antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

3 fantásticas histórias que se passam em cemitério. Ler Para Crer.


Drama Todo o público.
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Três Historias- um Cemitério

JARDIM SEM FLORES


- Papai. Dejanira telefonou dizendo que vai se atrasar um pouco. Eu vou sair pra trabalhar. Qualquer problema o senhor me telefona.

- Ok.

- Está se sentindo bem? Preciso ir porque estou atrasada.

- Claro! Estou bem. Vai tranquila.

Dejanira era a empregada, cuidava da casa e dele.

A preocupação de Lena era compreensível, porque ele sofria de hipertensão. A filha saiu, Heitor ficou ainda alguns minutos sentado na cadeira. Aquele era o dia do aniversário da falecida esposa. Se estivesse viva, Elza faria 60 anos. Ele sempre levou flores ao túmulo dela. O cemitério não era longe. Poderia ir a pé, devagarinho. Estava um ótimo dia para caminhar.

O dia em que ela morreu no hospital, vítima de um derrame cerebral, não pode estar junto dela por causa da pressão alta. Tinha desmaiado e ficou em casa, de repouso. Não estar ao lado dela em seus últimos momentos, foi uma frustração que ele não conseguia esquecer. Por isso, sentia a necessidade de ir ao cemitério.

Escreveu um bilhete para a empregada, dizendo onde ia e que voltaria logo. Deixando o recado sobre a mesa da cozinha, saiu para o jardim, onde colheu as flores e partiu. Seguiu por uma trilha atrás da propriedade, rumo ao cemitério, depois do bosque.

****

Com passos incertos, Heitor seguiu por entre as fileiras de túmulos. Seus olhos de um azul diáfano, perscrutaram com dificuldade as lápides encardidas, desgastadas pelo tempo. Estava na ala antiga do cemitério. Já tinha estado ali diversas vezes, mas o tempo passou e suas pernas já não tinham tanta firmeza como antigamente. Por isso, as visitas ao cemitério foram rareando, apenas uma vez ao ano. Imaginou que, talvez aquela fosse a última vez que ele visitava o túmulo da esposa. Quando morresse, seria sepultado no mesmo lugar. Ele se deteve diante do jazigo, depositou as flores ao pé da lápide, fez uma prece. Uma recordação chegou límpida à sua mente. O dia depois do casamento.

Naquele dia ele despertou tarde, com a claridade do sol entrando pela janela. No travesseiro amarrotado ainda estava o perfume de Elza. Jogou as pernas para fora da cama, ergueu-se, pisando sobre um tapete com um desenho colorido. Lembrava-se bem da figura que havia naquele tapete. A imagem de uma ilha flutuando sobre um mar esverdeado, com bosques, campos, um castelo dourado e um rio que nascia entre rochedos e caia pela borda sobre o mar. Nas margens brincavam ninfas e elfos.

Ele saiu para o pátio e encontrou a esposa no jardim, colhendo flores para enfeitar a casa. Uma casa robusta, pintada de branco, com altos ciprestes guarnecendo a entrada. Lajes de mármore revestia os caminhos entre os canteiros de flores. No terreno abaixo, uma estradinha de terra batida atravessava os campos verdejantes. Sobraçando um ramalhete de flores, Elza sorriu para ele.

- O que vamos fazer hoje?

- Que tal voltarmos para a cama? - respondeu ele, abraçando-a.

- Eu queria ficar aqui fora. O dia está lindo!

- Ok. –ele disse e voltou a entrar. Trouxe o colchão e colocou sobre o gramado. E ali, entre as flores, mais uma vez naquele dia, fizeram amor.

Heitor não sabia se eram recordações ou uma ilusão. Sentia-se cansado.

O sol erguia-se majestoso num céu sem nuvens. Havia um silêncio reconfortante naquele lugar. É um belo dia. Pensou Heitor. Não estava com pressa. Sentou-se na laje, repousou a cabeça na lápide e recitou um poema. Elza gostava de poesias.

- Viajei por terras sem fim. Como um Ulisses em transe, procurei em cada horizonte a mais bela flor para te dar. Quando voltei já tinhas partido. Cansado, ouvindo o silêncio da noite, adormeci num jardim sem flores. Como o voo leve de uma borboleta, pousou em meu rosto uma gota de orvalho. Assim, permaneci no deserto, como uma esfinge sem alma.

****

Lena entrou no cemitério apressada, com o coração aos pulos. Foi direto ao túmulo da mãe, enquanto olhava para os lados procurando o pai. Ao encontra-lo, teve um choque. Heitor estava sentado sobre a laje, recostado na lápide, o rosto próximo da fotografia da falecida esposa. Imóvel, parecia sem vida.

Aflita, Dejanira aproximou-se, imaginando que o pai tinha morrido. Tocou no ombro dele.

- Pai?

Heitor abriu os olhos, ergueu-se.

- Acho que adormeci. Acordei muito cedo.

- Esqueci a bolsa. Quando voltei pra pegar, vi que o senhor tinha saído. O senhor me deu um susto, deitado daquele jeito!

- O quê? Pensou que eu tinha morrido? Que nada! - ele acariciou o barrigão da filha - Ainda quero ver meu neto nascer.

Heitor morreu duas semanas depois que o neto nasceu. Estava colhendo flores para levar ao túmulo de Elza para contar sobre o neto, quando sofreu um infarto fulminante.

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A RUA AO MEIO-DIA


Ao amanhecer, a rua tem um aspecto sereno, sonolento.

Da sua casa, Xavier observa as moradias pintadas de branco. Construções de várias formas e tamanhos. Algumas com uma cerquinha baixa, umas de madeira, outras de ferro, ou tijolos com reboco.

Jardins floridos, coloridos, bem cuidados. Construções pequenas, grandes, simples ou mais apuradas. Vários estilos e formas, planos maciços e fortes.

Xavier conhece cada morador da rua. Na casa simples, vive um moleiro idoso, talvez o mais antigo morador do lugar. O jardim está abandonado. Não tem flores.

Na casa baixa, vive um maquinista. Na outra, um bibliotecário e sua esposa. No prédio de teto alto, com a porta em madeira de cedro e grade de ferro, mora um rico empresário, adiante, outras casinhas modestas, moradores diversos.

O sol faz seu trajeto costumeiro, se levanta no Leste e se deita no Oeste. O dia dá lugar à noite.

No escuro, as cores se tornam esmaecidas, difusas. As fachadas, as quinas, o plano e o contorno, se confundem, se misturam.

A luz das estrelas dilui a escuridão. A penumbra se espalha sobre a rua, as moradias adquirem aspectos confusos. Os moradores dormem.

O relógio bate o meio-dia. Despertados por vibrações plásmicas e radiações telúricas, saem os moradores de suas casinhas.

Como fazia todos os dias, o bibliotecário vai para a biblioteca, o maquinista para conduzir o trem, o médico para o hospital, o empresário para o seu escritório, o padeiro para o asilo, a professora aposentada para a sua cadeira favorita, e assim por diante.

Mas quando chegam em seu local de trabalho, ou o único lugar que se lembram, descobrem que tem outra pessoa ocupando o seu lugar, descobrem que não podem fazer mais nada do que faziam antes. Confusos, voltam para casa, para suas famílias. Tentam fazer o que faziam antes, tomar banho, trocar de roupa, comer, ver televisão, conversar. Ali descobrem também que não conseguem fazer nada disso, pois são sombras, espíritos, corpos sem matéria.

Antes do anoitecer, voltam frustrados e extenuados para dentro dos muros brancos, para suas casas subterrâneas.

Ao amanhecer todos já estão dormindo.

Às 10 horas da manhã, Xavier está com sua pá na mão, pronto para mais um sepultamento. Tem um novo morador chegando.

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ACORDOU E O TÚMULO ESTAVA ALI

Edgar não se lembrava como foi parar naquele lugar. Lembrava apenas que tinha saído de uma festa com os amigos. Estava bêbado. Caia uma chuva fina. Jorge e Mateus o carregaram para o carro. Deitou-se no banco traseiro e deve ter adormecido e sonhado, se é que aquilo era um sonho. Viu-se de repente, num chão duro e negro. Ao redor, erguiam-se troncos de árvores carbonizadas. Levantou-se, tentando entender o que estava acontecendo.

Nuvens negras rolavam num céu assustador. Redemoinhos de poeira dançavam pelos flancos das montanhas. Parecia que uma tempestade estava para desabar, no entanto, não caiu nenhuma gota d’água.

Edgar decidiu caminhar numa direção. Precisava sair dali. De repente tropeçou em algo. Era um cadáver emergindo da terra, carcomido pelos vermes. A mão descarnada segurou-o pelo tornozelo, fazendo-o cair. No crâneo céreo, os olhos opacos o fitaram enquanto na boca sem lábios, os dentes batiam uns nos outros, num som alucinante.

Conseguindo se livrar daqueles dedos viscosos, Edgar correu enquanto mais cadáveres brotavam da terra. Súbito, o chão se abriu e ele começou a afundar. Achou que morreria sufocado, mas uma mão segurou a sua. Viu apenas um vulto azulado livrando-o daquela agonia. No momento seguinte, encontrou-se em outro lugar.

Quando olhou, seu túmulo estava ali. Os pedreiros lacravam a tampa de mármore. Seus amigos, de fisionomias tristes, fitavam a lápide. Seu nome estava gravado nela, cinzelado com esmero na face da pedra. Edgar Bitencourt do Carmo- * 06/04/1984 + 07/11/2010.

Ficou estarrecido. O epitáfio dizia que estava morto. Irremediavelmente morto. Sabia que aconteceria um dia, mas não tão cedo. Olhava o próprio túmulo. Visão terrível de pesadelos. Jorge, Miguel, Cintia e os outros, não o viam. Depois de colocar flores sobre o túmulo, eles foram embora.

A constatação de estar morto, o deixava intrigado. Sentia-se vivo. Ou era agora apenas um espírito? Os amigos não o enxergavam. Sem matéria, a sensação de estar vivo, seria uma ilusão equivocada de sua alma, o fio que liga a vida à morte, ainda não tinha se rompido. Todos os seus sonhos e desejos, tinham acabado. Sonhos vãos. Pareciam coisas de outro mundo, outra realidade. Difícil de acreditar.

Sentou-se na beira da laje, fria como a morte. Imaginou seu corpo lá embaixo. Decompondo-se lentamente, inexoravelmente. Um líquido viscoso escorrendo pelo caixão. A carne se desfazendo. O trabalho alegre das larvas. Depois só restariam os ossos.

Os amigos que acompanharam o seu funeral haviam ido embora, mas alguém ainda estava no cemitério. Alguns metros adiante, uma jovem permanecia absorta, com o rosto inclinado, talvez olhando para um túmulo. Vestia uma blusa azul. Ao sentir que estava sendo observada, ela ergueu a cabeça, sorriu e se aproximou.

Edgar a reconheceu. Era Rose, uma colega de escola do ensino fundamental. Depois que eles se formaram, ela mudou-se do bairro e ele nunca mais a viu.

─ Oi! Você está me vendo? – foi a primeira coisa que ele pensou dizer.

─ Oi, Edgar! Claro que estou te vendo.

─ Me lembro que você dizia que via espíritos.

─ Eu tinha o dom de ver pessoas mortas. Não era nada bom. ─ respondeu a garota, num tom amargurado. Logo em seguida, sua expressão se iluminou ─ Mas você achava legal.

─ Sim e eu ficava bravo porque os colegas caçoavam de você.

─ Foi por causa do bullying escolar que meus pais resolveram se mudar daquele bairro.

─ E eu fiquei muito triste porque gostava muito de você. Aliás, ainda gosto.

─ Eu também ─ respondeu Rose num tom carinhoso.

Eles começaram a caminhar pela trilha que separava os túmulos em quadras.

─ Ainda há pouco eu me senti num lugar bem ruim.

─ Ruim, como? ─ indagou Rose.

─ Um lugar escuro, tenebroso. Parecia o limbo, o inferno, ou algo parecido.

Ele estacou na curva do caminho, em frente a um mausoléu antigo. Olhou para Rose e depois de uma breve pausa, confessou. ─ Eu estava com medo, mas agora com tua companhia, parece que o mundo ficou mais luminoso. Me sinto mais confiante.

Ela segurou a mão dele.

─ Que bom. Sabe que eu sempre te amei? Edgar, está me ouvindo?

Ele estava olhando para algo na base da entrada do mausoléu. Aproximou-se e pegou o objeto. Era uma mini câmera, posicionada atrás de um vaso com flores artificiais.

Edgar deu algumas passadas, olhando os túmulos, as estatuas, os vasos e encontrou mais câmeras. Ele sorriu para Rose.

─ Isso é uma brincadeira dos rapazes. Só pode ser. Aquela lápide com meu nome é falsa.

****

─ Acabou a brincadeira, pessoal. O Edgar encontrou as câmeras ─ anunciou Miguel.

─ Eu disse que ele iria descobrir a farsa logo no início ─ afirmou Lucas.

─ A gente deveria ter escondido melhor aquelas câmeras ─ Argumentou Cintia.

Miguel desligou os monitores e eles saíram da van. O veículo estava estacionado do outro lado da rua, em frente ao cemitério.

─ Viram a cara dele? – perguntou Miguel, dando uma risada. ─ No início ele acreditou que estava morto.

─ Deve ter ficado em dúvida ─ disse Lucas. ─ Vamos lá e rir da cara dele.

Os três amigos de Edgar entraram no cemitério. Ele estava deitado sobre um túmulo.

─ Acabou a brincadeira, rapaz. ─ afirmou Miguel. ─ É tudo uma encenação.

Edgar permaneceu imóvel.

─ Não tente nos enganar agora ─ disse Lucas, puxando-o por um braço.

Cintia bateu no ombro dele. ─ Edgar, levanta, você está me assustando.

Miguel inclinou-se, examinando os sinais vitais dele. Ele recuou, puxando o celular do bolso. Ligou chamando uma ambulância.

Os 3 amigos ficaram chocados. Edgar era um rapaz saudável. Nunca poderiam imaginar que aquela brincadeira seria uma tragédia.

Lucas tentava consolar Cintia.

─ Me sinto culpada. ─ disse ela aos prantos. ─ Eu que dei a ideia de fazer essa brincadeira com ele.

─ Foi uma fatalidade. Ele nos pregou tantas peças e agora...─ Lucas não conseguiu continuar, o choro contido se rompeu.

Na distância, soou a sirene da ambulância.

─ Edgar parecia estar falando com alguém. Vocês notaram isso? ─ perguntou Miguel, olhando para o corpo sobre o túmulo.

Na lápide estava gravado o nome da pessoa sepultada recentemente:

Roseane Durval − * 14/ 05/ 1987 + 05/11/2010

15 de Julho de 2021 às 18:16 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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