antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Quando a mulher de Rubens o abandona, ele sai a sua procura pela cidade. Numa viagem alucinante, acaba encontrando pessoas estranhas, um homem de 1988 anos de idade revela que Rubens, na verdade, se chama Urul, que ele tem superpoderes e não sabe.


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Urul

Quando criança, Rubens considerava a mãe uma super enfermeira. Com algumas simples palavras, ela tinha o poder de sarar as feridas e amenizar a dor. Quando ele se machucava, fazia o curativo e dizia; “Vá brincar. Não foi nada”. Ele voltava a brincar como se nada tivesse acontecido.

Rubens era inteligente, mas por ser introvertido, tímido, na escola sofria bullying. Por causa de sua timidez e falta de iniciativa fez poucos amigos. Na adolescência começou a gostar de gibis, histórias em quadrinhos, especialmente de super-heróis e seus superpoderes. Dos gibis passou para os livros de ficção científica. Ficou fã da sci-fi.

Quando a mãe morreu, e como ele não conseguiria pagar o aluguel da casa sozinho, foi morar numa pensão. E foi lá, na pensão que ele conheceu Regina, uma moça simples, humilde e tímida como ele. Para engatar namoro, foi demorado, uma dificuldade! Primeiro trocaram olhares e sorrisos tímidos quando se cruzavam no corredor, ou na entrada do prédio. Depois ele criou coragem para cumprimentá-la.

─ Oi!

Ficou super feliz quando ela respondeu.

─ Oi!

Ele queria passar de um simples cumprimento, para um primeiro diálogo, mas faltava-lhe coragem. Porém, o acaso deu uma “mãozinha”. Certo dia, quando ela chegava do supermercado com algumas sacolas de compras, uma delas rompeu o fundo e algumas laranjas se espalharam pelo corredor. Ele saía naquele momento do quarto e prontamente correu para ajudar. Foi nesse dia que eles começaram a conversar e se tornar amigos. Da amizade passou para o namoro, que deu um salto curto para o casamento. Uma cerimônia simples no cartório. Como padrinhos, dois inquilinos da pensão.

Com o salário dele como padeiro, e o salário dela como costureira numa fábrica de roupas, eles conseguiram alugar uma casinha com dois cômodos, quarto e cozinha. Os móveis compraram em suaves e longas prestações. Nos primeiros anos a vida do casal foi uma maravilha, a paixão era tudo que precisavam.

Mas Regina foi se modificando com o tempo, começou a reclamar da vida que levava, da falta de recursos para comprar um fogão novo, roupas de grife, joias que ela não tinha para se enfeitar e tantas outras coisas. Parece que agora, só a paixão não bastava. Aos 36 anos, Rubens continuava a ser padeiro, não tinha ambições, se contentava com pouco. Regina começou a brigar com ele. De esposa apaixonada e dedicada, transformou-se numa mulher implicante, fria. Se não havia motivos para discussão, ela os inventava.

─ Você é um panaca. Rubens! Não sei onde eu estava com a cabeça que fui casar contigo! Em vez de fazer um curso profissionalizante, fica gastando dinheiro à toa com esses livros! Vou colocar tudo no lixo!

─ Sou assim e minha vida é essa, queira você ou não. E não mexe nos meus livros!

Furiosa, ela retrucou: ─ Ah é? Pois eu vou embora, qualquer hora!

Ele achava que a mulher falava por falar, mas certo dia ao chegar em casa do trabalho, não a encontrou. Sobre a mesa da cozinha estava uma carta escrita atrás da conta de luz. Ela dizia que não suportava mais aquela vida, que iria morar sozinha, bem longe dele e outras razões que, para ele, eram absurdas. Furioso, rasgou o papel em picadinhos e em seguida abriu o roupeiro para rasgar as roupas dela. O roupeiro estava vazio, ela tinha levado todos os seus pertences.

Voltando à cozinha, estacou bufando de raiva. Passou as mãos pela cabeça. Para onde ela foi? Os pais dela já morreram, não tem irmãos, somente uma tia que nem ela sabia onde morava! Ele não tinha nenhuma pista para onde ela poderia ter ido. A cozinha estava em ordem, a pia limpa, a mesa com uma toalha engomada, o piso encerado. Só agora ele via como a esposa era caprichosa. Até o ar tinha um cheiro de jasmim! Ele detestava perfume, mas agora o perfume que havia no ambiente do lar, era agradável.

Um pensamento cortou sua mente como um relâmpago; Regina tem um amante e foi embora com ele. Essa ideia, aumentou ainda mais a dor e a mágoa. Decidiu sair, precisava encontrar a mulher. Em seu peito havia um conflito de sentimentos, não sabia se a odiava ou amava. De qualquer forma, precisava encontrá-la.

Saiu de casa e atravessou a praça. Num banco, estava um casal abraçado, o homem metia o rosto entre os seios da mulher. Logo adiante uma meretriz interpelou-o, convidando para um programa. A mulher exalava cheiros diversos, cheiro de muitas mãos. Ele a repeliu e se afastou quase correndo. Passou por um grupo de jovens em frente a uma boate. Todos cheiravam a álcool. De dentro da boate saía um odor de cerveja e suor.

Rubens admirou-se por sentir tantos cheiros, era como se o sentido do olfato tivesse aumentado a capacidade de receber e identificar os odores.

Continuando a procura por Regina, (como um cão farejador) ele parou por um momento diante da entrada de um Shopping Center. Lá dentro circulavam muitas pessoas, donas de casa com as mãos cheirando a cebola, empresários com seus ternos cheirando a lavanda e fumo de cachimbo, jovens mascando chicletes de hortelã, o ar das lojas cheirando a tecido novo, couro e verniz. Não, Regina não estava ali.

Atravessou a rua e entrou num motel. Distraído lendo o jornal, o recepcionista não viu quando ele subiu para o primeiro piso. No corredor, abriu a primeira porta que encontrou. O quarto era pequeno apenas com uma cama, uma lâmpada com luz mortiça iluminava um ambiente sufocante, fedendo a corpos suados e azedos. Um casal nu estava sobre a cama, numa posição grotesca e ridícula. Ele achou engraçado e começou a rir. A mulher se assustou com a presença dele e caiu da cama. Não era Regina. O homem avançou como um elefante furioso balançando a trompa, deu-lhe um soco e empurrou-o para fora.

Com o nariz dolorido, mas ainda rindo, Rubens desceu as escadas correndo e saiu do prédio. Continuou correndo até escorregar numa poça de água e cair de costas no chão. Com as costas e o nariz doloridos, se encostou no canto de uma parede. Próximo tinha uma lata de lixo de onde saia uma infinidade de odores desagradáveis. Sentindo-se cansado, ajeitou-se, esvaziou a mente e acabou dormindo.

Acordou com a claridade do dia e com dois adolescentes inclinados sobre ele. Um deles revistava seus bolsos enquanto o outro arrancava o relógio do seu pulso. Ele ergueu-se rápido procurando recuperar seus bens, mas foi empurrado. Desequilibrou-se, deu dois passos para trás e caiu num bueiro, despencando num lugar escuro, húmido e malcheiroso. Escorregou na lama, caindo sentado. Virando-se, olhou para ambos os lados da galeria onde só havia trevas. Trevas que pareciam ocultar algo ameaçador e nauseabundo. Levantou-se rápido, ergueu os braços e segurando-se nas bordas, saiu do bueiro

Um morador de rua estava sentado do outro lado do beco.

─ Eles já foram embora. – afirmou o sujeito fazendo um gesto com uma garrafinha de plástico. Rubens sentou-se no papelão ao lado dele. Sujo e fedorento, era agora um irmão de infortúnio. Sentia-se como igual, um maltrapilho, um Zé ninguém.

─ Me chamo Rubens. E o senhor? Qual o seu nome?

─ Paulus Vinicius Próculus, às suas ordens.

─ Que motivos o levaram a ter essa vida miserável, Paulo?

─ Diversos motivos. Arrogância, maldade, descrença, desprezo e tantos outros sentimentos nocivos da alma humana. E você?

─ Minha mulher me abandonou. Me acha um pamonha, fraco, fracassado. Até estou começando a concordar com ela. Não estudei, não me qualifiquei, não tive coragem para progredir na vida! Se eu pudesse voltar no tempo, poderia modificar a situação, mas não tenho nenhum superpoder para isso.

─ Aí que você se engana, meu amigo! Todos nós temos superpoderes. Eu, por exemplo, sou imortal.

Rubens olhou para o homem, para aquele rosto barbudo, olhos embaçados e inchados pelo álcool. Paulo, além de mendigo, devia ter problemas mentais. Talvez fosse esse mesmo o motivo de estar naquela condição.

─ Não se ache um fraco − disse Paulus, num tom paternal ─ Você tem superpoderes, só ainda não os descobriu. Talvez você tenha a mesma essência de uma ave sideral muito antiga, chamada Urul, o viajante do espaço.

─ E quais são os seus superpoderes, Paulo?

─ Sou imortal, como já disse. Vivo há vários séculos, participei de grandes eventos da história. Cheguei com Cabral a essa terra que deram o nome de Brasil.

─ Não serão visões em tua cabeça, causada pelo vício da bebida?

─ Não! O que digo é a pura verdade. Minha longevidade e minha jornada sem fim se deve à maldição que ganhei por ter empurrado aquele que carregava a Cruz. Fui soldado de Roma. “ Anda mais rápido! Gritei, ao que Ele respondeu: Eu vou e repousarei, mas tu, tu irás de hoje em diante e só pararás com a minha Segunda Vinda”. Desde então, tenho andado, numa jornada sem fim.

─ Então, você está pagando pelos teus pecados?

─ De uma maneira ou de outra, sempre acabamos pagando alguma coisa. Por ventura os chacais e os cães não costumam urinar na entrada dos templos?

─ Como desprezo pela religião?

─ Ao contrário! Como contribuição de sua ilustre essência junto aos dízimos dos fiéis.

Rubens ergueu-se.

─ A conversa está boa, mas tenho que ir. Preciso procurar minha mulher.

─ Adeus! E não se esqueça de seus superpoderes, Urul!

Chegando à avenida, Rubens sentiu no ar, o perfume de Regina. Ele olhou para todos os lados e a viu transitando pela outra calçada. Ansioso para falar com ela, ele correu para atravessar a rua. Ouviu uma freada de pneus, sentiu a pancada e depois a escuridão. Quando recuperou a consciência, descobriu que estava deitado numa cama de hospital. A enfermeira ao vê-lo despertar, aproximou-se.

─ Como o senhor está se sentindo? Sente alguma dor?

─ Não muito forte, um pouco na cabeça e nas pernas. O que aconteceu?

─ O senhor sofreu um acidente, foi atropelado, felizmente sem gravidade. Por milagre não sofreu nenhuma fratura. Vou avisar o médico que o senhor acordou.

A enfermeira saiu e dali a instantes entrou alguém. Ele regozijou-se ao ver Regina. Finalmente ela criou juízo e voltou. Mas as palavras dela fulminaram a alegria e a expectativa dele.

─ Só vim avisar que já comecei a preparar os papéis para o divórcio.

Ele sentiu-se infeliz com a indiferença dela em relação ao acidente que sofreu.

─ Para quê? Vou morrer, mesmo! Você fica viúva, vai se livrar de mim de qualquer jeito.

─ Não diga besteira. Já conversei com o médico e ele disse que você não tem nada. Daqui a pouco vai te dar alta.

─ Não quero divórcio. Não vou assinar documento nenhum. Quero morrer!

─ Vai sim. É melhor para nós dois. Vou esperar na recepção o médico te dar alta, para a gente tratar de outros assuntos.

Regina saiu do quarto e dirigiu-se para a recepção. Sentou-se num banco. Cerca de 20 minutos depois, uma mulher chegou da rua, avisando os seguranças que havia um homem na beira do terraço, querendo se matar. Regina estremeceu. Só pode ser Rubens! Ela correu para o elevador, entrou e marcou o 6° andar. Quando saiu, subiu um lance de escada e chegou na porta que dava para o terraço. Ali já estava um segurança, tentando convencer Rubens a desistir do pulo para a morte. Ao ver Regina, o homem barrou-lhe a passagem.

─ Não pode passar, senhora.

─ Sou a esposa dele.

─ Ok! Então fique conversando com ele enquanto os bombeiros não chegam.

Ela deu um passo para frente. Sentiu um frio na barriga ao ver o marido de pé, sobre o parapeito.

─ Rubens, não faça isso! Vamos conversar. Desce daí!

Ele lançou um olhar inexpressivo para a esposa e voltou a mirar o vazio. Regina estava aflita. Se dissesse que voltaria para ele, estaria mentindo. Se ele morresse, se sentiria culpada. Mas ela não teve tempo para dizer mais nada. Rubens abriu os braços e se atirou. Regina sentiu um choque quando a adrenalina se espalhou pelas artérias. Correu para o parapeito e olhou para baixo. Não viu nenhum corpo estatelado na calçada. As pessoas que estavam assistindo a tentativa de suicídio, olhavam agora para outro lado.

Ela ergueu o rosto e viu Rubens no terraço do edifício em frente. Ficou surpresa, incrédula. Como ele conseguiu fazer aquilo? Rubens acenou, dizendo alguma coisa, mas devido à distância ela não conseguiu entender. Depois ele se afastou e sumiu. Desde então, Regina nunca mais viu o ex-marido.

FIM

11 de Julho de 2021 às 00:29 0 Denunciar Insira Seguir história
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