u16228522741622852274 Déborah S. Carvalho

Um conto de romance clichê como qualquer outro? Sim. Nosso herói, Aquiles, está prestes a salvar a vida da mocinha, Raquel. O problema? Raquel é um "unicórnio" dos tempos modernos que ainda não sabe usar o Spotify. Mas Aquiles está louco para ensiná-la!


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#humor-boymeetsgirl-rocknroll #romance-comediaromantica-chicklit
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Raquel não sabe usar o Spotify


PREÂMBULO INTROMETIDO


O romance a seguir, clichê em muitos sentidos, inovador em apenas um, é daqueles em que o herói da história conhece a mocinha em apuros e a salva. Quem nunca leu um desses que atire a primeira pedra! Eu digo que a literatura nasceu do clichê. Afinal, o que fazia Orfeu se não salvar Eurídice do Hades? E por que Paris teve que levar Helena consigo para Tróia? E não podemos esquecer das nobres intenções do príncipe que tirou Rapunzel da torre. Ninguém sabe o seu nome, mas seus feitos serão lembrados! Não foram esses exemplos a base para o romance moderno?


É claro que, hoje em dia, as histórias estão mais cabeludas. Existe toda uma demanda para temas profundos e personagens complexas. É uma espécie de casamento forçado entre a literatura, a psicologia e a agenda política. Às vezes é a mocinha a verdadeira heroína. Em algumas narrativas simplesmente não há herói. Já em outras o mocinho é um bocó de marca maior...


A história a ser contada é um pouco fantasiosa, não no sentido do impossível de acontecer na vida real, mas porque o próprio título denuncia a personalidade fora de moda da mocinha. Nosso herói a chamou de “unicórnio”, inclusive. Será fácil entender, conforme a descomplicada trama se desenrola.


Embora o conto possua a estrutura previsível dos três atos, posso garantir que você se perguntará: Afinal de contas, quem está salvando quem? Será que “salvando” não é um jeito muito forte de descrever esse absoluto chicklit do século XXI?


Talvez. Mas, a onisciente contadora de histórias, no momento em que escreveu, teve a percepção (que pode ser errada) de que os problemas de suas queridas personagens se igualavam aos dos heróis e heroínas dos grandes épicos e dos grandes filmes da Disney. Seja como for, sem mais delongas...


ATO UM: O HERÓI CONHECE A MOCINHA EM APUROS.


Comecemos por uma ironia. O nome do nosso herói é Aquiles. Na noite de 17 de Novembro de 1995, uma amada, suada mãe olhara com amor para o embrulho em seus braços. O bebê era lindo, e até mesmo a cara de joelho, comum a todos os bebês, não era tão presente. A mãe já tinha o nome do herói grego na ponta da língua. Sabia que seu querido filho seria destinado para as coisas grandes.


Infelizmente, ela não pensara nos anos de provocação que Aquiles sofreria na escola, mas as mães nunca pensam nisso. Atualmente, no alto de seus 26 anos, o jovem fez um pacto consigo mesmo de que no dia em que tivesse filho, o nome dele seria João. Nome de santo. Nome curto. Nome simples, que ninguém erra.


Fora o fato de que ele é o herói dessa história, é correto dizer que o nome é de longe a coisa mais interessante em Aquiles. Ele sempre fez questão de ser discreto e de sumir em meio a multidão. Do tipo que só fala quando é chamado e que sempre chega na hora no trabalho, Aquiles nunca foi de chamar atenção. Talvez seu jeito meio “sem sal”, como alguns incautos diziam, fosse diretamente responsável pela sua má sorte com mulheres, e pelo seu estado quase perene de solteirice.


Na idade em que estava, Aquiles não andava exatamente em busca de uma companheira. Casamento não era algo que povoava seus pensamentos, não quando a carreira ocupava tanto sua mente. Aquiles era, como qualquer milennial, muito preocupado com a profissão. Pelo menos já sabia o que queria ser na vida. Designer. Alguns amigos sequer chegaram a uma conclusão, vagando por aí, entre empregos, prazeres e indecisões.


O grande problema de Aquiles é que ele sentia que ter alguém em sua vida, ou seja, uma namorada que o levasse a sério, não era tão simples quanto parecia. Não era algo que estivesse à disposição. Não era uma coisa que apenas aconteceria naturalmente se ele saísse à busca. Por esse motivo, às vezes, ele ficava inquieto. Mas, logo vinham as preocupações com as despesas do mês e as comissões a caírem em sua conta, e ele logo se esquecia.


***


Como é de praxe nesses romances, as coisas tomaram um rumo diferente no dia em que Aquiles conheceu Raquel. Mas antes de oferecer detalhes acerca da mocinha da história, convido você a parar e refletir. Não é interessante como, em todo clichê, um dia, aliás, uma cena, pode mudar uma vida inteira?


Sabemos que na vida real não é assim, mas às vezes é, quem sabe. A história de Aquiles e Raquel é um enorme “às vezes” dos acasos do universo, e um batido “sempre” da arbitrariedade que vem da caneta de uma autora pouco imaginativa.


Deixemos a filosofia de lado. Está na hora de conhecer Raquel.

− Você precisa de ajuda? ­– Perguntou Aquiles.


É notável que muitos romances começam assim. Ocorria que Raquel estava empurrando pesadas caixas de papelão para dentro de seu apartamento, o qual alugara há uma semana. Era o dia da mudança e ela fazia tudo sozinha, com certo esforço, porém competência. Aquiles só queria ajudar, pois era o que sua mãe o havia ensinado. Bom lembrar que a distinta senhora já usara o nome “Aquiles” para manipular o filho muitas vezes. Sempre que ela queria que ele pegasse algo para ela, a mulher invocava a força do herói grego, atribuindo-a ao filho. Aquiles, por sua vez, nunca caiu nas armadilhas disfarçadas de elogios, mas obedecia de qualquer jeito. Ele apenas era um bom moço.


“Um bom moço” pode estar um pouco fora de moda do circuito de romances atual. O bad boy é o tipo de protagonista mais comum. Mas é como dizem: os clássicos nunca morrem. Tanto o nome quanto a personalidade de Aquiles eram antiquados.


− Está um pouco pesado. – Confessou Raquel.


Essa singela troca de palavras selou o destino dos dois para sempre. Quando deu por si, já estava dentro do apartamento dela. Ambos rodeados por caixas.


− Já mora aqui há muito tempo? – Ela perguntou.


− Vai fazer dois anos. A vizinhança é tranquila. Você trouxe todas essas caixas sozinha?


− Pois é... O moço da mudança só me ajudou a colocá-las no elevador, e depois foi embora.


− Que babaca!


Olha só! Nosso singelo romance tem até vilão. Contudo, não se empolgue. Ele não deve mais vai aparecer na história.


− Mas o que tem nessas caixas que está tão pesado?


Foi uma pergunta simples, quiçá curiosa, mas que serviu para despertar a paixão que morava dentro de Raquel. Daí por diante, um mundo novo se descortinou para o desavisado Aquiles. Foi a primeira vez em que ele se encantou pelo sorriso dela.


Raquel era bonita, mas não lidava com aquele tipo de beleza que se vê nas redes sociais. Ela tinha uns dentinhos trepados que a custo escondia. Bastava um átimo de sorriso para eles aparecerem. Os olhos eram puxados, mas as pupilas pequenas brilhavam de empolgação o tempo todo. Além do mais, era baixinha. Batia no tórax do alto Aquiles.


O que sentiu ao vê-la tão feliz foi uma vontade inexplicável de carregar Raquel nas costas, como se ela fosse uma mochila, e levar ela para qualquer lugar de paisagem bonita.


Por outro lado, a baixinha de aparência frágil foi rápida ao tirar um canivete que estava enfiado na meia, e ainda mais ligeira quando rasgou sem dó a tampa de uma das caixas de papelão. O conteúdo revelado foi surpreendente.


− São os meus tesouros! – Declarou a moça, com ar de orgulho.


Eram discos de vinil. Centenas de discos, enfiados em pelo menos cinco caixas grandes. Aquiles começava a suspeitar que Raquel era dessas que tinha mais discos do que roupas. Definitivamente, tinha mais discos do que amigos. Triste era constatar que o objeto de maior felicidade da moça não passava sequer perto de seus interesses pessoais. Talvez, depois desse encontro fortuito, nunca mais se falassem.


Aquiles só pensava assim por que não sabia que era o herói dessa história. Melhor deixá-lo no escuro e evitar a fadiga.


Desde quando se entendia por gente, o jovem nunca havia sido do tipo “musical”. Quando estava no carro, por exemplo, deixava o rádio na estação de notícias. Nas ocasiões em que estava no carro, saindo de uma hora extra tarde da noite, escutava o jogo do Mengão pelo rádio, ao mesmo tempo em que metia o pé na tábua e amaldiçoava o patrão por tê-lo segurado no escritório mais uma vez.


Na adolescência, Aquiles não fizera parte de nenhuma das tribos da escola. Isso porque não era funkeiro, rockeiro, também não gostava de rap, nem de hip-hop. Contudo, ele tinha um colega que ouvia muito Bob Marley, então Aquiles ouvia por tabela, e falava para as pessoas (quando questionado sobre o assunto) que seu estilo musical favorito era o reggae.


O máximo que qualquer um vai ouvir de Aquiles cantando por aí é um jingle de algum comercial. Isso o lembrava de uma semana particular toda tenebrosa de sua vida quando, à época das eleições, uns versos muito conhecidos do povo brasileiro ficaram grudados em sua mente e boca.


Ey-Ey- Eymael

Um democrata cristão...


Era melhor não lembrar ou a coisa podia voltar.


Instrumentos musicais? Nunca o despertaram interesse genuíno. Nem mesmo quando era para ficar perto da Queila, o terceiro crush de sua vida, que estudava violão na igreja que ele costumara frequentar, lá quando tinha seus quinze anos. A título de informação, vale ressaltar que o primeiro crush de Aquiles foi a apresentadora do Bom e Dia e Companhia, Eliana. O segundo foi a filha de uma vizinha, com que se acostumara a jogar futebol de botão.


É até comum que os protagonistas de romance sejam um bando de românticos no armário, não assumidos.


Após ouvir um pouco sobre a paixão de Raquel pela coleção de discos, Aquiles estava pronto para ir embora. Sim, ela era linda. Sim, ele queria simplesmente beijá-la e ver no que ia dar. Mas, o tanto que ela falava de música o fez acreditar que nada entre eles poderia dar certo. Como se fossem de planetas e realidades distintos: ele de Marte e ela de da terra onde nascem os unicórnios.


Nosso inseguro herói ainda não se deu conta de que haviam chegado ao ato dois.


ATO DOIS: A MOCINHA CONVIDA O HERÓI PARA SEU MUNDO


− Esses discos foram um presente do meu avô.


Era o jeito que ela falava do termo “herança”. Em poucas palavras, Raquel acabou contando que não tinha pais, que havia sido criada com o avô, e que este era um aficionado por música, especialmente pelo bom e velho Rock’n Roll...


− Ele faleceu não tem muito tempo. Na verdade, eu vim para cá por causa disso. Até então, nós dividíamos a casa no interior.


Lágrimas quentes saltaram de seu rosto, como se a simples memória do velho as tivesse invocado. Aquiles sempre ficava desconfortável quando via alguém chorando. Começou a olhar dentro da caixa de discos de vinil para não ter que encarar a cena que era Raquel chorando. Felizmente, a tristeza dela pareceu se esvair tão rápido quando havia surgido. Ela limpou desajeitada o rosto com as costas das mãos, fungou alto e voltou à tentativa de um sorriso, tentando animar mais ao moço gentil do que a ela mesma.


− Tem de tudo aí! Beatles...


Quem não conhecia Beatles? Até Aquiles. De nome, pelo menos, e daquela música Imagine, que já até foi tema de novela.


− The Doors... Jimmy Hendrix... Janis Joplin... Led Zeppelin... Queen...


Ah! Queen!


O chefe de Aquiles às vezes tocava aquela música deles que fazia...


TAM! TAM! TAM!

TAM! TAM! TAM!

We will, we will rock you!


... Para o escritório inteiro ouvir, toda vez que ele queria motivar os funcionários. O chefe se achava o coach, o guru da autoajuda, mas na humilde opinião de Aquiles não passava de um esquisito amostrado, mesmo.


− The Who... Dire Straits... Deep Purple... Van Hallen... AC/DC... The Animals... Bob Dylan... Pink Floyd...


Quanto mais Raquel falava, mais o rosto de Aquiles se configurava numa expressão de “Hum... é mesmo?”. É aquele semblante que mexe com o rosto de todo aquele que finge que entende do que está sendo falado. Para eterno embaraço do jovem, a moça era perceptiva.


− Você não conhece nenhuma dessas bandas, não é?


Não era exatamente um fato digno de “mural da vergonha”, mas por algum motivo, diante de Raquel, aquilo se tornou motivo de embaraço. Era como se tivesse passado pela escola sem nunca aprender a tabuada do nove.


− Não se preocupe, padawan! Sempre é tempo de aprender. Deixa que eu educo você.


Olhando para os dentes trepados, e para as bochechas redondas dela, Aquiles resolveu que passar vergonha não era tão ruim assim. Não quando isso a tornava empolgada desse jeito. Enquanto abria mais caixas, Raquel passava a destilar todo o seu conhecimento musical. Ela falava do assunto com propriedade. Era como esses aficionados do futebol que são capazes de dizer quem foi o jogador que marcou o gol da vitória do bicampeonato carioca do Botafogo.


Ou como o Google.


− Você sabia que Douglas Adams era muito amigo dos caras do Pink Floyd?

Aquiles não sabia nem quem era Douglas Adams.


Mesmo Raquel se revelando uma tagarela, Aquiles a entendia. Ela tinha paixão pela coisa. Ele, por sua vez, amava a profissão de designer. Uma das coisas que mais gostaria de obter nessa vida era alguém (de fora do trabalho) com quem pudesse tagarelar sobre sua paixão. Esse alguém bem que podia ser a Raquel.


− Sabe, a melhor forma de você conhecer esses músicos e essas bandas é ouvindo!


Lá se foi Raquel, revirar a sala de seu recém-adquirido apartamento, que já estava uma bagunça, à busca de mais uma caixa. Nessa não estava escrito “Tesouro”, apenas “Frágil”.


− Meu avô não me daria todos esses discos sem que eu tivesse onde tocar. Então, ele também me deu isso aqui.


Raquel usou aquele estilete perigoso dela para abrir a caixa. Infelizmente, a surpresa na caixa era uma má notícia.


− Está quebrada... Não acredito.


Uma vitrola, velha por definição, que teve seu fim dentro de um caminhão de mudança, em algum solavanco durante o trajeto. Culpa daquele encarregado antipático e vilanesco que não seria mencionado novamente, mas as coisas nem sempre terminam como queremos. Se bem que, se pensarmos bem, foi por causa do descuido do homem que Raquel e Aquiles se conheceram. Afinal de contas, se ele tivesse sido gentil e ajudo a moça a colocar as caixas dentro de casa, Aquiles não teria motivo para ajudá-la. Sendo assim, pode ser até que o verdadeiro herói da história seja o encarregado da mudança.


Mas voltemos ao clichê.


− Eu o avisei tanto para ter cuidado.


Raquel foi de melancólica à furiosa numa velocidade impressionante.


− Não tem como colar?


Aquiles se arrependeu da sugestão ingênua assim que esta partiu de seus lábios. A vitrola quebrara por inteiro. Parecia até que alguém a tacara longe.


− A vitrola do meu avô...


Um silêncio incômodo se instalou entre Aquiles e Raquel. Ele não parava de pensar que queria ir embora. Tudo dera errado do momento em que ele decidira entrar no apartamento da moça. Mesmo não tendo nada a ver com a quebra da vitrola, ele se ressentia de tê-la conhecido em uma circunstância que claramente a entristecera. Raquel ia provavelmente querer ficar sozinha. De repente sentiu-se um intruso em meio a crise de relação entre Raquel e seus discos.


Mas, se esse pequeno caso terminasse com um herói inativo e uma mocinha desconsolada, seria um péssimo, péssimo conto. Não é assim que as histórias de amor clichê terminam, e estou determinada a continuar. É preciso apelar para uma força superior!


ATO TRÊS: O HERÓI SALVA A MOCINHA DA FORMA MAIS ORDINÁRIA POSSÍVEL


A força superior, muitos dizem, pode ser divina, pode ser cósmica, mas, no caso de Aquiles foi a boa e velha tecnologia. Seu telefone tocou. Apesar de não passar daquelas ligações de outro estado que só servem para irritar qualquer um, foi justamente o motivo de iluminação de nosso herói.


− Por que você não ouve suas músicas no Spotify?


Aquiles era um iluminado.


Spotify?


E um blasfemo. Raquel, com todos aqueles discos de vinil que poderiam estar num museu, provavelmente odiava ouvir músicas pelo app. De fato, nada se compararia à saudosa vitrola do finado avô. Ainda assim...


− Pelo menos você vai poder ouvir as suas músicas.


O maior choque de todos foi reconhecer em Raquel a sua própria bem usada expressão de “Hum... é mesmo?”


Inacreditável.


− Você não conhece o Spotify?


− Assim, só de nome...


Foi a vez de Raquel sentir vergonha. Aquiles não se aguentou.


− Em que planeta você vive, garota? – Após o espanto desmedido, concertou – Desculpa. É que você gosta tanto de música que... Você não existe. É que nem um unicórnio. Deixa para lá. Eu te mostro como funciona.


O herói dos contos de fadas costumava derrotar seus inimigos com longa, fálica espada. Já Aquiles empunhava o smartphone como se este contivesse as respostas para vida, o universo e tudo mais. É a famosa cena na qual o vento sopra de um jeito que até os cabelos do herói parecem mais bonitos. O sol brilha de uma maneira que deixa os dentes mais brancos. E a conveniência do clímax da luta enche o protagonista de confiança...


Raquel apenas olhava para Aquiles e constatava que ele, de fato, não tinha o Spotify no celular.


− Eu nunca fui de ouvir música – O moço saiu rápido na própria defesa.


Partiram, assim, numa incrível de jornada de baixar o app, para escolher a playlist, para, finalmente, ouvirem aquela música do The Who que Raquel tanto gostava.


Don’t cry

Don’t waste your time

It’s Only teenage wasteland


− Eu já tive um tocador de mp3, mas quebrou −A jovem revelou.


− Você nunca mais vai precisar se preocupar com isso.


Usando a boa-fé, a tentativa e o erro, Aquiles selecionou uma playlist de Rock 90.


− Uau! – Raquel exultou, ao ver todas as informações da banda na diminuta tela do celular do vizinho – E eu ouvindo essa na rádio esses dias, mas não conseguia lembrar da banda...


− Stone Temple Pilotes – Aquiles recitou, como quem lê um nome complicado numa bula de remédio.


Foi o suficiente para agradar a Raquel, que sem cerimônias o beijou.


EPÍLOGO SATISFEITO


O conto, em si, acabou, mas a autora se apegou tanto a esses dois, que resolveu dar a si mesma algumas palavras a mais de presente. Já que a história tem um prólogo, é bom que tenha um epílogo. Talvez, você queira saber do que aconteceu após o beijo.


A história ainda não tem um título definitivo. Raquel não sabe usar o Spotify nem sequer é mais um fato, pois agora ela usa o tempo todo. Poderíamos chamar esse conto romântico de Escola de Rock, mas já existe um filme assim. Também pode ficar conhecido como O Episódio da Vitrola quebrada, ou, o meu favorito, O Advento do Spotiffy. Seja como for, é hora de falar dos efeitos que esse dia incomum produziu nas vidas de Aquiles e Raquel.


He wear no shoe shine

He got toe jam football

He got monkey finger

He shoot Coca-Cola

He say I know you and you know me

One thing I can tell you is

You got to be free


O primeiro efeito:


Rock’n Roll vinte e quatro horas por dia. Raquel ouvia música no banho, no café, na cama e, claro, para estudar.


O segundo efeito:


− Você sabia que o David Bowie rejeitou um título de cavaleiro?


Aquiles sabia, de tanto que passara a conviver com Raquel. Pior é que certas manias pegavam. Dia desses, ele se viu abrindo o próprio Spotify e botou um Is this Love de Bob Marley para tocar enquanto lavava a louça. Essa inédita demonstração musical deixou Raquel muito feliz demais até da conta, e Aquiles um pouco ansioso.


− Até que a sua ideia de por as capas dos discos na parede foi boa! – Ela aprovou.


Sendo Aquiles um designer essa ideia o havia ocorrido logo depois de Raquel tê-lo beijado pela primeira vez, e ele olhado para a bagunça ao redor.


Sentado com ela no sofá, mal prestava atenção no clássico Riding on the Storm de The Doors que tocava ao fundo. Cortesia do Spotify, é claro. Ficou olhando para a parede da sala de Raquel, agora abarrotada de discos de cima a baixo, dispostos como quadros. Viraram um objeto de decoração único, que era a cara da dona da casa. Porém, Aquiles tinha certeza de que Raquel ficaria ainda mais feliz se pudesse ouvir seu bom e velho rock’n roll à moda antiga de novo. Foi quando a iluminação bateu pela segunda vez, e ele se viu pronto a praticar um novo ato de heroísmo.


− Está fazendo o quê? – Raquel perguntou, ao notar o namorado mexendo no celular.


− Vamos comprar uma vitrola para você!


Ao ver os olhos dela brilhando e os dentinhos trepados se arreganhando num sorriso gostoso, Aquiles se perguntou quem havia salvado quem nessa história. Ele podia entender das tecnologias e das conveniências, mas era Raquel que entendia de dar cor, e agora música, aos seus dias.


Ela apontou para o app aberto no telefone. Seu rosto alegre mudou rapidamente para a conhecida expressão de “Hum... é mesmo?” Lembrando: aquela carinha de quem não entendeu e não quer admitir. Um unicórnio da vida moderna, essa Raquel.


Lá se iam nossos heróis outra vez. A estridência na voz de Aquiles ecoou até o próximo conto.


Você não conhece o Mercado Livre?!


FIM

2 de Julho de 2021 às 12:11 6 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Déborah S. Carvalho Eu sou a Déborah, mais conhecida como "Debescreve". Amo ler e escrever! Textos longos, curtos, contos... Até nas poesias me arrisco às vezes. Aqui teremos romance, humor, drama, suspense, reflexão... a boa e velha prosa literária que corre por minhas veias, agora na tela!

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Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá, Déborah! Tudo bem com você? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Que todo mundo ama um clichê, isso é fato. Agora convenhamos que uma história de amor, que tem tudo do nosso mundo atual, desenvolvida naquele tema que todo mundo deseja que um dia aconteça, é simplesmente fantástico. Na verdade, a história que você escolheu contar nesse texto, do começo ao fim é simplesmente extraordinária e é até impossível encontrar palavras para dizer o quanto você me proporcionou uma leitura simplesmente magnifica, da qual eu me encontrei apaixonada do começo ao fim. Bom, vamos lá. A coesão e a estrutura do seu texto estão ótimas. Quanto à narrativa, o que dizer dessa história que trás uma narrativa completamente descontraída, mas simplesmente deveras encantadora? É incrivelmente surpreendente o quanto a história simplesmente flui de uma forma mágica e encantadora. É completamente inimaginável entender, a não ser pela experiencia propriamente passada ao ler, o que eu estou tentando dizer, haha. Quanto à sinopse, ela está simplesmente cativante do começo ao fim, e ao deixar no ar a premissa do que está por vir, só mostra mais ainda o quanto ela foi muito bem preparada e desenvolvida. É elegante e atrativa, uma combinação maravilhosa. Quanto aos personagens, que Aquiles no começo era uma pessoa que não tinha muitas ambições na vida era infeliz e simplesmente vivia por viver, é até um pouco óbvio, e até mesmo deprimente, mas é impossível deixar de comentar que ele simplesmente encontrou tudo aquilo que faltava na sua vida, de uma forma bem estranha e cômica. A verdade é que quando eu cheguei no fim, eu fiquei chateada e nem sei o porquê, deveria me sentir satisfeita com o que tinha aqui, mas realmente queria muito mais, haha. Quanto à gramática, seu texto está muito bem escrito, é até um colírio para os olhos ver tamanha destreza e habilidade com as palavras, pois em momento algum a leitura ficou maçante ou cansativa. Desejo a você sucesso e tudo de bom como autora. Abraços.
July 27, 2021, 16:16

  • Déborah S. Carvalho Déborah S. Carvalho
    Uau, Isis! Você não tem ideia do quanto esse comentário me fez feliz! Como autora, tudo o que eu busco é uma história bem escrita, mas que também divirta a quem leia. Se foi uma leitura agradável para você, eu fico imensamente satisfeita! Mas, aí, até que a sua ideia é muito boa. Trazer mais aventuras da "vida pacata" de Aquiles e Raquel. Por que não? Foi uma delícia escrevê-los. De novo, só posso agradecer pelo carinho e incentivo. São palavras como as suas que dão força para eu continuar escrevendo cada vez mais. Essa história é um conto, mas publico toda semana aqui na plataforma "Reta Final", um romance que pretendo transformar em livro físico um dia. Perdoe o jabá, mas a hora que quiser, pode passar lá! Garanto emoções xD Mil abraços. July 27, 2021, 22:37
Anjo Setsuna Anjo Setsuna
Foi bastante mágico esse conto, achei interessante descobrir essa expressão para dentes encavalados!
July 25, 2021, 23:15

  • Déborah S. Carvalho Déborah S. Carvalho
    Ah, que bom que gostou! Obrigada pelo comentário. Eu amei escrever! Estou na minha fase "romances" e "clichê. July 26, 2021, 21:34
RC Rafaella Camargo
Adorei a forma como foi contada essa incrível história kkkkkkkk muito bom
July 13, 2021, 02:04

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