leandrosevero Leandro Severo

Uma ida ao mercado pela manhã. Venha comigo.


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COMPRAS

Pão

Arroz

Feijão

Açúcar

Café

Leite (2 caixas)

Detergente (se der)


Lista pronta. Tudo pronto.


As moedas em meu bolso sacudiam como pássaros numa gaiola. Seriam libertas em breve. Pesavam na calça, não tanto quanto sua ausência em minha vida, mas pesavam. O supermercado as receberia de bom grado, e eu, escravo dos preços, aceitaria as mercadorias de qualidade duvidosa que estava prestes a comprar.


Subi a ladeira de casa com o ânimo de um soldado ferido. No caso, a bala que me atingiu foi ter acordado cedo. A necessidade e o vazio do armário soavam mais alto que o despertador pela manhã de domingo. Todavia, saltar da cama, por vezes, é mais desanimador que descer o Himalaia.



Continuei andando. O sol fez questão de abrir a cortina de nuvens que lhe cobria as vistas para aplaudir meu esforço físico naquela rua íngreme. O dia seria bonito como uma mentira.


Pão

Arroz

Feijão

Açúcar

Café

Leite (2 caixas)

Detergente (se der)


Lista pronta. Tudo pronto.


Virei a esquina. Lá estava o gigante de promoções me esperando com sua boca escancarada e cartazes que diziam:


"Preço baixo, só aqui"


"Participe do sorteio de uma moto"



Já de frente para o estabelecimento, o radar do meu cérebro disparou:


"A máscara!"



Vesti-me do uniforme de proteção (de peça única) contra todo o tipo de vírus ou mau hálito. Selecionei um carrinho de compras do mesmo modo que se tira dama para dançar. Pelo menos uma roda sabia girar sozinha. Parava. Seguia. Travava. Um tango argentino.


Entrei.


Aferiram minha temperatura. O porteiro não tem culpa, mas ele media a quentura humana sem sequer olhar para o aparelho ou para a pessoa. Só estendia o braço segurando a aferidor, apertava o botão e dizia um "pode entrar" sem calor nenhum na voz. Ele não tem culpa. Deve ser chato ficar fazendo isso o dia todo, pensei, embora ainda nem era 9h00. Ele não tem culpa, coitado. Relevei e segui avante com meu carrinho. Ele não tem culpa, não. Sem estresse. Perdoei aquele desgraçado mal educado infeliz e entrei.


Compras.


Mais do que isso. Um passeio pelo Museu dos recursos básicos da humanidade. Não estava tão cheio. Igual a um museu hoje em dia.


Enquanto arrastava o carrinho que insistia em mudar de direção por causa da roda rebelde, averiguava as gôndolas e prateleiras de cada enorme corredor. Imaginei uma vasta biblioteca de livros comestíveis ou que serviam para hidratar, escovar, limpar... enfim. Preciso ler mais.


Virava a cabeça de um lado a outro. Quem sabe se encontraria algum conhecido? Certeza que se contentaram em ir à padaria, falei comigo mesmo. Como moro mais próximo ao supermercado, usufruía do luxo de pagar mais caro devido ao costume de anos de sempre ir ali para comprar seja o que for. Preguiça também. A padaria ficava no outro quarteirão e o pão era ruim, cascudo demais e (uma vez) veio com cabelo.


Ainda assim, continuei mapeando com os olhos todo o ambiente, torcendo para que tudo continuasse como está: Mais um dia sem encontrar ninguém. Sou o tipo de pessoa que não sabe o que conversar pela manhã. Ao acordar, meu corpo se movimenta, mas as palavras ainda estão sendo organizadas em meu HD interno. E esbarrar com um vizinho ou amigo meu nessas horas seria tão confortável quanto sentar numa chapa quente.


Lembro quando isso aconteceu com uma senhora semana passada.


"Bom dia. Tudo bem, moço? E sua mãe? Tá bem?"


O qual não foi minha resposta:


"Oi. Bom dia. Tá sim. Então, preciso de outro carro para visitá-la porque o meu fundiu o motor. Quem nunca, né? Aliás, sabe onde tem um bom funileiro?


Ela ficou me olhando sem entender nada.


"Então tá. Se cuida, Valéria." Soltei essa e dei as costas, vermelho.


O nome dela era Creusa.



Voltando minha atenção à lista de compras e olhando na gôndola, senti uma pontada forte no peito como uma facada enorme...


Foi o preço.



R$ 26,90 UM ARROZ? QUE ASSALTO!


Recompus o ânimo, coloquei o pacote (de ouro?) no carrinho e segui em busca dos outros itens, certo de duas coisas: que tinha esperança que poderia achar produtos mais baratos ali e que estava mentindo.



Olhei para o feijão na gôndola. Produto novo. Senti que ele olhou para mim. O valor estava acessível. Porém, como não conhecia aquela marca, desisti e levei o mais caro. Coisas novas são arriscadas.



Saindo daquele corredor fui atrás do açúcar. O nome das marcas me relembrava um poema. Um versículo. Uma frase clichê.


"O União tá barato hoje, né?"


Reconheci a voz. Era de um vizinho. Daqueles chatos que fazem piada fora de hora. Igual a mim.


"Opa. Tudo bom, seu Anésio?"


"Tudo. Ó... compra porque essa promoção vai adoçar a vida. He he he he"


Era um senhor barrigudo que ria das próprias anedotas feito um porco. Se alguém gritasse "BACON" acho que ele diria "Mãe?"


"Verdade, seu Anésio. Tá complicado, he he he"


Tentei encerrar o assunto tartarugando para frente a cada segundo de silêncio.


Falhei. Às vezes, para que algo se encerre, não depende só de você.


"Moço" dizia tocando no meu braço com um leve tapinha, "viu o tanto de polícia que passou na rua ontem?"


Se eu respondesse "não", o bom homem falaria o número (se pudesse até a placa) de viaturas e isso

daria corda para uma conversa infinitesimal. Seu Anésio é daquelas pessoas que olham bem fundo nos seus olhos enquanto fala. Mas quando ouve, parece que não tem ninguém ali.


"Vi. Complicado, né?" Disfarcei.


Ele insistiu.


"Fiquei sabendo que eram umas seis ou sete viaturas. Tudo atrás do "China". Não sei se mataram um policial e agora os "home" querem pegar ele. Acho que "os cara" fugiram tudo pra dentro da favelinha."


"Os home" e " Os cara". Era assim que definíamos policiais e bandidos.


"E tem mais. Parece que tinha dois "nóia" armado numa moto lá em cima na rua do Lago. Queimaram um colchão no meio da avenida pra avisar os outros caras e os "polícia" viram e começaram a atirar. Abre o olho, hein..."


A quantidade de informações que meu vizinho sabia poderia condecorá-lo tanto como X9 oficial quanto detetive da Interpool. Tudo isso se não fosse baseado em sua frase icônica:


"Eu acho. Eu mesmo não sei de nada. Foi o que me disseram".


Ninguém nunca lhe dizia nada. Era apenas um meio de puxar conversa.


Precisei sair:


"Verdade, seu Anésio. Eu tô indo lá que hoje tá corrido. (Mentira, era minha folga). Um abraço."


Seu rosto murchou qual uma bexiga e se despediu com um "Tá. Tá bom".


Seu Anésio foi semelhante aquela onda na beira da praia que leva tudo o que foi escrito na areia. Precisei ler novamente a lista para lembrar do que fui comprar, pois a conversa apagou tudo da minha mente:


Pão

Arroz*

Feijão*

Açúcar*

Café

Leite (2 caixas)

Detergente (se der)


Lista pronta. Tudo pronto. Recomeço.



Fui em busca do leite. Chegando ao corredor do produto desejado reparei na variedade de achocolatados que estavam ali. A memória é mesmo fantástica. Bastou olha-los e aquele gosto doce na xícara ainda fumegando com algumas bolachas se quebrando e derretendo crocantemente na boca despertou-me a vontade de comprar pelo menos uma lata de Nescau.


Não estava na lista, porém as compras são como a vida, imprevisível.


Avistei o leite. Caixas e mais caixas. Cores e modelos diferentes. Com tampas que rosqueavam, sem tampa, em pó, de garrafa... Já ia escolher um por causa do preço quando me dei conta de um nome que havia na embalagem:


"Semi-desnatado? Ah não. Prefiro o integral."


Isso foi suficiente para uma epifania.


Enquanto, por fora, meu corpo virava estátua e estacava diante da gôndola, por dentro minha mente viajava no passado e no presente buscando significados. Minha vida era íntegra, mas era integral? Completa?


Até o presente momento não me sentia alguém 100%, inteiro, feito um leite industrializado. Com a gordura e a nata da vida. Não no meu caso.


Tive uma vida de namoros rápidos, contatos de colegas de trabalho que duravam pouco tempo antes que pedisse as contas (em seguida apagava o número da agenda). Amigos que há muito não via. O que esperar de alguém como eu? Que residia numa vizinhança onde não sabia o nome do morador da casa ao lado.


E minhas realizações? Eram integrais? Mais de quatro cursos iniciados e trancados. Ainda não havia tirado a carteira de motorista. Evitava brigas e confrontos com todos. Jamais dei minha opinião em nada. Nunca falava tudo o que queria. Apenas dizia que tinha um lado que não queria que ninguém conhecesse. Infelizmente deu certo e até hoje ninguém me conhece de verdade.


Seria eu alguém integral?


Acordei do transe com uma senhora pedindo licença para pegar o leite semi-desnatado.


"Desculpe. Desculpe"


Agarrei as caixas de leite que queria e saí dali de como quem foge de uma cobrança.


Pensei na senhora que comprava o semi-desnatado. Quis flertar com a poesia em murmúrio e digitei no bloco de notas do celular:


"Uma vida diet, incompleta,

Se cuidando tanto, sem excessos.

Teria eu uma alma diabética?

Saúde perfeita é sinal de progresso?

Onde estava a gordura da paixão?

O sal dos amigos?

A doçura do amor?

Tudo pra mim foi perigo.

Caroço e temor.

No entanto, eu queria...

Que nunca se fechassem as cicatrizes do viver,

Ter as veias entupidas de experiências.

Sofrer um infarto fulminante de prazer.

Evitar tudo demais foi a minha pior doença"


Meu Deus! As compras!


"Estou afogando em mim mesmo. Que saco. Foco, rapaz! Foco!"


Tive que olhar a lista de novo.


Pão

Arroz*

Feijão*

Açúcar*

Café

Leite (2 caixas)*

Detergente (se der)


Lista pronta. Tudo pronto. Vamos atrás do café.


Perambulando pelo supermercado, em cada seção observava que aquele lugar parecia um labirinto, onde Minotauro, dia após dia mais forte e sanguinário, é o preço de cada mercadoria. Quão difícil é viver num país onde o salário sobe de escada e o valor das coisas de elevador.


Cada corredor armazenando e expondo tanto e eu precisando de tão pouco. Ainda assim, não tendo como pegar tudo o que queria. É igual a vida, que oferece bastante, mas cobra muito mais por aquilo. Mais de alguns que de outros; tendo o mesmo preço, não tem o mesmo valor para todos.


De repente, vi por entre os corredores, um homem que passava por ali levando um carrinho de compras. Cabelo, roupas e andar familiar. Demasiado familiar.


Reconheci!


Meu coração quase saltou da caixa. Gelou meu estômago ainda vazio naquela manhã.


Era alguém que há tempos não conversava, muito menos visitava. Não apenas por distância ou tempo, mas por opção. Alguém que fora meu melhor amigo por anos e a vida (a minha) nos afastara: Warley.


Warley queria muito se encontrar comigo. Recordar os velhos tempos de escola, de igreja, de faculdade. De tudo, uma vez que ele sempre fizera parte da minha vida. Eu que ia adiando para datas futuras. Um futuro que nunca chegava.


Era um moço bem sucedido. Que deu certo na vida. Mais certo que eu. Seu casamento deu certo. Eu nem noivo ficara. Abriu a própria empresa. Eu ainda era assalariado. Ele nunca se importou com isso. Já eu nutria certa inveja de Warley e nem sempre seu sucesso me fazia comemorar na mesma intensidade. Sempre pedíamos perdão um ao outro quando brigavamos. Da última vez que nos falamos não houve perdão. Nem briga. Pelo menos até o presente momento.


Há meses seu primeiro filho nascera e nem pude parabeniza-lo, sendo que recebi o convite para o chá revelação e a frase "claro que vou" se desprendeu da minha boca num áudio inapagável de Whatsapp. Não fui. Não justifiquei. Se bem conhecia Warley, devia estar muito chateado.


Fugir ainda era o melhor remédio.


E o velho amigo, como um novo problema, se aproximava da seção onde eu estava.


Precisava agir rápido.


Medi mentalmente a distância entre mim e ele e entre um corredor e outro para que não fosse visto. Seria melhor conversar com Anésio segurando uma arma do que com Warley magoado.


Empurrei o carrinho para frente, mas aquele jumento metálico empacou. Malditas rodinhas velhas.


Era tarde. Ele me viu. Já virava a esquina da seção me cumprimentando:


"E aí, cara. Beleza?


(Me perdoa, cara. Terminei o namoro. Estava mal. Endividado. Poxa, você sempre deu certo na vida. E eu quase certo. Queria ter ido na festa do nascimento do seu filho...)


Eu poderia ter dito isso. Mas, como sempre, engoli meu sofrimento e acrescentei mais um choro reprimido.


"Fala, mano Warley! E aí? Como vão as coisas?"


"Tudo bem. Graças a Deus. E você?"


"Por aqui tudo bem."


A conversa não fluía. Rio bloqueado por pedras cria outra nascente. Uma não-original, que nos faz esquecer onde o rio começou e tudo fluía tão bem.


"E seu bebê? Como está? É menino, né?"


"Menino. Isso"


(Três perguntas. Uma só resposta. Nada bom).


"Cesária ou normal?"


"Cesária. Minha esposa quase morre. Graças a Deus deu tudo certo."


Tinha um ar de "onde você estava quando isso aconteceu?" no final da frase.


"Parabéns, Warley. Agora é trabalhar bastante pra, né... fazer outro."


Ele riu. Eu ri. Nossos olhos não. É difícil uma máscara de pano que tampa a boca e nariz silenciar o que o olhar denuncia aos gritos.


"Wesley o nome dele."


"Legal. Gostei do nome. Sua esposa que escolheu?"


"Foi. Sempre ela, não é?"


Não aguentei. Peito pesado. Os "É", misturados com "Pois é" soavam como o canto do Urutau. Noturno. Triste. Sombrio.


Encerrei a conversa.


"Então tá. A gente se vê, Warley."


"Falou, mano. Um abraço."


Acho que era o que ele queria. Eu também. Palavras não abraçam.


Fui à padaria. Comprei o pão. Estava quente. Como um abraço febril.


Terminei as compras. Dirigi-me para pagar, torcendo para não encontrar mais ninguém. Chega de desencontros. Parecia que fui comprar um produto que não tinha na gôndola e, em troca disso, trouxe a marca errada.


Sem fila no caixa. Graças a Deus!


"Bom dia, senhor. CPF na nota?"


A atendente nem esperou que respondesse seu " Bom dia".


"Não, não precisa".



"Sacolas?"


"Umas dez, por favor."


Silêncio. Justifiquei:


"É que elas servirão pro cesto de lixo, né?"


Ela sorriu. Eu ri. Algo errado na ordem das intensidades. Nunca se sorri para uma piada.


Fui entregando os itens. Ela registrava. O preço subia. Na hora de passar o detergente deu a mais do que trazia no bolso.


"Moça, pode cancelar o detergente, por favor?"


"Quanto o senhor tem?"


A compra deu R$ 51,00.


"Só tenho R$ 50,00"


"Ah, então pode passar, moço. Tem problema, não."


"Não. Fica em paz, moça. Pode tirar."


"Moço, relaxa. Pode passar o detergente. Fica tranquilo."


Tranquilidade é uma palavra que minha consciência não sabe definir sempre.


"Não, moça. Fica em paz. Pode cancelar. Tem detergente em casa. Só ia levar pra ter no estoque mesmo."


"Tem certeza disso?"


"Uma certeza tão firme quanto um prego na areia."


Ela estava cancelando, parou. Olhou para mim. Deu risada.


"Então não está tão firme, não"


Finalmente deu certo. Yes! O dia não foi de todo perdido.


"Porque prego na areia... então tá frouxo, moço"


Ok. Admito a derrota. Uma pessoa refletiu sobre minha piada ao invés de rir dela. Foi o tiro de misericórdia.


Paguei.


"Obrigado, moça."


"Obrigada, você. Bom dia."



Ao sair, virei a esquina em direção a minha casa. Não vi o carro do Warley por perto. Nem seu Anésio por ali. Somente o sol já sem nuvem nenhuma no céu.


Chegando em casa percebi que esqueci de trazer o café.


"Que saco!"


Tudo bem. É preço que pago por comprar a solidão de cada dia.

9 de Junho de 2021 às 17:59 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Leandro Severo Eu escrevo. Se bem ou mal, aí descobriremos juntos.

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