lslauri Liura Sanchez Lauri

Conheça um momento peculiar na vida de Flavio, um vampiro que está morando no Brasil, mas cuja origem parece remontar à Europa e que conhece a Lívia, uma afrodescendente brasileira, no centro da cidade de São Paulo. Ambos precisarão descobrir o que acontece entre eles...


Suspense/Mistério Para maiores de 18 apenas.

#mito #lenda #brasileiro #vampire #vampiro
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Capítulo I

Sou sozinho e caço. Sento num bar de esquina degradado, no centro de São Paulo, onde todos os becos e até mesmo as ruas são mal iluminadas e, muito frequentemente, taxadas por “mal visitadas”.

Eu não julgo. Sei, em meus mais de 300 anos, o quanto as pessoas são capazes de interpretar papeis em sua curta jornada. O santo pode virar pecador e aquele que pecou pode se arrepender no último segundo e, por isso mesmo, momentos antes do ataque final eu me questiono sobre tudo que determinado ser já fez em sua vida e quais personagens foram interpretados... Cada qual é um Universo em si mesmo.

Diferentemente de nós, estacionados no tempo, por termos a Eternidade como medida! Mudamos? Claro! Mas numa velocidade tão lenta que seria inútil tentar perceber. A grande verdade é: estacionamos naquela personalidade onde fomos criados; cada um de nós tem um presente das “Trevas”, assim dizem as presas.

O meu é bem útil e, por que não, desejado. Consigo saber, pelo toque e ao olhar diretamente nos olhos, se determinado humano está só naquele momento do mundo, com alguma certeza de meses. E é onde minha admiração por sua natureza fluida e breve aparece... Pois nem sempre aquele visto como só não terá alguém para prantear por ele. Já me alimentei de seres sozinhos há anos e que apareceram nas manchetes dos dias seguintes com pais, mães, filhos ou netos chorando por eles. Muitos optam, assim como eu, por estarem sós.

Estou enfadado. A noite me cansa... Não há nada de desejável naquela vizinhança e, pagando a conta de uma cerveja que não bebi, vou até a rua próxima, vazia e flutuo até o telhado de uma construção próxima da Catedral da Sé, do lado da Caixa Econômica Federal, na esquina com a Rua Floriano Peixoto. Fico de cócoras sobre o telhado de pedra e divago.

Me vejo como uma força da Natureza, tão necessária quanto a chuva e o Sol, o vento e a seca. E, ultimamente, meu pensamento tem sido quanto ao papel da presa em sua sociedade decadente. Tenho tido mais apreço às baratas e aos ratos! Produtos, também eles, dessa sociedade porca!

Mas não externo minhas opiniões. Jogo de acordo entre meus pares, respeito suas leis (mesmo nem sempre concordando com elas); detesto confessar isso a você: eu quero estar por muitos anos nesse lugar, em meio às ruas, subindo em suas construções pois, apesar do nojo, essa sociedade é a síntese de tudo que mais amo: Liberdade!

Uma brisa suave de primavera me acerta e traz cheiros tanto repugnantes quanto interessantes, um em particular me atrai: sangue. Viro minha cabeça na direção dele e, automaticamente, meu sistema auditivo inicia um rastreamento sobre a causa. Escuto vozes baixas, culpando-se sobre algo e pedindo segredo sobre o que faziam. Apesar de já imaginar o quadro, certa curiosidade movimentou meu corpo naquela direção e fiquei flutuando, praticamente invisível, vários metros acima deles.

Estavam a duas quadras do meu telhado favorito e eram dois adolescentes homens, vertidos de bermuda e chinelos puídos, ocultando os restos de outro ser humano vestido de modo semelhante sob algumas cobertas. A julgar pelos cochichos, tudo não passava de uma fatalidade, brincadeiras de empurra-empurra regadas com crack. Ao que parece, o coração parou. E agora eles discutiam se era certo pegar as roupas e pertences dele.

Inspirei mais forte o ar. Descendo, me apoiei num parapeito antigo. O cadáver ainda estava fresco, poderia me aproveitar e fazer dessa noite mais uma exceção. Sem caça, sem gritos, sem choros e ansiedades. A adrenalina até mesmo alterava o sabor daquele néctar rubescente. Mas eu não poderia demorar muito mais, a coagulação seria o fim desse líquido precioso...

Avanço um pouco mais, até o início da rua e chuto uma lata para fazê-los correr da cena. Eles me encaram por uns breves momentos, indecisos se deveriam fugir ou aproveitar a oportunidade, afinal, não é rotina homens de roupa social numa hora dessas vagando pela rua. Mas quando nossos olhares se cruzam, eu sou capaz de jurar o quanto o pelo da nuca deles se eriçou. Eles entenderam o quanto eu estava longe de ser uma presa e, sem tirar as mãos do bolso, me movimento tão rápido para a visão humana que “apareço” ao lado do corpo como um espectro. Avalio suas estruturas corporais e percebo o quanto suas narinas já estavam colapsadas de tanto pó, bem como seus braços estavam cheios de punturas. Sorrio de lado, conseguir um “dois em um” não era tão difícil no centro da cidade, mas um que consumisse cocaína, isso sim, era mais raro. E o barato desse sangue duraria uns dez minutos, mas serviria para me alimentar por duas noites. Eu só queria ter certeza de não fazer nenhuma besteira em dez minutos, mas isso pode ser muito tempo pra quem se movimenta na velocidade da luz...

Dou de ombros e solto um “dane-se” com sotaque europeu. Da última vez que consumo sangue batizado acordei num bordel, com vinte prostitutas desacordadas e quase exauridas. Felizmente, eu não tinha matado nenhuma delas e nem chamado uma atenção desnecessária pra nossa raça. Afinal, como elas iam dar queixa? E quem ia acreditar nelas? Paguei com todo dinheiro que tinha pelos “serviços prestados” e vazei, antes do Sol nascer.

Sorvi quase todo sangue daquele jovem homem e flutuei para o parapeito mais próximo, antes que a cocaína começasse a fazer efeito. Ela me fazia ver as parcas luzes da cidade como mil sóis e isso feria minhas retinas, mas ela também dava à Lua as cores e silhuetas mais maravilhosas! E aos edifícios e estátuas, ela parecia dar vida! Fiquei ali, curtindo a vibe por alguns segundos quando um som, vindo de algum prédio distante, chamou minha atenção. Era um som divinal, como de uma sereia, me impelindo a ir naquela direção e, enquanto pude responder por mim, me lembro de ter fincado as unhas no cimento e me forçado a permanecer ali. Mas ao acordar depois de alguns minutos, não estava mais no parapeito. Estava dentro de um apartamento, com gosto de sangue novo na boca e com uma jovem mulher afrodescendente deitada em meu colo. Assim como as prostitutas, ela ainda respirava, fracamente e, sem auxílio médico, teria poucas horas de vida. Fui até a janela e vi onde estava, na Rua Tabatinguera, perto do Hospital Emílio Ribas e não tive dúvidas, busquei os documentos dela pela casa, encontrei a habilitação “Lívia Silvana” e percebi o gosto dela por música clássica durante minha busca. Coloquei o documento em seu bolso de trás, carreguei-a pelos ares até o hospital e a depositei levemente no chão, diante da emergência. Fiquei perto para ver se alguém a atenderia e isso não demorou mais de oito minutos, uma eternidade pra mim!

Voltei para minha alcova e levantei a cama box. Fiz algumas adaptações internas e posso garantir, o conforto é muito maior que qualquer caixão! Apesar da dupla dieta da noite, não consegui descansar... E acho ser este o problema... Tinha algo na voz e no sangue daquela jovem capaz de atrapalhar meu sossego!

Quando acordo, não preciso me preocupar com quase nada. Roupas de banho e uma troca de roupa social estão separadas para mim, em cima de uma poltrona no quarto. O meu clã tem um acordo antigo e bem estabelecido com uma prestado de serviços diurnos, eles sempre mandam alguém durante minha letargia para arrumar o apartamento e preparar tudo para meu retorno. Algumas vezes, eles também deixam presas de presente, quando precisam de você para algum serviço específico... Mas eu não costumo aceitar sangue de mão beijada.

Essa noite, em cima das minhas roupas, havia um envelope lacrado com a chancela do Príncipe. Olhei para o objeto com desdém e exteriorizei que nada atrapalharia meu banho quente.

Depois de me trocar, usei as unhas quase maciças como garras para romper o lacre e li o esperado: alguns vampiros novatos estavam causando rebuliço na Zona Leste e eu precisava ir conversar com eles...

Veja bem, nosso negócio prescinde da discrição... Não há problema na transformação de alguma presa em vampiro, o é necessário é a consciência da escolha dos candidatos. Eles precisam ter noção do quanto nossa invisibilidade garante o “status quo” tão querido aos nossos superiores. E quando digo superiores, não me refiro a vampiros que lá chegaram pelo voto de confiança ou costurando filiações... Não! Eles são superiores, no meu caso, porque estão mais perto da pureza e, portanto, gozam de maior força e habilidades. São os mais velhos entre nós, mas nem por isso, decrépitos! Esses caras não precisam caçar... As sociedades secretas oferecem a eles o sangue das crianças mais puras e virgens, depois de superutilizadas por eles, transformam-se nos “presentes” dos prestadores de serviço como eu. Agora você entendeu por que eu não aceito essas porcarias, né?

Dentro do envelope havia três frasquinhos de sangue com anticoagulante EDTA, cada um deles com um nome na etiqueta, dos vermes que eu deveria encontrar... Me passam uma localização aproximada e, de posse desses frascos, eu os cheiro e posso seguir seu rastro imundo. Estranho eu falar assim de “iguais”? Bom, se eles fossem algo perto de meus iguais, eu não precisaria ir pra Camargo Velho atrás deles! Alguns recebem a oportunidade de uma nova vida, mas encaram como se fosse a vida antiga. Querem viver e agir como os otários que eram antes da transformação e, em casos raríssimos, a minha ida e tentativa de conversa deu em algo diferente de “chacina”... É muito difícil largar velhos hábitos. Especialmente quando eles foram melhorados pela transformação. Quem curte beber, se drogar, orgias, vai tentar sentir tudo isso através do sangue que drena e alguns só eram bêbados e viciados antes de terem a honra de ser algo mais, por isso não conseguem entender.

A cartinha ainda falava sobre as três reprimendas já dadas ao responsável pela área. Isso ia fazer minha noite ser bem longa... Porque além de achar os párias eu ia precisar deixar um recadinho pra quem transformou os caras! E o quarto recadinho é arrancar uma das presas do fulano, droga!

Minha mente se agitava, querendo passar a noite na vizinhança, especialmente em algum local onde pudesse ver se a Lívia já havia retornado pra casa, mas não seria essa noite. A depender do serviço, precisaria me contentar com um dos presentes amanhã. Credo!

Cheguei aonde a carta indicava, procurei um pouco sem querer abrir os frascos mas não tive sucesso. O lugar era mal iluminado, mais que a periferia do centro de SP e cheirava a podre, especialmente de comida estragada, contudo, eu sabia, seria abrir o frasco e o caminho ficaria tão claro quanto o dia. Quisesse potencializar esse efeito, precisava só pegar menos de uma gota do sangue com a unha e colocar na ponta da língua. Era certeza! Nesse caso não precisei. Respirei profundamente e deixei meu corpo seguir seu instinto, sem pensar pra onde me levava. Saí das avenidas principais, passei por alguns terrenos baldios e cheguei numa cabaninha caindo aos pedaços, estava na porta dela quando voltei a racionalizar. Bati educadamente na porta e ouvi alguma movimentação interna. Dois deles subiram ou para o andar de cima, ou para o teto, acima da porta e um deles veio me atender. Hesitante, sentia seu odor logo atrás da porta, sem contudo abri-la. Bati mais apressadamente e me apresentei, disse que precisávamos conversar, pois eu havia sido enviado pelo Príncipe. Foi um rebuliço. Sob meu terno eu tinha duas pistolas, com balas de ébano, benzidas no Vaticano. Mesmo ser acertado de raspão por elas era morte certa! Como os barulhos cessaram, mas eu sabia que ainda estavam dentro da casa, derrubei a porta com um chute e dei uma cambalhota para trás, enquanto levitava para o andar de cima, onde ouvia uma respiração bem leve e o bater quase imperceptível de um coração.

O quarto onde entrei parecia mais uma venda de charque. Homens, mulheres, crianças e animais estavam ressecados, amontoados e com fácies de terror. Enquanto olho para aqueles cadáveres a porta se abre rapidamente e um deles vem na minha direção, uso sua própria velocidade para jogá-lo contra a parede atrás de mim, apesar de veloz, eu ainda conseguia prever seus movimentos. Ele era lento, parece paradoxal, não?

Tentei argumentar sobre estar lá para conversar e um ataque a um emissário do Príncipe era visto como um ataque ao próprio Príncipe. Minha paciência acabou no terceiro palavrão. Abri o único botão do meu terno e saquei uma das pistolas, dei um tiro certeiro no coração. Outro veio mais sorrateiro, pelo teto e se sentou nos meus ombros enquanto desgrenhava meus cabelos compridos tentando puxá-los ou sei lá o que!

Faz parte do protocolo, eu tento conversar com cada um deles, explicando meus motivos e a necessidade de reorientação. Mas como no primeiro caso e, geralmente é assim, quando estão em bando, sou hostilizado e reajo de acordo, mandando mais um para sabe-se lá onde!

O terceiro aparece com uma katana em punho, responde não ter intenção de se render e ir parar nalguma masmorra infecta. Me pergunto de onde ele tirou isso? Mas não exteriorizo, deixe-o fazer alguns truques com a magnífica espada e até rebater duas balas minhas, mas tudo tem limite! O excesso de confiança o fez chegar perto demais e ele rasgou uma manga do meu terno. Movimento-me velozmente, percebo o terror no olhar dele, quando não consegue me acompanhar e paro atrás dele, fazendo a bala alcançar seu coração através das costas.

Ouço novamente aquele coração moribundo e me viro na direção do som. Um adolescente, careca, cheio de tatuagens e piercings está escorado na parede, sentado no chão. Como diz minha criadora: “Jamais desperdice uma refeição justa.” Depois de tudo quanto viu e passou, não é possível uma recuperação, um “feliz pra sempre”, ou “dê graças e siga com sua vida”. Vasculho a casa até encontrar a bainha (Saya) da katana, guardo-a e volto ao rapaz, ele não estava só. Mas como eu disse, a situação dele era além da recuperação. Quebro seu pescoço tão rápido e termino de me alimentar o quanto antes, para sair dali e ir para a segunda parte da minha missão. Saber quem os transformou era fácil, o cheiro dele estava nos três, para sempre. E na amostra de sangue deles também.

O próximo lugar fica dentro da favela Maria Ângela, quase no centro dela. É preciso chegar por cima, pois as ruas são muito estreitas e cheias de capangas. O Renato vive aqui na maior mordomia, sem precisar sair pra caçar, ele acabou ficando preguiçoso... Ainda bem que as três conversas anteriores não foram comigo. É chato quando revisitamos alguém por não cumprimento das regras.

Eu resolvo não invadir. Apareço na frente da porta principal, diante de dois seguranças gigantescos que se assustam ao me ver, praticamente, materializar ali, com uma katana na mão. Explico quem sou, mostro o selo e exijo uma reunião. Creio já esperarem por isso, pois eles me deixam passar pro átrio de espera. Uma servente seminua, com um colar rendado envolta do pescoço vem me recepcionar, ela faz uma reverência e abaixa o colar me deixando ver várias mordidas, algumas em cicatrização, outras recentes. Eu vejo que ela não está sozinha, questiono seus motivos, crio empatia e ela me diz que o dinheiro paga a educação dos filhinhos. Ela também comenta ser uma falta de respeito não aceitar um presente do sr. Renato. Sorrio, pergunto se não há outro lugar menos visitado em seu corpo e ela sobe dois degraus da escada para mostrar seu seio imaculado. Minhas presas ejetam na hora e meu olhar se turva de vermelho. Aceito a oferta e depois de um leve gole, tiro uma nota de 200 reais e ofereço aos filhos dela. Uma lágrima escorre e ela se vai.

Ouço uma risada chacoteadora do andar de cima, mais precisamente, do final da escada:

- Flavio, você não muda! Sempre um coração mole! Não serve pra esse serviço, meu amigo! – enquanto engole seco, vendo a espada na minha mão.

- Diz isso pros três que eu acabei de apagar, Renato. – o olhar dele endurece – E vamos ver se ainda diz isso depois da quarta reprimenda, meu “amigo”... – digo essa frase entredentes, resquícios da época de humano. Considerar alguém amigo era uma honra e não uma palavra tão menosprezada assim...

- Quais as alegações do Príncipe desta vez? Não lembro de ter faltado com minhas obrigações, Flavio.

- Sempre que uma cria sua falta com a decência, é o mesmo que você faltar com a decência. – jogo a katana em direção a ele e completo: Isso te pertence, não é?

E antes mesmo dele pegá-la, eu chego junto com ela, bem perto dele e comunico:

- Já conhece o jogo. Pode ser do jeito fácil ou difícil, Renato...

Ele pega a espada e levanta os braços, em rendição:

- Vamos para meu quarto, assim não preciso me humilhar diante dos outros...

E comento, mais a título de jogar conversa fora:

- Não entendo qual sua necessidade em ter tantas crias! Tenha mais cautela, senão da próxima vez que vier será para pulverizá-lo! E, apesar de ter algum prazer nisso, eu não sei se seu sucessor não seria pior, não é mesmo?

Ele se irrita com meu comentário. Alguns vampiros são tão suscetíveis quanto os humanos! Toma alguma distância de mim e desembainha a katana, apontando-a para meu coração.

- Eu quero popularizar nosso negócio! Dar chance aos menos afortunados de ingressar nessa casta repulsivamente rica e opressora! Você mesmo, é um filhinho de mamãe! Se acha acima do resto de nós, Flavio!

Eu penso em ser um pouco dramático e, apesar da dor que isso ia me causar, caminho em direção à katana, enfiando a espada em meu coração, enquanto digo:

- Eu não estou acima de ninguém, Renato! Sou um dos maiores párias que existem! Tanto que sou chamado pra assuntos que ninguém mais quer resolver, entende? E qual a vantagem em popularizar mortos-vivos?! Se tiver muitos mais de nós, não vai haver estoque de caça de qualidade para ninguém. Isso é ridículo! Somos eternos, cara! E eu, com certeza – disse essa última frase, trincando os dentes e arrancando a espada da mão dele, ainda deixando-a enfiada em meu coração – não sou um maldito lobisomem, seu cretino!

Saco minhas duas pistolas, aponto pros miolos dele e me seguro pra não puxar os gatilhos. Eu queria muito que ele resistisse, mas não... Esse meu discurso acalorado o fez enfiar o orgulho entre as pernas e me levar até o quarto dele. Entrei enquanto guardava as gêmeas no coldre e tirava a katana do peito:

- Preciso de um alicate universal pra remover sua presa, Renato. Providencie um e, quando finalizarmos, chame todas as suas crias, tenho um recado e não gosto de me repetir, sabe?

Prontamente entrou um humano com um alicate numa bandeja, aproveitei e pedi algumas gazes também. Quando ele voltou, informei que ficasse. Nós não conseguimos ejetar as presas apenas com nossos pensamentos. Elas são uteis ou na defesa ou na alimentação e as duas situações precisam acontecer de verdade. Então, pedi ao serviçal que mostrasse o punho para ele e, a depender da fome do meu anfitrião, poderíamos ficar algumas horas esperando... Felizmente, ele era glutão, acostumado à vida fácil. Alguns minutos depois da oferta, as presas apareceram e, usando de toda minha capacidade de concentração e velocidade, segurei a esquerda com o alicate e a puxei de uma vez só! Instintivamente, o Renato pulou da cama e me enfrentou com o olhar, a presa restante ainda à mostra, mas eu relaxei meu corpo e minha mente.

- Você sabe ao que me condenou, não sabe? A meia vida! Agora, minhas próprias crias vão desafiar minha liderança, Flavio!

- Você queria popularizar, não?

Ele fecha o cenho. Tinha ganho um inimigo. E, acreditem, inimigos pra eternidade são os piores... Somos muito mesquinhos e vingativos. Mas, se ele tinha a eternidade pra pensar em como me punir, eu também a tinha para pensar em como me defender. Era um jogo justo e por isso eu continuava a fazê-lo.

- As crias estão no átrio, seu pulha! – e cuspiu sangue.

Aceno positivamente com a cabeça e vou até o início da escada, no primeiro andar. Olho para a centena de crias presentes, se amontoando e percebo o quanto quantidade importa mais que qualidade para ele. Com seu canino ainda cheio de sangue, ergo-o e os faço se ajoelhar diante de mim:

- Eternidade ao Príncipe! – e eles repetem, entredentes – Como podem ver, seu criador ficou em débito com nossos superiores! Saibam o quanto ele responde pelas falhas de vocês, entendem? – eles grunhiram – Eu vou desenhar: três amiguinhos seus passaram a aterrorizar Camargo Velho! Sua fome era maior que sua inteligência, não incorram neste erro... Contentem-se em ficar nas sombras, sempre mantendo seu criador e aqueles acima dele fora das manchetes dos jornais, ok? Eu vou fazer um lindo colar com este canino e pendurar na minha parede, junto com as dezenas que estão lá, portanto, não sejam idiotas em tentar vingar, a não ser que queiram acabar como seus amigos, na melhor das hipóteses, ou como o criador de vocês!! Espero não precisar voltar aqui pelos próximos mil anos!

Sem esperar uma resposta ou reação, eu levito por cima deles e saio pela porta da frente, bato com a perna direita forte e velozmente no solo deixando meu corpo subir bastante antes de ver a cidade abaixo de mim e decidir em qual direção flutuar. Dei um suspiro de enfado. Aquela atividade tinha tomado mais do meu tempo do que desejava... Precisava ir para casa e, antes disso, escrever um relatório de minhas ações. Burocracia também faz nosso mundo girar...

Minha letargia foi menos letárgica que o esperado. O rosto dela povoava meus pensamentos e quando eu me vi, em sonho, tendo a conversa de um criador com ela percebi o quanto estava encrencado!... Abri os olhos mecanicamente e levantei o colchão. Uma bela jovem me esperava no sofá, sorrindo sinceramente para mim:

- Olá, digníssimo. O Conselho me enviou como parte do pagamento aos serviços prestados ontem. Ficaram impressionados com sua discrição e rapidez.

Olho para ela sem responder, aponto para as minhas roupas na cadeira da cômoda em frente e ela entende que vou tomar banho antes de me alimentar:

- Claro, claro... Ao seu tempo, Flavio.

Aceno positivamente com a cabeça e, enquanto me banho, cantarolo a música da Lívia. Quer dizer, não é bem a música dela, já que Mozart foi seu compositor. Uma das minhas favoritas: “Voi che sapete”. Quando termino de fazer minha toalete encontro o “pagamento” sentado do mesmo jeito, com o mesmo sorriso e não resisto:

- Lhe dá prazer servir ao Conselho por?...

- Entrei no programa bianual deles, pretendo guardar dinheiro para pagar minha universidade, em outro país. Não aguento mais o Brasil e, quando essa oportunidade surgiu, não tive com negar.

- Ah! Então a resposta é “pelo dinheiro”? Já é a segunda pessoa que me dá essa resposta em menos de 24 horas. Os humanos não têm mais nenhum escrúpulo? Esse programa de estagiários do Conselho é ridículo! Você, provavelmente, não durará o suficiente para realizar sua fantasia.

Ela sorriu de lado, cruzou as pernas:

- Eles me disseram sobre o pessimismo do senhor, mas eu não imaginava que poderia ser tão deprimente! Não é uma fantasia, é um sonho! E sonhos podem se tornar realidade. Só faltam seis meses para terminar o programa e, como está em contrato, eles não têm como me exaurir até a morte.

E me movendo velozmente, já estou atrás dela quando digo:

- Mas eu tenho! – atacando-a com rapidez e segurando-a sentada na cadeira. Paro bem antes de deixá-la inconsciente, nem bem a solto, ela pula da cadeira, como se tivesse molas nos pés e fica na parede contrária. Eu rio. Ela respira ofegante.

- Você mostrou seu ponto! – ela dizia entre um fôlego e outro – Mas eu não posso fazer nada, o contrato que fiz inclui minha família.

- Eles sempre incluem, ou você acha não sermos calhordas o suficiente? Mas existe um meio de você sair por aquela porta com o dinheiro que já conseguiu nesse ano e meio e não olhar para trás...

- Não há, eu li o contrato! Li as letras miúdas! Só existe quebra contratual se eu morrer! Nesse caso, minha família fica com o dinheiro que faltava pagar, mas...

- E o que nós somos, além de mortos? Mortos-vivos? – eu treino meu discurso para a pessoa errada. Precisava saber do meu poder de persuasão.

Ela pisca várias vezes, seu coração acelera e suas pupilas dilatam. Seu corpo dá um passo pra frente e então, ela sacode a cabeça e diz:

- Não! Eu não quero ser uma de vocês, eu adoro o Sol, a praia, o dia! Não tá na minha dizer adeus pros meus familiares, saca?

Me aproximo novamente dela, devagar e sinto seu corpo tremer:

- Está bem, Thabitha. Você pode ir... Mas tenha cuidado. Se eu fosse você, andaria com uma estaca por perto...

- O-obrigada, eu acho... – pega e bolsa e corre até a porta e, de lá, até o elevador.

Eu grito: alimente-se muito bem no dia de hoje para repor todo esse sangue perdido...

Passo meu No. 1 Clive Christian e alinho meu paletó enquanto digo para mim mesmo:

- Vamos desvendar o mistério da srta. Silvana...

Minha mente voltou a borbulhar, se eu tivesse um coração funcional, ele estaria taquicárdico agora, além de toda suadeira desnecessária. É... Não fosse pela distância do dia, eu só veria vantagens em ser um vampiro.

Paro diante do prédio conhecido, na Tabatinguera. Foco no 5° andar e minhas orelhas captam alguns ruídos familiares, uma ópera tocando bem baixo, parecia ser um toca-discos de 45 rotações. Levanto a sobrancelha em descrédito. Alguém ainda usava esse tipo de mídia? Não consigo mais segurar minha curiosidade e flutuo até a janela, ignorando qualquer transeunte passível de me ver. Encontro-a sentada numa cadeira de canto, regendo a ópera, de olhos fechados, ao lado dela, uma xícara de chá, pelo odor, de capim-santo. Sentindo minha presença, ela abre os olhos e se levanta repentinamente, sem contudo fugir:

- Você!

Não me escondo mais, termino de levitar e atravesso os vidros de metade da janela. Nessas horas, é muito impactante conseguir alterar a densidade corpórea. Ela não tira os olhos dos meus, seu coração acelera de tal maneira que temo por sua vida, me obrigando a falar:

- Nada tema, não vim lhe fazer mal... Não desta vez, Lívia... Fique calma, por favor. Vamos conversar, eu posso tirar algumas dúvidas, explicar, talvez?...

Com a tonalidade da minha voz e meu desejo tomando conta da sala, seu coração foi reencontrando o ritmo e ela acenou para a cadeira na frente da dela, esperando-me me movimentar para agir.

Eu aceito e me sento. Ela ainda me encara por alguns segundos, em seguida senta-se na ponta da cadeira, preparada para qualquer fuga e solta:

- O que é você?

Eu rio um pouco alto, cruzo as pernas e entrelaço meus braços no joelho:

- Vamos lá! Tenho certeza de que isso você já sabe... Eu me referia a outras perguntas, Lívia. Talvez alguma relacionada a você ainda estar viva? – e levanto a sobrancelha. Com a alimentação que fiz anteriormente, ela não corria perigo algum.

Seu pescoço vira um pouco, ela percorre toda a minha figura com o olhar e faz o óbvio:

- Então tá bom, vou jogar seu jogo, me diz por que ainda estou viva?

- Seria engraçado, se não fosse tão mórbido, sabe? – E conto a história que me fez chegar ali, dias atrás. Explicando o ataque ter sido daquele jeito por estar sob o efeito de sangue batizado com cocaína e ao ouvi-la cantar, tentei resistir, mas acabei perdendo a consciência de como cheguei até o apartamento dela e acordando minutos antes dela morrer. Sorrio de lado, esperando alguma reação, mas só vejo o rosto dela queimar de tão vermelho, ela parecia uma panela de pressão prestes a explodir!

- Seu desgraçado! Vam... vampiro filho da puta! – e me olhou, buscando uma confirmação de eu ser realmente um vampiro. Me assusto com o palavreado dela, mas entendo sua reação a seguir – Era pra eu estar na Europa agora! No Conservatório Municipal de Milano, sendo a primeira mulher, e brasileira, a reger uma orquestra europeia... E olha o que você fez! – e estende os braços pra mim, com muitas lágrimas escorrendo pelo rosto, antes de soltar a última frase: Eu tô presa aqui!

Eu não sei qual motivo me fez ter compaixão por ela, do mesmo modo, não entendia vários outros sentimentos e pensamentos daquele instante, mas fui na velocidade da luz e a peguei no colo, ficando sentado na cadeira onde ela estava, com a cabeça dela no meu ombro, enquanto acariciava seus cabelos volumosos e olhava mais de perto sua tez morena e macia; instintivamente, acabei fazendo sons de tranquilidade com a voz e, nessa toada, ela parou de chorar, virou o rosto pra mim e disse:

- Eu queria te odiar, sabe?...

- Eu também queria... Não me odiar, claro, mas ser indiferente a você. Só que não consigo!...

- Eu tenho mais motivos pra te odiar, né? Perdi a oportunidade de uma vida e... – eu coloco meu dedo indicador nos lábios dela.

- Depois de tantas vidas, aprendi que não perdemos oportunidades, nós apenas forçamos algo, pensando ser o mais certo, mas o Universo nos mostra outra oportunidade. O que acha desta perspectiva?

Ela fica nervosa, bate de leve na minha mão e se levanta, fazendo beicinho:

- Eu achei que vocês precisassem de convite pra entrar na casa das pessoas, senhor...

- Só Flavio, por favor. – também me levanto – Se quiser que eu vá, é só me pedir. – juntei o movimento de sair pela janela do apartamento, mas senti a mão quente dela segurando meu braço.

- Não, eu preciso saber o porquê?

Eu não respondi com palavras, me virei, colocando minha mão sobre a dela e, em seguida, beijando-a terna e lentamente. Ela não evita meu beijo, mas também não o incita além da conta. Recebe-o como quem tenta entender um quebra-cabeças segurando por alguns minutos uma das peças na mão.

- Se eu soubesse, querida Lívia, seria um grande alívio para meu espírito tão antigo... Mas não tenho como responder, foi um chamado ancestral, primitivo. Mas... além do fato de não precisarmos de convite para entrar, existem outras lendas sobre nós, mitos sobre sermos seres sexuais ao extremo. – ela me olhava atenta, havia empatia em seu olhar – Infelizmente, sentimos prazer em apenas uma coisa: sangue. Ela é nossa moeda de prazer e de troca, de venda e de ruína!... Apesar da sensação incrível de beijar você, eu não poderia ir adiante, não que fosse incapaz de te dar gozo por meios não convencionais, mas para ter meu quinhão de prazer eu precisaria de seu sangue e não vim até aqui para isso. Ao menos, não hoje... – me afasto alguns passos, deixo-a digerir as informações e faço uma mesura, levitando para a janela e, já do lado de fora, solto:

- Posso te ver amanhã?

Ela acena positivamente com a cabeça e aquele sinal me deixou tão contente! Eu quase não me reconheci. Precisava conversar com alguém sobre isso, o quanto antes...

8 de Julho de 2021 às 21:49 0 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Liura Sanchez Lauri Gosto do universo dos quadrinhos. Em especial aquele onde está inserido o Wolverine. Apesar de ter gostado de alguns filmes, os quadrinhos são mais ;)

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