silva_writer Silva

Em 1780, o comandante Juan López é transferido para o Pueblo de Los Angeles. No povoado ocorrem tensões locais envolvendo um condenado à morte e um criminoso mascarado que ameaça a hegemonia da ordem hispânica na Califórnia.


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A Lenda



Pedro Pascal (Diego)


1870

Pueblo de Nuestra Señora de Los Angeles

Entre a constante sinfonia de murmúrios e risadas, a importunação de seu serviço parecia menos sufocante quando um bom vinho lhe descia pela garganta. A taverna era um refúgio para os que pudessem pagar as crescentes taxas do Rei. La Cumparsita, o recanto dos tolos famintos, sedentos, e desiludidos que buscavam diluir por breves momentos o fardo de seus infortúnios. Sorveu mais um copo quando a carta sobre a mesa adquiriu algumas manchas oriundas da bebida. Uma maldita ordem de transferência para o seu novo posto em Los Angeles. Tudo porque seu antecessor incompetente não capturou um certo fora da lei. Vestido nas cores do uniforme blaugrana, o comandante López apreciava um pouco da boêmia Califórnia após sua calorosa recepção pelos populares de Monterrey. O enforcamento daquele ladrão de gado pela manhã gerou uma comoção desagradável. Acostumou-se aos olhares fuziladores e xingamentos que eram facilmente reprimidos à vista dos sabres e mosquetes do exército.

Pequenas brasas de revolta e desordem logo podiam tornar-se um incêndio avassalador. Tais chamas seriam extintas com a força da lei, ou todos estariam sob um banho de sangue articulado pelo caos. O tinto lhe escorria pela barba castanha, ainda que não fosse um homem de excessos. Praguejou pelos pingos que mancharam seu uniforme. Enquanto seus olhos negros pousavam nas insígnias, uma quietude apossou-se do salão. Tal silêncio fez o homem grisalho erguer o olhar. Ao fundo havia um palco, e ali um homem sentou-se no banco empunhando um violão. Um jovem de cabelos negros com um bigode elegante marcando sua face. Pelo elaborado terno azul anil e trejeitos educados ao saudar a multidão, certamente não era um peão qualquer e sim um cavalheiro. Todavia, o violonista foi ofuscado sobremaneira pela beleza da jovem morena a sua destra. A dama de vermelho presenteou os espectadores com um sorriso gracioso.


O homem dedilhou o instrumento e pôs-se a trocar acordes numa balada envolvente enquanto a multidão fora arrebatada pela jovem que bailava no inebriante compasso da melodia. A rítmica combinação de cordas e passos ecoava pelo salão em charmosa sintonia. A esvoaçante saia ia de um lado para o outro atraindo consigo olhares de contemplação. Ao enérgico clímax do desfecho, palmas e ovações vieram em saudação. O violonista entregou o violão para o taberneiro e então dirigiu-se a moça. Beijou-lhe a mão delicadamente ao som de mais aplausos.

— Gracias señorita... — Num tom galante, ele agradeceu. Por fim, bradou aos espectadores erguendo uma taça de vinho: — Cavalheiros, uma rodada por minha conta!

— Um brinde a Don Diego! — Gritou um homem dentre a plateia. O cavalheiro sorriu e bebeu o vinho, pouco antes de caminhar até a mesa de López.

— Oh! Deve ser o novo comandante Juan López, creio que não fomos apresentados. — Estendeu-lhe a mão e cumprimentou o militar. López gesticulou com a mão cedendo-lhe a outra cadeira em cortesia. O militar indagou:

— Pelo que vejo, o senhor dispensa apresentações Don... Diego?

— De la Vega, Diego De la Vega. — Um sorriso confiante se formou em seu rosto ao responder.

— Um nome forte... Seu pai, Don Alejandro, é uma liderança importante entre os senhores de terra da Califórnia. Embora haja boatos de uma certa insatisfação com o governo por parte dos fazendeiros.

— Meu pai é um homem de princípios fortes, já eu sou um amante de livros, música e donzelas espirituosas. Quando estive na Espanha, li que a maior arma de um homem não se encontra na lâmina de seu sabre, mas na cultura de sua mente.

— Com todo respeito Don Diego, letras e cantorias levantam os ânimos, mas é a lei que mantém os homens nos seus devidos lugares. Sem a força da ordem, somos todos animais, assim como o capataz esperto que furtou um boi do seu senhor.

— Bom, ele não me pareceu tão esperto quando o pescoço quebrou naquela corda. Alguns me disseram que o tal senhor não estava lhe pagando o salário devido e a família passava necessidade.

— Só mais uma desculpa desesperada de um criminoso. O povo acredita facilmente em falácias. Não estou surpreso que tratem um fora da lei mascarado, esse tal de Zorro, como se fosse um maldito herói. As pessoas precisam de um símbolo De la Vega, um símbolo que represente a verdadeira justiça.

— O povo se embebeda com lendas até que venham as dores da realidade do dia seguinte. Zorro não vai durar muito, comandante. Principalmente com homens iguais ao senhor em Los Angeles. Agora se me permite... — Diego levou o olhar até uma loura cujo sorriso convidativo quase disfarçava seu interesse por ouro. — Tenho negócios a tratar com aquela dama... espirituosa. Aproveite a estadia e boa caçada à raposa. — De la Vega deu-lhe um tapa de confiança no ombro e saiu do local acompanhado da beldade com as mãos pousando em sua cintura. López tinha mais algumas horas antes de retornar ao seu turno. Em breve a noite chegaria e ao romper a aurora do dia seguinte, o irmão mais novo daquele ladrão teria o mesmo destino por tolamente desacatar as forças armadas.

Na frieza do chão daquela cela escura, as dores em seu corpo eram incomparavelmente menores quanto as aflições de sua alma. A imagem de Lorenzo pendurado naquela corda em praça pública lhe feria mais do que qualquer surra que os soldados poderiam lhe dar. Hematomas cobriam seu corpo e ainda sentia o gosto do próprio sangue quando foi lançado atrás daquelas grades. Se havia algum consolo em tamanha injustiça, ao menos estaria com seu irmão ao alvorecer. Sequer foi-lhe dada uma última refeição, embora para ele, morrer de estômago cheio não faria diferença alguma quanto ao seu infeliz destino. Para Javier, restava a cruel espera até que seu pescoço fosse beijado pela morte.


A lua cheia erguia-se majestosa entre as nuvens e a brisa suave sussurrava um frescor sereno ao quartel, tentando alguns dos soldados a cederem ao abraço sedutor do sono. Mesmo os sólidos muros pareciam aconchegantes para os homens fadigados. A fortificação era de vital importância no pueblo sob o domínio da Espanha. Tensões populares se multiplicavam a cada manhã pelos arredores do povoado. Alguns gritavam por menos impostos, outros pela unificação da Califórnia aos Estados Unidos, todavia, o clamor por justiça era uníssono entre os ouvidos dos militares hispânicos. A noite monótona foi subitamente interrompida quando um barril de piche se espatifou no pátio. Caído pela amurada, um tiro de mosquete gerou a combustão. De sua sala, López ouviu o barulho e logo desceu alvoraçado.


Além do tiro, Javier podia jurar pela Virgem Maria que ouviu alguma coisa correr pelo telhado. Um vulto se moveu na escuridão, e após ele, o guarda do cárcere caiu com o rosto em terra. As chaves em seu cinto foram jogadas para dentro da cela. Tal como a densa noite, a máscara negra lhe ocultava o rosto, e uma capa lhe recobria os ombros. O fantasma, a lenda, a raposa. Zorro erguia-se diante das barras de ferro, como uma aparição das histórias que sempre escutou. Ajeitou o chapéu e levou o indicador à boca pedindo silêncio ao rapaz. O condenado não foi o único a notar o cavaleiro que surgira das trevas. O cabo Martínez gritou pelos guardas, apontando a arma de fogo para o invasor. O soar da rapieira saindo da bainha era como um mau agouro aos ouvidos. Zorro fez um movimento brusco e o soldado puxou o gatilho ao passo que a extremidade do mosquete recebia a ponta dum chicote, levando o disparo para baixo. Numa rápida investida, a lâmina do espadachim negro foi cravada em seu peito. Os subordinados atenderam a ordem de seu superior caído que agora tingia o chão de vermelho.

Cinco investiram contra ele de uma vez. Um segundo sabre foi empunhado na sua canhota enquanto um sorriso formou-se em seu rosto. No prenúncio duma dança mortal, as lâminas cintilaram. Zorro saltou para trás numa acrobacia impressionante. Há alguns metros de distância, caiu em pé, erguendo as duas espadas para espanto dos militares. Baixou a cabeça em saudação, enfurecendo seus adversários. Entre passos velozes afiados, espadas dançaram sob o luar. Ainda perplexo, Javier agarrou-se às grades enquanto via e ouvia metais colidindo, grunhidos e gritos. Lembrou-se do conjunto de chaves e então procurava com avidez aquela que o libertaria.


López chegou ao pátio com o sabre em mãos. Dezenas de seus homens jaziam no chão. As chamas consumiam as edificações em derredor, não demoraria para que o forte fosse tomado pelas chamas. Parte da tropa tentava conter as chamas com água enquanto o restante armava-se.

— ZORRO! — O comandante gritou ao brandir a espada. O fora da lei virou-se e largou uma das lâminas no chão, oferecendo um combate justo. Ergueu a rapieira com elegância, aguardando o movimento do oponente. Experiente, López encurtou a distância indo para o ataque com golpes centrais, obrigando Zorro a defender-se. O comandante queria ditar o ritmo, no entanto, o fora da lei bailava em outro compasso, esquivando-se pelos flancos. Com firulas e rodopios, a espada do Zorro deslizava no ar como se estivesse a orquestrar o duelo. O sorriso zombeteiro em sua face enfurecia o militar que se pôs a empunhar o sabre com as duas mãos. Entre estocadas fortes, López mirava-lhe a cabeça. Mais soldados chegavam. Escapando das investidas horizontais, a raposa decidiu mostrar suas garras. Um salto à esquerda e pouco depois as lâminas se cruzaram. Um soco surpreendeu López, cambaleando para trás. Mais raiva e mais força, golpes abertos selaram o resultado. A espada recebia golpes rápidos, no momento em que sua mão foi perfurada, um ataque vertical fez seu sabre cair na mão de Zorro. López teve as duas lâminas frias acariciando sua garganta.

— Termine. — rosnou, reconhecendo a derrota. — Sentiu a pressão sobre sua pele aumentar e então fechou os olhos, aguardando o golpe fatal. Sua pele foi cortada, um Z em vermelho foi marcado sobre seu tórax.

— Lembre-se desse símbolo, comandante. — O mascarado correu em direção aos portões ao som de disparos. Um assobiou foi ouvido. Do céu enegrecido flechas flamejantes caiam do céu atingido os soldados. Fora dos muros, nativos americanos saudavam os militares com seus arcos. Os pele vermelha investiram contra os portões. Armados com flechas e armas de fogo, faziam frente ao resto do contingente. Talvez agora fizessem valer a alcunha de hostis tanto apregoada pelo exército. Liberto, Javier montou num dos cavalos castanhos rumando ao povoado, enquanto seu lendário salvador seguia ao norte pela planície, levantando o chapéu para o rapaz. O quartel ardia em chamas ao passo que López e seus homens lutavam por suas vidas. Sob o luar, o corcel negro ergueu-se e relinchou exibindo os cascos pouco antes de desaparecer na escuridão com o cavaleiro sobre sua cela. Eis a história da máscara e da espada, do fantasma que assombra os tiranos e encanta os desafortunados, esta é a lenda do Zorro.

Z

*Zorro (palavra do espanhol que significa "raposa") é uma personagem de ficção, criado em 1919 pelo escritor pulp norte-americano Johnston McCulley.

29 de Agosto de 2021 às 00:58 1 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Silva Alguém que escreve para escapar das garras do tédio.

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Joalison Silva Joalison Silva
É um crime essa história não ter, até agora, a atenção que ela merece. Sem dúvidas, ação com toques de aventura é o gênero em que tu mais se destaca, sempre fica bom e bem divertido de ler. Eu gostei de quase tudo, embora siga uma trama simples, o que acho que foi uma decisão acertada, ela me prendeu até o fim. As cenas de ação foram boas e mirabolantes à la Zorro, como devem ser. A única coisa que eu, pessoalmente, não vi motivos e o ataque dos nativos no final. Talvez tenha algum motivo que não conheço ou seja uma referência, mas para mim foi desnecessário e me lembrou de certo cap de silêncio KKKkkkkk Não vamos falar dele. Me arrependo de não ter lido essa história antes, de verdade, gostei muito. Até a próxima
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