zackyuchiha Zacky U.

"Se você me ama como um homem, viva como um homem, viaje como eles..." Sakura lhe disse. E, depois de muitos anos sendo amaciado pela esposa, o Conde resolveu descer do alto de seu trono para tentar entender mais um pouco do mundo dela, como já vinha fazendo desde que a conheceu. Sempre zelando pelo amor que recebeu de graça, sabendo não merecê-lo, qual não foi a sua surpresa ao retornar para casa e encontrar tudo consumido pelas chamas. Transformaram sua Flor em cinzas, e ele deixaria sua verdadeira natureza queimar em gloriosa fúria, pois se não foi capaz de protegê-la, com certeza iria vingá-la." História inspirada livremente no anime "Castlevania". [ ItaSaku. | UchihaSakuProject. | Contos de fadas. ]


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𝕮𝖆𝖕𝖎́𝖙𝖚𝖑𝖔 𝖑




“O que é o luto, se não o amor que perdura?”

Visão



– Você vai me ajudar com isso, é?! – Sakura, achando graça, levantou uma sobrancelha para Konohamaru, uma das crianças do orfanato que a irmã Ino tomava de conta, quando ele veio correndo pelas ruas até pular abraçando suas pernas, quase a derrubando, e se oferecendo para pegar suas sacolas.

– Aham, aham! – Ele deu alguns pulinhos, sorridente.

Seu olho esquerdo ainda estava tampado com os curativos banhados em receitas secretas que Sakura havia ministrado no último final de semana, mas o direito já encontrava-se 100% funcionando, devolvendo a Konohamaru a oportunidade de ser criança mais uma vez, ao invés de se manter sempre afastado, com uma enorme venda na face – tal objeto utilizado para tampar as feridas das pálpebras, que haviam infeccionado e piorado muito a situação dele –, unicamente escutando o mundo ao seu redor, onde os coleguinhas mais saudáveis brincavam e pulavam animados, e tudo que ele podia fazer era apenas ficar a ouvir suas risadas.

Antes, haviam avisado-o de que nunca mais enxergaria de novo, o que sugou, mesmo na tenra idade, suas esperanças e alegria de vida. Na ocasião em que Sakura o conheceu, Konohamaru parecia outra pessoa, sempre triste e calado, como se também fosse mudo. Ao prometer que iria ajudá-lo com o tratamento de sua doença, ele não acreditou em suas palavras. Quando chegou a época de limpar e deixar livre um dos olhos, a primeira imagem que o menino teve depois do que lhe pareceu ser uma eternidade na escuridão solitária, foi a visão de Sakura sorrindo – quem ele posteriormente passou a acreditar ser seu anjo da guarda. Ela possuía uma beleza graciosa e excêntrica com aqueles reluzentes par de orbes verdes e longos cabelos cor de rosa. Chorou emocionado ao notar que voltou a ver. A doutora havia falado a verdade, ela o curou! E, era linda! Impossível não ter ficado encantado, achando tudo extremamente mágico graças a imaginação fértil e infantil.

Se dependesse da antiga médica da Vila, a anciã Chyio – que Sakura sabia, na verdade, ser uma grande vigarista por cobrar por seus tratamentos infundados e desgastados pelo conhecimento precário, adquirido por passar de "boca em boca" de geração para geração –, o pobre do menino órfã já estaria cego! Chyio doava boa parte de sua renda para a igreja, o que Sakura tinha certeza que influenciava na sua permissão em fingir ser uma curandeira, enquanto ela, que havia chegado na vila há poucos meses, anunciou trabalho voluntário, e não era vista com bons olhos por parte dos religiosos.

– Então vem aqui! – Lidar com crianças estava a deixando ainda mais sentimental naquele mês, amava as pestinhas e, aparentemente, era recíproco. Konohamaru pegou as sacolas pesadas e mal conseguiu se equilibrar, então Sakura o pegou no colo. Foi assim que funcionou aquela singela "ajuda" do mais novo.

Com o tempo, ficou manifesto para todos do vilarejo que as mãos de Sakura faziam "milagres", resultados positivos como nunca antes havia acontecido, e o melhor: de graça! Dessa forma, era de se esperar que o antigo consultório ficasse vazio, e o de Sakura lotado. Atendia-os na sua própria casa, oferecia lanches, acompanhava gentilmente as feridas e as doenças de seus pacientes cedendo e desaparecendo diante do poder do seu conhecimento científico e trabalho aplicado. Era fascinante para Sakura, lhe preenchia de alegria, de propósito, como se todo o caminho tortuoso que viveu na infância, ela e toda a população, na época da grande peste, culminasse para aquele momento da sua vida: ajudar aqueles que precisavam; levantar os que, sozinhos, não conseguiriam se reerguer.

Ironicamente, sabia que quem não havia gostado das mudanças que trouxe, além obviamente da própria Chyio, era o humilde grupo sacerdotal que tomava de conta da catedral daquela região. Se não soubesse das hipocrisias religiosas, Sakura ficaria intrigada em tentar descobrir a razão de homens tão santos, que pregavam sobre o amor ao próximo e recompensas celestiais, estarem tão aborrecidos por uma senhora médica estar fazendo caridade. Mas sabia que era assim que a ganância em seus corações agia, quando aquela fonte de renda foi tirada deles, passaram a olhá-la como se quisessem parti-la em pedaços! Aparentemente a alegria e a prosperidade dos cidadãos não influenciava em seus julgamentos.

– KONOHAMARU! – Ino corria pelas ruas, o rosto abatido ganhando um raio de esperança ao achar a criança fujona em braços seguros. O garoto riu traquina vendo o sofrimento da freira.

– Olá, parece que achei algo que você perdeu. – Sakura brincou, vendo a loira ofegante, apoiando-se sobre a bata em cima dos joelhos. "Que a virgem lhe desse paciência!"

– Você sabe que adoro a sua companhia, doutora, mas poderia evitar passar pela frente do orfanato quando estiver fazendo compras? As outras crianças eu até que consigo segurar mesmo com todo o alvoroço, menos esse pestinha aqui que só me dá trabalho!

Sakura tentou conter o sorriso, já Konohamaru não disfarçou a gargalhada gostosa e inocente de quem se sente orgulhoso por estar recebendo uma bronca.

– Desculpe, os ingredientes para o meu bolo recheado só tinham na vendinha do Ichiraku, e o caminho mais perto é pela rua do orfanato. – Sakura faria uma recepção especial, Itachi chegaria naquela madrugada, queria lhe montar uma surpresa para acompanhar a notícia importante com a qual iria lhe presentear. E amava cozinhar quando não estava estudando anatomia, ou tentando não se perder na saudade latente e nas prazerosas memórias que tinha ao lado do esposo.

"Não, você é um anjo camuflado que apareceu iluminando a minha vida."Era impossível não se arrepiar com a lembrança viva de Itachi sussurrando declarações no pé de seu ouvido, sempre que tentava distraí-la de alguma discussão que estavam tendo pelas escolhas que Sakura fazia no que diz respeito ao seu estilo de vida. Funcionava toda vez, até mesmo quando ele não se encontrava presente, afinal, lá estava ela sorrindo abobalhada e no mundo das nuvens bem no meio da rua.

– Eu quero bolo! – Konohamaru ficou eufórico com aquela palavra que parecia brilhar, tirando Sakura de seus devaneios apaixonados.

– Você quer um castigo por me desobedecer, isso sim! – Ino esbravejou – Agora vamos!

– Não, não! Eu tô ajudando a tia Sakura com as sacolas! – argumentou ele.

A freira fechou os olhos, inspirando fundo. É, ela podia ver que grande ajuda o menino oferecia! O riso da médica quebrou o clima tenso, Ino tinha a impressão às vezes de que aquela mulher não podia ser tão jovem quanto ela, algo em torno dos trinta, porque carregava uma áurea de quem havia vivido por séculos e tinha todo o tempo do mundo para lidar com as nuances da vida. Quando lhe disse aquilo uma vez, Sakura garantiu que era só porque nunca haviam a visto zangada! Só seu marido conhecia todos os seus lados por traz da personagem afável que ser médica exigia, e que ela amava, e muito, desempenhar.

– Tudo bem, não se estresse por isso! Acompanhe-me até em casa, assim poderemos colocar o papo em dia, sim?! Tenho certeza que você tem muito para me contar. – Sakura barganhou para que pudesse ter Konohamaru mais tempo em seu colo.

Também havia se apegado à criança e Ino não tinha muitas amigas, na verdade Ino não tinha amiga nenhuma, e Sakura sabia que a mulher precisava desabafar às vezes, fazia bem para a saúde mental dela, por isso não se surpreendeu por vê-la concordando e já engatando uma reclamação sobre como aquela semana estava sendo difícil. Ficava sabendo de barbaridades pela boca dela, mas era excelente em guardar segredo, e se esforçava muito para dar os melhores conselhos, havia se ligado de coração a Ino. No fim, percebeu que não tinha amiga nenhuma também.

Quando passaram em frente à paróquia, cumprimentaram Danzō, o padre oficial, e seus auxiliares. Mesmo tendo suas próprias crenças, Sakura fazia o possível para se enturmar, não causar problemas ou levantar suspeitas desagradáveis sobre ela. Fingia ser devota e frequentava todas as missas semanais, sabia que para fazer seu trabalho, e de certa forma ser quem ela era, uma médica, não podia entrar em pé de guerra contra a igreja, que era a autoridade dominante na maior parte das civilizações depois da grande Peste. Se quisesse verdadeiramente ajudar pessoas, precisava mentir sobre quem era, de onde vinha, e até mesmo seu sobrenome. O que era uma ironia em vários sentidos. Basicamente tinha que se esforçar horrores para fazer o bem, o mesmo “bem” que aqueles homens aristocratas juravam defender.Tsc. Eram escravos da própria tolice.

De qualquer forma, não era uma filósofa e nem uma professora, era uma cientista. Conseguindo cumprir o seu objetivo, a médica não tinha do que reclamar, as coisas estavam indo de vento em poupa, queria muito que continuasse assim. Entretanto, daquela vez específica, quando cumprimentou o clero fingindo cordialidade e respeito, notou um vulto maquiavélico cruzando pelo rosto do padre, que lhe encarou com uma superioridade venenosa, como a de uma cobra antes de dar o seu bote. Um mau pressentimento subiu arranhando pelas costas de Sakura, fazendo-a ficar aflita e ameaçando lhe roubar a paz. Decidiu que não daria aquele poder a eles. Não. Nada tiraria a euforia de rever seu marido depois de tanto tempo – como estava morrendo de saudade! – e contar a ele uma notícia que mudaria suas vidas por toda a eternidade.


[...]

– Não se preocupe com isso, Tsunade-sama! Eu já disse que a senhora não me deve nada. Só tome seus remédios e os chás nos horários que lhe falei, combinado?! E nada de beber escondido! Por Deus, me ajude a te ajudar! – Fingiu irritação enquanto abraçava-a de lado.

– Ah, o que eu faria sem você Dra. Haruno? – A mais velha respondeu deslumbrada enquanto era carinhosamente acompanhada até a porta. Sakura foi a melhor coisa que aconteceu naquela cidade, tinha certeza disso! Tão prestativa e simpática, nunca imaginou que se sentiria empolgada para ir ao médico, e cá estava, feliz em se sentir bem atendida e bem tratada.

Seu sorriso não durou muito, pois, assim que pisou um pé para fora da casa, viu o padre Danzō acompanhado de seus capangas, quer dizer, alguns fiéis. "Oh, não... Aquilo não deveria significar coisa boa!"

– Senhores, boa noite. – Sakura cumprimentou, sem aparente intimidação, e Tsunade presumiu que foi por pura ingenuidade, aqueles belos e jovens olhos verdes não haviam visto o que ela já viu, as coisas terríveis que aquele homem era capaz de fazer. A idosa só não sabia que a doutora tinha excelentes razões para nunca temer nada, nem ninguém. Contudo, naquela noite,as coisas seriam diferentes...

– Vá para casa, Tsunade, tenho assuntos a tratar na residência Haruno que não lhe diz respeito. – O homem ordenou com grosseria.

Sakura usava o sobrenome de solteira, pois o do esposo lhe renderia muito preconceito e dor de cabeça. Franziu o cenho, se perguntando o porquê de todo aquele espetáculo por parte dos religiosos, e também não entendeu o olhar apreensivo e choroso que recebeu de Tsunade, quando ela lhe encarou uma última vez, antes de abrir caminho entre os demais e ir embora.

– Algum problema, padre? Posso ajudar em algo? – Sakura tentou mais uma vez a diplomacia, Itachi chegaria em algumas horas, esperava já ter resolvido o que quer que fosse até lá.

– Venho em nome do Bispo, Orochimaru, que está acamado e não pode tratar de assuntos assim pessoalmente. Estou responsável pelo condado e tenho total jurisdição em seu nome.

– Oh, então é isso, deseja que eu visite o bispo? Tenho certeza que algo pode ser feito para ajudá-lo! – ofereceu com os olhos cintilando.

"Aquilo seria perfeito", pensou. Se tratasse de alguém tão importante entre os fiéis, talvez pudesse ter uma amizade menos instável com a igreja. Todavia, o riso de escárnio vindo de Danzō destruiu suas expectativas recém criadas, bem como a próxima ordem dele:

– Saia da frente, sua casa será revistada. Você está sendo acusada de praticar bruxaria na minha cidade. Se for achado provas, será condenada e queimada em nome de Deus!

– Mas o quê...? – o sangue fugiu completamente do rosto de Sakura e ela foi brutalmente empurrada porta a dentro.

– Nos fundos, Chyio disse que ela trabalha com os demônios no terceiro quarto a direita.

– Isso é ridículo! Tenha senso, eu sou uma médica, não uma bruxa! – Sakura esbravejou.

– Então, não há nada a se temer. – O sorriso de Danzō não lhe dava a confiança de um homem buscando por justiça, o coração de Sakura martelava dolorosamente em seu peito. Passou a ter uma certeza imediata de que, independentemente do que encontrassem na casa, ela seria arrastada dali como culpada. Os seres mais poderosos da terra ficavam longe dela, por respeito ou por medo, a razão nunca lhe importou, mas ali estava, sendo subjugada pelos seus.

– Aqui! – Um dos homens gritou lá de dentro, enquanto Sakura era levada a força pelo braço, mesmo se debatendo, havia dois brutamontes lhe segurando sem nenhuma delicadeza.

– JESUS CRISTO! – Outro fiel caiu de joelhos aterrorizado quando uma das ferramentas de Sakura passou a se mover sozinha. – Feitiçaria!

Idiotas, não sabiam nem diferenciar uma bruxa de uma feiticeira!”Ou Sakura, que não era nem uma, nem outra.

– O quê? Isso é uma máquina, eu uso para triturar sementes, funciona com metal e eletricid... – Não conseguiu terminar sua fala, interrompida ao levar um tapa seco no rosto, o gosto de ferro inundando seu paladar graças a um médio corte na parte de dentro da bochecha.

– Não venha com sua conversa engenhosa, demônio! Não seremos enganados como tolos! – O lado agredido no rosto de Sakura ardia tanto que seus olhos encheram de água, ele não havia economizado na força, e ela nunca havia apanhado na vida.

– VOCÊS JÁ SÃO TOLOS! Enganados pela própria burrice e ignorância!Hrr... – O outro lado foi atingido com a mesma veemência, seus cabelos puxados rigorosamente para traz enquanto um dos capangas lhe dobrava a força sobre uma das mesas. Para piorar sua humilhação, sentiu o cretino a encoxando por trás entre as nádegas.

– Finalmente, o espírito maligno está quebrando a máscara de boa moça. Saiba que eu nunca me deixei levar por essa casca ardilosa que escolheu usar, bruxa! – salientou o bispo.

– ME SOLTA! Eu já falei que não sou uma bruxa, vocês não sabem com quem estão se metendo! – E, dessa vez, Sakura não se referia a ela.

– Começaram as ameaças, a melhor parte. Espera... – Danzō pareceu abismado depois de, passeando pela sala amaldiçoada, folhear um livro despretensiosamente, afinal, tudo naquela sala a incriminava, era movido a encantamentos! A desgraçada deveria ser muito poderosa pois havia conseguido apreender um relâmpago em um globo de vidro. Pura magia negra! – Está em latim! – Se referia a linguagem nas páginas. – Você consegue ler Latim?

– Vou adivinhar – nem as incontáveis lágrimas conseguiam disfarçar o ódio em seu timbre de voz –, coisa do demônio! O engraçado é que você também fala!

Com a capa dura em suas mãos, Danzō voltou a bater em Sakura, acertando-a em cheio no queixo e nos lábios, piorando sua aparência inchada.

– Não me compare a você, verme insolente! Eu apreendi a língua sagrada a mando do nosso Senhor, como monge no monastério, se não és uma bruxa, como você saberia a língua usada por Deus?

– É só mais uma língua entre tantas que foram esquecidas! Isso não tem nada a ver com Deus, isso... – Se calou diante do arfar exasperado dele, e praticamente viu aquela mente perturbada interpretando errado suas palavras, já pronto para usá-las contra ela mesma. – Não! Não foi isso que eu quis dizer, eu...

– Ela confessou! – Danzō levantou as mãos para o céu, ao passo que Sakura começou a ser sacudida como um animal prestes a ser despedaçado. Sentia os ossos estrelando e os músculos protestavam com muitas dores – Queimem tudo! A bruxa será arrastada até a catedral enquanto aguarda os rápidos preparativos.

Apesar do calor, que piorava seus ferimentos devido ao pulso acelerado e aflito, Sakura sentiu um gelado cruel descer por sua espinha e forrar seu estômago. “Oh, céus, Itachi...”O peito apertou temendo pela própria vida, pela vida do filho em seu ventre, e o pior de tudo: a reação do conde. Demorou quinze anos para convencer o marido a dar uma chance em saber como eram as limitações humanas, viajando como um humano. Se ele voltasse e o pior tivesse acontecido... "Que Deus a ajudasse!"

– Q-quando será meu julgamento? – perguntou, entre soluços, vendo sua casa incendiada, todo seu trabalho destruído, e tendo as mãos amarradas para andar como se fosse uma criminosa da pior laia.

– Julgamento? – Danzō ergueu uma sobrancelha, puxando a corda que a prendia, derrubando-a e arrastando-a pelo granito enquanto Sakura tentava desesperadamente retomar o equilíbrio para andar com as próprias pernas. As mangas de seu vestido, bem como a saia rodada, foram rasgadas e o líquido espesso escorria entre as frestas do tecido sujo. Ardia muito. – A feiticeira será queimada imediatamente com as demais.

– Não, não! – Sakura começou a pisar firme, tentando atrasar a caminhada. Quando Itachi chegasse, já estaria morta! – Você não entende o que vai acontecer!

– Nenhuma das suas ameaças terá efeito em mim, criança, eu sirvo a um bem maior. – Voltou a arrastar Sakura sem piedade. Se a bruxa achava que iria se safar, estava redondamente enganada, a justiça seria feita naquela noite.

– NÃO, NÃO! – A realidade lhe atingindo com a mesma eficiência que os golpes que havia levado há poucos instantes. – Ele estava melhorando... Ele estava mudando! – O que não sabia era que, quanto mais se mostrasse vulnerável, mais satisfeito Danzō ficaria. – Não... não agora que eu estava conseguindo ir tão longe! – Sakura tremia da cabeça aos pés, gritava aos prantos pela dor em seu corpo, que não parava de ser violentado; pelo medo que toda pessoa sentiria diante da sentença de morrer injustamente queimada viva; pelo filho que nunca conheceria e iria virar cinzas junto com ela; pelo marido que jamais poderia tocar ou amar de novo; e, talvez o pior de todos: a ira e a destruição que viria em seu nome. Todos os aldeões, as pessoas que ajudou, o orfanato...

Não sobraria nada, não sobraria ninguém.

Não era inocente naquele quesito, amava um monstro e tinha plena consciência disso. Agora, aqueles estúpidos mortais estavam prestes a cometer um crime irreversível contra a humanidade: apunhalar um imortal pelas costas, e deixá-lo sangrando sozinho.


[...]


Itachi caminhava lento pela a vegetação rasteira, finalmente nos domínios do País do Fogo. Já tinha um tempo que acompanhava a extensa fumaça cortando o horizonte banhado pelo céu escuro, tão negro quanto seus cabelos longos jogados para trás, e seus olhos predadores. Humanos, deveriam estar comemorando alguma bobagem que não lhe faria sentido. Mas, compilava internamente, talvez entendesse um pouco o que Sakura estava tentando lhe dizer durante todos aqueles anos: homens eram breves, como o sopro da primavera que logo dá espaço para o verão. Aquilo deveria influenciar no raciocínio medíocre deles, quando finalmente começavam a querer entender a sabedoria da vida e da existência de tudo, a morte os roubava para sempre.

E então, um novo ciclo se repetia.

Nunca foram sábios, isso era um fato, porém sua amada tinha razão quando afirmava que a grande peste havia piorado, e muito, a situação deles. Milhares de milhares sucumbiram perante a letal doença e as sociedades definharam no pânico e na ignorância, regrediram nos costumes, tornaram-se ásperos, irredutíveis e facilmente manipulados pelas fraquezas que se deixaram dominar. Um grupo ganhou força, alimentando-se do medo de todas as vítimas, pregando que aquela havia sido uma punição divina e que, se não quisessem passar por uma nova onda calamitosa, que seguissem os estatutos dos santos.

No ponto de vista de Itachi, aquela não era uma desculpa para inocentar a grande massa pelas incoerências que faziam aos seus semelhantes. A própria Sakura era um exemplo disso, perdeu a família para a praga quando ainda era uma criança, teve que crescer sozinha, e ao invés de se tornar alguém traiçoeiro e desprezível, cultivou sonhos nobres! Queria ajudar pessoas, se tornar uma médica em quem os desamparados pudessem confiar, devolver a esperança para os órfãos e as viúvas.

Arriscou o próprio pescoço na procura de uma lenda: Vlad Drácula. Se existisse a mínima chance das histórias sobre conhecimentos esquecidos viveram dentro de um castelo mal assombrado, de livros que ensinavam a curar de verdade e abriam os olhos para a ciência, então ela o perseguiria até os confins da terra. Bom, não precisou ir tão longe, os corpos empalados ao redor não a impediram de bater em sua porta. Itachi ficou intrigado com sua personalidade, a esperança que brilhava dentro dela foi tão forte que chegou ao marco de iluminar até mesmo um ser das trevas.

Ela não estava lhe pedindo o impossível, nem muita coisa sequer, só queria ser médica. Acreditava que o mundo poderia se tornar melhor. Apostava que as pessoas poderiam valer a pena com um pouco de fé, pediu que Itachi começasse por ela. Fazia muitos milênios que um Vlad Drácula, que era o título para o dono do Castelo Real e do Trono Vampírico, não criava planos pacíficos relacionados a humanos, até porque eram basicamente resumidos a comida, resultado da índole desagradável e altiva que possuíam. Verdade que não precisavam matá-los para se alimentar, com certo esforço e boa vontade. Haviam histórias que até mesmo para Itachi pareciam lendas: de que um dia as espécies viveram em harmonia. Mas parecia tão utópico e ingênuo que não deveria passar de um conto de ninar. Não fazia sentido um leão se compadecer das ovelhas, que dirá um dragão – akuchiyosee o emblema do ancestral clã Uchiha.

Tantos anos isolado foram convenientes para Itachi aceitar ser o tutor da moça geniosa. Era esperta e muito inteligente, tinha talento, o orgulho de professor evoluiu para uma amizade sincera, para a admiração de um homem, e para a paixão de um marido. Tiveram tempo. Percebeu que nãoviviasozinho por todas aquelas décadas petrificando em seu castelo, na verdade estavamortolá dentro,sepultadoseria o melhor termo a se usar, esquecido por todos e por si mesmo. O resplandecer e os tons de Sakura coloriram todo o seu mundo, a vida era tão bela quanto o reluzir dos olhos cor de jade, e tão apetitosa quanto as curvas do corpo e do sorriso dela, doce como o sangue quente que pulsava pelo pescoço refinado. Parecia irônico estar amando alguém que havia jurado odiar pela simples condição de nascimento. Seria cômico, se não fosse trágico.

Itachi fechou os olhos inspirando fundo, sua beleza austera e feições inflexíveis não deixavam transparecer o quanto estava com saudade da esposa, da voz dela, do cheiro, do beijo... Tinha muito o que lhe contar, sabia que ela iria amar cada detalhe, que iria gargalhar com algumas gafes suas e com certeza lhe dar várias lições de moral sobre empatia e gentileza. Devoraria cada reação, cada memória guardada a sete chaves em seu íntimo, aquela mulher virou toda sua existência de cabeça para baixo, e mesmo depois de tantos anos de casados, Itachi ainda se sentia meio tonto, completamente embriagado pelos encantos dela. Só uma coisa ainda lhe incomodava...

A verdade é que só concordou com aquela viagem porque assim conseguiria diminuir o tempo que Sakura estabeleceu para deixá-lo transformá-la. Por mais que a ideia já tivesse lhe passado pela cabeça – é de se ficar pasmo, mas ele não era um santo –, jamais ousaria colocá-la em prática. Se a tornasse vampira à força, quebraria a confiança dela para sempre, e sempre, no caso deles, não era uma força de expressão metafórica, era literalmente para todo o sempre. A mera cogitação de traí-la daquela forma lhe fazia amargar a boca e apertar o peito, como se estivesse sendo esfaqueado.

Não merecia o seu amor,céus, talvez só o Deus dos humanos conseguisse explicar como o havia ganhado, para início de conversa. Entretanto, agora que o tinha, não podia fazer algo para perdê-lo, era uma benção, um bálsamo em sua alma calejada, por isso Itachi se esforçavamuitopara compreendê-la, comprimia-se todos os dias para caber no mundinho dela, por mais que lhe parecesse tão apertado. Tudo no anseio de que, um dia, ela voaria ao seu lado, no seu vasto e infinito mundo. Ainda não era possível pois, segundo Sakura, já era difícil ser uma cientista humana em um mundo tão supersticioso, imagine uma médica vampira querendo tratar humanos, parecia até piada de mau gosto. As pessoas mal confiavam nelas mesmas, que dirá em um predador e inimigo declarado.

Para Itachi, que vivia há mais de cinco mil anos vagando pela terra, e que dispunha do que parecia toda a eternidade do por vir, Sakura lhe pedia tempo demais. Talvez estar apaixonado por uma humana estivesse lhe deixando mais parecido com ela, impaciente e ansioso, como se não tivessem todo o desenrolar dos séculos aos seus pés. Todavia, nada lhe daria mais paz do que trazer Sakura para o seu patamar que, óbvio, considerava ser superior. A começar pela vulnerabilidade, poderia atétocá-lacom maior liberdade, humanos eram frágeis e a maioria possuía complexo de grandeza. Uma combinação arrogante, perigosa e muito,muitoirritante.

Franziu o cenho sentido o coração frio a palpitar, antes alegre e radiante pela prerrogativa de finalmente rever a sua senhora, e agora cauteloso diante da visão incomum e um tanto desgostosa. Os inúmeros corvos que sempre o seguiam, alguns a distância, outros mais próximos, ficaram agitados pela mudança negativa em seu humor. Há poucos metros onde deveria estar a casa que Sakura escolheu para ficar, juntamente com a florida varanda na qual ela se despediu dele, abraçando-o e beijando-o profundamente, lhe sussurrando entre os lábios que aguardaria ansiosa pelo seu retorno,tudonão passava de cinzas.

Uma mulher bem mais velha caminhava com um buquê e depositava-o no chão empoeirado do que havia sobrado. Demorou um pouco para ela perceber a presença silenciosa de um ser da noite.

– Oh! – Exclamou, assustando-se. – Você é o senhor Haruno? – Indagou.

– O que aconteceu aqui? – Itachi foi direto ao ponto, mantendo sua postura fria e apática sendo generosamente iluminada pelo brilho da lua cheia. – Onde está a minha rainha?

– Como? – Obviamente, a humana não entendeu direito o título que ele usou para se referir a doutora.

– Minha esposa... – Itachi tentou ser claro – Onde está minha esposa? – A fachada paciente era extremamente perigosa pois não passava daquilo... de uma fachada.

– Oh, sim... o-o padre a levou... – A senhora fungou, limpando o nariz na manga da camiseta, visivelmente abatida. – Pelo crime de bruxaria, ela será queimada na fogueira. – Itachi permaneceu impassível, como uma estátua, acompanhando o desabafo da mulher de idade. – Sua mulher era muito boa pra mim, uma excelente médica, como nunca antes se ouviu falar. Não é justo o que aconteceu, não importa o que a igreja diga...

– Onde estão a prendendo? Na catedral? – Itachi não conseguia acreditar. Era por pessoas como aquelas que Sakura nutria seus sonhos? Seu futuro? Que havia se esforçado tanto para dominar com maestria o dom das artes curativas? Patético. Esperava que a experiência ao menos servisse para abrir seus olhos. Humanos não valiam a pena, nunca valeriam, tudo que os envolve termina em imundície e tragédia e você acaba se sujando se estiver perto demais.

"Eu sou uma humana...". Ela dizia sempre que ouvia algum argumento como aquele.

"Não, você é um anjo camuflado que apareceu iluminando a minha vida. Esse disfarce de ser humano é o deboche do seu Deus de que eu não estou no controle de tudo, mesmo sendo um rei ocupando o trono da cadeia alimentar." Por mais incrível que parecesse, Sakura tinha fé, e até mesmo um falso cético como Itachi se deixava levar às vezes na correnteza dos seus simplórios caminhos. Tudo que vinha dela era leve, quente, envolvente... Ela o viciava mais que o puro ópio, e o atordoava mais que o levedado vinho.

As leis da natureza ditavam ordens desde o princípio de tudo, como o nascer e o morrer, o dia e a noite, e diziam também que não haveria nada mais que um vampiro ansiasse em seu âmago do que saciar-se de sangue, quando sentisse definhando de sede. Sakura surgiu e quebrou tal regra, pois depois de conhecê-la não havia nada que Itachi desejasse tão ardentemente quanto estar ao lado dela. É, talvez ela tivesse alguns traços humanos sim, criando caos onde sempre existiu ordem.

Em completo contraste com seus pensamentos, a voz frígida dele acompanhando a baixa temperatura da brisa, davam a Tsunade a impressão de estar em frente a um lago congelado, suas roupas grossas não eram mais o suficiente para aquecê-la, ele era completamente o oposto da calorosa e espirituosa doutora que conheceu. Entretanto, nem mesmo a intimidante presença indiferente do homem a deixou menos comovida com a única resposta que tinha a oferecer por aquela pergunta.

– Não, senhor. Ela já está morta agora.

E ao contrário do processo lento e natural advindo com as mudanças das estações, toda a superfície de gelo foi quebrada, impiedosamente, de uma só vez.

– O quê? – Itachi sussurrou, perplexo.

As águas escondidas no fundo não eram pacatas ou congestionadas, mas ocultavam uma besta ruidosa que se desfazia ferozmente de todos os seus grilhões, libertando-se em tempestuosas ondas de perigo. Itachi não mais escutava as lamúrias daquela idosa desconhecida, seu coração parou de bater, toda sua visão tornou-se rubra e, no transbordar do leito de sua dor, lágrimas de sangue passaram a escorrer pelo rosto esculpido que se rebelava, abandonando o condensar de suas emoções e deixando que seus sentimentos fervessem, tão dolosamente quanto a sensação profunda que rasgava seu peito naquele momento, análoga a de uma estaca de prata perfurando e atravessando sua carne sem misericórdia.

Encarou as próprias palmas abertas na frente do corpo, em uma das garras afiadas reluzindo, fitou sua aliança, assimilando aos poucos sua nova realidade. Sua pele pálida refletia o clarão da lua, que passou a incandescer no mais genuíno vermelho escarlate, imitando a cor crua e fluorescente de seus olhos assassinos despertos.

– Ela me disse... – o timbre seco, tão cortante quanto uma faca de dois gumes – Se você me ama como um homem, viva como um homem, viaje como um homem... – Aquilo estava martelando e transformando-se em culpa, zunindo traiçoeiro nos ouvidos de Itachi, pois se ele tivesse chegado mais cedo...

– Ela me disse que o senhor estava viajando. – Tsunade não era ingênua, algo estava muito errado ali, todos os seus alarmes disparavam com a aura estranha daquele homem, a adrenalina formigando em suas entranhas pela repentina lua de sangue e o agitar de corvos ao redor da casa, bicando-se e brigando entre si.

– Eu estava... Assim como viajam os homens... –Com certeza, se ele tivesse chegado a tempo...– Devagar. – Cerrou os punhos e o maxilar, a voz saindo entrecortada em um espécime de rosnado, as veias saltando ao redor de seus olhos fumaçando em brasas. – Não mais! –Itachi virou-se para Tsunade, que caiu de joelhos diante da visão assustadora e diabólica que os traços do homem esboçavam. As pálpebras em volta de proeminentes linhas escuras, tinindo em fogo, derramando gotas de sangue que rodeavam a boca esbanjando suas presas, antes encobertas, agora totalmente á mostras.

– Santo Deus... – Tsunade foi paralisada pelo medo.

– Farei esse último ato de clemência em seu nome... – afinal, a mulher havia tido a gentileza de prantear e levar flores para Sakura, e não um arranjo qualquer, eram cerejeiras, as favoritas dela, o significado de seu belo nome. Isso indicava que deveriam ter passado muito tempo juntas. – Um último aviso: fuja da vila, e não olhe para trás. Pois tão certo quanto o despontar do sol, eu lhe afirmo: toda a cidade irá queimar antes do alvorecer!

Não sobraria pedra sob pedra.

Um vento carregado em faíscas passou a rodear Itachi, que até então tinha a maior parte do corpo alto escondido por uma capa preta, o interior bordado com o leque que representava sua casa e descendência nos primórdios. Uma fogueira brotava do poder que corria em suas veias, labaredas se formaram em um súbito instante, rodeando-o e subindo em um selvagem furacão flamejante.

Tsunade, e tudo em volta, foi empurrado para trás pela força voraz das chamas. Nunca mais Itachi viajaria como um homem, nem viveria como um. No seguinte rasgou o céu, voando como um meteoro rumo ao seu alvo, sua fúria despertando toda a mágica adormecida debaixo dos poros de sua pele. Tudo que ele pensava em fazer parecia pouco, irrisório, indigno de representar seu luto ou de fazer justiça pelo crime cometido contra Sakura. Entretanto, sorriu como um sádico, era um imortal, era um rei, era um vampiro... teria tempo, teria servos, teria ideias e meios... Nada, ninguém seria capaz de impedi-lo. Trouxe em mente o primeiro passo, e não o menos importante: encontrar aquele padre, incinerar aquela vila.

Não estava exagerando quando alertou agora há pouco: o que existia ali, todos que ali habitavam, a cidade, o condado inteiro...

Tudo iria queimar!


***

Notas finais


E vamos aos avisos!

• Plot inspirado livremente no anime "Castlevania" (2017). A obra "Naruto" e seus personagens não me pertencem, entretanto, a narrativa dessa história sim. Fanfiction feita de fã para fã sem fins lucrativos.

• Eu ainda tô babando nessa capa @XxAfrodite !!! Vontade de plastificar e colocar num quadro! Você se supera cada vez mais chuchu, é muito talento envolvido, amei, amei! ❤️

• Gostaria de agradecer também pela beta do projeto, @Earth_Gravity, que se disponibilizou lindamente em revisar minha história mesmo em cima da hora... . Muito obrigado pelo seu esforço e pelo seu tempo!

• A história ainda está sendo escrita e revisada, postei o primeiro capítulo hoje pois era o último dia do prazo do ciclo #01 "Conto de Fadas". Sim, brasileiro com muito orgulho e com muito amor...

(P.S. Já conferiram minha história do ciclo #00 com o tema "Inimigos?" Dá uma olhadinha lá depois! ♥

• Fiquem atentos as tags e avisos da história, esse conto de fadas não é da Disney. No mais, espero que gostem, comentem, indiquem para os amigos, enfim, o pacote completo!

20 de Julho de 2021 às 23:11 0 Denunciar Insira Seguir história
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Continua… Novo capítulo Todas as Segundas-feiras.

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