pandora_noir Pandora Noir

Um garoto escreve uma carta em uma noite chuvosa, até ser visitado por uma figura misteriosa.


Conto Todo o público.

#sobrenatural #poesia #239
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A Carta e a Vela

O silêncio amedrontador de uma madrugada fria, no fim de uma noite solitária que devorou e matou com frios beijos imaculados. A apatia do vento mudo, a crueldade dos tímidos pingos de chuva contra o vidro. A ponta de uma pena cortou o papel, manchando-o com sua tinta negra. Uma vela queimou sem som, e isto bastou para iluminar o pequeno cômodo. Todos os seres vivos dormiam. Todos além do garoto que, de modo hipnótico, feria o papel com letras corridas e de pouca atenção. Não havia diferença entre uma faca cortando a vida para fora e a pena arranhando sentimentos para dentro do papel. Ao elevar o olhar para a janela, fora recepcionado por uma deslumbrante lua cheia. Naquela época do ano, apenas uma lua era vista. A outra se escondia nas coxias de sua irmã. Respirou fundo uma vez. E então outra. Parou para afogar a pena no nanquim, depois voltou a matar sua dor com palavras mal pensadas, que amaldiçoavam todo o mundo, incluindo o Céu e os Deuses. Aquilo poderia ser uma madrugada comum, contudo, havia aquelas palavras… Aquela carta era sua sina. Quando por fim terminou, usou sua última vela para derreter a cera, deixando que pingasse sobre o pergaminho, queimando-o. E com o beijo do sinete, estava feito. Como o doce sibilar de uma caixa de música, ela surgiu em sua frente. O vestido branco bailando no ar, de modo espectral. Ela caminhou até ele. E, pela primeira vez, suas mãos se tocaram. Este ato vulgar atraiu a ira dos deuses, e não houve santo que pudesse defendê-lo. Aquela pele da cor da chuva, tão suave. Cada segundo juntos era um crime contra a natureza. Cada passo de sua valsa era um prego para sua cruz. O pêndulo do relógio era a faca que cortava o seu destino. Não mais que um breve momento, e seu espectro cinzento se desfez, deixando apenas uma carta, uma vela e um corpo sobre o piso de madeira.

29 de Julho de 2021 às 15:36 6 Denunciar Insira Seguir história
9
Fim

Conheça o autor

Pandora Noir Olá! O meu nome é Pandora, sou uma aspirante a escritora. Minha obra é "Prólogo do Céu", e ficaria muito feliz se você pudesse ler! Um pouco sobre mim... Eu amo desenhar e pintar tanto quanto amo escrever. Minha técnica é aquarela. Não sou capaz de apontar um escritor favorito, mas adoro histórias góticas, sobrenaturais e/ou celestes. Acredito que meu poeta favorito é o Augusto dos Anjos, mas no momento estou apaixonada pelo Jonh Milton. Também adoro debater sobre mitologia.

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NíngYì Mèng NíngYì Mèng
Que poesia maravilhosa e, ainda, cheia de trechos marcantes. Ler “A Carta e a Vela” foi uma experiência sensacional! <3
August 11, 2021, 10:55

  • Pandora Noir Pandora Noir
    Céus! Seu comentário fez o meu dia! Muito obrigada! ^^ Eu fico muito feliz que tenha gostado! August 11, 2021, 13:42
Gustavo Machado Gustavo Machado
"Não havia diferença entre uma faca cortando a vida para fora e a pena arranhando sentimentos para dentro do papel". Sensacional!
August 09, 2021, 13:10

  • Pandora Noir Pandora Noir
    Muito obrigada! Essa foi uma das frases que mais gostei de escrever. :) August 09, 2021, 13:21
Neusa Safra Neusa Safra
Pandora sonhadora, escritora maravilhosa. Sou sua fã.
August 01, 2021, 23:29

  • Pandora Noir Pandora Noir
    Muito obrigada! E obrigada por comentar! :) Isso deixou minha noite muito feliz! August 01, 2021, 23:50
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Prólogo do Céu
Prólogo do Céu

Terh é um mundo envolto por uma profecia cruel; os Filhos da Luz, viriam a destruir tudo. Disposto a qualquer coisa para conquistar seu trono no altíssimo do céu, Eósforo, O Filho da Luz, inicia uma dolorosa campanha contra os deuses de Terh. Porém, mesmo acompanhado de sua irmã, Heylel, de seus Santos, e alguns deuses que partilhavam de seus ideais, sua queda foi inevitável. A derrota provocou seu banimento para o mundo dos homens, juntamente de seus aliados. O último conflito contra as forças da luz está para se iniciar. A batalha final não envolverá apenas os deuses, mas todos os habitantes de Terh. Daemons, criaturas cruéis e sombrias que habitam o umbroso plano de Miterh, regido pelos atrozes Heahlishyard, sentem os abalos da guerra e a necessidade de escolher a qual lado unirão forças. As trombetas do Armagedom soam! Contudo, desde sua queda, não há sinais do Filho da Luz, ou da principal aliada dos deuses, Seraphin. Leia mais sobre Prólogo do Céu.