arnaldo-zampieri Arnaldo Zampieri

"Não construais estátuas aos vossos heróis, é melhor erguer estátuas às vossas vítimas." Jean de La Bruyère


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Eu não assisto filmes de heróis!

Eu não assisto filmes de heróis!

Disse ele, cheio de convicção. Eu sabia o motivo. Estávamos juntos por muitas décadas e tem certas manias que aceitamos um no outro, sem questionar.


Tivemos 5 filhos. Eles adoravam heróis. Um era o Batman, o outro o "Super homem aranha de ferro...". Já nem lembro mais todos os personagens. Mas lembrar sempre nos fazia rir. Corríamos todos juntos, ele sempre com uma capa amarela, e brincávamos na sobra do Ipê.


Mas eles, os filhos, logo casaram e sumiram. Todos os 5 agiram do mesmo modo. Nem Dia das mães ou noite de Natal. É difícil conseguir a companhia deles. Cada um olhou para uma direção e foi embora, se tornaram heróis de suas histórias e nós ficamos por aqui. Dos 11 netos que nasceram conhecemos somente 6. Dos outros só tivemos mesmo a notícia de que nasceram e que os quartos eram decorados com desenhos do Hulk ou da "Capitã viúva maravilha escarlate..." . Nunca gostei de discutir esse assunto. Dói, mas eu finjo que não sinto. Ele se finge de brabo, mas eu sei o quanto revisitar memórias machuca.


Teve um ano que ele sonhou que os filhos viriam para uma festa de 70 anos. O aniversário cairia exatamente num domingo. Era o universo conspirando para o reencontro. Nos preparamos para receber no almoço os genros, as noras, os netos. Quem sabe até mais gente, afinal, festas são assim mesmo, sempre cheias de parentes. Então tínhamos a mesa posta no quintal, na sombra do Ipê e arrumamos 30 cadeiras com diversas referencias aos desenhos animados e quadrinhos. Lá pelas 14hs estávamos somente nós dois, sentados na varanda com os pratos no colo. Comemos sem dizer uma palavra, e nunca tocamos no assunto.


Bom, mas hoje eu precisava ir ao cinema. Em cartaz só tem filmes de heróis. Ele não vê esses filmes pra não lembrar...enfim, resolvi ir sozinha, chamei um Uber e desisti na metade do caminho. Pedi pra motorista me deixar e chamei uma nova corrida de volta pra casa.


Quando cheguei ele estava sentado na sombra do Ipê, vestindo sua velha capa amarela com as costas escoradas no tronco. Eu cheguei devagar e ele me olhou sorrindo. Me disse baixinho que estava lembrando de cada um dos heróis. Que sentia uma dor subindo pelo braço amortecido e que ela estava estacionando no fundo do coração. Também disse que foi difícil chegar até o Ipê, mas que era exatamente onde queria estar, porque ele não assiste filmes de heróis.

30 de Julho de 2021 às 19:43 3 Denunciar Insira Seguir história
8
Fim

Conheça o autor

Arnaldo Zampieri Assimétrico como a vida é o meu trabalho. Dividindo essa existência em: Composições, crônicas, contos, poesias e HQs.

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 Silva Silva
Oi Arnaldo, já faz um tempo que não passo nos seus textos, e já que tive um tempinho decidi aproveitar e fazer bom uso dele. Foi um texto que me tocou muito, todo o carinho e sacrifícios que os pais fazem pelos filhos pra depois serem retribuídos com tanta ingratidão. Cara, acho que essa é uma das piores coisas que se pode fazer, Seu texto me lembra que preciso aproveitar o tempo que tenho com meus pais, é um tempo que não voltará e chegará um dia onde não irei tê-los comigo. Parabéns! Muito obrigado por compartilhar !
Max Rocha Max Rocha
História pungente. Reminiscências de uma vida esquecida, pela ingratidão e pela materialidade, que caracterizam a vida moderna. Mas todos hão de voltar à infância (haja vista Cidadão Kane, de Orson Wells)...
August 03, 2021, 19:13

  • Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
    Da série: Comentários de quem tem boas referências. Obrigado mesmo por passar por aqui, sou teu fã, você sabe August 03, 2021, 19:53
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