A
A Independentes


Distópico: uma antologia escrita pelas mãos livres de diversos autores nacionais. Conheça a história de Asra, uma caçadora de tesouros levantina que explora as ruínas do Continente Morto ou ainda, em um mundo onde tudo é predeterminado, fuja do roteiro e descubra quem eles apagaram de sua memória. Siga Hugo pelas trilhas de uma Minas Gerais destruída, até seu inesperado encontro com uma mulher e seus filhos e conheça Ana, que ao parar num lugar desconhecido e sem memória, é perseguida por estranhos e precisa escapar o quanto antes se quiser continuar viva. Explore um mundo onde seres humanos são divididos entre Homos e Mochos, onde lutar pela sobrevivência deixou de ser apenas uma metáfora e siga a trilha de Jea, um mensageiro que é atacado por uma criatura misteriosa após presenciar um ritual macabro em meio à madrugada. == == Autores: Brias Ribeiro, Lucas Corrêa de Lima, Nany Carvalho, Scarlett Greystoke, Lucas Trindade e Oceano Albuquerque. Capa: Scarlett Greystoke. Beta reading: Kailane Sillos


Pós-apocalíptico Para maiores de 18 apenas.

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O que nos aguarda no Continente Morto (por Brias Ribeiro)

A última coisa que Asra esperava naquele dia era encontrar uma mulher.

Há algumas semanas, Asra pegara um barco no norte da Líbia em direção àquela região que um dia fora conhecida como Europa. Aquela parte, em específico, costumava ser chamada de "Balcãs".

Nas suas expedições solitárias ao continente morto, a caçadora de tesouros raramente encontrara outros seres humanos vivos, menos ainda mulheres jovens e bonitas, desarmadas e com cara de assustadas.

– Atira logo – a mulher tenta soar durona. Em vez disso, é óbvio que segura o choro.

Atônita, Asra lentamente desarma seu arco e torna a guardar a flecha na aljava. Havia sido pega completamente de surpresa. A desconhecida não apenas se encontra no mesmo continente que ela, uma coincidência por si só, como também na mesma região, mesma vila, mesma casa de barro já meio retomada pelo matagal da natureza.

– Não vou atirar numa mulher indefesa – grunhe Asra, e como se ignorasse completamente a sua presença, passa a explorar a casa, ainda que não espere encontrar nada. Talvez, algumas facas? Com alguma sorte, peças de artesanato que não foram consumidas pelo tempo? Algumas moedas?

Ela toma o cuidado de manter sua pesada máscara de corvo no rosto, algo que, conforme ela nota, a outra garota não faz. A desconhecida faz questão de manter seu rostinho bonitinho à mostra. Talvez seja uma completa ignorante, totalmente inconsciente da praga que devastou completamente um continente inteiro. Talvez, seja uma suicida.

"Atira logo", a voz aguda e chorosa retumba na mente de Asra. "Suicida", ela decide.

Procura debaixo da cama, tateia o chão e as paredes por inventários escondidos, encontra uns cutelos de pedra. Ok, talvez sejam úteis para algo, mas duvida que alguma alma viva pagaria um tostão furado neles.

Não vê restos mortais apodrecendo naquela casa, o que já é um grande ponto positivo. Se pergunta quantas pessoas jamais enterradas, mortas como indigentes, encontrará ali.

– O que está fazendo? – a garota jovem da voz aguda a pergunta.

– Procurando – Asra grunhe de volta.

– Hm.

"Ela falava a mesma língua que eu", observa.

Nas suas andanças (e naveganças) ao redor do Mediterrâneo, descobrira uma infinidade de línguas diferentes, e até variações da língua que aprendera desde criança, e fora forçada a encontrar formas de se comunicar em cada local.

E pelo resto daquela tarde, Asra explora aquela antiga vila croata. Quando o Sol começa a se por, ela nota que não mais viu aquela desconhecida.

Foi uma... surpresa. É a única palavra que consegue descrever. E agora, provavelmente jamais a verá de novo. Pode parecer um pensamento amargo, como as pessoas vêm e vão da sua vida sem nunca ter qualquer influência duradoura.

Asra gostaria de dizer que sente alguma nostalgia da última vez que teve uma relação duradoura com alguém, mas a verdade é que ela mal se lembra como era. Não se lembra de como sua mãe, seu pai ou seus irmãos pareciam. Mal se lembra do nome do seu primeiro amor. Só se lembra que era uma mulher. É por ela ter existido em sua vida que Asra tem vivido como uma nômade solitária, se aventurando nas profundezas do continente morto, pelas últimas duas décadas.

– Mas puta que me pariu, sua mulher louca do caralho, o que você pensa que tá fazendo?! – Asra grita, assustada, ao encontrar aquela desconhecida sentada, imóvel, ao lado de um corpo já quase completamente consumido pelo tempo sobre tecidos carcomidos e um colchão de palha. A jovem retesa os músculos, feito uma criança pega fazendo arte, mas não se move. Incrédula, Asra avança pra ela e tenta arrastá-la pra longe daquela coisa nojenta e amaldiçoada, mas a garota desconhecida se debate furiosamente.

– ME LARGA! LARGA!

– VOCÊ É LOUCA, PORRA? TÁ TENTANDO SE MATAR?

– VOCÊ NÃO TEM NADA A VER COM ISSO!

– VAZA DAQUI, PORRA!

– ME DEIXA EM PAZ!

Asra estava à procura de uma boa casa para passar a noite quando a encontrou.

Asra é bem maior e mais robusta que essa garota, mas mesmo assim, ela bota uma boa luta para resistir. Por fim, a caçadora de tesouros consegue arrastar a desconhecida pra fora de casa.

– Pára de se debater, cacete!

– Pára você de me sequestrar!

– Não tô te sequestrando, tô salvando sua vida inútil!

– Ninguém pediu pra você salvar minha vida inútil!

– E você espera que eu fique passiva vendo isso?!

– Espero! É melhor do que tomar uma atitude!

– No mínimo põe a porra de uma máscara, sua sem noção!

– PRA QUÊ?!

– PORQUE A GENTE TÁ NA PORRA DO CONTINENTE MORTO, SUA FILHA DA PUTA!

– EU VIM PRA CÁ PORQUE EU QUIS!

Asra arremessa a desconhecida no meio da rua de pedra parcialmente tomada por mato.

– Se não sabe viver aqui, é melhor voltar pra onde veio!

– Me deixa em paz! – a garota se levanta cambaleando, tropeça, quase cai de novo, e sai correndo pra longe de Asra. Suspirando, a mais velha torna ao seu camelo, cheio de sacolas penduradas em ambos os lados do corpo.

– Vem, Duna.

Ela segura o laço da cabeça do animal e, junto a ele, caminha até a casa seguinte. Demora mais um pouco para que encontre a moradia perfeita.

No dia seguinte, quer ir explorar aquela casa maior que fica mais afastada da cidade. Ela imagina que tenha sido a casa de algum fazendeiro mais rico, ou talvez um prefeito. Espera encontrar algumas pratarias interessantes por lá, talvez até mesmo armaduras e tapeçarias mais chiques que não tenham sido comidas por vermes.

[...]

Asra acorda junto dos primeiros raios de Sol. Ela rapidamente veste suas roupas de couro endurecido por cima do tecido acolchoado, faz sua rápida limpeza matinal da cimitarra e suas flechas, bota o elástico no arco, veste a bainha e a aljava e deixa o conforto dessa casa abandonada há sabe-se lá quantas décadas.

– Não fale com estranhos, viu Duna? – ela murmura ao seu camelo, ao passar por ele no "quintal" da casa – volto antes do anoitecer!

Como se respondesse sua eterna parceira de viagens, Duna bufa e continua a comer a parte do matagal que invade a casa.

Asra fixa os olhos naquele casarão distante, cheia de desejo ambicioso. Claro, não é nada comparado àqueles fortes e palácios abandonados que já saqueou, mas quanto mais o tempo passa, mais difícil se torna encontrar bons saques no continente morto, e mais profundamente ela tem que se embrenhar.

A caçadora de tesouros tenta empurrar a enorme porta, mas ela não cede. Emperrada. Asra suspira, tateia, sentindo o carvalho grosso e resistente, e decide que dificilmente conseguirá arrombar. Ela caminha ao redor do casarão, procurando por outras entradas. Vê algumas janelas altas, bloqueadas por placas de madeira, mas acha que poderia se esgueirar por uma delas. Pensa que, mais tarde, deveria arrancar todas essas placas e levá-las de volta: é mais fácil que empilhar um monte de mesas e cadeiras.

Encontra uma carroça que parece já ter se tornado um com a natureza novamente, encostada numa das paredes bem embaixo duma janela. Asra sobe nela, alcança a janela e iça-se para dentro com pouca dificuldade, espremendo-se pelo espaço mínimo debaixo do bloqueio para passar.

Maravilha. Se a casa está toda bloqueada assim, quer dizer que ainda não foi saqueada! Ao menos, é o que Asra pensa, confiante. Claro, ainda precisa arrumar um jeito de arrebentar aquela porta da frente, vai ser meio difícil passar com algumas coisas por aquele espacinho da janela. Ela puxa o capuz sobre a cabeça com um pouco mais de força, como se fosse uma capa protetora da mesma forma que a sua máscara, e começa a averiguar os quartos. Encontra os ossos de um casal morto numa cama, alguns corpos na cozinha, covas no porão escuro. O desejo de revirar seus bolsos e seus corpos atrás de moedas e joias sempre é forte, mas o instinto de sobrevivência é maior: não sabe se esses corpos ainda carregam a praga depois de tantos anos, mas não vai arriscar.

Até mesmo aquele colar de pedras brilhantes, que Asra não tem a menor noção do que sejam, mas parecem valiosas, no peito daquela mulher sozinha no maior quarto da casa.

– E mais uma vez você me salva e me fode, desejo de viver – Asra grunhe, como que para si mesma. Quer rir da própria desgraça. É realmente engraçado, mas ao mesmo tempo...

Ela se lembra daquela garota de ontem e um calafrio percorre sua espinha. Pensa que, há vinte anos, poderia ter se tornado aquilo. Espera que aquela maluca pare com essa idiotice logo e arrume algo pra fazer da vida, como ela mesma arrumou.

– Ah, mas que caralho...

No último quarto do casarão, Asra encontra aquela garota desconhecida dormindo numa cama que parece ter pertencido a uma criança. Não muito longe, uma pequena ossada se encontra, embrulhada num lençol que Asra aposta sua cimitarra que estava na cama até há pouco.

– O que você tá querendo? – ela se pergunta, encarando a menina com raiva, e silenciosamente deixa o quarto.

Encontra algumas pratarias interessantes na cozinha e no quarto maior, assim como uma pequena caixa de joias, e várias moedas espalhadas pela casa. Num cômodo similar a um grande armário, encontra algumas espadas expostas numa parede, feito obras de arte.

"Obras de arte de ferro valioso", pensa a mulher, com um sorriso satisfeito. Ela recolhe as espadas e as reúne aos outros itens valiosos na mesa da sala perto do hall. "Se há espadas aqui, também deve haver armaduras", pensa ela, ansiosa. "Talvez a mulher do colar brilhante tenha sido a esposa de algum cavaleiro ou general", supõe.

Ela procura, e procura, e procura, mas não encontra peça de armadura alguma. Nem mesmo míseras manoplas! Decepcionada, Asra retorna à sala principal, passa para o hall e fica encarando aquela grossa porta de carvalho. Mesmo que encontre uma chave em algum lugar, deve estar toda enferrujada. Provavelmente não abriria. É, precisará botar em prática suas técnicas de arrombadora profissional mais uma vez.

Sua mente vem e volta daquela garota desconhecida várias vezes durante o dia, numas durante mais do que outras. Asra tenta afastar os pensamentos. "Ela parece comigo nos meus 19 anos", ela pensa a cada vez. "Não posso pensar nisso", se reprime.

Saco... não está afim de ser babá de uma suicida. Se ela sobreviver, vai acabar se encontrando sozinha, como ela mesma se encontrou.

Asra começa a se dirigir àquela janela por onde se esgueirou. Para na frente dela, torna a pensar na mulher desconhecida. Suspira profundamente. Espia por cima do ombro. Ela ainda deve estar dormindo naquele quarto de criança, sem máscara, bem perto de um corpo que já passou há muito da mera putrefação. Ou então, está acordada e quieta. Asra se pergunta se ela teria notado a sua presença no casarão.

Tomando uma decisão, ela se espreme debaixo das tábuas que bloqueiam a janela e se deixa cair naquela carroça lá embaixo.

[...]

Hasna desperta ao saboroso odor de carne assada.

– Ei. Bem-vinda ao mundo dos vivos.

Aquela mulher intrometida, com cara de durona, se encontra de costas para ela, perto da batente da porta. Hasna coça perto dos olhos, esfrega um pouco de ramela pra longe do rosto, se senta na beirada da cama encarando as costas cobertas de couro grosso da mulher com desconfiança.

– Como você chegou aqui?

– Garanto que sou muito mais experiente que você em invadir casarões abandonados, menina.

Silenciosamente, Hasna se levanta. Tenta enxergar seja o que for que a mulher esconde, desejosa, faminta, mas não quer que a desgraçada a leia. Preferia que tivesse cravado aquela flecha no seu peito no dia anterior. E subitamente, ela se vira para encará-la. Segura duas cumbucas, uma em cada mão, cheias de algo que Hasna não consegue enxergar de onde está.

– Ensopado de coelho. Quer?

– Huh...

– Não precisa responder. Seus olhos já respondem por você – ela a interrompe, ríspida, e fecha o espaço entre as duas a passos rápidos e agressivos. Instintivamente, Hasna recua um passo, como se a outra fosse bater nela. Em vez disso, ela envia uma das cumbucas em sua mão.

– Ah... eu... n-não qu...

– Cala a boca e come, menina. Credo.

Hasna queria teimar um pouco mais, mas a fome horrível de dias sem comer fala mais alto. Pelo canto dos olhos, ela percebe um sorriso contido, como o de alguém que odeia sorrir, se formar vagamente no rosto da mulher. Vira-lhe as costas em seguida, como se escondendo uma expressão que não combina com sua persona de durona.

– Eu sou Hasna – ela diz, meio que por instinto. Sente um leve arrependimento. Bem leve. A desconhecida dá uma espiada por cima do ombro e torna a se concentrar na sua comida.

– Asra.

Hasna respira profundamente, como se pudesse sentir o aroma daquele nome. Sente uma certa tranquilidade, algo que já não sentia há muitos, muitos meses, desde que deixara pela última vez uma localidade onde tentara se estabelecer. Desde então, decidira viajar o Continente Morto, percorrer uma jornada ao oeste em busca do destino que a praga promete.

Depois de meses vagando entre vilarejos e cidades mortas, dormindo ao lado de corpos outrora infectados sem jamais sofrer a menor consequência, Hasna já começara a perder as esperanças. A praga já deve ter morrido junto com o continente há muitos anos, e só o que o mantém livre da presença humana são as horríveis lendas envoltas em morte.

– O que você faz no Continente Morto, afinal, Asra? – Hasna murmura, sentando-se na beirada da cama. Ela nota que os ossos daquela criança que ela jogara para fora da cama não estão mais ali. Um cheiro de queimado atinge fracamente suas narinas, vindo do lado de fora.

A mulher mais velha caminha até o que antigamente fora uma bela estante de mogno e se senta sobre ela, um sorriso debochado crispando seus lábios.

– As riquezas abandonadas de um continente inteiro? Eu quero isso pra mim – replica ela.

– E a peste?

– Não sou como você. Não vou sair lambendo corpos por aí.

– Eu nunca lambi corpo nenhum! – replica Hasna, fingindo-se indignada e rindo baixinho. E por alguns momentos, tudo o que se ouve é as duas mulheres mastigando a carne e bebendo o seu caldo.

– Por que está fazendo isso? – grunhe Asra, depositando sua cumbuca na estante.

Hasna pensa em um milhão de mentiras para contar, um milhão de formas de se fazer de boba, mas nada responde. Não consegue se decidir qual das suas invenções parece menos sem sentido. Quando Asra bufa e se levanta, Hasna percebe que estourou o limite de tempo para uma resposta satisfatória.

– Eu achei bastante coisa nessa cidade. Mais do que esperava. Estarei voltando para a costa amanhã. Você vem comigo – a mulher resmunga, enquanto põe de volta a sua máscara – vou te deixar em Cártago. Vê se rearruma sua vida por lá. Você é jovem demais pra isso.

– Não sou tão jovem e inocente quanto pensa – retruca Hasna.

– Eu dizia a mesma coisa quando tinha 15 anos.

– De onde tirou que eu tenho 15 anos?!

– Ou 20.

– Eu tenho 29!

Asra vira aquele seu bico de corvo na direção de Hasna. Ela odeia não poder ler suas expressões por baixo daquela coisa.

– Você é de alguma família nobre ou algo assim?

– Não!

– Então eu não acredito. Olha essas mãozinhas delicadas de quem nunca fez um pingo de trabalho pesado na vida, esse rostinho liso sem nenhuma queimadura, o corpo sem músculo algum...

– Meus pais eram comerciantes!

– Ah, então "algo assim". Me diz, como é viver aqui embaixo, com a ralé?

Hasna encara sua "salvadora" sem acreditar, mas logo ela solta risadinhas.

– Vamos sair logo daqui, ô princesinha. Essa porra fede a morte.

[...]

Como sempre, Asra encontra seu barco exatamente onde o deixou, amarrado num porto improvisado e parcialmente escondido sob folhagens. Primeiro, ela embarca Duna, que carrega boa parte dos seus tesouros. Em seguida, faz aquela mulher com cara de adolescente entrar.

– Por que Cártago? – ela resmunga.

– Tenho um amigo lá que paga bem por ferro e prata. Mas é melhor segurar o resto. Ah, e a comida é ótima.

O barco é apenas pequeno o suficiente para que Asra consiga manejá-lo sozinha, e grande o suficiente para que possa carregar todas as suas coisas e seu camelo consigo. Uma garota leve e pequena como Hasna não faz diferença como carga extra.

– Eu não entendo porque as pessoas não voltam pra Europa. É um monte de terra livre, sequer seria necessário campanhas militares para conquistá-la – murmura Hasna.

– Ninguém quer conhecer a peste pessoalmente.

– A peste já passou faz muito tempo.

Asra encara a mais jovem, incrédula.

– Você acha que algo assim pode simplesmente passar depois de um tempo?

– Nunca aconteceu nada comigo.

Elas ainda fazem uma parada na costa sul da Itália, onde Asra checa suas armadilhas na praia e traz vários peixes e mariscos de volta para o barco.

– Gosta de frutos do mar? – pergunta, se permitindo até um sorriso meio malicioso ao subir de volta no barco. Após alguns dias no mar, Hasna já entendera que ver sua nova companheira de viagem sorrir é algo raro. A sensação quando ela o faz é bizarra. Algo entre o assustador e o fascinante, talvez. Que te paralisa, te faz apavorar-se, mas ao mesmo tempo, te faz suspirar em admiração.

– Não é algo que eu estou... acostumada – Hasna levanta a sobrancelha, desconfiando e achando graça na atitude da mais velha.

Naquela noite, fariam churrasquinho de peixe no espeto. Duna ganharia as cabeças.

[...]

Quando Asra encosta o barco no porto de Cártago, Hasna nota como a caçadora de tesouros a fica espiando por cima do ombro, antes de desembarcarem.

– O que foi?

– Nada. Só estava pensando o que será que você vai fazer agora.

– Huh... não sei...

– Não pense em voltar pro Continente Morto. Não seja louca.

– Eu... não conheço nada daqui, nunca estive aqui – ela replica, em tom de reclamação. Asra bufa e revira os olhos.

– Tá, ok. Eu te levo pra passear.

Hasna ri do comentário da outra.

– Eu só preciso conhecer um pouquinho melhor as coisas por aqui, só isso!

– Tudo bem. Em troca, você promete que não vai dar uma de idiota de novo.

O silêncio recai sobre as duas enquanto o barco é ancorado. É somente quando elas começam a desembarcar, Duna carregado de prata e armas em variantes estados de ferrugem, que Hasna retruca:

– Não prometo nada.

– Pirralha idiota.

– Se você pode ir pra lá, por que eu não posso?!

– Eu me protejo contra a praga! Sei me cuidar e não estou tentando me matar!

A cara de emburrada de Hasna em muito lembra Asra a de uma criança birrenta. Segurando a vontade de rir, ela monta em Duna e o dirige até a saída do barco, onde estende a mão para a nova companheira de viagem.

– Quer subir?

Hasna fixa sua mão estendida por um tempo, como num debate interno se deve ou não aceitar.

– Anda logo – Asra a desperta dos seus pensamentos. Pressionada, Hasna aceita e se deixa ser içada para cima do camelo com impressionante facilidade – você demora demais para tomar decisões.

– Hã... eu?

– Sim – Asra replica, num grunhido rude – trava em metade das perguntas que eu faço. Tem que ser mais rápida, papai e mamãe dos bolsos cheios de moedinha de ouro não estão mais aqui.

– Não estão faz tempo. Você não me conhece – retruca Hasna. Asra revira os olhos e faz Duna seguir seu caminho, embrenhando-se pela floresta urbana de Cártago.

Asra guia sua fiel montaria ao mesmo clube de sempre – aquele que reúne de infiéis a bêbados e nobres e os mistura todos em um só.

– Você segue o Profeta? – murmura à companheira, no último quarteirão antes do local. Hasna abre a boca para responder, mas som algum sai.

Nunca haviam feito uma pergunta assim antes.

– E mais uma vez, o seu silêncio responde por você – murmura Asra – se quer saber minha opinião, eu acho ele um grande babaca.

– Hã... eu...

– Se também é uma herege, infiel ou blasfemadora... bem-vinda ao nosso mundo.

– Eu não disse nada!

– Porque não sabe o que dizer.

Nos últimos passos de Duna antes de alcançarem a entrada do clube, Asra rapidamente passa instruções à mais jovem. Ambas descem do camelo juntas, Hasna vai se posicionar perto da entrada, Asra adentra o estabelecimento.

Como sempre, lá encontra seu velho amigo beberrão, amir desgraçado, cheio da grana tanto quanto da infâmia, Fahal Ibn Abd Al-Aziz.

– Yo.

A caçadora de tesouros o pega de surpresa, pegando a cadeira vazia à sua frente e a batendo com força no chão, despertando o homem já meio bêbado com um sobressalto.

– Asra. O que quer?

– Muito dinheiro e um harém. E você?

– Engraçadinha.

– Sou terrivelmente cômica, de fato.

– O que tem pra mim hoje?

Hasna observa toda a interação de longe, assim como Asra mandara. Lá está mais uma vez, aquele sorrisinho torto de canto de boca...

– Eu? Nada. Duna, por outro lado...

Asra se levanta e faz uma meia reverência teatral, como se convidando o amigo a ir na frente. Hasna nota que, por uma fração de segundo, o olhar das duas se cruzam.

Mandara que ficasse longe e apenas observasse. Que não falasse com estranhos ou se metesse em encrencas até ela terminar. Que permanecesse quieta e fosse invisível, e fingisse não conhecê-la até saírem dali.

De longe, Hasna observa enquanto Asra exibe facas, espadas e utensílios brilhantes ao homem, muitos dos quais ela reconhece como tendo sido limpos e polidos durante a viagem, como dança ao redor dele feito uma vendedora puxa-saco, cheia de sorrisos que Hasna não demora a entender que são falsos. Estranho. Ela dissera que era um amigo.

– Ei, bonitinha. Que faz aqui, sozinha?

Hasna enrijece os músculos perante a aproximação inesperada. Espia pelo canto dos olhos, por cima do ombro, e finge não dar atenção ao homem pelo menos 20 centímetros mais alto.

– Vamos lá, garota bonita. Não me ignore!

Hasna tenta dar um passo para o lado, saindo de trás daquele amigo de Asra. Espera ser vista. "Pelo amor de deus, me veja!", ela tem vontade de gritar. O homem continua a seguindo de perto, conforme o bafo de sujo e gorduroso em seu cangote denunciam.

– Ei, vem cá... – ela sente a mão do cara tocando seu ombro.

No momento seguinte, um terrível grito de dor corta o clube, e aquele homem vai ao chão com uma fonte de sangue escorrendo da parte alta do abdômen, onde um punhal consideravelmente longo se encontra fincado, e Hasna dá dois passos pra trás, os olhos arregalados e as veias do pescoço e da têmpora pulsando, rangindo os dentes alucinadamente. O homem se debate de dor, rola pelo chão espalhando o líquido escarlate do seu corpo, outros clientes confusos e assustados se reúnem ao redor do homem ferido, uma mão firme e agressiva a agarra pelo pulso. Sem nem ver quem é, Hasna tenta sacar seu segundo punhal e dar o mesmo destino a esse babaca, mas Asra para seu golpe e torce sua mão, fazendo-a largar a arma no chão.

– Enlouqueceu?! – dá um sussurro gritado e a puxa para longe, não sem antes Hasna se esticar toda e alcançar seu segundo punhal no chão – vamos vazar daqui!

Elas montam em Duna e rapidamente deixam o local.

[...]

É só quando finalmente alcançam o pequeno cruzador de Asra que a mulher torna a dirigir-lhe a palavra.

– O que foi aquilo? Sério.

– Ele tocou em mim – replica Hasna, como se isso explicasse tudo.

– E é assim que você reage? Existem formas menos brutais de se sair d'uma situação dessas – retruca Asra. Hasna nota que a mulher evita olhar ela nos olhos enquanto fala, sempre desviando o olhar para algum ponto atrás dela, para os seus ombros ou o chão.

Hasna abre a boca e não consegue emitir som algum. Não sabe o que dizer. Asra solta uma risadinha incrédula e, quando a mais nova pensa que está prestes a levar outra bronca por não saber o que dizer quando confrontada sobre algo, Asra a surpreende:

– Acho que eu te subestimei. Nunca pensei que você teria estômago pra algo assim.

– "Algo assim" – ironiza Hasna. Asra revira os olhos e lhe dá as costas.

[...]

Uma semana se passa.

Poucos dias depois daquela confusão na taverna clandestina, Asra se encontrara novamente com seu "amigo" – dessa vez tomando o cuidado de deixar Hasna no barco – e terminara de vender o resto dos seus produtos.

– Eu vou voltar pro Continente Morto no final da semana que vem – murmura Asra, durante a noite. Cada uma das mulheres dorme num canto do quartinho-depósito-cozinha do barco – já arrumou um lugar para ficar?

"Não, e nem pretendo", Hasna responde em pensamento. Em vez disso, encara o teto fixamente.

– Eu sei que já perguntei isso antes, mas o que você procura lá? – ela desconversa.

– O ouro abandonado dos palácios de centenas de reis mortos – replica Asra, prontamente, com um quê de agressividade na voz – já deu de perguntar isso.

– Na minha vila natal, diziam que só os loucos se aventuram no Continente Morto, independente do que eles dizem ser seus objetivos. O exército sempre aparecia para tentar recrutar loucos assim que aceitassem ir em expedições por riquezas. Poucos aceitavam.

É a vez de Asra se calar, sem saber o que dizer.

– Não importa quanto ouro você pode encontrar, não vale a sua vida – finaliza Hasna.

– Eu nunca morri. Sei que precauções tomar – Asra replica. Hasna não se sente energética o suficiente para discutir, portanto se recolhe ao silêncio. Asra, incomodada pela falta de resposta da outra, continua – e você não disse que a praga não existe mais? Não andou pelo Continente Morto sem precaução alguma, sem nunca sofrer qualquer consequência? Há mesmo algum risco para a minha vida?

– Você sabe que não é esse o ponto – replica Hasna, baixinho – o ponto é você acreditar que há um enorme risco e ainda assim se expor a ele, por mais que o risco seja falso.

– O ponto é que eu já estou fazendo isso há mais de 16 anos – Asra rosna de volta – pareço morta pra você?

– Mas por que você começou a fazer isso?

– O que te interessa? Daqui uma semana eu vou voltar pro Continente Morto e nós nunca mais vamos nos ver!

A verdade atinge Hasna feito uma bofetada.

– Eu... é o que você gostaria?

– Como assim?

– Nunca mais me ver?

Momentos de silêncio. Asra se vira em sua cama para encarar a parede, dando as costas à colega.

– Eu não tenho opinião sobre isso.

– Eu... não acho que vou me encaixar em Cártago – Hasna murmura – acho que sou... mais como você.

Asra leva um momento a mais que o esperado para absorver suas palavras.

– Vai dormir, vai.

Quando Hasna acorda no dia seguinte, encontra a cama de Asra vazia, como de praxe: a mais velha sempre se levanta bem mais cedo do que ela. Hasna se espreguiça, pega um pão seco na estante e deixa a cabine.

– Bom dia – aquela voz grave e rascante grunhe na sua direção.

O Sol nascente ilumina as costas e ombros musculosos de Asra, fazendo seu suor brilhar, enquanto ela despeja um enorme saco de uma ração amarelada na baia de Duna. Ela não veste nada além de um saiote de couro e trapos de pano cobrindo os seios, e Hasna observa em silêncio, intimidada demais pela sua figura forte, o coração levemente descompassado. Asra agarra um barril de água e o escora para encher a outra baia de Duna, despejando boa parte do seu conteúdo antes de escorá-lo de volta à posição inicial. Asra usa um pano pendurado na cintura para secar o rosto e se vira para Hasna, que sente uma onda de eletricidade percorrer o seu corpo. A mais velha dá um sorriso meio torto, desvia os olhos por um momento e começa a caminhar na sua direção.

Hasna sente suas pernas travadas. Até quer sair do lugar, mas não consegue. Parece até que todos os seus músculos resolveram se rebelar contra ela ao mesmo tempo! Hasna nota uma cicatriz longa que percorre a dobra do cotovelo de Asra até o ombro num dos braços, o mesmo braço que ela estende na sua direção...

– Acordou cedo hoje – murmura a mais velha, a segurando pelo ombro com sua mão forte – ei, cê tá legal? Você tá meio pálida...

– Tô bem! – Hasna afasta a mão da mulher maior do seu ombro e passa reto por ela, mordendo seu pão seco. Asra vai acabar percebendo alguma coisa se continuar olhando nos seus olhos, ela pensa.

Já fazia tanto tempo que não se sentia assim. Pelo último ano, desde que fora... convidada a se retirar da última vila em que esteve, havia conseguido refrear aqueles instintos depravados.

– Hasna – e lá está aquela caçadora de tesouros dona de um corpo malditamente sexy, a chamando antes mesmo que tenha tido a chance de se recuperar – você... quer mesmo voltar ao Continente Morto, mais uma vez?

Ela jura que está tentando evoluir. Quer ser capaz de responder perguntas conflituosas quando confrontada, mas esse é o pior momento para se perguntar uma coisa dessas... Ela segura o próprio pulso e o aperta contra o seu corpo, tentando se forçar a parar de tremer, controlar o coração e a respiração.

Asra, no entanto, espera por uma resposta. Espera pacientemente, sem cortar seu fluxo de pensamentos com algo como "o seu silêncio é uma resposta" ou "você precisa aprender a se decidir". Hasna vai se apoiar na batente da proa, concentra-se em seu pão, no balançar suave da embarcação, no Sol que pouco a pouco desponta mais alto no céu azul límpido.

– Q-quero – responde, finalmente. Tem a sensação de que sua voz saiu baixa. Sem olhar para Asra, pensa que talvez ela não tenha ouvido. Talvez o som do vento tenha escondido suas palavras.

Quando se dá conta, Asra a alcançou e observa o horizonte junto dela. Bebe água dum cantil, um filete do líquido escorrendo pelo canto da sua boca, percorrendo seu pescoço, desaparecendo entre os seus seios...

– Beleza, eu aceito uma parceira. Ao menos você é mais durona do que parece, e de alguma forma sobreviveu sozinha lá até eu te encontrar, então não acredito que seja totalmente inútil.

– Eu seria menos inútil se você tivesse me deixado pegar eu outro punhal de volta – replica Hasna, sarcástica. Asra solta um começo de risada, mais como um grunhido. Fecha os olhos, sentindo o calor do Sol em seus ombros, suas costas, pendura o cantil no monte de trapos que ela chama de calça.

– Você já atirou com um arco?

– Não.

– Sabe usar uma espada?

– ... não.

– Sabe caçar? Fazer armadilhas? Usar qualquer tipo de arma?

– Eu sei escalar árvores – diz Hasna, tentando sorrir com uma confiança que não sente – e, huh... sei umas coisinhas sobre... ervas medicinais? Ah, e sou bem rápida!

– Sabe montar? Se pudermos ter duas montarias, é o dobro de carga que podemos saquear.

– Ah... mais ou menos?

– Ok, você acha que conseguiria aprender a usar uma besta em, sei lá, uma semana?

– Consigo! Com certeza!

– Beleza, vou te arranjar uma besta e uma montaria. Presta atenção que essas coisas são caras, eu tô investindo em você, ouviu? Não vai me deixar na mão!

– S-sim, senhora!

– Senhora é o caralho, tá me chamando de velha?

Hasna torna o olhar para a colega, esperando ver aquela expressão dura e fechada de sempre. Em vez disso, dá com um sorrisinho divertido. Um bem mais verdadeiro que aquele que ela vira reservar ao seu "amigo" e cliente.

– Então... para onde nós vamos? – indaga Hasna, excitada com o porvir.

– Primeiro, vamos para o Levante. Vou cobrar uns favores por lá e vender o que sobrou, aquele panaca do meu amigo só compra prata e ferro.

– E depois?

– Quero ver se ainda tem algo em Roma. Meu sonho sempre foi roubar o trono do papa.

[...]

E ali estão elas: Roma.

Ambas as mulheres cresceram ouvindo sobre a grandiosidade do Império Romano, que mesmo tão longínquo chegara a dominar até mesmo o Levante – a região onde ambas nasceram, embora não falem sobre isso. Hasna às vezes sente vontade de perguntar, mas ao observar a postura fechada de Asra, muda de ideia.

Dessa vez, ela veste uma máscara. Odeia ter de vestir isso e considera completamente inútil visto a sua própria experiência no Continente Morto, mas fora uma exigência muito clara de Asra.

– Onde o papa morava? – Hasna pergunta quando as duas desembarcam.

– Nem ideia. Vamos procurando. Ah, fique perto de mim por enquanto, ok? Se encontrarmos outros caçadores por aqui, é melhor estarmos juntas.

– Será que alguém já não pegou o trono antes...?

– Vira essa boca pra lá, maldita.

Asra lidera o caminho, montada em Duna, que se conecta ao camelo de Hasna, uma fêmea jovem de nome Qamar. Atrás de cada animal, uma carroça vazia é arrastada.

Nada se ouve além do trotar dos camelos, o vento dançando com os longos cabelos de Hasna, o ranger das rodas das carroças.

A maioria das casas são ruínas tomadas pelo tempo. Encontram uma cova comum ainda aberta, perto de uma das saídas da cidade, e então dão meia-volta. Asra imagina que encontrarão a residência papal no centro de Roma, mas também ouvira falar algumas vezes que nem todos os papas moravam lá. Quando pensa racionalmente sobre isso, não tem a menor pista de onde realmente estaria o trono de ouro. Ela pensa, com uma ambição distante, se será que encontrariam o anel, o manto, entre outros símbolos papais, mas considerando o que são, saqueadores já devem tê-los levado há muito tempo.

Sua esperança fica na dificuldade que seria transportar uma cadeira inteirinha feita de ouro maciço e cravejada de pedras preciosas. Se pergunta se não seria peso demais para Duna e Qamar. Será que seu barco não afundaria? Sempre ouviu dizer que ouro é um dos metais mais pesados que existem.

Pensará nisso quando encontrar o seu prêmio. Se alguém tivesse vendido um trono de ouro maciço por aí, o mundo inteiro teria ouvido falar sobre. Não, o trono ainda está em Roma. Se não for Roma, será noutro lugar da Europa. Onde poderia buscar essa informação...? Ah, seria tão mais fácil se soubesse ler essas línguas mortas dos europeus! Por outro lado, imagina que a maioria dos livros que eles tenham, estejam ilegíveis hoje em dia.

– Vamos, erm... dar uma olhada na região central – sugere Hasna.

– Não. Primeiro, vamos procurar um lugar para nos estabelecer – replica Asra – não podemos ter pressa. Esse é o momento da nossa vida.

Durante o resto do dia e o dia seguinte, as duas caçadoras de tesouros levantariam acampamento num bairro de aparência rica, onde começariam suas buscas por tesouros: móveis, jóias, prataria, armas e armaduras estando no topo da lista. Pouco a pouco, a primeira carroça da dupla é preenchida e transportada até o barco.

A segunda carroça estava reservada para o trono.

– Aquelas construções lá no centro, que a gente viu outro dia... aquela é a tal da "basílica", não é? – questiona Hasna.

– Talvez. Provavelmente.

– Vamos dar uma olhada.

– Sim. Mantenha sua besta pronta – Asra encara com desconfiança a arma que pende pelo lado do corpo da companheira – não vejo a hora de te ensinar a usar um arco. Essa coisa é lenta e desengonçada demais.

– Como foi que você aprendeu arquearia, afinal?

– Sozinha. Oras. Como quase tudo o que eu sei.

Elas deixam seu abrigo ainda pela metade da manhã, quando há uma brisa fresca no ar e o céu cinzento demonstra a possibilidade de chuva. Nos seus primeiros dias na Europa, Hasna enfrentara uma das piores chuvas da sua vida. Agora, meses depois, se encontra até habituada. Aprendera a apreciá-las. Às vezes até pensa como sobrevivia naquele calor infernal da sua vila natal, a umas duas semanas de viagem do Mar Mediterrâneo.

Lá está de novo, aquela curiosidade com as origens de Asra. Quão perto sua vila teria sido da dela? Embora Asra não diga, Hasna sente que há uma boa razão para ela ter deixando seu local de nascimento, assim como ela. Esse ponto em comum, Hasna sente, é algo que as atrai uma para a outra.

– Hm...

– O que foi?

De longe, é possível perceber o cenho franzido em desconfiança de Asra, enquanto ela encara algo no chão.

– Isso aqui não é nosso – ela indica marcas no chão de terra batida que Hasna nunca teria notado. Algo vagamente similar a pegadas, talvez? É sua melhor suposição. Envergonhada por não ter a menor ideia do que a outra está falando, Hasna sorri e assente.

– É... sim, não é mesmo.

– Vamos logo. Eu quero aquele trono.

Hasna assente e ambas fazem suas montarias apertarem o passo.

A primeira coisa que Asra pensara ao ver aquela construção, nos seus primeiros dias ali, é que ela não parecia nem de longe tão grandiosa quanto as lendas faziam parecer. Mas, considerando outros detalhes do que ouvira, e analisando a cidade ao seu redor, chegara à conclusão que aquele devia ser o local.

Hasna apenas a seguia. E continua a segui-la até a grande catedral central do praticamente extinto catolicismo. Elas adentram um pátio cercado por ruínas após atravessarem um portal que claramente havia sido barricado em algum momento, mas fosse pela população local revoltosa buscando abrigo, fosse pelos caçadores de tesouros como ela que vieram décadas depois, elas já haviam há muito sido despedaçadas. Do centro do pátio, as duas mulheres se veem diante do qual um corredor leva à catedral central, bem maior do que parecia na distância, e essa não é a única estrutura ali.

– Vamos ter que procurar por tudo isso? – murmura Hasna.

– Onde você colocaria um trono de ouro maciço? – indaga Asra.

– Essa pergunta soa absurda demais aos meus ouvidos.

Asra suspira e avança na direção da catedral a passos rápidos que Hasna quase não consegue acompanhar.

– No lugar de mais destaque, óbvio. Eles iriam querer exibir aquela coisa. Vem!

Quando Asra empurra a porta de entrada, uma forte onda de poeira é erguida. A mais velha cobre o rosto com a mão, a mais nova tosse violentamente e recua pro lado de fora.

– Sensível ao pó?

– Cala a boca...

– Vamos.

Está escuro. Mais escuro do que normalmente fica em ambientes internos assim. Asra nota que a maioria das janelas foram completamente bloqueadas com tábuas de madeira que, tantos anos depois, continuam resistindo à ação do tempo.

– Deveríamos voltar e fazer uma tocha? – pergunta Hasna.

– Não, estamos perto demais agora.

Praticamente tateando na escuridão, elas encontram um altar.

– Está por aqui?

– Não... está difícil de enxergar... – Hasna murmura de volta.

– Espera. Logo seus olhos se acostumam.

– Ai...

– Não fosse aquelas marcas lá fora, eu voltaria pra...

Uma flecha interrompe Asra, vindo se cravar no altar bem ao lado dela. Hasna se protege atrás do altar, preparando um virote em sua besta, ao mesmo tempo em que Asra bota uma flecha no arco e se vira, possessa, na direção do agressor.

– Quem é? – ela sibila, em direção às três figuras próximas à entrada, cujo os rostos estão escondidos na contra-luz.

Os homens conversam numa língua estranha. Dois deles parecem dar bronca no terceiro, talvez por ter errado o tiro.

– É melhor vocês saírem daqui – Asra grunhe, impaciente. Sua voz sai grave, rascante, ameaçadora. Hasna estremece levemente, agradece por estar ao seu lado e não contra ela – não estou para brincadeiras.

Os homens gritam algo em sua direção, agressivos, um deles brandindo algo similar a um porrete acima da cabeça, e se dispersam na escuridão, sobrando somente o cara do meio na contra-luz, que começa a preparar uma nova flecha no arco...

Hasna e Asra são mais rápidas, e um virote e uma flecha se cravam no peito do arqueiro praticamente ao mesmo tempo. No instante seguinte, Asra se joga para trás do altar junto de sua parceira. Um dos homens grita algo, num tom similar ao desesperado, e corre na direção do companheiro abatido. Em seguida, volta-se para onde as duas se esconderam e urra cheio de raiva na direção delas. Asra não precisa falar essa língua pra saber que está amaldiçoando suas almas e as jurando de morte. Ele torna a desaparecer nas sombras em seguida.

– Dois contra dois – Asra sussurra, tão baixo quanto pode – conseguiu ver como eles tão armados?

– Muito pouco – admite Hasna. Ela termina de puxar a corda da besta e prepara um segundo virote.

– Praquele lado primeiro – indica Asra – saia daqui e me dê cobertura.

As duas se separam, Hasna buscando se ocultar nas sombras junto à parede do fundo da catedral, enquanto Asra segue abaixada na direção para onde o homem que as xingara havia ido. Ela se esgueira entre o que parecem bancos enfileirados, fazendo tanto silêncio quanto possível, os ouvidos atentos em cada som.

Um grito agudo chama a atenção de Asra, que instintivamente se levanta, apontando seu arco na direção de onde o ouviu. No meio da escuridão, ela consegue distinguir vagamente duas figuras, uma pequena e magricela e outra pelo menos 20cm mais alta e bem mais robusta, que avança contra a menor. Asra tenta mirar, mas Hasna está muito perto do seu agressor. Poderia atingi-la. Ela tenta se mover de lado, buscando um ângulo menos perigoso.

Um segundo grito de dor corta o ambiente, e não é a Hasna que ele pertence. Impressionada e aliviada, Asra observa enquanto o homem cai de costas, a sombra do punhal de Hasna acompanhando a queda do seu corpo.

Subitamente, ela sente uma dor lancinante nas costas e vai ao chão, sem fôlego, segurando um grito na garganta enquanto seu sangue quente molha o couro e tecido das suas roupas.

– ASRA!

Mesmo com a dor, Asra encontra forças para girar e ficar de frente ao seu agressor, que segura um punhal em suas mãos. Mas ele não olha mais pra ela, em vez disso tem o rosto virado na direção de sua companheira, que avança rapidamente contra ele. O homem tenta avançar na direção dela, mas Asra enrosca suas pernas nas dele e o faz ir ao chão.

– HASNA, NÃO SEJA BURRA! USA A BESTA!

Ela estaca onde está e, nervosa, tenta preparar um novo virote, enquanto o homem continua tentando se levantar, mas Asra mantém os tornozelos dele bem enroscados aos seus. Ele tenta dar uma facada na sua canela, mas passa raspando. Teria sido um corte superficial, não fosse a bota grossa de couro de Asra. Sentindo o poder da adrenalina, a caçadora veterana se ajoelha e salta sobre o homem, atracando-se violentamente contra ele e segurando ambos os seus pulsos contra o chão. Ele grita palavras hostis na sua cara, incompreensíveis aos ouvidos de Asra, tenta chutá-la, dar uma cabeçada na sua cara, mas ela esquiva bem dos golpes.

– Atira, Hasna! Na cabeça!

Ela mira a besta.

– Não dá! Tá muito perto!

O homem tenta dar mais uma cabeçada e, dessa vez, acerta. Mesmo desorientada e sentindo o supercílio sangrar, Asra tenta continuar segurando o homem, mas ele se desvencilha do seu aperto e tenta um corte lateral, mirando sua jugular.

Asra percebe o movimento no último momento e protege-se com o pulso esquerdo. A faca do homem faz um talho profundo no antebraço de Asra, penetra profundamente na sua carne e se prende entre os ossos, na metade do caminho para chegar do outro lado.

Seu sangue esguicha, encharca suas roupas, inunda o chão da basílica abandonada.

– ASRA! – sem mais titubear, Hasna levanta sua besta e atira, certeira, contra a nuca do homem, cujo o corpo cai sem vida imediatamente. A mais nova corre até a sua companheira, pálida e ensanguentada, sua consciência rapidamente se esvaindo – não, não! Asra, resista! Não dorme agora!

– Tô... porra... – Asra não consegue falar direito.

Ela apoia a cabeça da companheira no colo, segura seu pulso tentando estancar o sangue com as mãos.

– Caralho! Porra! – Hasna arranca a camisa e a usa para enrolar, com força, o antebraço da companheira. O tecido branco rapidamente se tinge de vermelho – Asra, fica comigo, vai ficar tudo bem! Você vai ficar bem, ouviu?

– Tô... confiando em você...

A última coisa que Asra vê antes da escuridão se sobrepor é o rosto belo e de feições delicadas de Hasna, na expressão mais concentrada que já vira em sua vida.

[...]

É quente. Abafado.

Asra se sente um tanto presa.

Quando abre os olhos, dá com aquele teto mofado de uma casa sem manutenção há sabe-se lá quantos anos.

– Hasna...? – ela chama. Sua voz sai fraca, da mesma forma que ela sente o corpo nesse momento.

Não há resposta. Asra tenta se mexer na cama, mas mal tem força pra se livrar das cobertas pesadas sobre o seu corpo. Se sente sufocada, sente os músculos tensos e cansados e mal consegue mexer a mão do braço que fora ferido. Pouco a pouco, conforme a sensação de letargia do sono passa, ela consegue empurrar as cobertas pela lateral da cama e se senta na beirada.

– Hasna? Você tá aí? – ela tenta chamar, um pouco mais alto. Nota seu antebraço esquerdo inteiro coberto por ataduras que outrora foram brancas. Outra camada grossa se enrola no seu peito, provavelmente estancando o sangramento do ferimento nas costas.

Ela ainda não ouve resposta alguma.

Asra tenta se por de pé. Cambaleia e cai sentada, de volta na cama, na primeira tentativa. Na segunda, consegue manter melhor o equilíbrio. Ainda que trôpega, consegue alcançar a porta.

Reconhece vagamente aquele casarão onde estavam ficando. Asra olha para os dois lados do corredor, como se esperando ver a sua companheira saindo de algum outro quarto.

– Hasna?

Sem resposta.

Asra vai até a frente da casa. Não vê seus camelos em lugar algum.

– HASNA! – ela faz uma concha com as mãos ao redor da boca numa tentativa de potencializar a sua voz. Será que haviam outros além daqueles três? Será que a pegaram e agora estão... se vingando? Sentindo a ansiedade corroer o seu coração, Asra torna para dentro da casa e vai procurar pelo seu arco e cimitarra. Promete a si mesma que vai estripar qualquer um que tiver tocado uma ponta que seja dos seus dedos imundos em Hasna. Se eles pensam em se vingar, deveriam ter perguntado pra ela primeiro como fazer isso, pois Asra jura ao Profeta em quem não crê que tem ideias muito mais criativas.

Quando deixa a casa pela segunda vez, agora correndo o mais rápido que o seu corpo fragilizado permite, Asra é surpreendida com a visão mais bela que já teve em seus 37 anos de vida.

Hasna, montada em Duna, que se conecta a Qamar e à segunda carroça da dupla por cordas. Ela usa as mesmas calças de tecido e botas de couro grosso que Asra havia dado a ela há algumas semanas, mas sua camisa desapareceu. Um monte de trapos esconde os seus seios do mundo, e ela tem uma expressão cansada, porém pacífica. Como alguém que trabalhou o dia inteiro e se satisfez com o resultado, e agora se dirige para casa para uma merecida noite de sono.

Não tem uma visão clara de onde está, mas identifica algo similar a uma cadeira de madeira com pedaços de ouro na carroça lá no final da fila.

– Hasna?

– Ei, Asra. Você não deveria estar de pé – replica a outra – vai deitar, vai!

Asra solta um suspiro aliviado. A ansiedade de há pouco é substituída pela euforia, e ela ri baixinho. Uma risada incrédula, porém leve, como há muito não ria. Espera até que sua companheira a alcance e estacione os camelos, e vai dar uma boa olhada no... trono?

Com certeza, não é ouro maciço.

– Eu sei o que você está pensando... desculpe, eu não achei nada parecido – esclarece Hasna. Ela desce de Duna e se aproxima de Asra, os ombros meio encolhidos, como quem se desculpa – eu procurei por todo canto. Sério, tudo mesmo. Isso foi o mais próximo que eu achei.

– Ao menos, tem ouro. Tem cara de móvel caro – Asra caminha ao redor da carroça, analisando a peça por todos os ângulos – nossa, que... decepcionante.

– Desculpe...

– Não, não você. Porra, com certeza não você. Você é a melhor caçadora de tesouros que eu já conheci.

A expressão de Hasna se ilumina novamente.

– Aprendi com a melhor!

– Será que é mesmo o trono do papa?

– Talvez já tenham roubado o verdadeiro há muito tempo...

– Talvez, mas ninguém contou histórias sobre. Ah, porra... ninguém vai acreditar se a gente disser que esse é o trono do papa, vão?

– Poderíamos falar que é o trono de algum rei? Huh, conhece algum reino grande que ficava mais ao norte?

– Já ouvi falar em alguns... ei, vem cá. Como que você me salvou?

– Ah, eu... usei... uns remédios.

– Remédios? – estranha Asra.

– Limpei suas feridas, estanquei o sangramento... na minha vila natal, minha mãe tinha me ensinado uns... truques... pra não deixar infectar. Eu só dei graças a Alá quando vi que o punhal daquele cara tava limpo. Se tivesse enferrujado, nossa... você nem imagina o que poderia acontecer.

– Você é curandeira, é? Desde quando? – Asra acha graça na revelação.

– Prefiro não falar sobre isso – Hasna replica, séria.

– Tudo bem. Então, vamos voltar?

– Nada disso, eu não sei pilotar aquela coisa ainda! Não vou te deixar fazer aquele esforço todo sozinha estando toda arregaçada desse jeito! A gente fica por aqui até você se recuperar, e só depois nós voltamos!

Asra levanta as sobrancelhas, surpresa, e desata a rir. É uma risada gostosa, mas que desperta a ira de Hasna.

– Ei! Tá rindo do quê?! Não tem graça! – ela reclama, socando seu braço bom – para de rir! Para! – e soca mais uma, duas, três vezes.

– Ai, ai, ai! Tá bom, já parei, calma!

Hasna cruza os braços, ainda com aquela cara de baixinha invocada. Asra tem vontade de rir da sua expressão, tanto quanto rir pela euforia de estar tudo bem. Bom, quase, seu braço ainda dói pra burro.

Por um momento, a expressão de Hasna se suaviza. É uma mudança bela, algo que ela gostaria de poder ficar observando e admirando, mas seu desejo não é concedido: Hasna se joga em seu corpo, a abraçando com força.

– Fico feliz que esteja bem... – murmura. Parece até... chorosa?

Asra suavemente retribui o gesto, envolvendo a garota mais nova em seus braços, e deposita um beijo casto em sua testa.

– Eu também.

10 de Agosto de 2021 às 00:49 0 Denunciar Insira Seguir história
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