mariatepper Maria Tepper

1490, final do período medieval. Uma freira desaparece misteriosamente após a morte de seus pais. Em Bucareste, uma caçadora é chamada por seu clã para resolver casos de assassinatos. Quando uma estranha mulher é levada em estado grave ao convento na Sérvia por um peregrino. Irmã Catina, uma freira por obrigação familiar, descobre o assombroso mundo vampírico acobertado pela igreja por meio de Lunutça, a visitante herdeira dos Dînculescu e estudiosa de longa data das trevas. Porém, a ameaça vinda da Moldávia custará uma associação a um vampiro disposto a acordos mal intencionados para evitar a concorrência com outro seres de sua espécie.


Romance Para maiores de 18 apenas.

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I - Uma reza a visitante

1490, final do período medieval.


As solas dos sapatos de couro estremeciam o chão a cada passo frenético. Irmã Catina tropeçou diversas vezes na barra da saia de lã na altura do tornozelo, por mais humanamente impossível que fosse tal ato. Não admitiria, contudo, após todo frenesi, a veracidade da fama de avoada recaída sobre sua pessoa. Jamais o fazia; toda culpabilidade reincidia ao chão mal polido. Direcionou o peregrino a uma cama ociosa e lançou os lençóis ao canto da parede o qual o móvel encostava, dando-o espaço para depositar a mulher de meia idade desfalecida. O homem, pequerrucho e com muita massa muscular, endireitou confortavelmente a cabeça pendendo aos lados no travesseiro cilíndrico, tocando a pele negra da bochecha com ternura. Uma das freiras o retirou do cômodo, agradecendo seu bom coração e benzendo-o com um sinal da cruz que foi do topo da cabeça ao peito, e final dos ombros curtos. Em sinal de respeito, retirou o chapéu pontiagudo e só o colocou novamente a cabeça oval e calva ao final do ato. Foi refeito o estoque de suprimentos para suportar a viagem até Bucareste, como afirmou, que duraria quinze dias, considerando imprevistos. Saiu com sua carroça caminho afora, despedindo-se aos acenos.

As pernas, fora da maciez entortavam a coluna de maneira desconfortável de se ver. Descalçaram-na das botas masculinas maiores que os próprios pés, sem a proteção das meias de linho, causando ferimentos tão sérios que cobriam toda sola do pé. Como conseguia andar nessas circunstâncias? Averiguando o interior, obteve a resposta: era revestido por uma camada de tecidos que cheiravam a sangue e ervas. O natural branco desapareceu pelo vermelho Borgonha, enrugando o tecido e criando crostas coaguladas impregnadas nas tramas. Deixaram-na reta e desabotoaram a túnica encardida, mantendo os botões soltos ao máximo no lugar original ao liberta-los da casa de botão mal costurada. Abrindo a peça, exibiu-se um corpo coberto por pedaços grossos de couro presos por cordões resistentes, modelados as suas curvas. Quatro, no total: uma da cintura alta até o quadril, outra da mandíbula até a clavícula, em semicírculo e as últimas dos antebraços até os pulsos. Irmã Patrícia removeu o da cintura e notou alguns furos pequenos, com cerca de um centímetro de circunferência, em diversos pontos. Raspou a unha em um ponto branco e conseguiu retirar o objeto pontiagudo.

Ao furar seu dedo, soltou o couro e balançou as mãos freneticamente, tentando limpar aquele líquido viscoso que escorria da brecha.

— Бог! ¹ — exprimiu com os olhos castanhos esbugalhados.

Todas foram ao encontro de Catina para ver o que acontecia. Ela apontou e balbuciou:

— Baba, e um pedaço de dente!

O ar tornou-se abafado e a temperatura desceu em segundos, não sabia se era devido ao cair da noite ou o sentimento geral de arrependimento em aceita-la sem ao menos conhecer sua procedência, e para onde ia antes de ser encontrada desnorteada no meio da estrada. Seus pertences, que foram deixados intactos para quando despertasse, vinham da Transilvânia e imediações. Uma boa indagação é como chegou a Sarajevo, Bósnia? Sair da Romênia em tais condições precárias, sem muitos suprimentos para uma viagem longa como essa. Ou melhor, o que a obrigaria a cometer tal suicídio? Se não fosse a bondade daquele homem, saberia A Virgem quais condições estaria no momento.

Impregnou no ar de supetão um cheiro metalizado, olfativo a todas. Não advinha da fogueira, cheiro típico de metal em fusão e carvão em brasa. Vinha com um frescor tentador, sensualidade de um pecador. O cheiro de um amante ardente em paixão, descobrir por onde suas mãos podem andar. Não necessitar de um cobertor no frio enquanto estiver em seus braços. Um desespero racional, uma fagulha lógica ordena distância, prevendo a tragédia de ceder aos encantos dóceis daquele estimulo, mas a curiosidade cravou as raízes de seus pés no lugar. A mente esvaziou-se e não mais ouvia sua voz interior e nem conseguia pensar, porque qualquer palavra era apagada automaticamente. Formavam um círculo em volta de tal objeto e, com um comando mudo, diretamente no inconsciente de cada uma, todas desceram o olhar sem mexer a face.

A peça de couro continuava ali, intacta. A maneira que caiu.

A acamada se debatia e rosnava alto, sentindo a mesma presença das demais no cômodo. Tombou a cabeça para trás, envergou coluna para cima e semicerrou as pálpebras com toda força. Os braços pesam como chumbo, mas isso não a impediu de segurar bem a superfície macia a qual deitava. Pressentindo a ponta do nariz roçar em sua clavícula, xingou-o de todos os nomes possíveis em romeno, língua materna, por mais inútil que fosse. O bafo fúnebre indicava a rota a ser traçada: seu lugar preferido, a mesma lateral carnuda próxima a veia. Houve uma risada abafada por parte do ser acima dela, uma apreciação digna de um banquete variado após um período de escassez.

Ao sentir o tecido calcificado rasgando a pele, um relaxamento comum aos sonos mais revigorantes começou a apossar de seus sentidos. A calmaria subia como um veneno de víbora na corrente sanguínea. Perdera a noção de tempo e espaço, não sabendo ainda estar na Transilvânia ou outra região. Se já chegara a temida noite mais profunda da região.

Tirando forças do fundo da alma pecadora e podendo ser seu último suspiro pronunciou, em pranto desesperado:

— Deus Sanctus, Deus Fortis, Deus Immortalis. Mariae, Mediatricis omnium Gratiarum, sed libera nos a malo. ²

Em situação normal, Catina jamais tocaria em tal objeto amaldiçoado sem aprovação e ordens das superioras, eruditas em tais demônios e suas influências. Mas essa não era uma situação normal. Nesse caso, não hesitou em lança-lo contra as labaredas da fogueira, vendo as chamas quase criarem vida. Uma, por pouco não a atingiu em cheio no rosto, queimando somente a ponta da barra de sua saia. A acamada aquietou-se, suando frio. A influência desapareceu e, para verificar se ainda restava alguma energia maligna, juntaram forças para rezar a todos os santos pelo livramento. Não havendo qualquer ameaça aparente, foram ao amparo da mulher. Durante todo o final da tarde, enfaixaram os ferimentos com gazes de tecido fino, limparam seus suores e a auxiliaram a beber a água de cevada junto ao Theriac, ótimo para febres. Como sua temperatura não abaixava, usaram uma mistura de erva-doce com alfarroba, que surgiu efeito bem mais rápido do que a mistura anterior. Cobriram-na com dois cobertores grossos e pentearam suas mechas marrom avermelhado com delicadeza, pois não queriam acorda-la daquele sono tranquilo.




Bateu na superfície de madeira com as juntas da mão e aguardou o sinal sonoro para adentrar o cômodo. Mais duas irmãs foram junto a Catina, que liderava o grupo com visível confiança e otimismo. Pelo exímio controle emocional foi destinada a contar a madre o que passou naquele quarto. A mulher que trajava um véu longo de seda branca por cima dos cabelos grisalhos endireitou o óculos com os dedos magros e enrugados, ao final da narrativa emotiva.

Um misto de preocupação e animismo tomou seu semblante.

— Tem total certeza do que estão afirmando? — Vindo da mulher, sempre duvidava da veracidade da informação.

— Certamente. Quando queimei aquele objeto, a influência cessou completamente — Catina rebateu, convicta.

A madre permaneceu um tempo muda, as duas mãos indo à frente do rosto enrugado e com marcas da idade avançada.

— Permaneçam ao lado dela em total vigia. Não descansem um momento — direcionou o olhar à janela envidraçada, com suas estruturas de ferro — Acredito que o inimigo estará à espreita essa noite.

As mulheres se entreolharam sem compreender o que queria dizer, mas não ousaram questionar seus conhecimentos.

Franziu o cenho antes de as direcionar mais uma pergunta:

— O peregrino, o que a trouxe aqui, disse seu nome?

— Não, madre. Ele tentou descobrir quando despertou na viagem até aqui, mas ela estava incapacitada de falar algo coerente. Deveria ser os delírios da febre — respondeu uma das irmãs com as mãos tremendo atrás do corpo.

— Hum, compreendo — gesticulou com a mão esquerda, apoiando o cotovelo na mesa de madeira — Dispensadas.

Antes de saírem, ouviram um sobrenome:

Dînculescu?




Após a janta, todas as envolvidas ficaram de vigia em pontos estratégicos da enfermaria: duas sentadas em banquinhos próximos ao batente da porta, duas encostadas em cada janela, observando atentas o exterior e qualquer movimentação e uma analisando qualquer fresta deixada por moveis, movendo-se constantemente pelo cômodo. Irmã Catina rezava ao lado da acamada, segurando sua mão acolhedoramente, tentando a todo custo se concentrar apesar dos murmúrios das demais.

Irritada pela perturbação alheia, reclamou:

— Não conseguem calar-se por dois minutos? — bufou baixinho, fazendo um sinal da cruz — O que tanto cochicham?

— Ouviu o nome que a madre disse? — questionou da janela esquerda, sem desviar o olhar.

— Sim, os nobres eminentes de Brâncoveanca?

— Não são conhecidos somente pela riqueza, irmã Catina — a mulher reiterou, agora a observando pelo canto do véu negro — Também pelo contato com o mal. Pelo que dizem os ventos, eles resolveram o caso do monastério com maior eficiência do que a própria igreja.

— Da irmã, que Deus a tenha, que se lançou escada baixo? E outras começaram a fazer o mesmo?

— A própria. A verdade é que ninguém soube o que houve lá dentro, já que somente o casal Brâncoveanu permaneceu no lugar. Demoraram mais que seis horas e pareciam exaustos quando saíram, pelo que foi contado. Não mudara um botão de lugar e, o mais espantoso é o lugar permanecer em perfeita paz desde então. Até recebemos a visita delas alguns tempos atrás.

— Recordo-me bem. Transpareciam uma felicidade contagiante, no mínimo.

— Imaginamos uma retaliação a tamanha heresia em local santo, na época. Buscas foram feitas na residência deles e muito material coletado. Foram encontrados uma vastidão de livros em diversas línguas, alguns vindos de regiões fora, e outros em um código próprio deles, que ninguém conseguia desvendar sem o que chamavam de “A chave” — suspirou — O casal foi condenado a morte, mas logo essa pena foi aliviada para uma prisão, e então a liberdade — Seu sussurro semelhava a uma gritaria naquele silêncio noturno — Cogitam uma associação por baixo dos panos entre o alto clero e esses malditos feiticeiros. Mas isso fique entre nós, não queremos problemas.

Calaram-se pelo resto da noite, concentradas na tarefa requisitada e próprias cogitações.

Catina rezou um terço e, ao finalizar, passou a assistir seu sono. Alguns momentos a acamada chegou a resmungar palavras desconexas, franzindo o cenho ferido por pequenos estilhaços. Por falar em seu rosto, não havia parte menos ferida. Seja lá o que passou, não foi as melhores experiências. Uma cicatriz no lado direito da face cruzava a sobrancelha o inferior da sobrancelha até o final da bochecha, a cegando de um dos olhos. Os lábios eram finos e ressecados, as sobrancelhas grossas e fibrosas. Os cabelos longos até o quadril eram lustrosos e, apesar do ressecamento pela falta de cuidados, não eram menos fabulosos. Para seu espanto, a mesma se encontrava desperta, apesar dos olhos lutarem para permanecerem abertos a todo instante. Segurou sua mão fortemente e esbanjou seu melhor sorriso.

— Está segura, querida.

Pareceu compreender minimamente o recado, usando suas últimas forças para esboçar um sorriso tranquilo, sussurrando:

— Mersi ³

E seus olhos reviraram. As pálpebras fecharam em seguida...




Бог¹— Deus, em sérvio.

Deus Sanctus, Deus Fortis, Deus Immortalis. Mariae, Mediatricis omnium Gratiarum, sed libera nos a malo ² — Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal. Maria, medianeira de todas as graças, livrai-me de todo mal.

Mersi ³ — Obrigada, em romeno.

19 de Julho de 2021 às 22:56 0 Denunciar Insira Seguir história
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