brina Sabrina Leone

Ayron Ganthá está movido por sua sede de vingança contra os Nêcrons. O último remanescente de sua raça deixou o gasmoriano desconcertado. O universo treme ante a existência dos robôs nazistas. No entanto, seus planos terão um pequeno desvio quando nosso herói depara-se com seres inacreditáveis, que desafiam a razão.


Aventura Todo o público.
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Herói


—Eu sei como é estar morrendo... Você vê sua vida passar pelo seus olhos. Sente culpa, arrependimento, remorso. Sabe que poderia ter feito mais, deveria ter feito mais... O chão é frio, as lágrimas escorrem e você não vê razão nenhuma pra sorrir... A esperança acaba e você olha para o céu, à procura da luz do Sol, mas tudo o que vê é o rosto da morte... É assim para você também, Nêcron?
—Me mate! Me mate! Você deve me aniquilar!— berrava o robô totalmente destruído no chão, encarando Ayron Ganthá tampando a única luz que vinha pela janela de sua nave.
—Não, não. Ainda não— respondeu Ayron se ajoelhando para mais perto do robô —No seu HD possui o maior banco de dados do universo. Antes de voltar para Gasmor, eu preciso ter certeza de que não existem mais de você
—A raça Nêcron foi extinta!
—Então para onde você ia? Ou melhor, onde conseguiu essa espaçonave?
—Me mate!— berrou ele novamente.
—Não enquanto não descobrir um jeito de entrar no seu cérebro
—Então eu vou aniquilar você!
—E como pretende fazer isso?— perguntou Ayron, rindo.
—Auto destruição em cinco, quatro...
—É uma bom modo de fazer isso— ele disse seriamente.
—Três, dois...
Ayron corre para longe do Nêcron, mas não escapou do golpe da explosão dele, que o lançou para o canto da sala de controle da nave, chocando-o contra a parede.
O gasmoriano se levantou e removeu as cinzas de sua capa vermelha, caminhou até o corpo estilhaçado do robô e procurou por algo útil. Ele notou que no meio daquela sucata havia um disco rígido pouco danificado, foi a única coisa que levou consigo. Desembarcou da nave do Nêcron, que ficou à deriva no espaço, e embarcou na Céris.
Imediatamente, Ayron digitalizou as coordenadas e cruzou os braços, observando o vazio e belo universo escuro. Permaneceu em contemplação por alguns instantes, até que teve que guiar a nave. Cruzou duas galáxias e em pouco tempo avistou o centro de um domínio galáctico denominado como Glottenham. Haviam dez grandes construções cupuliformes ligadas à uma central ainda maior no centro delas. Eram como mega-cidades em forma de cúpula, separadas e unidas apenas por um grande túnel de metrô. As luzes dos gomos eram muito bem visíveis assim como a área quadratica feita especialmente para o embarque e desembarque.
Quando pousou na estação Ω do local denominado como Shadepond, Ayron se deparou com tantas raças alienígenas diferentes. Era como um verdadeiro metrô da Terra, milhares de pessoas diferentes correndo contra o tempo para sair e entrar na cidade. Ele caminhou entre os mais distintos, curiosos, arrepiantes, gigantes, altos, baixos, rápidos, lentos, voadores, quadrúpedes, aquáticos, psíquicos, guerrilheiros, ricos, adoráveis, pacifistas, belos, peludos, veiudos, incríveis e fantásticos alienígenas que qualquer um poderia imaginar. Nem sequer alguém com 700 anos de estudo como Ayron, poderia saber quantas espécies ou sub-espécies haviam naquele desembarque. Haviam seres que ele não havia nem ouvido falar ou visto em qualquer imagem. Andou por mais alguns metros, resistindo aos vendedores ambulantes que lhe ofereciam desde roupas e alimentos a drogas e armas.
Em dez minutos, Ayron chegou até a primeira cidade e ela era enorme. Feita de uma arquitetura moderna, com prédios que pareciam retorcidos como escadas em espirais das mais extraordinárias e aleatórias cores. Grande iluminação era inegável e muitos, bilhões de alienígenas dividindo o mesmo espaço.
Ayron foi até um prédio verde retangular com a escrita em dourado "Bywood" bem visíveis na entrada. Era como uma tapeçaria de Bagdá, cheia de objetos curiosos e chamativos, com muitos clientes a procura de algo interessante. Havia de tudo para uma boa decoração naquela loja. No entanto, Ayron não estava decidido a comprar nada, ele queria respostas. Sabia que aquele Nêcron não era o último de sua espécie, e o fato de haver uma hipótese da existência de mais Nêcrons era motivo de sobra para o universo estremecer. Ele queria acabar com aquela praga de uma vez por todas.
Deu dois passos até a recepção, sendo devidamente atendido por um ser endo-plasmático. O recepcionista não possuía pele, apenas uma fina e transparente membrana plasmática, que deixava visível todos os seus 13 órgãos.
-Estou procurando por Meritech Faringray- informou Ayron colocando o disco rígido na mesa. O recepcionista encarou o objeto e sabia exatamente o que era e de onde vinha.
Possuir tal objeto em mãos, automaticamente lhe garantia o respeito de uma galáxia inteira. Nêcrons eram considerados a pior raça de todo o universo, ter parte de um significava ser um exímio guerreiro digno de tudo à sua vontade.
O recepcionista lhe concedeu passagem, abrindo uma porta atrás dele que, até então, Ayron considerava ser uma parede qualquer. O Gasmoriano estava agora em um elevador de carga, descendo para o subsolo, cada vez mais fundo. Em pouco tempo, chegou a uma espécie de gruta, uma caverna incrivelmente confortável. Como uma batcaverna, o covil possuía móveis e instalações como a mais luxuosa das mansões. Não era nada úmida ou fria, na verdade era bem quente devido à lareira que queimava toras e mais toras.
Ayron caminhou pelo carpete felpudo, observando aquele verdadeiro museu. Haviam tantos quadros, vasos de porcelana, esculturas e estatuetas, além dos móveis de um esplendor inquietante.
—Quando Scruffy disse que um verdadeiro "dortodd" estava aqui, eu pensei em você— uma voz masculina veio até os ouvidos de Ayron. Ele se virou e viu Meritech Faringray vindo em sua direção —Sabe o que é um dortodd, não é?
—É o título dado àqueles que enfrentam grandes ameaças e sobrevivem— respondeu Ayron, observando o velho amigo.
Meritech Faringray era um homem musculoso, em forma. Possuía a pele azulada com os olhos vermelhos, e uma pequena barba ruiva que se juntava ao seu cabelo, apenas ao redor da cabeça chata, da mesma tonalidade tão intensa que quase chegava a ser vermelho. Ele sorriu para Ayron, revelando seus dentes amarelos, finos e pontiagudos. Usava uma camisa de pelos marrons, uma calça bege, e sapatos negros. Ele estava definitivamente à vontade, como um aponsetado, e era realmente o que ele se tornou após liderar o Exército de Savard Gray por tantos anos.
—Exato— confirmou Meritech, dando um rápido abraço em Ayron —Há quanto tempo, hã? Vejo que mudou de corpo novamente...— ele se senta em sua poltrona de veludo azul, com a estrutura em madeira brusca e algumas joias e cristais encrustados, próximo à lareira —Acredito, se não me falha a memória, que nos vimos pela última vez em Greenfox
—Acho que sim— concordou Ayron, sentando-se numa poltrona idêntica, à frente de Meritech.
—Que noite foi aquela, não é? Qual o nome daquela gracinha, mesmo?— perguntou Meritech, tentando buscar ao fundo de sua memória o nome da garota que os fez gastar todo o dinheiro que tinham.
—Rose Falone— respondeu Ayron, querendo dar um fim naquela conversa, pois, menos que quisesse, aquela não era uma visita social.
—Ah, sim... Que mulher, que mulher... Uma verdadeira jóia, comparada ao resto das daloiras
—Meritech, preciso da sua ajuda— cortou ele, deixando o amigo com uma expressão de seriedade enquanto sua calda permanecia inquieta.
—O que aconteceu?
—Muita coisa... Primeiro...— Ayron respira profundamente —Topazz morreu...

—Santo Deus!— exclamou Meritech, com as mãos na boca, tentando processar tal notícia —Quando ocorreu?
—Faz um tempo...
—E seu sepultamento? Devemos ir para Gasmor agora mesmo!— ele disse, levantando-se —Topazz era um Duque, um herdeiro do tempo e aliado de Viggo Scherer...
—Não, não— Ayron se levantou e colocou uma das mãos no ombro do amigo, tentando acalma-lo —Topazz não morreu em Gasmor. Foi em um planeta distante, e... Ele não deixou seu corpo. Negou-se a morrer em minha frente. Usou o teletransporte e desapareceu
—Topazz Dragomir sempre foi um homem honrado— ele comentou, sentando-se, pensativo —Eu sinto muito, eu sei como eram unidos. Não posso imaginar o que esteja passando...
—Eu tento não pensar muito nisso— respondeu Ayron, voltando-se para sua poltrona —Tento me distrair, entende? A única coisa que quero é acabar de vez com aqueles Nêcrons
—Suponho... Que sejam os responsáveis pelo óbito de Topazz...?
—Sim. O Nêcron que o matou já está destruído, mas ainda assim...
—Se há um, haverá mais— completou Meritech, e Ayron assentiu —São como pragas aqueles robôs! Maldito seja Hundak Novak!
—É por isso que estou aqui— ele remove o disco rígido de seu bolso e vê uma expressão de surpresa nascer em Meritech.
—Oh, céus. Posso?— ele pega o disco e o observa atentamente, analisando cada detalhe e sentindo cada fibra daquele fabuloso artefato —Como sabe, Ayron, sou um colecionador. Meu estabelecimento possui um pouco de cada cultura do universo. Mas nunca, em quase 60 anos, nunca houve algo tão raro e valioso como isso. Nenhum ser, por mais celestial que possa ser, conseguiu sequer um parafuso de um Nêcron. É extraordinário...
—Acha que consegue invadir?— questionou Ayron, ignorando toda a fascinação de Meritech —Ele estava seguindo uma rota, talvez o sinal ainda esteja aí dentro. Em algum lugar, alguém estava emitindo vibrações, frequências para esse Nêcron seguir. E como Nêcrons acreditam ser superiores ao resto do universo, tudo me faz crer que somente um Nêcron chamaria outro

—Sim, é claro, faz muito sentido. Mas, Ayron, que mal lhe pergunte, mas... Se queria saber para onde esse Nêcron ia, por que simplesmente não olhou o navegador de bordo da nave em que ele estava? Como sabe, Nêcrons não possuem mãos nem polegares para controlar espaçonaves e a Proclamação do Robô proibiu a fabricação de transportes próprios para eles
—Eu...— ele encarou o amigo, sem expressão. Ayron estava encarando o vazio e se perguntando porquê aquilo não havia passado pela sua cabeça.

—Seria facílimo entrar no sistema de rota da nave dele e checar as coordenadas— continuou Meritech.
—Eu... Eu não pensei nisso— respondeu Ayron, ainda paralisado, causando um alto riso em seu amigo azul.
—Pelo visto, ainda não soube como utilizar a Gazmog, não é?— questionou Meritech, recuperando-se do riso —Afinal, reza a lenda que "aquele que empunhar a Gazmog na maneira correta, terá sua mente aberta e os segredos do universo na palma da mão"! Em sete mil anos ninguém soube como usá-lá da maneira correta, nenhum ser sequer sabe qual é a maneira correta de usar essa espada... Mas imagine ter todo o conhecimento, Ayron!— exclamou ele, fantasioso —Poder saber os mais íntimos, escuros e velhos poderes do universo
—Seria incrível mesmo— concordou Ayron —Mas, agora, tudo o que desejo saber é para onde aquele Nêcron ia
—Ah, sim, claro. Mil perdões— ele pediu por esquecer-se do pedido do amigo —Scratch!- Meritech chamou e rapidamente um robô entrou.
Scratch era um andróide venuziado que possuía dois metros de altura e tinha a forma de um humano normal. Era totalmente prateado com dois visíveis botões vermelhos como olhos e uma saída de ar como boca. Meritech deu um leve toque no meio do peito do robô e uma pequena gaveta saiu, uma entrada como as de colocar CD. Lá, Meritech depositou o disco rígido e os olhos do robô denominado de Scratch logo brilharam, fornecendo um raio de luz que serviu como holograma virtual na parede. A imagem que viam era de um planeta de cor ciana, pouco maior que a Terra, com a descrição de Mallowmallow.
—Aí está— informou Meritech —O sinal vem de Mallowmallow na galáxia de Nornesse, há três mil anos luz de distância daqui
—Obrigado, amigo— agradeceu Ayron, pronto para partir —Já tenho um destino para traçar
—Ayron, espere!— parou Meritech, antes que Ayron deixe o local —Tem certeza de que está preparado para essa missão suicida? Você não tem reforço, não tem tropas, nem ao menos tem um plano
—Eu preciso vingar a morte de Topazz, Meritech! Além disso, preciso cortar esse mal pela raiz! Enquanto houver Nêcrons, nada nessa galáxia estará a salvo, nada nesse universo!
—É um verdadeiro herói, Ayron Ganthá— disse Meritech com um orgulho transbordante de seu amigo Gasmoriano.
—Só estou tentando fazer justiça— justificou ele.
—Espere, espere— Meritech começou a vasculhar uma caixa rapidamente. Ele removeu uma miniatura cristalizada de um cavaleiro em seu cavalo, rumo à batalha —Lembra-se disso?
—É uma peça de jogo de tabuleiro— respondeu Ayron.
—Mais que isso, meu rapaz! É do jogo Tocha Azul! E esse, é o Paladino Vermelho, seu personagem favorito
—Sim, eu... Eu me lembro— ele pega a peça e tem alguns lembretes de sua infância, quando sempre jogava com Topazz.
—Leve, te dará sorte... E não se esqueça de usá-lo na sua hora mais sombria
—Obrigado, amigo— agradeceu novamente Ayron, abraçando Meritech. Em seguida, pegou o elevador para a superfície e correu para sua nave.
—As probabilidades indicam a morte de Ayron Ganthá— informou Scratch, com sua voz robótica sem sentimento algum —Ele não deveria prosseguir.
—É o que acontece quando sabe-se que vai morrer... Não há mais nada a perder— comentou Meritech, melancólico.
—Afirmou que ele era um herói— lembrou o robô —Mas as definições de herói não batem com as características de Ayron Ganthá.
—Há um herói dentro de todos, Scratch... Que nos mantém nobres, íntegros e fortes... E nos deixa morrer dignos, afinal, morrer bem é o que todos querem, não é? Ter uma boa morte por uma boa causa, é vencer... Eu lhe pergunto, meu bom robô, pelo que morreria?

11 de Setembro de 2021 às 13:08 0 Denunciar Insira Seguir história
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