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Gabriel Felipe Montes Lima


Até onde pode ir uma alma torturada? Dragomir é princípe do maior império do mundo, mas de que isso vale se não há amor em seu coração?


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#drama #poesia #Russia #teatro # #roteiro
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Cena Única


(Em uma sala do trono , luzes laranja ao fundo , um punhal sobre uma mesa de centro. Entra Dragomir .)

Dragomir
(profundamente transtornado) :
Vão-se as noites de procela...
O vento sibilando , serpente aguda ,
Corta o frio da madrugada!
Vinde ! Vinde , oh dama gelada ouvir
Meu canto , a sonora canção
De todos os malditos !

(Ouve-se um grito coletivo.)

Ah... Crianças da noite , sois vós ,
Meus demônios que me chamam?
Sois (pelos céus!) ...sois vós !
Vejam ! Do oeste a lua se levanta.
Que agouros traz consigo?
É o nome do Mal que ela murmura.
Escutem! ...... "Dragomir , Dragomir"
Ela vem chamando.

(Se embriaga pelo som imaginário , deixando , lenta e pesadamente, diluir-se sua agitação. Suspira.)

Ai! Bátiushka * , tu sentes o toque
Funéreo da morte que se aproxima?
É de meu pai a mão que me toca!

(Pausa dramática. Dragomir abre um sorriso onde não se podem identificar claramente alegria e ironia.)

Ou será tu, minha querida ?
Vieste enfim me arrebatar?
Enfim minh'alma bailará com
Os anjos do teu céu?
Ai , minha Khatiêrina , ouço tua
Voz além da janela !
É nossa canção que vens cantando?

(Fita o público com um olhar alucinado.)

Não... É a voz do meu suplício que
Ressoa por esta masmorra!
Sentem? Sentem como a brisa
Murmura além da torre?
Como o inverno chega com
Sua lúgubre nevasca?
Como ecoa da morte um
Arrastar de correntes?!
São meus demônios que se libertaram!
Khatiêrina! Khatiêrina...
Vinde aqui me confortar ...
Teu príncipe é hoje um miserável.
Mísero dos míseros ,
Infeliz entre infelizes!
Meu coração ? Sentes se ele
Ainda bate ? Se ainda pulsa
E canta a vida neste meu ser?
Ou serei este cadáver?
Sim! ... "Infame" eu escuto
Quando gritam , meu amor!
E dizem : " o fracasso caiu
Sobre a casa de Romanoff !
Caiu no dia em que do inferno
Houve saído teu príncipe Dragomir!"

(Silêncio.)

Mas hoje... Hoje , enfim , quando a
Lua subiu no céu a estrela polar
Sorriu para mim e seu riso
Foi a voz do meu amor !
Ai ! O amor , esta víbora imprecisa,
Ávida de ódios que morde a
Mão que lhe sustenta!
Mamiênkha ?! Papascha?
Vieram me ver? E sorriem enfim
De plenitude ? Ai , doce sorrir ,
Para mim nunca foi dada
A bênção da risada...

(Sua expressão torna-se ,aqui, profundamente carregada.)

Tão cedo vos levou o tempo...
Cronos tirano , levaste de mim
Minha primeira alegria!
E o que me deram? O que
Fizeram com o príncipe
Sem pais? ...

(Silêncio. Dragomir assume uma expressão de tristeza profunda e , ao mesmo tempo, intenso sadismo.)

Deixaram que à míngua crescesse ,
Que vagasse sozinho pelos
Cantos do castelo ,
Que errasse sem amor pelas salas,
Que comesse com os cães
O que caia da mesa dos nobres...
E que desse graças , infeliz ,
Por ter o que comer...
Lembra-te , Dragomir , do
Barão de Petersburgo ,
Homem do diabo?
Longa barba branca , olhos azuis
De íncubus infernal , voz tranquila
Como a brisa...
Ele veio ao meu canto sombrio
Por uma noite . Era frio
E a noite uivava além dos muros
Do castelo , mas eu...eu não dormia,
Pois a agonia, o ódio e a desgraça
Sempre mantém alertas os
Miseráveis!( Ai de nós que
Não temos sono!)
Ele veio na madrugada...
Sim! Eu lembro como se ontem fosse!
Ele veio e ,como um cão
Sedento me agarrou inda criança
E uniu-se a mim , carne por carne,
Membro por membro,
Sangue por sangue....
Ah! A dor, depois desse dia,
Tomou de vez meu coração...
Lembra-te de madame Lionoff ?
Bruxa maldita, que Satã vos
Tenha no fogo do inferno!
Foste a senhora que me negaste
O fogo quando a neve me cobriu
E negaste o pão quando tive fome!
Malditos! Malditos todos!
E as crianças?! Demônios
Infantis ! Riram de mim quando
O destino me fez órfão ,
Não é? E se deliciaram com a desdita
De um decaído...
Ai ! Vinde , minha dor,
Vinde cantar comigo
Estes versos de angústia!
Ainda estás aqui , minha
Querida? Khatiêrina?
Khatiêrina ,somente tu
Não me abandonaste!
Mas ... Ah! De tanto incidir
O gelo sobre a rocha a pedra
Se rachou e de tanto chorar ,
Meu ser se tornou forte!
Olhem, meus amigos como
O ódio me fortaleceu ,
Me dando forças quando a
Crueldade humana me tirava tudo ,
Como a vingança é um
Prato que se come frio ,
Frio , frio como a neve que
Cai sobre a brasa !
E , enfim, eis-me aqui , sombra ,
Carne e homem!
Lembra-te , querida de quantos
Prantos não derramei nas
Noites em tormenta?
Lembra-te do beijo amigo que
Me deste e de como, na boca
Pecadora, gestou a noite os
Mais loucos sentimentos?!
Não , meu amor ! Por que te vais?

(Vai até a mesa e pega o punhal.)

Foi por te amar... por te querer!
Khatiêrina! Khatiêrina!
Ainda me escutas?
Ou deste vale de sombras já
Eis-me estranho para ti?
Ai ! Os homens , as mulheres
Todos vem falar de glória ,
De amor , de honra ...
Não sabeis que a humanidade é
Uma miséria?...
O amor ? O amor , esta
Força que nos faz fracos ...
Todos falam de amor
Sem nunca terem o sentido!
Mas eu senti! Por todos os deuses,
Eu senti! E o que ele me deu?
Este Cupido tirano?
Deu-me angústia , deu-me
Desgraça e a cada presente
Que me dava ,algo de
Mim ia levando...
A paz , a felicidade, a horas,
A eternidade, a saúde ,
A sanidade! Tudo por ti , minha
Khatiêrina!

(Olha para os lados parecendo desorientado.)

Foi numa noite de verão ...
Quando o vento do leste , ululante
Fogo de chama fria , brincava entre
Os ciprestes , quando enfim
Chegou o dia !
E todos estavam lá ,
Khatiêrina...Tia Alexandra,
Primo Boris , lady Mnouchkin...
Meus queridos... Os últimos
Dos dias de glória , quando
Um Romanoff reinava
Sobre a Rússia

Ouvem? O vento do inverno esparge
O fogo sobre a vila ...
Vem , inverno! Vem ! Vem ! Vem!
E traz a morte que prometeste!
Lua , sol , auvorada , dor ,
Veneno , angústia , sal
Memória , amor , discórdia ...
Trazei tudo nesta noite!

(Fita o punhal com um sorriso.)

Ouçam como eles gritam !
Ouçam como o fogo devora
Suas vidinhas!
Ouçam como soa a lira
Da agonia!
E ouçam como a morte
Vem calar todo o coral!
Calai , morte , calai com
Tua foice as súplicas que
O vento arrasta pelo campo!
Fazei pó o que do pó se
Esqueceu que houve saído!

( Faz um corte sobre o braço.)

Mas foi por amor !
Por tanto amar-te , Khatiêrina!
Pelo amor que me negaram!
Ai ! Que todas as criaturas ,
Cupido são refens do teu desejo,
Do teu capricho , da tua sorte!
Fazei curvarem-se, Amor
Gregos e troianos!
Helena ! Helena , mulher de
Menelau , com tuas graças
Encantaste a Páris !
Mas foi , afinal , por ti ,
Afrodite que se iniciou
A contenda das eras!


(Fita a plateia com um olhar alucinado.)

E , enfim , o amor leva sua
Ultima vítima ...
Mas, sobre meu corpo,
Não haverá lágrima chorada,
Não haverá flor que uma
Alma carente ali depositou!
Não haverá dor por
Minha partida ...
Ninguém para lembrar
De mim...
Vou , vou , minha querida ,
Enfim, ao teu encontro!

(Ouve-se um segundo grito coletivo . Dragomir se apunhá-la e morre .)

* Forma russa de tratamento equivalente a "meu caro".

9 de Setembro de 2021 às 23:27 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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