mellunar Melissa Fernandes

Originalmente publicado em um blog no dia 11 de setembro de 2016, este conto foi baseado em um sonho que tive após uma semana ruim.


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Vida, Morte e Renascimento

Aviso de conteúdo: contém menção a suicídio


Ela era uma mulher que já estava cansada de tudo. Sua dor havia lhe consumido por dentro e a matava um pouco dia após dia. O que era suportável, uma hora deixou de ser. O que lhe dava forças, uma hora deixou de dar.


Houve um ponto que ela percebeu que por mais que tentasse fugir do seu problema, fugir dela mesma, não poderia negar o fato que ela tanto odiava, pois as lembranças do seu passado a atormentavam, e por mais que ela quisesse esquecer aquilo tudo, mais as memórias apareceriam nítidas em sua mente, como se ela ainda estivesse vivendo aquilo. Era insuportável e só conseguia pensar numa forma de acabar com aquela dor, que seria acabar com ela mesma, com essa vida que ela tanto odiou. A partir de então, quando não era o conflito dor e força, era o conflito vida e morte que consumia os seus pensamentos. Ela não queria morrer, queria ter a oportunidade de ser ela mesma, mas a vida havia sido cruel de tal forma que ela nunca poderia ter o que mais queria, a menos que morresse e nascesse de novo, e pensar nisso a fez crer que nada poderia fazê-la plenamente feliz nessa vida.

Quando o esgotante conflito entre vida e morte em sua mente terminou, a rejeição de si mesma venceu. Por mais que ela tivesse raiva da natureza ter a feito daquele jeito, perdido a fé em deuses, lá no fundo algo de bom ainda se mantinha vivo, a crença de que deveria haver uma razão para ela ser daquele jeito, mas pensar no porque a fazia crer que talvez fosse algum tipo de punição por algo terrível feito em outra vida. O que teria sido?

Ela estava determinada a por um fim nisso, mas não tinha coragem para tal. Algo ainda a mantinha viva. Dia após dia seguiu vivendo no automático estando distante da realidade. Em um certo momento, havia conseguido uma substância que a levaria dessa vida sem causar dor. Mesmo com aquilo em mãos a incerteza permanecia. Ela não queria realmente morrer, mas não havia cura para sua dor. Ela permaneceu em conflito, mas até quando suportaria aquilo não sabia. Mesmo estando no limite, sempre parecia haver mais. Certo dia, uma amiga lhe convidou para algo que talvez a animasse, algo que talvez fazendo com que ela se conectasse melhor com a natureza a fizesse entender que não era tão anormal quanto se achava. Aceitou o convite receosa, mas levou consigo a substância, sem que soubessem.

Em um lugar distante, a algumas horas de viagem, em uma floresta, o culto ao sagrado feminino era exclusivo para mulheres. Por mais que soubessem das diferenças dela, a tratavam como igual, mas ela não conseguia se ver como igual, faltava algo, coisa que ela nunca saberia o que era ter. Por mais que lhe falassem que ela não precisaria de um útero para ser a mulher que era, aquilo continuava a corroê-la por dentro. Cada uma das presentes tinha a liberdade de ser o mais livre que podiam para se conectar com a natureza ao redor, fosse pelas roupas, ou ausência delas, e a forma de se expressarem através da arte e da música com cantos em homenagem à deusa. Ao mesmo tempo que se sentia bem, ela também se sentia mal, mas realmente tentou deixar as diferenças de lado e se ver como igual, porém lá no fundo o conflito entre mente e corpo continuava a consumi-la. Quando a primeira noite havia chegado, ela se juntou a roda de canções ao redor da fogueira. O incessante conflito parecia finalmente ter dado uma trégua e ela finalmente pôde se sentir bem ali, até o momento em que ela sentiu a ferida doer.

Se separou da roda e decidiu ir dormir para tentar acalmar a mente e cessar a dor. Não foi o suficiente. Estava insuportável. Era madrugada quando decidiu chamar a amiga para conversar. Por mais que o diálogo fosse para tentar achar uma forma de curar essa ferida, terminou por fazer doer ainda mais, ao ponto de que se tornou verdadeiramente insuportável lidar com o fato de que ela nunca seria uma mulher biologicamente. Ela queria apenas que essa dor parasse. Estava desesperada. Por fim decidiu fazer uso da substância. A única coisa que ela havia pedido era para a amiga não se sentir culpada, pois a culpa era apenas dela, que não era forte o suficiente para lidar com aquilo. A amiga se sentiu mal mas respeitou sua decisão.

Após os trâmites legais a respeito de sua morte, seu enterro foi feito de uma forma diferente. Colocaram seu corpo sobre um tecido especial e o enrolaram em formato de gota. Após o enterro uma muda de acerola foi plantada bem acima do local do seu descanso final. Em vida não era capaz de gerar outra vida, mas na morte era capaz de gerar algo que pudesse sustentar a vida de outros.

22 de Junho de 2021 às 20:27 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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