fuyukahideki Adrielle Victória

Quando o anjo da guarda, Uchiha Sasuke, conheceu seu mais novo protegido, Uzumaki Naruto, ele não acreditou que o outro sairia usando um All Star laranja. Em seu pensamento, ele não conseguia deixar de pensar no quão ridículos os sapatos são. No entanto, Sasuke jamais esperou que iria gostar tanto e não apenas dos tênis em questão.


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas.

#sasunaru
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A eternidade ao seu lado

Sasuke corria desesperadamente pelos corredores do prédio. Com sua respiração mais do que ofegante, ele sente o coração batendo em todos os lugares possíveis do corpo, já que o esforço que está fazendo — além de repentino — é demais para um ser que não está acostumado a correr dessa maneira. Afinal, Uchiha Sasuke é um anjo da guarda e hoje é o dia em que saberá qual o próximo humano que irá acompanhar por um tempo de vida.

Sasuke vem de uma linhagem onde seu dever é proteger aqueles chamados de segunda idade, ou seja, que estão com vinte anos. Há mais ou menos um mês, seu último protegido teve um fim não muito agradável; de tempos em tempos há esse tipo de provação no trabalho que exerce.

O garoto tinha uma doença autoimune e degenerativa, o máximo que o anjo conseguiu fazer foi consolá-lo para que não sofresse tanto, quando chegou sua hora. Por conta desse baque, o moreno passou algumas semanas de licença para digerir o acontecido, que já era esperado, mas nunca é menos doloroso por isso.

Porém, não é como se ele pudesse ficar o tempo que quisesse sem ação. Gente é o que não falta no mundo e ninguém pode ficar sem sua companhia angelical.

Ao chegar na entrada do grande salão, no qual as distribuições são feitas, Sasuke apoiou as mãos nos joelhos, arfando pesadamente para tomar algum controle do ar que entra em seus pulmões. Quando se encontrou um pouco mais composto, seus olhos escuros passearam pelo local: já estava vazio. Apenas o responsável pelas fichas se encontrava presente, este que olhou para o Uchiha com grandes olhos acusadores.

— Atrasado de novo, Sasuke? — Seu tom deixando claro que já havia cansado de esperar por ele.

— Me desculpa, Sai. Não vai acontecer outra vez. — Começou a caminhar lentamente na direção do outro anjo.

— Você me disse a mesma coisa quando pegou o anterior.

— Eu disse, não é? — Ele coçou a nuca em um gesto de falso embaraço. — O que tem para mim?

— Só quem sobrou. — Sai jogou a pasta sobre o balcão.

— Somente esse?

— O que queria? Já viu a hora? Se chegasse no horário, poderia ter feito sua escolha. — Espreguiçou-se. — Anda, anda, faz o que tem de fazer. Preciso de um banho, os dias de distribuição são muito cansativos.

Com um suspiro pesado, Sasuke abriu a ficha para dar uma olhada no perfil de quem lhe foi entregue: “Uzumaki Naruto, 20 anos”, leu o escrito na parte superior da folha, ao lado havia uma foto da pessoa correspondente. Com enormes olhos azuis e cabelos revoltos, o jovem tinha um bonito sorriso estampado nos lábios.

— Por que ele ficou por último? — Sasuke perguntou. — Parece um bom rapaz.

— Não me faça perguntas no final do meu expediente, Sasuke. Apenas deixe sua marca e vá fazer seu trabalho. — A voz vinha de longe, Sai já se preparava para desligar tudo e sair dali.

— Certo, certo. — Rolou os olhos.

Passando dois dedos por cima de uma das folhas da ata de comparecimento, a assinatura de Sasuke apareceu na linha, assim como o nome de Naruto estava ao lado.

Acenando para Sai, o Uchiha finalmente deixou o salão, seguindo para os corredores vazios, desta vez, andando com calma enquanto folheava lentamente as primeiras páginas do dossiê do Uzumaki. Ele precisa conhecer um pouco da vida prévia daquele com quem passará vinte e quatro horas por dia até que seja o momento de uma nova substituição, quando o loiro fizer trinta anos.

Logo no começo, há as características do jovem, com uma foto sua de corpo inteiro. O Uchiha viu que Naruto é atlético. Não era de se esperar menos, já que ele é bolsista na faculdade por ter tido um excelente desempenho nos esportes na escola em que estudou; sendo natação a sua modalidade de competição.

Atualmente ele está cursando o segundo ano da faculdade de Arquitetura, na ficha também têm descrito todo o seu esforço para manter as expectativas da sua família com relação às suas notas e formação como profissional e atleta. De acordo com a pequena biografia, Naruto se sente um pouco estressado com todas essas pressões, no entanto, consegue conciliar isso muito bem de forma a não atrapalhar seu desempenho, principalmente quando algum campeonato é iminente.

Ainda durante sua breve leitura, Sasuke descobriu que Naruto teve uma namorada na época da escola, essa se chamava Hyuuga Hinata. Porém, o relacionamento deles se rompeu quando Naruto decidiu se abrir e falar que não gostava da garota como um namorado deveria gostar de sua namorada. Era fraternidade, ele sabia disso, mas acabou aceitando o pedido de Hinata apenas para não quebrar seu coração.

Essa verdade veio à tona não muito tempo depois que começaram o relacionamento. Após alguns questionamentos da Hyuuga, Naruto lhe contou a verdade: sentia-se atraído por homens e não queria admitir isso para si mesmo, tinha medo do que os outros falariam e como iriam reagir. Tentou se forçar a gostar de Hinata, todavia, por mais que tentasse, mais forte era o desejo que tinha pelo mesmo sexo. A curiosidade de saber como seria se envolver com alguém por quem se sentia plenamente atraído estava além de seu controle.

Ao contrário do que pensou, Hinata aceitou muito bem a notícia. Ficando ao lado do ex-namorado e ainda amigo, quando ele decidiu que se assumiria para todos à sua volta. Claro que algumas pessoas se afastaram, isso já era esperado por ele. Porém, mais importante do que isso era saber que a sua família não faria qualquer recriminação.

Hoje em dia, Naruto não tem interesse em ninguém. Está realmente focado em seus estudos e no seu desenvolvimento como nadador.

Esses foram os primeiros dados que Sasuke capturou enquanto fazia uma leitura dinâmica da história do jovem Uzumaki. Também pescou algumas coisas sobre sua infância e sua personalidade. O Uchiha leu que Naruto é descontroladamente animado, principalmente para aquilo que ama, tem tendência a se apaixonar um pouco rápido demais — Sasuke pressentiu que esse detalhe poderia dar uma dor de cabeça. Assim como é extremamente fiel com seus amigos, ideais e parceiros.

Pela primeira impressão que teve, o anjo da guarda pensou que realmente iria se divertir estando ao lado desse peculiar ser humano. Mesmo que já tenha tido milhares de experiências com o trabalho que exerce, cada vez é diferente da outra. É sempre assim e isso é maravilhoso.

Normalmente, as trocas de anjos acontecem logo após a ficha chegar na mão do novo guarda. Entretanto, a de Naruto veio com uma pequena observação, ela dizia que deveria acontecer às três da tarde da data especificada no papel, no dia seguinte. Dessa maneira, Sasuke teve algumas poucas horas sozinho até que entrasse de cabeça na sua nova missão.

Pela manhã, o refeitório do prédio estava vazio, afinal, todos os anjos do dia anterior já estão acompanhando seus novos humanos. E aqueles que tiveram seus postos trocados estão enfurnados dentro dos quartos, escrevendo os relatórios dos anos que ficaram na Terra. Essa é uma das piores partes da despedida, relembrar os bons — e também os não tão bons assim — momentos junto com quem protegiam.

Quando se fala desses momentos, é realmente difícil expressar, já que têm significado apenas para o anjo em si; por mais óbvio que seja, é importante lembrar que os humanos não veem aqueles que os protegem — exceto nas raras vezes em que isso acontece. Pensando nisso, Sasuke lembrou de dar mais uma olhada na ficha de Naruto para conferir se ele tinha alguma habilidade psíquica. E, chegando nessa parte em específico, havia o “não” marcado com um ‘x’. Bem, parece que o Uchiha terá de sentir as emoções desses anos todos sozinho.

Sua ansiedade estava no teto quando as horas começaram a passar cada vez mais rápido até o meio da tarde e, para acelerar o processo, Sasuke fez sua descida para a Terra; ficaria em uma praça ou qualquer lugar próximo da residência do Uzumaki, à espera de que fosse sua vez na guarda do jovem.

O anjo se sentou em um gazebo para apreciar a paisagem da pacata cidade de Konoha. O tempo está realmente claro, com pouquíssimas nuvens no céu, assim como o vento é fresco e constante. Aproveitando que está ventando e que o local está vazio, o Uchiha aproveitou para balançar no balanço do espaço em que ele se encontra. As correntes que prendem o brinquedo fazem um alto rangido enquanto vão para frente e para trás suavemente.

Olhando para o relógio no centro da pracinha arborizada, Sasuke viu que, dentro de menos do que uma hora, já estará com seu posto assumido. Foi inevitável que sentisse um gostoso frio na barriga com essa realidade.

Chegar aonde Naruto mora foi relativamente rápido. Como ele é bolsista e vive em outro estado, sua residência fica nas proximidades do campus de sua universidade, sendo este um prédio com apartamentos para estudantes que vêm de outras localidades.

Para fazer graça, Sasuke entrou no elevador com algumas outras pessoas, torcendo para que a máquina parasse no andar que desejava sair, o de número doze. Porém, para infortúnio do destino, passaram direto. Como havia mais de quinze minutos para encontrar com o anjo que deveria fazer a troca, o Uchiha esperou até que acontecesse de parar no andar que gostaria. Levou por volta de três subidas e duas descidas para que isso acontecesse, mas ele ficou contente em observar algumas pessoas.

Lá dentro, ouviu algumas garotas e garotos falando da competição de natação que aconteceria dali a duas semanas, assim como escutou os estudantes falando das expectativas que estavam no Uzumaki; afinal, ele é o melhor nadador da equipe. Sasuke sentiu em seu coração que já estaria chegando em Naruto com sua vida um pouco agitada. Não que isso seja ruim, porém, é muito melhor chegar na calmaria, apenas para conhecer a pessoa, sua rotina e o círculo social. Por outro lado, o anjo também ficou contente em pensar que seria capaz de ver o humano em ação dentro das piscinas, coisa que o havia deixado curioso desde que viu o esporte na ficha. Ele poderia ter pego uma das fitas de vida de Naruto, no entanto, ver com os próprios olhos é muito mais emocionante.

Quando desceu no andar correto, Sasuke ficou à ponta do apartamento de número duzentos e trinta, sentou-se no chão e esperou que fosse a hora. Os minutos passam como se fossem segundos para sua espécie, sendo assim, não demorou nada para que sentisse a presença de outro anjo ao seu lado.

— Oi! — falou Iruka.

— Oi! — Sasuke levantou do chão, espanando a poeira que não havia ficado colada em sua roupa branca.

— Pensei que o Kakashi fosse assumir. — O moreno ergueu a sobrancelha.

— Você bem que queria, não é? — brincou, vendo as orelhas alheias se tornarem vermelhas. — Eu cheguei atrasado no dia de distribuição. Não sei o que houve, esse foi o único que sobrou.

— Claro. — Deu de ombros.

— Você pode usar essa curiosidade como assunto para puxar com ele — comentou casualmente.

— Pare com isso. — O outro rolou os olhos. — Bem, de qualquer forma, estou indo. Ele está se arrumando para ir encontrar uns amigos. Fique à vontade e bom trabalho, Sasuke. Cuide bem dele, é ótimo garoto. — Pôs a mão no ombro do Uchiha.

— Farei o meu melhor daqui para frente. Obrigado pelos anos já passados.

Sem ser convidado, Sasuke adentrou o apartamento após a breve despedida. Observou a pequena bagunça que havia na sala, com alguns livros espalhados pelo tapete e o notebook aberto em alguma planta de uma casa.

A decoração da sala é simples, realmente com a cara de um estudante que não deve passar tantas horas assim disponíveis para aproveitar seja lá o que houver em sua residência. Sasuke pensou em bisbilhotar o restante da casa, no entanto, sua curiosidade falou mais alto quando ele desceu o corredor, seguindo o barulho que o loiro fazia em seu quarto. Ao virar a esquina da porta, o anjo avistou quem procurava.

Naruto é tão bonito pessoalmente quanto é na fotografia de sua biografia. Encarando-se no espelho, ele ajusta a jaqueta jeans preta em seu torso, passando a mão nos cabelos naturalmente revoltos, em uma tentativa mais do que falha de domá-los. Sasuke deixou que seus olhos corressem na silhueta atlética do jovem, notando a calça jeans, para logo chegar em seus pés. Os olhos do Uchiha ficaram ali por mais do que alguns bons segundos.

— Que ridículo. Você vai sair usando isso? — Sasuke resmungou quando viu o All Star laranja que Naruto calça. — Iruka, por que não tirou essa ideia completamente idiota da cabeça dele? — Seus orbes ainda não conseguiam se desviar da cor berrante.

— Estou atrasado! — disse o loiro quando olhou o relógio no pulso, passando pelo anjo logo em seguida.

— Ei! Ei! Volte aqui, seu tênis, pelo amor de Deus, troque! — berrou. Mas claro que o outro não escutou seu apelo. Com um suspiro profundo, Sasuke o seguiu para o elevador e, então, chegaram na garagem. — Você vai passar vergonha, Naruto — continuava a resmungar. Todavia, quando encarou os tênis mais uma vez, o Uchiha notou alguns detalhes, há um pouco de sujeira nas laterais, assim como as solas estão gastas, os cadarços não estão tão brancos quanto normalmente são. — Você realmente gosta desse negócio, não é? — Suspirou em derrota.

Dentro do automóvel, Sasuke se preparou para observar os movimentos alheios, esperando para ver se haveria alguma imprudência por parte dele sobre não usar o cinto de segurança. Porém, essa foi a primeira coisa que Naruto fez ao sentar no banco do motorista. Por costume de brincar com os modos da Terra, o anjo também fingiu que pôs o seu.

É a primeira vez de Sasuke em Konoha, sendo assim, ele aproveitou para olhar a paisagem urbana enquanto o loiro ao seu lado dirige. As ruas estão cheias, pelo horário, era de esperar que assim estivesse. Aparentemente, parece uma boa cidade para se morar, ao menos essa é a impressão que se tem com as vistas dos prédios e lojas do centro.

Naruto estacionou em um shopping do centro, não perdendo qualquer tempo em seguir para o elevador mais próximo.

— Ora, ora, ele é atrasado igual a mim — comentou Sasuke para si.

— Máquina estúpida — Naruto resmungou, apertando consecutivamente o botão para fazê-lo descer.

— A culpa não é dela se você sai de casa depois da hora — defendeu o Uchiha, cruzando os braços para o loiro.

Naruto subiu direto para a praça de alimentação do local. Caminhando a passos largos para o centro do ambiente a fim de passear os olhos à procura de seus amigos. Como Sasuke não faz ideia de quem sejam, apenas esperou alguma exclamação vinda do homem ao seu lado.

Olhando ao redor, Sasuke pensou em como seria se todos os anjos pudessem se ver. O espaço onde eles estão agora estaria duas vezes mais lotado, e não que não esteja. Acontece que, para que eles não fiquem se esbarrando o tempo todo ou se cumprimentando ou qualquer coisa que possa gerar uma distração, os anjos apenas ocultam suas presenças. Dessa maneira, conseguem acompanhar seus protegidos livremente e sem qualquer preocupação.

Quando Naruto encontrou aqueles por quem procurava, começou a fazer seu caminho na direção localizada. O Uchiha viu para onde ele olhava, notando um grupo bastante distinto sentado em uma das mesas de um restaurante.

Quem primeiro avistou o loiro foi uma garota de cabelos pretos azulados, ela acenou para o amigo que já caminhava em sua direção. Os outros notaram a movimentação amistosa e passaram a acompanhar a chegada do último membro faltante.

— Finalmente! — alguém disse.

— Ah, não enche — disse Naruto, rindo.

Sasuke deu uma boa olhada nas pessoas sentadas. Havia um rapaz de cabelos lisos e compridos, este sentado ao lado de quem estava acenando anteriormente. Uma mulher de cabelos rosados se destacava no meio de todo mundo, assim como um jovem de cabelo de cuia e roupas verdes.

— Acho que seu tênis laranja não é assim tão ruim — falou enquanto fazia careta. — Ou o mal gosto veio pela convivência.

O anjo sentou em uma cadeira vazia que estava por perto para observar o pessoal interagindo. Gostou do modo como eles riam entre si, e da maneira como pareciam gostar genuinamente uns dos outros.

Ao longo da estadia, Sasuke aprendeu seus nomes, conhecendo, finalmente, a garota com quem Naruto já namorou no passado: Hyuuga Hinata, aquela que primeiro avistou e convidou o loiro para a mesa. Quem senta ao seu lado é seu primo, Hyuuga Neji. Aquela que tinge os cabelos de rosa chama-se Sakura e o de corte de tigela tem o nome de Rock Lee. O Uzumaki parece extremamente à vontade ao lado deles, mantendo um largo sorriso em seus lábios quase que o tempo todo.

Ao menos não precisarei me preocupar com as pessoas com quem você anda, pensou o anjo da guarda.

— E a competição, Naru? — Sakura questionou. — Como estão os treinos?

— Estão bem, estamos realmente confiantes! — Sasuke não gostou do sorriso que viu nos lábios de Naruto, e franziu a testa para isso. Com seus sentidos, o anjo percebeu que talvez não fosse aquilo que ele realmente queria dizer.

— Vamos todos estar lá torcendo por vocês — afirmou Hinata.

— Obrigado, não precisam se esforçar tanto. — Chegando perto de Naruto, Sasuke sentiu seu coração batendo forte.

— Claro que precisamos, somos seus amigos, afinal! — exclamou Lee.

— Obrigado. — Havia um sorriso forçado em sua boca. — Vou ao banheiro — ele olhou para o horizonte —, volto logo. — Levantou antes que alguém dissesse que o acompanharia.

— O que foi? — Sasuke perguntou quando estavam sozinhos, ainda que soubesse que o outro não iria escutá-lo.

— Confiantes... — resmungou, olhava para o espelho. — Claro que aquele filho da puta do treinador vai estar confiante, não sabe o que faz comigo para ter todas aquelas medalhas no vestiário — falava com raiva. — Tudo o que importa é vencer e foda-se o bem-estar do Naruto.

Quando outra pessoa entrou no banheiro, o loiro se adiantou para um dos mictórios. O anjo saiu, aguardando do lado de fora que ele terminasse suas necessidades. Sentia seu coração pesado ao entender que é assim que o outro se sente diante de seu campeonato. Quando a responsabilidade é grande demais, óbvio que tudo irá se transformar em estresse.

O Uzumaki saiu do banheiro, soltando um profundo suspiro enquanto olhava na direção em que seus amigos estavam. Sasuke não precisava ler mentes para saber que ele pensava que ali se encontravam mais pessoas as quais ele não poderia decepcionar na competição — mesmo que nenhuma delas tenha dito que ele precisa vencer.

— Estou de volta — ditou, sentando outra vez na cadeira de antes.

À medida que o tempo foi passando e a conversa do grupo não voltou a ser o que aconteceria no futuro, a fina neblina de tristeza que havia se formado ao redor do loiro foi se dissipando. Sasuke se aliviou ao notar esse acontecimento, ainda que soubesse que essa parte não revela o modo exato como Naruto vem se sentindo.

Do pouco que observou durante a situação, o Uchiha não gostou de outra coisa que percebeu: o Uzumaki é bom em mascarar seus sentimentos, não é uma atitude muito saudável e gera consequências as quais Sasuke não gosta nem sequer de pensar sobre.

— Você tem que ser mais sincero, Naruto — Sasuke reclamou quando estavam dentro do carro. — Não adianta guardar essas coisas para si. — O anjo tinha a feição séria enquanto o encarava. — Se não gosta de algo ou não está se sentindo bem com alguma coisa, fale. Tenho certeza de que eles iriam entender. Não é fácil ser atleta.

Apesar dos conselhos terem sido ditos em voz alta e clara, Naruto não ouviu nada, no entanto, as palavras adentraram seu coração sutilmente.

O primeiro dia estava para se encerrar. O Uzumaki chegou em casa por volta das nove da noite, caminhando direto para o quarto assim que entrou no apartamento e jogou-se na cama. Um pesado suspiro deixou seus lábios enquanto encarava o teto.

— Vai tomar banho! Não deita na cama vindo da rua, Naruto! — Cutucou o braço do humano, ainda que não fosse surtir efeitos.

— Eu preciso de um banho.

— Precisa! Anda, mova-se! — incentivou.

— Foi um bom dia — sussurrou. — Fazia um tempo desde a última vez em que conseguimos sair todos juntos. — Um sorriso simples desenhou sua boca. Tomando um impulso, sentou-se na cama, começando a tirar os tênis laranjas. — Vou colocar para lavar da próxima vez em que usar. — Encarava o par.

— Fique à vontade para jogar fora, também.

Naruto tomou uma boa ducha, comeu algumas besteiras e deitou na cama com a televisão ligada. Não estava realmente prestando atenção ao que passava, pois conversava com alguém no celular. Aproximando-se do homem, Sasuke espiou a tela para saber de quem se tratava, era Kushina, a mãe de Naruto.

A conversa era casual, ele estava contando sobre como fora o seu dia. Em determinado momento, pareceu desejar falar a respeito de como estava se sentindo com relação ao que estava por vir. Porém, o anjo viu quando o loiro apagou todo o pequeno texto que havia escrito e desejou boa noite para a matriarca, dizendo que iria dormir, pois tinha aula no dia seguinte.

— O que eu faço com você? — reclamou Sasuke. — É a sua mãe! — Na face de Naruto estava clara a estampa do porquê havia desistido da mensagem: não queria preocupar a mulher, ainda mais morando tão distante dela.

Com um suspiro, Sasuke assistiu o loiro se preparar para realmente ir dormir. Desligando a televisão e ligando o abajur, não demorou muito para que o sono se apossasse do jovem.

O anjo assistiu um pouco da calmaria do sono alheio, pensando que não esperava que fosse ter tantas emoções logo no primeiro dia ao seu lado. Sentando de frente para o loiro, ele procurou sondar as preocupações de Naruto, aproveitando que seu coração está calmo e a cabeça repousa para descansar.

Ele já esperava não gostar do que encontraria, apesar de haver diversos pensamentos felizes, claro que dava para se pescar algumas dúvidas, principalmente sobre si mesmo e seu futuro — este referindo-se a diversos âmbitos, desde relacionamento até o bom desenvolvimento em suas carreiras.

Fazendo um simples carinho nos cabelos arrepiados, Sasuke decidiu que cuidaria bem dele — além do que seu trabalho já traz como obrigação. O anjo detesta ver alguém duvidando de si mesmo e omitindo suas emoções por puro medo.

Quando o despertador tocou no dia seguinte, assustou o anjo e irritou o dono do celular.

Naruto ainda levou mais do que bons quinze minutos para finalmente sair da cama. Sasuke permaneceu deitado no colchão, resmungando sobre o fato do loiro não ser organizado em seus horários, já que do jeito que estava fazendo suas primeiras tarefas, não demoraria a reclamar de que chegaria atrasado.

Hoje, o Uchiha terá a chance de ver como é a rotina universitária do Uzumaki. O assistiu preparando a mala para o treino à tarde e pensou também que conheceria seus companheiros de equipe. Pensando nisso, Sasuke fez uma anotação mental de dar uma boa olhada no treinador do loiro — já não gostava dele antes mesmo de conhecê-lo, esse era um fato inegável.

Naruto foi à pé para o campus, uma caminhada que não levou mais do que quinze minutos para se findar.

As áreas ao redor do grande prédio de Arquitetura estavam lotadas. A maioria das pessoas estavam aos pares ou trios, o que fez Sasuke cogitar que talvez o loiro não tenha muitos amigos por aqui. No entanto, seu pensamento foi cortado quando alguém abraçou os ombros do jovem pelas costas.

— Que susto, porra — Naruto reclamou.

— Estou te chamando desde o portão, mas você tem esses fones enterrados no ouvido, o que queria? — replicou o desconhecido de cabelos espetados.

— Poderia chegar como uma pessoa normal.

— Ih, acordou do lado esquerdo da cama hoje? — Afastou-se para encarar bem o rosto do amigo.

— Não enche. — Guardava os fones na mochila.

— O que foi, hum?

Sasuke gostou desse logo de cara, notando que, com certeza, ele não deixaria Naruto em paz até que o loiro confessasse o que o havia tirado do sério logo tão cedo pela manhã.

As aulas foram tediosas, o Uchiha se preocupou apenas em sentar na cadeira atrás de Naruto, prestando atenção no loiro que estava atento ao que os professores diziam. Suas anotações pareciam bem-organizadas no caderno e, ao contrário do que o anjo pensou, o Uzumaki é um aluno extremamente bem-comportado. O que faz sentido, já que um dos seus objetivos é manter as boas notas para manutenção da bolsa.

E, logo quando a última aula terminou, Kiba — como chamava-se o, até então, desconhecido —, puxou Naruto para uma área mais reservada do refeitório, assim eles poderiam conversar enquanto se alimentavam para a segunda parte do dia: a natação.

Sasuke assistiu o Uzumaki contar, ainda que não de forma aprofundada, sobre suas questões com relação ao campeonato que estava por vir e o quanto sentia-se de saco cheio. Ao menos ele está conversando com alguém, é um progresso em relação ao alívio dos sentimentos.

— Ninguém mandou que fosse o melhor nadador da equipe. — Kiba rolou os olhos, mas o tom era claramente de brincadeira, um bufo saiu das narinas do loiro. — Por que está participando, então?

— Eu gosto de nadar, sabe disso. Mas aquele velho tira todo esse prazer de mim. — Eles haviam começado a caminhada para o ginásio que fica no campus de Educação Física, também não muito distante de onde estão. — Além de que não posso deixar vocês na mão.

— Oh, obrigado pela parte que toca em todos nós. — Fingia emoção.

— Deixa de besteira, Kiba — Naruto ria, socando de leve o braço do amigo. — Mal vejo a hora das férias. — Suspirou pesadamente.

— Nós praticamente acabamos de começar o semestre — comentou.

— Shii. — Naruto pôs a mão na boca do moreno. — Não precisa falar isso em voz alta.

Já havia alguns nadadores tanto na piscina quanto ao redor dela quando os dois chegaram. Sasuke deu uma boa olhada no ambiente, notando uma figura de cabelos brancos e compridos se destacando do restante. Seus olhos se estreitaram quando, olhando bem para os trajes alheios, ele notou que aquele senhor era o único que não usava roupas de banho. Era claramente o treinador daquele pessoal nas áreas de natação.

Naruto e Kiba desceram para o vestiário, se trocaram sem muitas cerimônias, deixando as malas dentro dos armários, e subiram para o começo do treino.

Sasuke se sentou em um dos bancos molhados, alguns passos distantes da borda da piscina. Com os ouvidos atentos, notou Naruto ser elogiado diversas vezes pelo coroa, suas palavras eram bajuladoras, mas havia certa maldade de quem quer perfeição naquilo que está sendo executado. Isso incomodou o Uchiha genuinamente. Se sua natureza fosse outra, ele não hesitaria em simplesmente fazê-lo escorregar para dentro da piscina após pisar em um piso molhado.

Naruto não parecia triste, ansioso ou qualquer outro sentimento que possamos apontar como negativo, porém, também estava longe de parecer feliz. Sua face neutra parecia demonstrar que aquele espaço era o qual ele tentava afastar suas outras preocupações, apenas para receber novos pensamentos de dúvidas a respeito de suas capacidades quando ouvia o treinador elogiando suas performances.

— Não gosto de você — Sasuke sussurrou no pé do ouvido de Jiraya, o treinador.

— Muito bem, meninos, vamos conversar sobre algumas coisas para a semana que vem! — chamou todos para perto, mas não para fora d’água.

Era por volta das seis da noite quando Naruto estava livre para ir para casa. Parecia realmente cansado, isso era visível. Kiba o ofereceu carona, a qual o loiro aceitou sem pensar duas vezes, sendo deixado na porta do prédio menos de dez minutos depois que entrou no automóvel.

— Estou um caco — falou com um suspiro, deixando a mochila no chão, aos pés da cama. Sasuke ouviu quando ele agradeceu por tomar banho no vestiário, assim poderia saciar sua fome o quanto antes.

As próximas duas horas se passaram com a presença de um Uzumaki aplicado aos estudos, fazendo desenhos e cálculos nas folhas dos livros, aos quais Sasuke não prestou qualquer atenção, pois estava ocupado assistindo ao programa de comédia que passava na televisão ligada.

Antes de dormir, lá estava ele, outra vez, conversando com sua mãe, contando como foi o seu dia e sabendo como havia sido o da mulher. O “eu te amo e estou com saudades”, quando a despedida aconteceu, pareceu ser o modo como faziam diariamente, também.

No dia seguinte, a única coisa de diferente que aconteceu foi o fato de não haver treino e, para ocupar a hora vaga, Kiba e Naruto partiram para a biblioteca. Sasuke ficou entediado enquanto esperava que o Uzumaki terminasse sua sessão de estudos. Ele caminhou pelo local, espiou por cima dos ombros o que as outras pessoas estavam lendo, assistiu através da janela os estudantes andando na rua lá embaixo, parecendo quase como pequenos pontos no solo — já que o andar da biblioteca é realmente alto. Como o tempo para si passa de uma maneira diferente, foi uma tarde quase sofrida sem nada para fazer.

— O pessoal está para sair no final de semana. Você vai, não vai? — Naruto questionou.

— Já disse que vou — reclamou.

— Você furou conosco da última vez — acusou. — Vou passar para te pegar.

— Certo, meu chofer. — Naruto lhe deu língua ao ouvir a sentença.

No final de semana, de fato, aquele mesmo grupo que Naruto havia se encontrado dias atrás estava reunido outra vez para um piquenique exatamente na praça a qual Sasuke esperou pelo horário de encontrar o Uzumaki.

Toda a semana seguinte passou rapidamente e Sasuke sabia o motivo de toda essa correria no tempo, afinal, Naruto estava extremamente ansioso para o dia do campeonato. E, quando a sexta-feira chegou, o loiro dormiu incrivelmente mal na noite para o sábado. Teve um sono agitado, apesar de não ter despertado durante a madrugada, isso não o deixou nos seus cem por cento quando acordou.

Suas condições melhoraram quando ele sentou na cama para meditar um pouco. Trabalhando a respiração para acalmar o corpo e conseguir fazer o seu melhor na hora que o apito avisasse que poderia pular na piscina.

Toda a sua mala já estava organizada do dia anterior, mas, apenas para ter certeza, ele conferiu tudo mais uma vez. Não havia acordado atrasado, muito pelo contrário, despertou duas horas antes, justamente a fim de ter tempo de sobra para se preparar para a competição.

A piscina olímpica na qual ele nadaria fica em outra área do campus, onde há um ginásio maior do que o de treino que os nadadores costumam usar. E foi para lá que Naruto se dirigiu quando chegou na faculdade — indo de carro desta vez.

Encontrou praticamente todo mundo da equipe no vestiário, Jiraya estava esperando que todos chegassem para que ele pudesse dar o seu discurso final de incentivo; quando este finalmente começou, Sasuke fez careta para todas as palavras que foram ditas por ele, revirando os olhos quando o senhor disse que contava com o esforço de todos, mas ele próprio tinha o olhar sobre Naruto, deixando claro que aquela fala era para ele, unicamente.

Quando o Uzumaki espiou a área da piscina, ele viu o tanto de pessoas que já havia na arquibancada. Já foi-se o tempo em que o loiro se sentia nervoso diante de uma plateia para assisti-lo, várias e várias competições acabaram por calejar esse seu lado mais tímido, deixando-o à vontade diante dessas situações. Diferente de outros atletas que acabam se intimidando com os olhares e não conseguem dar o seu melhor, para Naruto, seu melhor não é dado apenas pelas suas próprias questões internas.

Olhando atentamente para os bancos onde estão os convidados, os olhos azuis do Uzumaki tentaram captar seus amigos naquelas bandas, porém era difícil encontrar qualquer um conhecido devido à quantidade de pessoas que ainda estavam de pé. Dando de ombros, o jovem apenas assumiu que não chegaram ou estão acomodados em uma área de difícil visualização do local onde ele se encontrava de pé.

Depois de toda a cerimônia formal de abertura, todos os atletas começaram a se dividir em suas devidas posições; com o estilo de Naruto sendo o último a competir.

Sasuke sentou em uma das cadeiras vazias próximas à piscina, estava torcendo junto com todos os presentes na plateia. Vibrando a cada vitória da equipe do Uzumaki, assim como sentindo-se pesaroso quando eles não conseguiam uma boa classificação.

Porém, claro que seu coração estava ansioso para ver seu protegido nadar como se fosse um ser marinho. E, ainda que estivesse se sentindo extremamente nervoso, diante dessas duas semanas que o assistiu treinando, Naruto tinha tudo o que é necessário para conseguir a medalha principal do dia.

Ao ver Naruto parar e se posicionar em sua raia, Sasuke quase sentiu necessidade de levantar-se e andar de um lado para o outro. Novamente ele pensou que, se fosse de outra natureza, não ligaria nem um pouco de atrapalhar os oponentes do loiro. Mesmo sabendo que essa pequena trapaça não seria boa para o ego do outro. Com toda a certeza Naruto é do tipo que gosta de vencer vendo os esforços de seus adversários também.

Os olhos azuis do Uzumaki eram puro foco quando ele puxou os óculos de nadador para cobri-los. Sua respiração era controlada e Sasuke sentia que, em seu peito, o coração batia em boa velocidade, apenas rápido o suficiente para injetar adrenalina em seu sangue e fazê-lo mais intenso.

Quando o apito soou e os corpos pularam na água, o Uchiha ficou de pé, nervoso. Viu Naruto ser o primeiro a fazer sua volta, sendo seguido de perto por um homem de cabelos extremamente vermelhos. No entanto, as braçadas do Uzumaki eram mais longas e, dessa maneira, o primeiro lugar foi conquistado com glórias.

Ao sair da água, Naruto não sabia que havia sido o campeão, ficou olhando para o telão, na esperança de ver logo o resultado. E, quando viu seu nome e seu rosto aparecendo na tela, um enorme sorriso se alargou em seus lábios. Sasuke também pôde ver sua respiração sendo exalada pelo nariz de maneira aliviada.

Seus companheiros de equipe saltaram sobre seu corpo para uma comemoração em conjunto. Os alunos da universidade sede também fizeram seu alvoroço em união ao tanto de vitórias que seus colegas de curso e de campus obtiveram no dia de hoje.

Antes de saírem para comemorar, Naruto fez uma ligação de vídeo com sua mãe para contar de seu feito. Na chamada, seu pai, Minato, também deu as caras, o que deixou Sasuke surpreso por tamanha semelhança entre o patriarca e seu primogênito. A família parecia extasiada por mais uma conquista do filho e o Uchiha pôde notar o quanto os ombros de Naruto pareciam mais leves por ele estar carregando aquela medalha de ouro em seu peito. Felizmente, seu esforço não foi em vão e ele conseguiu atender todas as expectativas — em sua maioria, imaginárias —, que lhes deram como responsabilidade.

A comemoração foi feita como os típicos jovens atletas que são. Todos com uma garrafa de cerveja na mão, Sasuke observou se o Uzumaki também faria parte desse momento, afinal, ele veio dirigindo. O orgulho cresceu dentro do anjo quando o loiro declinou todas as vozes insistentes sobre beber somente um gole. Realmente sua consciência quanto às coisas que devem ser obedecidas por todos é admirável.

Naruto estava realmente contente quando chegou em casa. Passou um tempo admirando as inscrições que estavam gravadas na medalha, e depois a colocou em uma gaveta junto com as outras. Lá estavam tanto as do ginásio, ensino médio e dos campeonatos na universidade — que eram, em sua maioria, de primeiro lugar. O Uchiha não deixou de ficar admirado com a quantidade de conquistas que o loiro teve ao longo de seus anos nesse esporte.

Passada uma semana, durante mais um dia de treino, uma grande e inesperada surpresa se fez presente no ginásio.

— Pessoal, este é Sabaku no Gaara — Jiraya disse. — Ele passará a treinar conosco, de hoje em diante.

Sasuke não fez esforço nenhum para puxar em sua memória quem era aquele novo integrante da equipe, ele era o homem que ficou em segundo lugar na competição. Por algum motivo, o anjo sentiu um longo arrepio em sua coluna ao encarar os castanhos olhos dele; Gaara parecia enxergá-lo, ainda que Sasuke soubesse que não era o caso.

Nenhum dos presentes sabia como reagir diante dessa novidade. E, com um pouco mais de conversa, foi explicado que o ruivo já havia expressado o seu desejo de competir pela universidade de Konoha, porém, precisava fechar o ciclo com a sua equipe anterior. Agora, livre das responsabilidades com os outros, decidiu tentar alguma sorte sendo treinado pelo Jiraya — além de ter feito a transferência de seu curso para Engenharia.

No dia seguinte, Naruto encontrou com Gaara pelos corredores. O jovem estava confuso sobre para onde deveria seguir e, assim, o loiro guiou o outro para a mesma classe que si, afinal, a primeira aula era geral de muitos cursos, por coincidência, o novato havia se matriculado com o mesmo professor que o Uzumaki escolheu.

Sasuke ficou de cara feia durante toda a manhã. Não gostava do modo como Sabaku no Gaara agia, havia algo de errado com seus trejeitos. Pensou até mesmo em pesquisar sobre quem era o seu acompanhante, mas acreditou que isso seria demais para os seus modos como anjo da guarda.

— Você não deveria ser amigo daquele rapaz — reclamou o anjo durante a caminhada que estavam fazendo de volta para o apartamento.

— Gaara parece legal, não é? — Kiba falou com Naruto.

— Não, ele não parece. — O Uchiha se meteu, mesmo sabendo que não seria escutado.

— Sim, parece. Além de ser bastante talentoso na água — respondeu o loiro. — Ele tá na mesma aula que eu, de conhecimentos gerais.

— Ao menos não vai ficar só o tempo todo.

— Sim. — Deu de ombros.

Sasuke estudou as feições de Naruto ao responder o Inuzuka, no entanto, o anjo não conseguia pescar nada sobre o que o rapaz pensava sobre o outro. Com um saliente bico nos lábios, ele virou o rosto, andando com passadas duras ao lado dos dois amigos.

Quatro meses já haviam se passado desde que o anjo desceu para a Terra, ficando ao lado de Naruto desde então, ele vem acompanhando todas as aventuras e desventuras que o loiro anda vivendo em sua vida de universitário e atleta.

Nesse meio tempo, Sasuke se viu cultivando algumas atitudes que talvez estivessem um pouco fora de como deveria realmente agir com o humano. Durante a noite, se tornou comum para ele assistir ao sono do Uzumaki, deitado de frente para ele, não notava o tempo passando até que os olhos azuis se abriram diante do despertador para a aula.

Sasuke segredou em seu consciente que realmente passou a admirar Naruto, desde o modo como é bom para os seus amigos até mesmo o quanto é dedicado em tudo o que se propõe a fazer. Mesmo que, em seu coração, ele soubesse que nada pode ser feito para que esse sentimento fosse sentido na vida real do loiro, o Uchiha não deixou de se permitir sentir o que sentia. Fosse o frio na barriga que constantemente o paralisava diante da risada alta que o humano costuma dar ou o prazer de somente assisti-lo estudando.

Os meses vêm sendo realmente tranquilos; além de umas pequenas competições internas e alguns estresses corriqueiros, nada tirou o loiro de seus trilhos. O que para o anjo, foi algo bom de se ver, não precisava ficar tão preocupado com o pequeno problema alheio de guardar os sentimentos apenas para si. Sasuke não queria admitir, mas, aparentemente, ter Gaara na equipe foi uma boa adição, já que o ruivo além de ser uma pessoa social, sempre está a desafiar Naruto para que dê o seu melhor, apontando que se não o fizer, ele estará lá para ultrapassá-lo. Ainda que o anjo tenha gostado desse incentivo saudável, continuava a manter o mesmo sentimento dúbio com relação ao jovem e, normalmente, a sua intuição não falha quando o assunto é apontar alguém como uma má companhia.

Com essa chegada de Gaara também no prédio da universidade, ele estava realmente próximo da dupla Kiba e Naruto. Ainda que Sasuke houvesse acostumado com sua presença corriqueira, tanto nos horários de almoço como nos treinos, era difícil não ter um olhar atravessado para ele nesses momentos; mas não havia nada que pudesse fazer para interferir nessa crescente amizade dos dois — já que, mesmo que Kiba estivesse no meio, o loiro e o outro estavam muito mais próximos.

Foi no meado do quinto mês que Gaara convidou Naruto para ir a uma balada, no final de semana seguinte ao término da semana de provas. Sasuke viu Naruto ponderar a ida, no entanto, acabou cedendo quando o amigo apontou que eles precisavam de um bom momento de diversão após todo o estresse das avaliações. Ainda que o anjo concordasse com esse pensamento, não concordou com o que foi sugerido — porém, outra vez, não havia como interferir no que estava acontecendo.

No dia marcado, Naruto estava divagando em frente ao seu guarda-roupas sobre o que deveria vestir. No relógio do celular dele, o visor marcava que já eram quase oito da noite. O céu estava claro, praticamente sem qualquer nuvem passeando, o que dava acesso completo para o quão grande a lua se encontrava a essa hora. Além da temperatura estar agradável, é um bom conjunto.

Sasuke sentou na cama para ver o loiro testar algumas blusas e calças, descartando todas as possibilidades enquanto fazia uma montanha de peças no colchão. Da visão do Uchiha, ele não conseguia ver qual era o problema que o outro via nas roupas que dizia não estarem bem em si. Cada uma das vestimentas encaixavam perfeitamente em seu corpo, destacando os lugares certos e fazendo-o parecer desejável em uma boa medida. No entanto, não era isso que o loiro via no espelho.

O anjo parou para analisar o que estava acontecendo, tentando pensar nos motivos que poderiam estar levando Naruto a fazer esse julgamento completamente errôneo sobre o que usar. E foi nesse momento que a sua ficha caiu, e mesmo não querendo, Sasuke entendeu a razão: Naruto estava gostando de Gaara e queria agradá-lo no que vestiria.

Por um momento, o mundo pareceu parar de girar. O coração do moreno disparou em seu peito, um sentimento de aceitação e frustração correu em seu interior. Claro que isso era passível de acontecer. Na verdade, ele até mesmo esperava que acontecesse e por isso sempre teve tanto desprezo pelo ruivo. Não queria que ninguém tomasse Naruto de si, ainda que o loiro não seja sua propriedade e Sasuke devesse sempre prezar pela sua felicidade e bem-estar, não é algo que se quer ter consciência — seja humano ou não.

Naruto colocou nos pés seu All Star laranja, o qual Sasuke aprendeu a gostar pelo tanto de vezes nas quais viu o loiro usando. É o tênis favorito do Uzumaki e combina com sua personalidade, já que é a cor da alegria.

O anjo preferiu ficar em silêncio durante todo o trajeto que fez com os dois. Mesmo que ninguém fosse escutá-lo ou respondê-lo, isso nunca impediu seus comentários às conversas alheias. Os dois estavam conversando animadamente nos bancos da frente, enquanto Sasuke assistia a paisagem noturna passar pela janela. Em sua cabeça, as projeções de como essa noite provavelmente deve terminar não ajudaram em nada a se recuperar da descoberta que fez há pouco menos de uma hora.

A danceteria estava relativamente cheia, o que era o esperado. Sendo sábado à noite, claro que os jovens da cidade vão querer divertir-se em algum lugar onde possam beijar umas bocas, além de, quem sabe, arrumar uma transa casual.

Sasuke seguiu direto para o bar do local. Se fosse humano, neste exato momento, ele estaria pedindo ao barman uma dose de qualquer coisa que curasse coração partido, mas ele pôde apenas lamentar enquanto precisava tomar conta de Naruto.

Não perdeu o loiro de vista hora nenhuma enquanto acompanhava a dança animada que ele fazia na pista. Gaara o estava cercando, esperando, obviamente, a melhor situação para fazer uma aproximação mais intensa. E quando essa aconteceu, o Uchiha apenas suspirou, desviando o olhar para qualquer lugar que não fosse o ósculo quente que acontecia no meio das pessoas.

Gaara e Naruto entraram aos beijos no apartamento do Uzumaki. A ansiedade era tanta nos dois que quase não conseguiram passar do corredor para o quarto. O anjo se permitiu ficar do lado de fora. Estava sentado no mesmo local em que sentou pela primeira vez, quando veio tomar seu posto. Recostando a cabeça na parede, suspirou fundo, pensando em como deixou as coisas fugirem de seu controle dessa maneira. Depois de tantos e tantos trabalhos, ele se sente e tem noção de que parece um novato que não sabe diferenciar o que é preciso fazer.

O Uchiha só se permitiu entrar na residência quando o ruivo passou por seu lado para ir embora. Ao ver Naruto no quarto, havia um sorriso radiante em seus lábios. A cama estava uma bagunça, além de alguns preservativos estarem pelo chão.

— Ao menos você é realmente consciente — resmungou o moreno, observando o loiro enviar uma mensagem para alguém, provavelmente Kiba.

Era óbvio que algo iria se desenrolar após essa primeira noite, mas o que aconteceu não foi o que Sasuke pensou.

Na segunda-feira, no período após o treino, Gaara se ofereceu para ir até a casa de Naruto. Seu pretexto era de que gostaria de conversar e também fazer uma proposta para o loiro. De maneira alguma o Uzumaki iria recusar essa oportunidade e, mais uma vez, Sasuke se viu do lado de fora do apartamento. Porém, quando se deu conta de que os sons obscenos haviam cessado, ele adentrou a residência para saber do que se tratava a conversa.

Viu a desagradável cena dos dois homens abraçados sobre a cama, Gaara fazendo carinho nas costas de Naruto, este que tinha um sorrisinho contente entranhado na boca.

— O que queria conversar? — perguntou.

— Estive pensando — Gaara começou, afastando-se um pouco para encarar o outro —, no sábado, eu queria ver a nossa compatibilidade, se é que me entende. E depois de confirmar isso, quero te propor algo.

— Que seria...? — Seu tom é curioso.

— Poderíamos continuar nesse lance sem qualquer compromisso, o que acha? — Aproximou o rosto do outro. — Quando você quiser, eu quero, e, quando eu quiser, você pode querer também. — Selou os lábios alheios.

Sasuke revirou os olhos ao ouvir a ideia ridícula do ruivo e ficou realmente chateado quando viu Naruto concordar com a proposta. Conhecendo Naruto como Sasuke veio a conhecer nestes últimos meses, ele sabe que o loiro se machucará cedo ou tarde.

E assim seguiram, nos dias posteriores.

Da mesma forma que foi no mês seguinte e no próximo a ele.

Sasuke assistiu de longe. Viu e ouviu quando Naruto comentou com Kiba que estava realmente apaixonado e planejava declarar-se em breve, já que acreditava que seus sentimentos eram recíprocos. O amigo incentivou, dizendo que apoiava que as coisas fossem para além da brincadeira que os dois faziam atualmente.

O Uzumaki recitou de frente para o espelho várias vezes as palavras que usaria para falar ao ruivo sobre como se sentia. Estava visivelmente nervoso, mas não deixava de se sentir empolgado com a ideia de finalmente namorar alguém que estava gostando. Já que, desde que houve o pequeno envolvimento com Hinata, ele ainda não havia experimentado nenhum relacionamento que fosse longo ou que o fizesse sentir como se sente agora.

O anjo estava prestes a sair do ambiente. Não queria presenciar o que Naruto diria, quando sentiu a mudança de clima no cômodo. Olhando por cima dos ombros, viu os olhos assustados de Naruto encarando o ruivo.

— O que você disse? — perguntou Gaara.

— Eu... Eu disse que gosto de você — sussurrou.

— Ah. — Gaara afastou-se, coçou a nuca, soltando um longo suspiro logo em seguida. — Eu sabia que isso iria acontecer. — Rolou os olhos. — Se você não tinha como manter uma coisa casual, como a que fazemos, por que não me avisou? — Encarava o menor com olhos acusadores.

— Pensei que sentia o mesmo. — O choro era palpável em sua voz.

— Claro que pensou. — Virou as costas, caminhando para pegar sua jaqueta no sofá.

— Para onde vai?

— Para casa. Para onde mais eu iria? — Franzia a testa ao encarar o loiro.

— Mas —

— “Mas” o quê? Acabou, Naruto. Se você não consegue, não há motivos para continuar com isso. E não me diga para continuarmos, não será a mesma coisa. É uma pena, você é um parceiro bacana. — Caminhou para a porta e saiu.

Sasuke sentiu seu coração apertar, além da raiva descomunal que subiu em seu corpo ao ver Naruto sendo rejeitado de maneira tão cruel. Queria abraçá-lo, dizer que tudo ficaria bem, mas tudo o que ele poderia fazer era assistir e ficar ao lado do loiro enquanto o ouvia chorar.

A partir desse dia em questão, tudo virou de cabeça para baixo.

Se antes Naruto estudava para manter suas notas, passou a usar o hábito como válvula de escape. Passou a recusar praticamente cem por cento dos convites que recebia para alguma comemoração ou apenas uma saída entre amigos, resmungando algumas horas para si que precisava ir em alguma, já que havia recusado todas as anteriores.

Sasuke sentia o peso em seu peito crescer ao ver como Naruto estava. Algumas noites eram passadas em claro; seu desempenho na natação se mantinha o mesmo, isso porque o Uzumaki passou a usá-la como sua função de vida, inspirando piscina e cloro, além das folhas dos livros de seu curso.

Não foram poucas as vezes que o Uchiha passou os seus braços pelo ombro do loiro para tentar consolá-lo de alguma maneira, enquanto ele chorava abraçando os joelhos na cama. O anjo sentia falta do brilho empolgado nos olhos azuis, sentia falta de sua risada escandalosa e principalmente, sentia falta de vê-lo usando o ridículo All Star laranja.

O Uzumaki havia se fechado para o mundo.

Com a proximidade de mais um torneio interno, Sasuke ainda se perguntava o que poderia fazer para ajudar o loiro. Toda a sua ajuda é limitada, Naruto precisa seguir seus próprios caminhos e aprender com cada uma das suas escolhas. No entanto, é realmente doloroso ter de assistir alguém de que gosta passar por toda essa turbulência emocional.

A equipe de natação da universidade está em sua melhor forma, no semestre atual. Foram poucas as modalidades nas quais eles não conseguiram a medalha de primeiro lugar, então a moral dos atletas está realmente alta para o dia de hoje.

Como sempre tem o costume de fazer, o Uchiha sentou em um dos bancos próximos à borda da piscina, tudo para conseguir assistir de perto a performance de seu protegido. É óbvio que não houve qualquer decepção com a posição que o outro conseguiu, quando foi a sua vez de competir; porém, diferente daquela primeira vez, não viu o grande sorriso que Naruto abriu quando conseguiu o ouro, havia apenas um simples conformismo de ter conseguido mais uma vez.

Após tudo ter se findado, Sasuke desceu com o loiro para o vestiário. O cômodo já estava vazio, pois o Uzumaki aguardou que todos tivessem sua vez, para que ele pudesse ficar sozinho, sem precisar ouvir — novamente — todas as bajulações de seus colegas e treinador. Todavia, o humano não ficou só no ambiente por muito tempo. Minutos antes de estar completamente pronto para sair daquelas dependências, seu nome foi chamado por alguém que o Uchiha não reconheceu. E, pelo olhar duvidoso que viu no rosto de Naruto, ele também não conhecia quem se apresentava.

— Vim te dar os parabéns — começou o rapaz. — Há um tempo que quero ver você em ação, mas apenas hoje tive a oportunidade. O pessoal não estava exagerando quando disse que manda bem — continuou.

— Hum... — Naruto ponderava. — Obrigado. — Adiantou para pegar suas coisas dentro do armário e partir para casa.

— Será que você teria um tempinho para conversar comigo sobre algo? — perguntou, o loiro franziu a testa.

— O que é?

— Me disseram que você curte. Se é que entende o que quero dizer. — Sua voz era sugestiva.

— Não estou interessado. — Ele não se deu ao trabalho de olhar para o estranho após entender seus interesses.

— Você terminou com o Gaara há um tempo, não foi?

— Gaara não era meu namorado. — Fechou o armário, colocando a mala no ombro, já pronto para sair do ambiente.

— Tem certeza? Uma comemoração pela vitória? — Um sorriso indecente estava entranhado nos lábios alheios.

Sasuke olhou para Naruto, vendo que ele não esboçava nenhuma expressão que refletisse o que pensa. Sua face estava neutra, o que deixou o anjo preocupado, teria de vê-lo com outra pessoa? Engolindo duro, seu coração batia de maneira descompassada.

— Não, obrigado — respondeu, por fim. — Estou indo embora, você deveria fazer o mesmo, o ginásio já está vazio. — Passou pelo rapaz.

— Você nem é tão gostoso assim — resmungou.

— Certo. — Naruto acenou com as costas da mão, não dando quaisquer ouvidos para o comentário pós-rejeição.

O Uchiha inspirou fundo, exalando pesadamente o ar de seus pulmões. Em sua cabeça, os pensamentos que se passavam era que essa fora a gota d’água. Não poderia suportar ver Naruto ser cercado e, pior ainda, não queria mais assisti-lo ser essa pessoa que vem se tornando: alguém amargurado com o amor.

Quando chegou no apartamento do loiro, ele esperou que o humano se alimentasse e assistisse um pouco da série que anda acompanhando, até o momento em que o sono foi avassalador. O anjo se certificou de que Naruto dormiria de forma profunda e, após isso, o moreno fez contato com a rede celestial, pedindo para eles um anjo substituto de emergência, pois ele tinha um afazer de extrema importância para ser feito no céu.

Não levou mais do que poucos minutos para que alguém chegasse na porta do apartamento e adentrasse o cômodo onde os dois estavam. Sasuke agradeceu a rapidez, já fazendo seu caminho para subir, não antes de beijar a testa de Naruto com visível carinho para quem estivesse no ambiente.

Seu olhar era decidido enquanto caminhava para a ala 24 horas do RA — Recursos Angelicais. Batendo na porta e entrando, o único guichê disponível contava com uma loira, que ergueu os olhos do computador para ver quem estava entrando naquela hora, afinal, já passa das onze da noite.

— Uchiha Sasuke? — falou apenas para certificar-se de que via quem estava vendo.

— Sou eu mesmo, Tsunade — confirmou, puxando a cadeira de frente para a mesa alheia.

— O que deseja?

— Quero desistir do meu eu. — Os olhos dela se arregalaram. — Se possível, agora.

— Sasuke — ela começou, no entanto, não conseguiu formular o restante —, Sasuke, isso... Você tem certeza?

— Tenho. — Sequer hesitou para responder. — O que preciso fazer?

Ela ignorou o anjo por um momento, voltando o olhar para a tela do computador, digitava alguma coisa que o outro não tinha como tomar nota do que se tratava.

— Uzumaki Naruto? — questionou a loira, olhando de volta para o moreno. — É por ele que vai desistir de tudo?

— É.

— Você chegou a se mostrar? — Sasuke balançou uma negativa, ela suspirou. — Vá conversar com o seu irmão antes — ditou direta.

— Não tenho nada para falar com o Itachi. Eu posso tomar as minhas próprias decisões — replicou.

— Não estou dizendo que não pode. — Mais uma vez sua respiração foi forte. — Apenas converse com alguém que fez o mesmo. Vou preparar todo o necessário, volte mais tarde.

Sasuke agradeceu e saiu por onde entrou.

Conversar com o Itachi... pensou. Faz um tempo desde a última vez que Sasuke teve a oportunidade de conversar com o irmão. Este que, assim como o Uchiha estava pensando em fazer, desistiu de sua própria vida no céu para viver com o humano pelo qual se apaixonou.

Itachi e Shisui viveram uma boa vida na Terra. Namoraram, casaram e adotaram algumas crianças. Viveram uma longa vida, também, assim como morreram em idades bem próximas um do outro, logo, não tiveram nem mesmo tempo de sentir saudades. Hoje, eles vivem em seu próprio mundo no céu — e era para lá que o Uchiha mais novo estava se dirigindo.

Ficando de frente para a porta que tinha um número de série e o nome de Itachi e Shisui, Sasuke suspirou fundo antes de tomar coragem para bater e adentrar. Não fazendo qualquer ideia de como iria contar a decisão que tomou, seguindo os passos do mais velho.

Depois que a porta foi aberta, o moreno se deparou com um calmo bosque, apenas o barulho da natureza se fazendo presente. De frente para suas vistas estava uma cabana de dois andares, toda feita de madeira e vidro, uma réplica perfeita da residência que o casal morava quando estavam vivos.

A porta da frente foi aberta e Sasuke viu um homem maior do que si encará-lo.

— Sasuke! — Shisui acenou. — Itachi, amor, o Sasuke está aqui — falou, olhando por cima do ombro.

Com um pequeno sorriso nos lábios, o jovem caminhou de encontro à casa. Seu irmão saiu quando seus pés tocaram a varanda.

— É ele mesmo! — Seus dentes estavam quase todos à mostra. — Eu estava com saudades, irmãozinho. — O tomava em um abraço. — Você deveria me visitar com mais frequência.

— Desculpa, eu estava trabalhando — respondeu. — Olá, Shisui. — Abraçou o maior também.

— Venha, vamos entrar — convidou Itachi com empolgação. Eles seguiram direto para a cozinha, onde lhe foi oferecido chá para beber. — O que te traz aqui hoje?

— Eu — com um suspiro, Sasuke puxou coragem junto —, eu fui aos recursos — falou, encarando o irmão logo em seguida. O casal se entreolhou, já sabendo do que se tratava aquela simples afirmação.

— Você tem certeza? — Itachi procurou segurar a mão dele por cima da mesa. — Sasuke, isso... Não é qualquer garantia de que terá um bom futuro com quem ama. Você se apresentou, pelo menos?

— Não. — Ele ouviu o suspiro do irmão. — Mas estou ciente dos riscos — falou com sinceridade.

— Quem é?

— Uzumaki Naruto — sussurrou.

— O que houve? — Shisui perguntou e Sasuke contou como foi desde o início. — Você vai descer sem qualquer garantia?

— Nem mesmo sei como chegar sem assustá-lo — ria sem graça. — Estou bem com tudo, de verdade. Digo que, se ao menos construirmos uma amizade, estarei satisfeito. — A sinceridade era palpável em sua voz, ele realmente estava falando sério quando se referia ao fato de não precisar ter qualquer relacionamento de cunho romântico com Naruto. Apenas saber que poderia tocá-lo, observá-lo e senti-lo no mundo real estaria sendo o suficiente para satisfazer sua necessidade. — Acho que, por hora, isso é uma despedida. — Ele encarou os olhos escuros de seu parente.

Foi um momento divertido para todos os três, mesmo que Itachi estivesse com um leve comichão em seu peito devido às aventuras de seu irmão. No entanto, ele conseguia ver em seu olhar que realmente estava decidido a desistir de toda a sua imortalidade para se arriscar na incerteza. O Uchiha mais velho conseguiu admirar a coragem dele, ainda que achasse imprudente a falta de confirmação.

Sasuke deixou a casa deles horas mais tarde, recebendo um apertado abraço de Itachi, que sussurrava em seu ouvido o quanto iria sentir falta de suas visitas — por mais que estas demorassem a acontecer. Shisui desejou boa sorte quando tomou o menor nos braços e o casal assistiu o — até então — anjo, partir para além da porta de seu mundo.

Tsunade ainda tinha o mesmo olhar de receio quando Sasuke sentou-se na mesma cadeira que antes, de frente para sua mesa.

— Como quer descer? Podemos te ajudar com algumas coisas para que não fique completamente desolado, sem qualquer amparo.

— Apenas uma matrícula em algum curso na mesma faculdade. Um dos menos populares seria o melhor — respondeu.

— Algum em específico?

— Artes, por favor. E eu também não quero morar em seu prédio, de preferência.

— Certo. — Ela se levantou. — Me acompanhe. — Fez um movimento de mão para que fosse seguida.

Os dois entraram por uma porta no final de um longo corredor sem qualquer decoração. Lá só havia uma cama, assim como uma forte luz branca que vinha do teto.

Tsunade aproximou-se do colchão, apertando um botão para que uma máquina se desdobrasse de um compartimento escondido. Sasuke a viu digitando algumas coisas no teclado que surgiu, no entanto, não fazia a menor ideia do que estava acontecendo.

— Pode deitar — falou. — Não dói, não se preocupe — apontou com riso na voz. — Aqui é onde estou colocando os dados que deseja — explicou o que fazia. — Vou te mandar alguns meses na frente, está bem? Vai ser como se você estivesse dormindo. — Houve um período de silêncio. — Irei te enviar para o começo do semestre. Foi o melhor que consegui fazer, os sistemas da faculdade poderiam entrar em conflito caso eu adicionasse um aluno. Além de que seria problemático modificar a memória de tantas pessoas para que não estranhassem a sua aparição em uma aula.

— Tudo bem.

— Quando eu disser, olhe para a luz.

— Certo.

— Vocês... Uchiha, vocês vieram com defeito no nascimento — ela resmungou. — Com certeza você não será o último. O Itachi não foi o primeiro, isso não pode continuar acontecendo. — Quando Sasuke pensou em responder, a mulher pediu que ele encarasse a luz. — Boa sorte, Sasuke, espero que seu destino seja como o de seu irmão. Te esperamos de volta quando for a hora.

— Obrigado, Tsunade.

A luz não machucou seus olhos quando ele passou a encará-lo. Muito pelo contrário, era quente, aconchegante e passava uma sensação de calmaria que o envolvia aos poucos. Não muito depois, foi como se estivesse sonolento, até que dormiu.

Quando Uchiha Sasuke abriu os olhos, a primeira coisa que ele viu foi um teto cor creme. O sol da manhã incomodou suas pupilas fortemente, assim como uma sensação esquisita se espalhava por sua barriga: ele estava com fome pela primeira vez em sua longa vida. Sentando-se na cama, o moreno encarou suas mãos, não havia nada de diferente nelas. Ele não se sente completamente diferente, também.

Olhando ao redor, o mais novo humano capturou as coisas que há em seu quarto. Nada muito chamativo, mas é um lugar aconchegante e organizado. Vendo o guarda-roupas, Sasuke levantou para dar uma olhada no que havia lá dentro, encontrando algumas peças de roupa simples, além de alguns sapatos e peças de baixo. Olhando para como aquilo tudo estava montado, o Uchiha julgou que o resto da casa também estaria repleto de itens para sua sobrevivência. Mentalmente, o rapaz fez um agradecimento a Tsunade pelos cuidados que teve.

Indo até o banheiro, ele encarou seu reflexo — nada mudou em sua aparência — e sentiu um profundo frio no estômago quando percebeu que agora, finalmente, poderia ter contato com Naruto. Um sorriso foi impossível de se conter, em seus lábios, assim como uma risada gostosa deixou sua garganta.

Pensando na rotina que o Uzumaki tinha pela manhã, ele imitou seus passos. Tomou um breve banho antes de trocar as roupas que usava, comeu um café da manhã simples e também escovou os dentes antes de sair pela porta da frente do apartamento — carregando uma mochila com livros e cadernos em seu ombro.

As áreas de entrada da faculdade estavam repletas de estudantes. Foi até mesmo engraçado para Sasuke que ele fosse capaz de sentir todos esbarrões, além de sentir todos os cheiros e perceber novas coisas com essa casca que agora lhe pertence.

O Uchiha planejava usar toda a semana para se adaptar ao seu prédio e a rotina de ser o que é agora, no entanto, quando foi para a biblioteca no terceiro dia, encontrou com Naruto sentado em uma das mesas. Estava sozinho.

Sasuke esperou, durante todo o tempo em que o loiro ficou lá, que Kiba aparecesse, porém isso não aconteceu. Assim como não aconteceu no dia seguinte e no que se seguiu a ele. Com um franzir de testa pela constatação, o moreno não entendeu o que estava acontecendo — sabia que os treinos de natação ainda não estavam de volta, pois o treinador se encontrava de licença por precisar tratar de alguns assuntos pessoais, mas o fato do Inuzuka não estar presente era novidade.

Sendo assim, na segunda-feira, Sasuke esperou para saber se o amigo da pessoa que ele gosta apareceria. Caso isso não acontecesse, ele faria sua primeira aproximação.

Após o almoço, o Uchiha foi até a mesa de sempre. Ficou por lá até que Naruto chegou, como em todas as outras vezes; a mochila em seu ombro e alguns livros, pegos nas prateleiras, nos braços. Sasuke sentia seu coração batendo forte por estar fisicamente tão perto do outro; ainda que antes essa proximidade fosse literalmente ao seu lado, agora ele é um ser humano, é uma sensação completamente diferente.

Acompanhando o caminhar do loiro até sua mesa, Sasuke viu que, em seus pés, estavam os famosos tênis laranjas. Um curto sorriso foi impossível de ser segurado em sua boca. Sentiu falta deles e estava curioso para saber como havia sido o período de férias do outro, será que havia viajado para ver os pais? Estava melhor de seu coração? Muitas perguntas, nenhuma resposta.

Depois de se acomodar e começar sua sessão de estudos, Naruto parecia confuso com o que via nas folhas de seus cadernos. Sua expressão era de pura confusão, ainda que fosse engraçado assistir as caretas que este fazia para o que lia. Com essa deixa, Sasuke resolveu que aquela era a hora de chegar no mais novo.

— Oi — falou simplesmente. Naruto levantou o olhar das páginas desenhadas, encarando o rosto do moreno com seus grandes olhos azuis, o Uchiha poderia jurar que sua respiração foi roubada naquele exato momento.

— Oi?

— Eu te vejo sozinho aqui todos os dias e... Parece que você está com problemas em alguma coisa — continuou, tentando manter o tom mais casual que tinha condições de fazer, afinal, seu nervosismo era grande demais.

— Eu te conheço? — Dobrou a cabeça para o lado quando fez o questionamento.

— Não conhece — riu um pouco. — Eu estava te observando dali. — Apontou para a mesa próxima. — Você precisa de ajuda com algo?

— Acho que sim. — Suspirou. — Você sabe alguma coisa de cálculos?

— Um pouco. Posso ver o que está estudando? — Naruto lhe passou o caderno, tinha o ar de desconfiança para a ajuda tão repentina de um completo estranho. — Eu me chamo Sasuke, a propósito.

— Sou Naruto — cumprimentou de volta. — De qual curso você é?

— Artes. — O loiro ergueu uma sobrancelha na direção do outro.

— E como vai poder me ajudar?

— Você é de arquitetura, certo? — Encarou o rosto alheio. Outra vez, pareceu que o ar faltou ao seu redor. Naruto é mais bonito do que Sasuke conseguia recordar e, com a proximidade, o moreno conseguiu notar que há, outra vez, um pouco do mesmo brilho no olhar azulado de quando o conheceu, meses e meses atrás. Isso o agradou. — São cálculos de ângulos, não é?

— Como você sabe? — Parecia surpreso.

— Já conheci alguém da área. — Deu de ombros. Ele não estava mentindo. De fato havia acompanhado um arquiteto muito tempo antes e acabou absorvendo um pouco dos conhecimentos do homem.

— O que você quer em troca?

— O que quer dizer? — A pergunta o pegou de completa surpresa.

— Exatamente o que ouviu.

— Não quero nada. — Franziu o cenho.

— Então, por que vai me ajudar?

— Porque você está com dificuldade. Precisa haver um motivo maior?

— Não é assim que as coisas funcionam aqui. — Suspirou. — Ao menos não andam funcionando assim para mim.

— Se não quiser a minha ajuda, tudo bem.

— Eu quero, por favor. O meu amigo que é bom em matemática e números, eu sou uma negação.

— E seu amigo, onde ele está? — Sasuke sabia que era a Kiba que o outro estava se referindo.

— Não posso entrar em detalhes, mas alguns problemas familiares fizeram ele transferir o curso para sua cidade natal.

— Sinto muito.

— Está tudo bem agora. Você não quer sentar? — Puxou a cadeira para abrir espaço.

Foi mais do que Sasuke estava esperando que viesse a acontecer. Mesmo que, depois que terminaram a pequena sessão de estudos, Naruto tenha pedido para ser deixado sozinho em sua mesa. Ele até esperou que algo assim fosse acontecer, afinal, eles são estranhos um para o outro.

— Estou logo ali, caso precise de mais alguma coisa.

— Obrigado pelo auxílio. — Um largo sorriso se desenhou na boca do loiro.

— De nada.

Sentado de frente para o Uzumaki, o Uchiha tentou não encará-lo, de todo modo. Todavia, ele conseguia sentir o olhar suave do outro sobre si de vez em quando. Sabendo que era um encarar de pura curiosidade para entender o que levou o outro a ajudá-lo de bom grado.

No dia seguinte, Naruto acenou para Sasuke quando entrou na biblioteca e viu o moreno em seu lugar de sempre. Mas essa foi a única interação que tiveram, até a quarta-feira.

— Oi — Naruto falou, parecia tímido pela aproximação que fez.

— Oi. — Sasuke deixou o livro que tinha na mão de lado para dar-lhe atenção.

— Posso sentar aqui?

— O lugar é todo seu.

— Obrigado. — Deixando a mochila em um canto, ele remexeu em alguma coisa dentro dela. — Eu trouxe algo para você. Para agradecer.

— Está falando sério? Não precisava.

— Apenas cale-se, okay? — Naruto passou um pequeno pote para as mãos de Sasuke. — Fui visitar os meus pais nas férias e aprendi a fazer biscoitos com a minha mãe. Não são tão bons quanto os que ela faz, mas estão gostosos.

— Tenho certeza de que são ótimos. — O coração do moreno batia veloz, ele reprimiu fortemente a vontade de dizer que, se fosse feito pelo loiro, para si, não importava o sabor. — Obrigado — agradeceu com sinceridade.

— Não precisa agradecer. Pode me devolver a vasilha amanhã, já que não podemos comer aqui.

É mais um motivo para eu falar com você, pensou Sasuke.

Na manhã seguinte, o Uchiha se atrasou para mudar de prédio e o professor já estava em sala quando ele passou pela porta. Em uma das cadeiras mais ao canto, Naruto arregalou os olhos quando viu quem entrava. Ele nunca havia reparado que Sasuke estava em uma das suas classes de uma das matérias gerais, a qual ele não havia conseguido cursar quando estava no primeiro período do curso.

Acompanhando o moreno se acomodar, o Uzumaki se perguntou o quanto ainda iria encontrar o outro dessa maneira esporádica. Bem, ele não estava realmente reclamando. Desde que Kiba precisou partir que ele tem se sentido sozinho — e uma nova amizade não parecia ser uma ideia ruim. Exceto quando se pensa na última experiência que teve ao conhecer uma nova pessoa e se apegar a ela.

— Você por aqui. — Naruto tomou coragem para falar com Sasuke depois que a aula acabou.

— Acho que você nunca reparou que pegamos essa aula juntos — respondeu sorridente.

— Você vai para a biblioteca hoje?

— Estarei lá, como todos os outros dias.

— Quer almoçar comigo? E, depois, você pode me ajudar com a nova matéria de cálculo?

— Estou à sua disposição.

Foi com bastante naturalidade que os dois se aproximaram, principalmente pelas tardes passadas na biblioteca, onde Naruto vivia reclamando dos assuntos que envolviam matemática; mas Sasuke estava lá para auxiliá-lo nessas questões.

— O seu tênis — Sasuke apontou um dia, enquanto desciam da biblioteca. Já passa da metade do semestre, com a chegada iminente das provas finais, eles dois têm se dedicado bastante aos seus próprios assuntos de suas matérias.

— O que tem? — Arregalou os olhos na direção do moreno.

— Está desamarrado. — Sasuke estranhou a atitude.

— Ah. — Tirando a mochila das costas, ele apoiou o pé no primeiro degrau que encontrou.

— Combina com você — continuou.

— Você acha? Eu saí com uma pessoa que disse que eles são ridículos. — Deu de ombros. — Laranja não é uma coisa comum de se gostar.

— Combina com você — Sasuke insistiu. — Eu gosto. — Mas, em seu consciente ele admitiu que são ridículos, porém, não em Naruto.

O loiro encarou o outro nos olhos, uma leve coloração rosada tomou conta de suas bochechas. O estômago de Sasuke estava gelado, ele poderia, queria e até mesmo deveria dar um passo em frente e beijar os lábios do menor. No entanto, sua preferência foi se manter onde estava, abrindo um pequeno e simples sorriso na direção dele.

— Obrigado — sussurrou com embaraço visível.

Sasuke parou para pensar que provavelmente muita coisa aconteceu durante os seis meses nos quais ele não estava por perto. Apesar de sentir desejo de perguntar sobre como havia sido cada um desses dias, não havia nem mesmo como aproximar-se desse questionamento sem parecer estranho ou invasivo.

Com o passar das semanas, Naruto percebeu que estava sentindo comichão na barriga e pensando demais no estudante de Artes da sua faculdade. O sentimento era bom, mesmo que ele tivesse receio de acabar na mesma situação que meses atrás.

A viagem que fez para a casa dos seus pais foi o que o auxiliou na volta aos trilhos de sua vida. Jamais imaginou que um coração partido pudesse doer tanto e, além disso, fazer com que sua visão de vida e amor se transformasse completamente. Por isso, ele decidiu guardar o sentimento embaixo de tudo o que fosse possível de se guardar.

Mas não estava nos planos de Sasuke esconder os dele por tanto tempo no futuro.

— Você vai fazer algo hoje? — perguntou o moreno.

— Tem algo em mente?

— É primavera, poderíamos sentar embaixo da grande árvore lá do campo. Sair um pouco do ambiente da biblioteca. Eu trouxe o meu violão — concluiu.

— Parece bom! – Sentiu a animação da ideia.

Debaixo da árvore, os dois conversavam animadamente sobre quais eram os planos para as férias que se aproximavam. Na verdade, Sasuke estava escutando o planejamento do outro com demasiada atenção. O Uchiha adora o tom de voz empolgado do loiro, suas falas rápidas e a altura do timbre quando se vê animado para algo.

Quando o Uchiha começou a tocar alguns acordes aleatórios, Naruto pediu para que algumas músicas fossem tocadas, ele acompanhou na letra e quem tocava também dava uma palhinha ou outra em alguns momentos.

Foi quando o pôr-do-sol estava próximo que Sasuke decidiu que havia chegado ao seu limite. Recostando a cabeça no tronco grosso da árvore, ele deixou o violão de lado. Olhando para Naruto, admirou seus traços, absorvendo a pele morena e os olhos azuis. Lindo, pensou com um pequeno sorriso cheio de sentimentalismo.

Ele também não pensou muito quando se aproximou e tomou os lábios de Naruto com carinho. Sentiu a surpresa do outro no toque simples, mas este não recuou de primeira, o que foi um alívio para quem tomou a iniciativa.

— Hum... Sasuke? — Ele afastou-se sutilmente para encarar o outro.

— Eu sei que deve ser óbvio, mas preciso dizer com todas as letras que gosto de você — sussurrou, os rostos ainda estavam próximos.

— Sobre isso... Eu, hum, eu gosto de você também. Porém... não sei se consigo estar em uma relação agora — respondeu, mantinha o tom com que a conversa havia se iniciado.

— Tudo bem. Irei esperar você se sentir confiante.

— Não quero que se prenda a mim. Não parece justo.

— Não. Eu não quero mais ninguém. Eu quero você.

Naruto não faz ideia do que Sasuke desistiu para ter a chance de escutar que seus sentimentos são recíprocos e esse é um segredo o qual o Uchiha pretende manter até que seus últimos dias ao lado do loiro estejam próximos.

— O meu treinador volta na segunda — começou, depois de um tempo em silêncio.

— Isso não é bom?

— Sim, é ótimo. Sinto falta da piscina.

— Não sei se é realmente isso o que sua expressão diz.

— É que o meu ex faz parte da equipe de natação. Não exatamente ex, mas tivemos uma relação durante um período — comentou. — Não sei se deveria estar comentando isso com você, já que acabou de dizer que gosta de mim.

— Pode falar de qualquer coisa comigo, quero ser seu parceiro de vida antes de outra denominação.

— Obrigado, é importante para mim saber disso.

— Vocês não terminaram bem? — Sasuke investigou, ainda que já soubesse de toda a história, afinal, estava ao lado dos dois quando aconteceu o incidente.

— Nada bem, para ser sincero. Não o vejo desde que o treinador saiu de licença, ele é de outro curso, apenas fazendo parte de nossa equipe de competições, então não nos encontramos pelos corredores, só em aulas gerais. Acho que ele não está pegando nenhuma esse período.

— Há um lado positivo e um negativo nessa questão.

— Sim. — Suspirou. — Mas estou tentando olhar pelo lado de que finalmente posso nadar outra vez. — Havia um sorriso bonito em sua boca. Sasuke também sente falta de poder vê-lo deslizar na água.

— Eu posso assistir ao treino?

— Você pode, sim, mas... — Ele coçou a nuca. — Acho que ficarei tímido em te ter me assistindo. — Suas bochechas tinham uma coloração rósea.

— Mais um motivo para que eu esteja presente — brincou.

— Ei! — Sua risada foi alta, o coração de Sasuke errou uma batida. — Você pode ir.

— Ótimo. — Ele se aproximou lentamente do rosto do outro, queria que Naruto estivesse ciente de suas intenções. — Vou adorar te assistir fazendo algo que gosta. — O selinho foi simples.

Quando estava para se afastar, para a surpresa do moreno, Naruto segurou seu rosto para que um beijo realmente acontecesse. Foi doce, gentil e carinhoso. Fazendo com que a barriga de ambos sentissem todas as borboletas que voavam lá dentro, o coração disparado e a cabeça pensando no quão gostoso é gostar e receber o mesmo de volta.

No dia da volta ao ginásio, Naruto estava claramente nervoso. Sasuke pensou em pegar em sua mão para acalmá-lo, porém pensou que isso poderia ser burlar o que o outro havia falado sobre não se sentir preparado para uma relação ainda.

O Uzumaki se despediu dele na arquibancada e, de onde estava, o Uchiha assistiu quando o loiro sumiu na esquina que dá para o vestiário. Nem mesmo Sasuke estava realmente feliz por estar ali, afinal, todo o seu rancor por Gaara não passaria de uma hora para outra e escutar que o outro ainda tem certo receio de vê-lo deixou seu estado ainda mais em alerta.

Quando Gaara chegou, Sasuke sentiu seu coração disparar. Ele acompanhou todo o caminhar alheio até onde Naruto havia descido anteriormente. Seu grande desejo era de ir até o mesmo ambiente e ficar ao lado do outro, no entanto, ele tem grande consciência de que Naruto precisa viver sua vida; mesmo que queira protegê-lo de todo o malefício do mundo, isso não fará bem ao seu crescimento pessoal. Sendo assim, só restava esperar e assistir o outro fazer o que faz incrivelmente bem dentro d’água.

Ao final da tarde, Naruto acenou para Sasuke quando saiu da piscina e seguiu para o vestiário. O moreno se preparou para finalmente ir embora, levantando e espreguiçando-se, colocou a mochila no ombro, descendo da arquibancada para esperar o loiro.

Logo atrás do Uzumaki, quando este apontou na escadaria do lugar onde se descia para os chuveiros, o Uchiha viu a cabeleira ruiva de Gaara. Ele tentou manter-se pleno, não queria que Naruto notasse a sua mudança de expressão, no entanto, quando o outro homem passou o braço pelo ombro do que estava em sua frente, ele não resistiu.

— Oi, Naru, há quanto tempo — Gaara disse no pé do ouvido alheio.

— Gaara! — Naruto exclamou, assustando-se com a aproximação repentina.

Sasuke deu a volta ao redor das grades que separam a área da piscina da plateia, caminhando descontraidamente em direção aos dois que estavam a alguns passos distantes.

— Oi, amor — falou de longe, alto o suficiente para que fosse escutado àquela distância. — Finalmente voltou, estava pensando em ir te buscar lá embaixo. — Sua fala é sorridente.

— Sasuke! — respondeu, desvencilhando-se do meio abraço que o outro dava em seu corpo. — Desculpe a demora.

— E seu amigo, quem é? — Ele envolveu a mão de Naruto na sua quando este se encontrava próximo o suficiente, trazendo-o para mais perto de si, seu polegar acariciando a palma do menor com carinho, para demonstrar que estava ali com ele.

— Apenas um companheiro de equipe. Nunca mais nos vimos, pensei em cumprimentá-lo. Não tivemos tempo de nos falar durante o treino. — Ele observava com olhos atentos toda a relação que os dois pareciam ter. — Naruto, não me disse que já estava namorando outra vez. — Erguia uma sobrancelha.

— Não acho que ele te deve satisfações da vida — Sasuke tomou a frente para responder.

— Opa, claro. Tem razão. — Erguia as mãos em sinal de paz. — De qualquer forma, foi bom vê-lo, Naruto, cuide-se. Até a quarta. — Acenou quando passou pelos dois homens.

O maior manteve sua mão na do loiro durante todo o caminho que fizeram para fora do ginásio e para além das dependências do campus.

— Obrigado — o Uzumaki sussurrou quando seu prédio já estava às vistas.

— Não precisa agradecer. — Levou a mão alheia para seus lábios.

— Eu me assustei com sua aproximação, ele não havia me dirigido a palavra em momento nenhum, nem mesmo quando ficamos sozinhos.

Ele fez propositalmente, para saber quem sou, Sasuke pensou, mas não revelou o pensamento para o outro.

— Bem, o importante é que ele provavelmente não irá fazer mais nenhuma aproximação descarada dessa maneira. — Segurou o rosto do loiro para encarar seus olhos profundamente.

— Eu espero que não. — Naruto pôs suas mãos em cima das do maior.

— Boa noite, Naru. Nos encontramos amanhã, está bem? — finalizou.

— Está bem. Boa noite, Sasuke. — Ele recebeu um beijo na quina de seus lábios, o que fez um sorriso se abrir em sua boca.

Naruto, aos poucos, foi entendendo que Sasuke não brincava quando falava de seus sentimentos para ele. Também entendeu que sentia segurança nas palavras do outro, assim como sentia-se extremamente bem quando estavam juntos. Sua risada ao lado do mais velho era leve e ele não se pegava querendo agradá-lo em tudo o que fazia. Conseguia ser quem era sem mascarar seus gostos, suas palavras e, principalmente, os seus medos.

Na primeira vez em que ele convidou Sasuke para sua casa, em seu íntimo, ele sabia que algo a mais aconteceria. Seu coração batia descompassado apenas com a ideia de isso acontecer, o outro sempre o via usando sunga, mas ele próprio nunca havia visto o moreno em roupas que não fossem as casuais da faculdade. Tinha sua própria curiosidade em saber o que estaria escondido por baixo dos panos e, ao contrário do que pensou, quando os toques ficaram mais quentes — no sofá da sala —, não houve vergonha de sua parte para dar liberdade ao maior.

Naruto conseguia ver toda a diferença que havia no modo como estava sendo beijado, até em como o Uchiha olhava em seus olhos para ter certeza de que fazia as coisas que ele fosse apreciar. Então é assim que uma pessoa apaixonada de verdade se sente, pensava, mas não conseguia manter nenhuma linha de raciocínio lógica e coerente, pois sempre alguma coisa que Sasuke tocava, dizia ou movia, o trazia de volta para a gostosa realidade a qual estava vivendo.

Foi bom por todo o conjunto do envolvimento. Desde o modo como os quadris se movimentavam, como os lábios dançavam juntos e como as vozes também se misturavam dentro do quarto e sobre a cama.

Quem olhasse de fora conseguiria notar o quanto o moreno estava se doando para conhecer, tentando decorar cada pequeno pedaço de pele do corpo do loiro como se sua vida fosse depender disso para sempre. E talvez realmente dependesse. Em sua cabeça, não havia outra coisa no que pensar, além de que precisava fazer o outro sentir-se bem e entender que o que ele sente é real.

Conseguir chegar nesse patamar de relacionamento está sendo somente um bônus, já que sua intenção sempre foi, pelo menos, fazer com que o loiro fosse feliz em sua triste vida após ter o coração quebrado. Essa sempre foi a meta de Sasuke: fazer com que Naruto conhecesse o amor, fosse ele romântico ou não.

— Se eu disser que amo você, será demais? — Sasuke sussurrou, seu olhar atento aos olhos do outro, sua respiração ainda não estava completamente organizada.

— Eu não sei. — Passou a mão pela nuca alheia, acariciando os pequenos fios que há por essas áreas.

— Eu amo você — continuou.

— Eu sei que não consigo responder dessa maneira ainda, mas — segurando o rosto suado e corado, aproximou do seu próprio — sabe que gosto muito de você, não é?

— Sei. — Inclinou-se para findar a distância que havia entre seus lábios. — Isso é suficiente para mim. — Abraçando a cintura alheia, Naruto sabia que iriam começar outra vez, e estava tudo bem para ele.

Começar a namorar foi um passo natural que se seguiu após as confissões e todo o envolvimento mais íntimo que tiveram pela primeira vez. Ninguém ao redor deles estranhou quando apareceram de mãos dadas ou quando trocavam selinhos discretos ao se despedirem cada um para o seu prédio de aulas.

Mais do que Naruto, Sasuke estava sentindo como se tivesse ganhado o seu pequeno pedacinho de céu antes da morte. Sentia-se realizado no desenvolvimento de seu relacionamento, principalmente por eles serem amigos antes de outra nomenclatura.

A formatura de Sasuke veio um ano depois que a de Naruto. Com o relacionamento estável que tinham, aproveitaram para viajar em comemoração. O Uzumaki conseguiu conciliar suas férias com o mesmo período que o namorado, coisa que foi motivo de comemoração entre os dois.

Nesse tempo de três anos de relação, o Uchiha já havia visitado a família do parceiro, conhecendo seus sogros e sendo realmente amado pelos dois. Kushina afirmou para o filho que, quando pensava em quem Naruto deveria namorar, ela imaginava exatamente uma pessoa como Sasuke. Sua felicidade estava completa em saber que seu primogênito e única cria estava em mãos tão confiáveis.

Com o quarto ano de namoro se aproximando, claro que Sasuke já pensava em como faria para pedir o outro em casamento. Não queria pedi-lo durante um jantar em família ou nem mesmo em um lugar a céu aberto. Não, ele queria fazer o pedido no apartamento que compartilhavam, apenas os dois. Um momento que seria somente deles.

Sendo assim, ele deixou a caixinha com as alianças dentro da primeira gaveta na banquinha de cabeceira ao lado da cama. Por ser ele a pessoa que sempre pega as camisinhas e lubrificantes em suas intimidades, não havia qualquer perigo de Naruto acabar indo até ali e vendo o que estava “escondido”.

Estando em um dia de folga, Sasuke se ocupou na cozinha para cozinhar um bom jantar para os dois. Por ser algo que faz corriqueiramente, não seria um ato o qual o loiro estranharia e questionaria o que há por trás dessas intenções.

Seu coração bate extremamente rápido apenas por pensar em como irá fazer a pergunta. Mesmo que tenha plena consciência de que a resposta será um sim mais do que redondo, ainda há a incerteza de como trazer o assunto à tona para finalmente concretizar o pedido.

Eles dois já conversaram diversas vezes sobre casamento, sempre deixaram claro que gostariam que acontecesse quando estivessem estáveis financeiramente e em suas carreiras. E, bem, esse parece ser um bom momento para que isso aconteça, finalmente.

— Oi — Naruto chamou a atenção do moreno, quando entrou na cozinha. — O que está pensando? Não me escutou chegando.

— Oi, amor — respondeu; realmente não havia prestado qualquer atenção tanto na porta sendo aberta quanto nos passos do outro. — Estava pensando em você. — Selou a testa do loiro.

— Você não deveria me mimar dessa maneira.

— Não vejo qualquer problema nisso. — Olhou para ele. — Vá tomar um banho e volte para que possamos jantar.

— Eu vou. Volto logo.

Quando estavam sentados à mesa, Sasuke perguntou como havia sido o dia de trabalho do namorado, este que desatou a falar como sempre fazia ao ser questionado de algo — é uma das coisas que o Uchiha mais gosta. Escutando com toda atenção possível cada uma das palavras que saem da boca de seu amado.

Conversando e comendo, logo a refeição se findou. Naruto, deitado no peito do moreno enquanto assistem a um filme no quarto, resmungou sobre querer uns beijos para dormir bem, Sasuke não pôde deixar de rir com o que fez o outro.

— Desde quando você pede por isso?

— Está reclamando? — Olhando nos olhos escuros, levantava a sobrancelha.

— Jamais. Nunca irei negar um selinho que seja.

— Bom saber disso — falou, abraçando o pescoço do maior para saciar seu desejo.

Sasuke viu o momento de finalmente fazer sua pergunta chegando. Mas ainda assim esperou que estivessem mais além das preliminares.

Naruto estava suado abaixo de si, as bochechas vermelhas, suor escorrendo de sua testa. Os olhos azuis apertando enquanto o Uchiha se ajustava dentro dele. Um beijo gostoso foi trocado quando a satisfação chegou no aconchego de estar completamente preenchido.

— Naru — Sasuke sussurrou.

— Hum? — Os orbes nublados de prazer o encararam com ternura.

— Você quer casar comigo?

— Casar com você? — repetiu.

— Casar comigo — falou.

— Isso é hora de perguntar algo assim?

— Olhando bem, parece o momento perfeito. Tenho você todo para mim.

— Você sempre me tem todo para você, Sasuke. — Seus lábios se roçando a cada uma das palavras. — É claro que eu quero casar com você.

O casamento foi uma bela cerimônia, dois anos após o pedido de noivado. Todos os presentes estavam emocionados com a demonstração de carinho que nem sequer precisava de uma palavra para ser provada como verdadeira. Estava tudo mais do que escancarado no momento como os dois homens se olhavam.

A viagem para a lua de mel foi muito bem aproveitada por ambos, também. Há um tempo eles não haviam conseguido tirar um tempo para curtir suas próprias companhias, logo, o proveito foi completo nos dias em que tiveram a oportunidade.

Com quase dez anos de relacionamento, a vida estava plena para Sasuke e Naruto. Até mesmo os pensamentos de adotarem alguns filhos estava passando por suas mentes durante as conversas que tinham sobre o futuro. Não que o moreno fosse contra, no entanto, ele ainda não se sentia plenamente confiante de que teria a capacidade concreta de cuidar de uma criança — por mais que sua profissão de nascença fosse cuidar de outras pessoas.

Assim como essa conversa surgiu, Sasuke também estava pensando em contar para Naruto sobre a sua verdadeira natureza antes de vir à Terra e ficar ao seu lado em carne e osso. Mesmo que ele tenha pensado para si mesmo que não queria que o outro soubesse dessa parte de sua existência, parecia um segredo grande demais para se manter escondido.

— Naru? Amor? — o moreno chamou quando chegou em casa após o trabalho.

— Estou aqui — se anunciou.

— Quero conversar sobre algo com você.

— Agora? — A cabeça loira surgiu na entrada da cozinha.

— Não, podemos falar quando estivermos na cama, apenas não quero esquecer.

— É importante? Não gosto quando fala dessa maneira.

— Não precisa se preocupar — tranquilizou.

— Como se fosse fácil. — Rolou os olhos.

As horas pareceram correr para que a conversa acontecesse o quanto antes. Sasuke estava tão nervoso quanto quando conheceu Naruto de verdade pela primeira vez. Quando seu marido perguntou sobre do que se tratava a conversa, ele puxou uma profunda respiração, pensando por onde poderia começar sem parecer que é um lunático.

— Antes, vou deixar bem claro que não sou louco — riu ao fim da frase.

— Certo, estou ciente disso.

— Espero que sim, porque o que vou falar pode soar como loucura.

— Vou decidir isso quando finalmente me disser. — Naruto está com olhos graúdos e atentos ao rosto do outro.

— Vou te contar uns fatos de sua vida.

— Da minha?

— É, da sua... Da sua, sim, porque eu era o seu anjo da guarda. — Seu esposo franziu a testa.

— O que quer dizer com isso?

— Exatamente o que parece que eu disse.

— Meu anjo da guarda? Mas como é possível? O que iria contar sobre mim?

— Me pergunte algo.

— Você sabe sobre o Gaara?

— Sei.

— Então me diga como foi.

— Precisava ser justo sobre ele? — Sasuke rolou os olhos. — Na verdade, é bom que seja. Porque aquele homem foi um dos pontapés que me fizeram decidir descer. — Naruto ainda tinha as feições cheias de incredulidade. — Vocês dois competiram em equipes separadas no dia em que se conheceram, ele ficou em segundo lugar.

— Isso é senso comum, tinha no mural da faculdade.

— Depois daquele dia, ele foi ser seu colega de equipe, certo? Fazia um curso diferente do seu, também. — O outro confirmou com um aceno. — Quando ele te chamou para sair, vocês foram para a balada e deram o primeiro beijo lá. Consequentemente foram para seu apartamento e você sabe o que fizeram naquele dia. — Sasuke rolou os olhos mais uma vez. — Fiz questão de sentar na entrada de seu apartamento para não precisar ver e ouvir vocês dois.

— Mas —

— Me deixe concluir, está bem? — pediu.

— Certo, vá em frente. Me desculpe.

— Depois dessa primeira vez, ele te ofereceu satisfação casual, mas você se apaixonou e se declarou — continuou. — “Se você não tinha como manter uma coisa casual, como a que fazemos, por que não me avisou?” foi o que Gaara te perguntou naquela noite.

— Só contei isso para o Kiba, e não falei sobre a pergunta.

— Bem, o ponto final para mim foi quando te abordaram no vestiário. Após uma vitória, ele te encontrou sozinho e, quando você o rejeitou, ele disse: Você nem é tão gostoso assim — Naruto falou a mesma frase com Sasuke. — Coisa sobre a qual ele estava redondamente enganado. Você é uma delícia, Naruto.

— Pare com a lisonja, eu não contei sobre isso para ninguém.

— Eu sei. Sei o suficiente dos seus vinte anos, que foi quando tomei o posto de te acompanhar.

— E por que está aqui, então?

— Não é óbvio? Me apaixonei por você e desisti da minha vida no céu.

— Sasuke, poderíamos nem estar juntos agora.

— Valeria a pena correr o risco, nem que fosse para tocar em você uma única vez. — Deslizou o dedo na bochecha do marido. — Eu não pude assistir você se fechar para tudo da maneira que fez. Assistir você chorar à noite, usar os estudos e a natação como válvula de escape foi terrível. Eu sentia falta de seu sorriso, de sua risada, do brilho em seus olhos. Sei que pode ter sido prepotência, mas eu precisava trazer tudo isso outra vez para a superfície, nem que fosse através de nossa amizade.

— Eu não sei o que dizer — sussurrou.

— Quando eu te encontrei pela primeira vez — ria. — Você estava calçando o seu tênis laranja! E eu simplesmente não aguentei olhar para eles de tão ridículos que eram! — ria mais alto. — Mas aprendi a gostar deles tanto quanto passei a gostar de você.

— Por que não me contou antes?

— Eu pretendia morrer com isso guardado, mas não parecia justo, de alguma maneira estranha.

— Obrigado por me contar.

Ele estava atônito. Naruto nunca duvidou do amor que o outro sentia por si, no entanto, jamais sequer teria a capacidade de imaginar do que ele havia desistido para ficar consigo.

A vida seguia boa. Mas nem tudo poderia ser flores o tempo todo e, aos quarenta anos, Naruto foi pego no meio de um atentado em um banco. Uma bomba havia sido plantada no centro do grande prédio, os estilhaços o atingiram em áreas vitais.

Ele foi levado às pressas para a emergência mais próxima. Sasuke correu para o hospital a tempo de ver o Uzumaki uma última vez, entrando na sala de cirurgia para não mais sair.

Mesmo sabendo que era errado, o Uchiha gritou e amaldiçoou os céus pela retirada abrupta daquele a quem ele amava mais do que a si mesmo. A tristeza lhe rasgava o peito de dentro para fora, a vontade de simplesmente subir na ponte mais alta e findar a própria existência era o pensamento mais recorrente que tinha. No entanto, se assim o fizesse, perderia qualquer chance de ver Naruto mais uma vez e viver com ele pela eternidade.

Sua única opção era aceitar a realidade, viver os anos que tinha pela frente em sua vida e esperar pela sua morte.

No dia do enterro, o Uchiha estava inconsolável. Derramava lágrimas silenciosas, porém não dirigiu nenhuma palavra para ninguém que estava presente, apenas acenava um cumprimento de longe.

Ele pretendia ficar sozinho no ambiente após todos terem ido embora. Kushina, no entanto, não permitiu que isso acontecesse, levando-o para sua própria residência. Pretendia cuidar dele até que pudesse lidar melhor com a ausência de seu marido.

E, ao voltar para a casa que dividiam, Sasuke se deu conta do quão difícil seria viver. Ainda que ele tentasse sobreviver a cada um dos dias de cada vez, acordar e não ter os braços de seu esposo ao redor de seu corpo era seu martírio diário.

Com a passagem dos meses, as roupas do loiro foram perdendo seu cheiro e era necessário ficar com essas simples fragrâncias apenas na memória, junto com todas as outras coisas que não eram mais possíveis.

Não tinha mais os toques de Naruto, seus beijos; não ouvia mais a sua gargalhada após uma piada ruim. Não ouvia mais suas juras de amor quando ia dormir e não havia mais ninguém para fazer planos para o futuro. O futuro de quando ficassem idosos e usando fraldas.

Tudo isso havia sido arrancado abruptamente das mãos de Sasuke.

Viver o primeiro ano foi verdadeiramente difícil. Não que os próximos cinco e os dez seguintes tinham pretensões de serem mais fáceis.

Ele viveu o que pôde e o que conseguiu viver. Trabalhou, estudou um pouco mais para ocupar seu tempo livre, fez novos amigos — mas não teve nenhum amor além daquele que perdeu. Assim como também descobriu novos hobbies para se distrair das saudades.

E, dessa maneira, vinte anos após a morte de seu amado, Sasuke ainda sentava na varanda de casa para observar o céu ficando laranja e pensar no All Star de Naruto. Pensar no quanto ele era ridículo, mas não nos pés do único homem que amou por toda uma vida. Não nos pés daquele que o fez desistir de sua imortalidade para descobrir o que era o amor de maneira palpável e vivida. Em momento nenhum houve qualquer arrependimento pela sua descida e pela vida que levou. Sua única decepção foi ter levado apenas o tempo que levou ao seu lado.

No entanto, dentro de seu coração estava a esperança concreta de viver a eternidade em seu pedaço de céu junto ao outro.

Foi em seu aniversário de setenta e cinco anos que Sasuke não acordou e não mais abriu os olhos na Terra. Seu coração parou de bater enquanto dormia. Foi uma morte pacífica, exatamente do jeito que ele merecia após passar tantas décadas de luto.

Quando Uchiha Sasuke abriu os olhos, ele viu o teto cor de creme. Havia um gostoso cheiro de comida preenchendo o ar, assim como as cortinas estavam abertas, o sol lá fora estava alto e incomodava suas pupilas acostumadas ao escuro do sono.

Olhando para as próprias mãos, o moreno não viu nenhuma das rugas que as cobriam até o que parecia poucos minutos — mas a aliança ainda estava no mesmo lugar. Sentando-se na cama de forma veloz, sua coluna não reclamou ou qualquer outra parte do corpo sentiu alguma dor por sua velhice.

— Sasuke, o almoço está pronto! — A voz era de Itachi.

Caminhando pelo corredor da casa, o Uchiha seguiu o bom aroma até a cozinha. Sentindo um bolo se formar em sua garganta quando entrou no cômodo.

Seus olhos passearam pelo ambiente, localizando Shisui, Itachi e claro —

— Naruto — chamou baixinho.

— Ora, meu amor, você finalmente acordou. — Aquele sorriso que tanto amava estava desenhado nos lábios alheios.

Com longas e rápidas passadas, ele alcançou o homem, tomou seu rosto nas mãos e lhe beijou longa e apaixonadamente.

— Eu senti sua falta, Naru, eu senti tanto a sua falta. — O choro era constante.

— Você realmente demorou. — Ele limpava as lágrimas do marido. — Senti sua falta também. Mas estamos aqui agora. Temos todo o tempo do mundo para ficar juntos, certo? — Sorria largamente.

— Todo o tempo do mundo — repetiu, voltando a beijar o amor de sua vida e morte, sendo retribuído em igual intensidade.

E de fato eles dois realmente têm todo o tempo da eternidade para matar qualquer e toda a saudade que sentiram ao longo de todos os anos que ficaram separados.

— Seu all star, você está usando ele — Sasuke sussurrou quando notou o laranja nos pés do outro, ele ria entre as lágrimas.

— Foi ideia do Itachi — respondeu.

— Ele é ridículo, Naruto. Mas não em você. Não em você.

13 de Agosto de 2021 às 19:29 2 Denunciar Insira Seguir história
2
Fim

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Adrielle Victória Algumas das histórias estão exclusivamente no Spirit, sintam-se à vontade para dar uma olhada (°◡°♡) Fuyuka Hideki

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Maria Jéssica Maria Jéssica
Que presente!!! Foi lindo, me lembrou um pouco cidade dos anjos que é um dos meus filmes favoritos. Mas foi melhor aqui pq SasuNaru é meu casal favorito. Achei lindo de verdade, Fuyu! Eu gosto do Gaara, mas não me desce ele e o Naru como casal, respeito quem gosta, mas pra mim Gaara e Naruto são o casal feito pra terminar ou só amigo. O Gaara é do Rock Lee e ninguém muda minha ideia. Kkkkkkkkkkk
August 14, 2021, 07:51

  • Adrielle Victória Adrielle Victória
    AAAAH! Eu fico tão feliz em saber que tenha gostado!! Sério! Essa fanfic foi motivo de várias dores de cabeça UHSAUHU Então, o plot realmente é levemente inspirado no filme, não nele exatamente, mas na música tema dele: Iris, do Goo Goo Dolls; assim como All Star Azul, do Nando Reis! A questão do filme, eu conheço bem por alto, nunca tomei vergonha de assistir auhsuhas Nossa! Eu também não sou fã de GaaNaru! Gaara e Lee >>> Por isso sempre uso o Gaara como alguém que vai terminar com o Naruto e ser bem ruim na vida dele, socrrr Mas! Fico imensamente feliz em saber que gostou da fic, meu bem! Obrigada pela leitura <3 August 16, 2021, 03:49
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