Sente-se aqui, querido. ㅡ sua avó diz, indicando a cadeira à sua frente.

O rapaz o faz, em silêncio. Ninguém diz nada por um tempo e aquilo intriga o jovem. O que estaria acontecendo ali que ninguém queria contar para ele? Era sobre a sua avó? O que mais poderia ser? Ele estava prestes a perguntar, quando o doutor fala primeiro:

ㅡ Você estaria disposto a deixar essa casa, Allan?

A pergunta o pega desprevenido. Ele não estava esperando nada do tipo. O que o doutor estava dizendo? Aquele era o lar deles. A família Campbell sempre viveu ali desde que ele havia nascido. Por que aquela pergunta agora?

ㅡ Como? ㅡ ele balbucia, ainda perplexo.

ㅡ Eu recebi uma proposta, Allan. ㅡ o doutor diz, sério. ㅡ Na verdade, eu sou o mensageiro de alguém que resolveu propôr algo irrecusável.

O tom sério do homem meio que o deixava desconfortável. Allan não estava acostumado a ver o doutor falando tão seriamente sem um sorriso brincalhão nos lábios. De que proposta ele estaria falando? E o que aquilo tinha a ver com ele?

ㅡ Eu não estou entendendo. ㅡ ele diz, desconfiado.

ㅡ O doutor Davis foi procurado por alguém importante. ㅡ sua avó diz. ㅡ Alguém de fora do reino.

ㅡ De... Fora do reino? ㅡ o rapaz pronuncia as palavras pausadamente.

ㅡ Sim. ㅡ o doutor confirma. ㅡ Essa pessoa de fora quer contratar os serviços de um jovem. Alguém como você, Allan.

ㅡ Serviços? Em quê eu seria útil? Não sou bom em nada. ㅡ ele se pronuncia, sem entender como poderia trabalhar em algo fora de sua experiência, que no caso, era nula.

ㅡ Calma. Não é serviço braçal e nem nada necessário de experiência. A pessoa em questão apenas necessita de companhia.

ㅡ Não estou interessado. Não posso deixar minha avó aqui sozinha. ㅡ ele diz, convicto.

ㅡ Allan... Apenas escute, sim? ㅡ sua avó sorri gentilmente.

Ele assente e resolve dar uma chance para o homem terminar de falar.

ㅡ Acontece que essa pessoa é alguém importante. E com importante, eu digo, rica. Seu mensageiro me ofereceu 50 moedas de ouro apenas para encontrar alguém que se adequasse ao serviço.

ㅡ Cinquenta moedas de ouro?! ㅡ o rapaz se surpreende.

ㅡ Sim. E isso não é tudo. ㅡ o doutor abre um enorme sorriso. ㅡ Essa quantia pode ser paga a cada semestre dependendo de por quanto tempo seus serviços forem requisitados.

ㅡ É muito dinheiro... ㅡ Allan pronuncia, baixinho.

ㅡ Sim. ㅡ o doutor esfrega as mãos.

ㅡ Mas... Vovó... ㅡ ele olha para a senhora miúda em sua frente.

ㅡ Eu vou ficar bem. ㅡ ela diz, com um sorriso. ㅡ Carllos me levaria pro vila-rejo e me deixaria viver em sua casa. Com esse dinheiro, tanto a família dele quanto eu ficaremos bem.

Mas e eu?, Allan queria perguntar. Quando e pra onde ele estaria sendo manda-do em troca desse dinheiro? Mesmo assim... As condições deles melhorariam bastante. Sua avó poderia ser tratada com remédios melhores e até a família do doutor poderia ter melhores condições de vida. Tudo dependia dele. Da sua decisão.

ㅡ Eu... ㅡ ele começa, amassando as bordas da capa do livro que continuava em sua mão.

O livro... A aventura. A sua chance de desvendar o desconhecido e inesperado destino. Estava ali, à sua frente, apenas esperando que ele a aceitasse.

ㅡ Eu vou. ㅡ ele diz, por fim.

ㅡ Ótimo. ㅡ o doutor bate palmas de entusiasmo. ㅡ Então se apressem. Juntem suas coisas que partiremos ainda hoje.

Como não havia muito o que levar, eles partiram em poucos minutos. A carruagem alugada pelo doutor os trataria de levar rapidamente ao vilarejo e logo após ao segundo destino, esse um pouco mais distante.

Allan estava em um estado estranho, como se tivesse sido hipnotizado e a pessoa tivesse esquecido de estalar os dedos para trazê-lo de volta. Ele estava saindo do conforto de sua casa para algo completamente desconhecido. Aquilo era tão estranho. E cada vez que olhava para sua avó, ela lhe acalentava com um sorriso, como se entendes-se a confusão estampada no rosto do neto.

E de fato, ela entendia. Essa parecia a benção pela qual ela rezava todos os dias. Bom, a segunda delas. A primeira sempre foi morrer logo para deixar de ser um peso para o rapaz, mesmo que ele negasse veementemente isso.

Aquele seria um novo começo para os dois. E ela torcia que fosse um com um final feliz para ambos.

20 de Setembro de 2021 às 14:06 0 Denunciar Insira Seguir história
1
Leia o próximo capítulo CAPÍTULO 2

Comente algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 5 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!