guilhermerubido Guilherme Rubido

Perdida em um mundo esquecido, Luna sai para uma caminhada com seu gato Ícaro onde acaba adormecendo em um bosque. Ao despertar, algo a assusta: a Lua está diante dela. Ali, entre as árvores e o mar cósmico sobre suas cabeças, a criança tem uma conversa com a Lua.


Conto Todo o público.

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A Última Flor

Uma nota antes de começar:

Serei breve, eu prometo.

Este foi o primeiro conto que escrevi na minha vida, lá em 2015. Eu tinha 15 anos e estava sem computador, mas a vontade de escrever era tanta que o redigi em um IPad velho. Na época, algumas pessoas disseram ter gostado. Mas eles sempre gostam. São uns mentirosos. E eu os agradeço muito por isso.

Eu também gostava dele, mas, com o tempo e a evolução, ele simplesmente perdeu o brilho pra mim. Por muito tempo, eu o reneguei. Achei que tinha passado sua época. Servira seu propósito de me introduzir a esse mundo e, agora, deveria ficar guardado em um pasta da sala de arquivos dos contos nunca publicados (ele já foi publicado uma vez, mas vocês me entenderam). Contudo, há um tempo venho sentido vontade de revisitá-lo. E foi o que fiz. Atendi o chamado e gostei mais do que imaginava do que encontrei.

Fiz algumas mudanças para ter mais coerência, arrumei a diagramação, adicionei diálogos e melhorei a escrita em todos os sentidos. Adicionei coisas que não sabia na época. Talvez ele esteja melhor agora; talvez fosse melhor antes ou talvez a melhor alternativa teria sido deixá-lo esquecido.

Enfim. Apesar das mundaças, o fundamental ainda é o mesmo. Ele é bem diferente de tudo que escrevo hoje em dia. Espero que se divirta com a história de Luna e Ícaro tanto quanto me diverti a primeira vez que os escrevi e agora os revisitando. Foi uma boa viagem. Foi mesmo.

Cacete, lá se foram 6 anos.

Bom, podemos partir?

Espero que goste.

- Guilherme R.



A Última Flor

No mar escuro do céu, a Lua balançava solitária; branca e brilhante. Vidrada, ela acompanhava as estrelas que percorriam os riachos cósmicos à sua volta.

Em algum lugar lá em baixo, em um mundo esquecido que dormia sob as estrelas, o feixe de luz que a Lua produzia entrou por uma janela e percorreu todo o chão de madeira até encontrar o corpo de uma criança que sonhava com coisas antigas. Seus cabelos prateados tinham a cor da lua e reluziam como rios de prata na noite solitária. Por baixo deles, os olhos da criança descansavam. Estavam agitados e moviam-se de um lado para o outro como dois grandes planetas por baixo das pálpebras brancas.

Seu nome era Luna.

Luna e nada mais.

Ela costumava acordar à noite. Sempre foi assim, desde que se lembrava por gente. Desde que era Luna.

Naquele dia não fora diferente.

Ainda bocejando, Luna se arrastou para fora dos cobertores e pulou da cama. Seus pés encostaram no chão gelado e ela deu um pulinho assustada, mas logo se acostumou. Cambaleando, ela caminhou até a janela, onde se apoiou no parapeito e encostou o rosto no vidro frio.

Lá estava a Lua. Brilhante, gigante, tão poderosa, tão linda e tão serena.

Luna encarou-a por alguns minutos, contemplando-a. Não se lembrava de ter aprendido algo sobre a Lua na escola. Mal sabia dizer se algum dia aprendera alguma coisa. Tudo que sabia sobre ela aprendera olhando-a de baixo, da janela de seu pequeno quarto. Ela não se importava. O mundo parecia morto, sem nada para se aprender.

E até que não é ruim, ela pensou, mas seus olhos estavam embaçados e, esfregando-se em seus pés com miados baixinhos, Ícaro tentava chamar sua atenção.

Lá fora, a cidade dormia naquela noite de inverno. As luzes apagadas das casas que um dia abrigavam alguém. O som fantasmagórico do vento correndo pelos cômodos vazios. O silêncio.

O som da noite era reconfortante, mas, ao mesmo tempo, assustador.

Com Ícaro em seu encalço esbarrando em seus calcanhares e fazendo ela tropeçar, Luna saiu de casa para sua costumeira caminhada noturna. Ícaro a seguiu o caminho todo, dando mordidinhas em seus pés.

A Lua dava a cidade um aspecto bonito. Luna não gostava do dia. De manhã, a luz parecia revelar a morte. Há muito tempo – um tempo que Luna agora visitava apenas em sonhos – sua mãe dizia que o povo antigo costuma dizer que, quando iluminados pela luz da lua, prateada e pálida, todo o que era coisa adquiria um aspecto mortiço e frágil.

Luna achava tudo isso uma bobagem, como a maioria das coisas que eles costumam falar. Adultos são assim, ela pensou enquanto balançava o pé para que Ícaro a soltasse, se acham tãããão espertos. Mal sabem que são um bando de bobocas medrosos.

Quando estava chegando perto, sentiu vontade de correr. E foi o que fez.

Seus cabelos prateados esvoaçavam ao vento como um rio flutuante de mercúrio brilhante. Dançavam no ar enquanto seus olhos procuravam a Lua.

Chegou em um bosque da cidade. Ou o que um dia fora um bosque, já que não havia mais árvores bonitas. Todas estavam mortas e Luna achava isso uma pena, mas gostava dali mesmo assim. Ali, perdida dentro do bosque ela encontrou uma clareira onde se sentou sobre uma pedra.

Ícaro deitou-se ao seu lado, ronronando para ela.

Ali, sentindo o vento em seu rosto, Luna olhou para o céu estrelado onde a Lua brilhava como uma gigantesca moeda e, sem se dar conta, adormeceu no sereno.

Quando acordou, era a Lua que a olhava. Ela era linda.

"Olá, menina perdida. Como se chama?", a Lua perguntou sem maiores cerimônias.

No primeiro momento, Luna ficou confusa, mas, depois de um tempo sem nada dizer, pareceu a ela que seria uma grande falta de educação não responder. E, se tinha uma coisa que Luna não era, era mal educada. Tinha orgulho disso.

— É... — Ela falou, buscando a melhor maneira de se falar com uma Lua. Tudo o que aprendera parecia-lhe agora inadequado diante dela. — M-Meu nome é Luna.

Não parecia ter sido a melhor apresentação, mas a Lua aparentava ter gostado. Então estava ótimo. Mamãe sempre dizia que os sorrisos nem sempre eram bons sinais, mas que serviam de caminho. Para Luna estava ótimo. Ela gostava de sorrir. E fazia tempo que não via um.

"Oh! Que nome lindo!”, a Lua falou, balançando-se no céu preto estrelado. “Seus pais que escolheram?"

Luna não fazia a menor ideia de quem tinha escolhido. Então mentiu, bem, ao menos uma parte:

— Foram eles, só não sei por quê — ela falou dando de ombros. — Eles foram assinados antes que eu pudesse perguntar, seja lá o que assinados signifique. E o Ícaro não fala, então não posso perguntar pra ele, não é, Ícaro? — Luna falou dando um tapinha nas costas dele que respondeu com um miado.

"Você quis dizer assassinados? Desculpe, Luna. Deve ter sido horrível."

— É? — Luna olhou para os lados, confusa, mas sem dar muita importância. — Isso, isso, assassinados, foi o que eu quis dizer. Não sei direito o que significa, mas acho que foi bem ruim. Queria poder falar com eles, e se esse tal de “Assassinados” não deixa, então ele é bem ruim mesmo. Não gosto dele — ela falou cruzando os braços.

"Veja bem, Luna, minha criança. Há pessoas nesse mundo, que acabam tirando coisas importantes para nós. Coisas que gostamos."

— Que gentinha mais sem graça! — Ela falou descruzando os braços. — E eu por acaso posso tirar coisas importantes da vida delas também?

"Pode. Sim, você pode. Mas isso que não quer dizer que vá recuperar o que era seu"

Hmmmm... — Murmurou Luna pensativa. — Desculpe, dona Lua, não sei se entendi. É injusto que elas possam tirar coisas de mim e eu não possa tirar delas.

"Luna, às vezes, tomamos decisões erradas na vida. Decisões que criam caminhos escuros em nossas vidas. Não são muito bonitos. Você não iria gostar, acredite."

Hmmmm... — Luna murmurou contrariada mais uma vez. — E que decisões eu devo tomar para ter o poder de tirar algo de alguém? Quero dizer, meus pais estão com Deus, não é dona Lua? E se eu tivesse esse poder, poderia invadir a casa de Deus e roubá-los de volta, mesmo que Deus ficasse muito, muito, muito bravo comigo. Porque eu correria muito rápido. E o Ícaro me ajudaria.

A Lua riu no alto e foi uma risada gostosa. Uma risada que fez Luna sorrir como gostava.

"Isso é uma escolha sua, Luna. Basta querer. Mas acho que você não vai querer irritar Deus. Você tem amor pelos seus pais e, por enquanto, isso é tudo de que eles e você precisam"

— O que é amor? É de comer?

A Lua riu mais uma vez, dessa vez tão alto que as montanhas do horizonte pareceram chacoalhar. Luna sentiu medo por um instante e pela primeira vez ele percebeu quão linda era a voz da Lua.

"Amor é se preocupar com alguém. Sentir falta e cuidar. E, principalmente, melhorar um ao outro sem deixar de ser você mesma"

— Me preocupo com Ícaro e cuido dele. Isso é amor? — Ela perguntou confusa, olhando para o gato que dormia de barriga pra cima aos seus pés.

"Creio que sim, Luna."

Luna ficou um tempo pensando e então finalmente falou, mordendo um dos dedos:

— Legal... Espero que ele me ame também. Você se preocupa comigo, Ícaro?

Ícaro levantou as orelhas, olhou para ela, miou e voltou a dormir.

"Acho que isso foi um sim.", a Lua falou, olhando tudo de cima.

Luna deu uma risadinha abafada. A noite transcorria e o céu iluminado deslizava preguiçoso sobre suas cabeças; um céu cheio de estrelas. Olhos, que os observavam. Uma chuva fraca caia, junto com uma brisa fria.

Sem se importar, Luna perguntou:

— Senhora Lua, por que teve a guerra?

"Porque alguns homens bons se calaram."

Hmm... E essas bombas que apareciam nos jornais, que matam as pessoas, alguém criou elas, certo?

"Sim."

— E, essas pessoas têm amor?"

"Provavelmente essas pessoas têm uma família, filhos e até gatos, como o Ícaro. Amor, sim. Às vezes fazemos coisas das quais nos arrependemos, e, às vezes, nos desviamos do caminho, mesmo sabendo que entramos no errado. Às vezes não temos chance de nos arrepender e nem de voltar pelo caminho. É complicado, Luna, talvez você entenda, um dia. O que importa é que você continue carregando o fogo. Enquanto o fogo estiver aceso, outras pessoas, mesmo as que estão muito longe, poderão te encontrar na escuridão."

— Fogo... E você Lua, você ama?

"Ah sim, já amei. Hoje não amo mais."

— E o que foi que você amou?

"A Terra. Gostava de contemplá-la. Gostava de ver suas florestas, os animais, as montanhas e, principalmente, vocês"

— E o que aconteceu com essas coisas?

"Morreram. Alguém as destruiu."

— Nossa, essa pessoa deve ser horrível. Não queria que elas morressem.

"É, ela é horrível. Mas, infelizmente aconteceu. Pouca beleza restou no mundo."

— Eu vou morrer?

"Talvez, criança."

Com seus grandes olhos, Luna esquadrinhava o céu, procurando as estrelas constantemente. Estava ficando frio.

— Hm... E o que vai acontecer depois? — Ela perguntou, abraçando-se.

"Talvez nada. Talvez o escuro. Talvez mais uma aventura. Quem sabe. "

— O escuro me dá medo. Espero que eu tenha mais uma aventura com o Ícaro e que você esteja lá. Porque aí o escuro para de dar medo.

"Espero."

— Sabe dona Lua, sempre gostei de você. Quando a Terra morrer, o que você vai fazer?

"Chorar, e depois continuar."

— Continuar?

"Sim, continuar. Sempre andando.

— Parece meio solitário.

"Parece, é? Realmente, acho que você tem razão."

— Acho que vou chorar por meus pais. Talvez eles tivessem amor por mim.

"Com certeza tinham. Agora chore e descanse, minha criança. Hoje em dia tudo anda tão complicado. Então, diga adeus e atrevesse a rua."

— Não quero atravessar rua nenhuma — ela estava chorando agora.

"Você não tem escolha, criança. Olha só! O Sol está aparecendo!"

No horizonte, filetes dourados derretiam sobre o céu crepuscular, brilhando como veias de ouro. O negrume do céu logo começou a clarear, até chegar ao ponto em que uma uma flor se formava no horizonte.

Um brilho.

A chuva fraca que caia ficou mais intensa, cada gota caindo como pedras de gelo na pele branca de Luna e escorrendo pelo cabelo prateado como pérolas de vidro. As gotas no cabelo faziam-no brilhar. Um arco-íris se formou ao longo do céu, enquanto o brilho no horizonte ficava cada vez mais intenso. Havia um tremor, e Luna acho que poderia ser um terremoto.

"Durma criança, foi bom te conhecer."

— Adeus, Lua — Luna falou baixinho.

A flor aumentou.

Silêncio.

...







29 de Junho de 2021 às 14:49 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Guilherme Rubido Olá, que bom que conseguiu chegar até aqui. Seja muito bem-vindo. Por favor, tire o tênis e sinta-se em casa. Parece que começou a chover. Consegue escutar? É uma chuva daquelas... Teremos muito tempo até que pare. Sendo assim, escolha um assento e fique confortável. Aqui veremos muitas coisas horríveis, então, prepare-se. Tem café quente na mesa e bolachas no armário de cima (não mexa no de baixo, não vai gostar do que tem lá dentro). Caso goste do que viu, não se esqueça de deixar uma gorjeta (like) ou comentário para o escritor, ele agradece pela sua cooperação. Para o caso contrário, deixe um comentário com sua reclamação, estamos sempre tentando melhorar. Espero que se divirta. :)

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Wesley Deniel Wesley Deniel
Caramba mano ! Você tem 21 anos ! Esta era a idade de quando comecei a enxergar melhor o mundo, a me interessar por coisas realmente significativas e a dar os primeiros passos na infinita estrada da literatura e da escrita. Tenho 43 anos ! Haha estou velho ! Achava que o amigo tivesse mais, quero dizer, você tem o talento de gente que já está há anos fazendo isso. Quando você chega a um certo ponto, você bate os olhos numa história e saca se ela é boa ou se a pessoa ainda precisa lapidar mais a coisa. E eu vejo em suas histórias um cara que já pegou o jeito e encontrou seu estilo. Então pensava que, sei lá, já escrevesse há uns quinze anos... Isso é bom, pois imagino que quando tiver 43, seguindo como vai, será um dos grandes, e merecidamente ! Quanto ao conto, foi muito bonito; diferente, sim, mas bastante reflexivo. Pensei em "Ico" e "The Last Guardian" ao lê-lo, e isso foi ótimo ! Nunca deixe uma história sem ver a luz. Faça exatamente isso: dê-lhe uma chance. Grande abraço !
September 25, 2021, 07:42

  • Guilherme Rubido Guilherme Rubido
    Pois é, meu amigo. Comecei a escrever lá pelos meus 15 anos. Hoje estou com 21 e é extremamente prazeroso olhar para trás e ver o tanto que aprendi. O quanto evolui na escrita e o quanto ainda há para se aprender. Fico orgulhoso comigo mesmo por nunca ter abandonado esse ofício tão maravilhoso. Acho que seria impossível para mim deixar isso de lado. Porque o fator que considero o mais importante se mantém: eu me divertia e ainda me divirto pra caramba com isso tudo. E cada vez fica melhor. Acho que, quando temos isso ao noso lado, é difícil parar. Fico feliz pelos elogios! É um bálsamo ouvir isso de alguém com mais experiência e, principalmente, de um amigo nessa longa e maravilhosa - por vezes cansativa e desanimadora - jornada! Ainda temos muito tempo pela frente. Vamos gastar uma parte dele fazendo o que importa: escrevendo boas histórias. Nada mais faltará. Abraço, Wesley! September 26, 2021, 19:48
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