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Sophie Bianchi, adotada por um membro de uma das famílias mais renomadas da Itália, tem sua realidade confrontada quando sofre um atentado em uma festa de gala, ficando desconfiada de possíveis trabalhos ilícitos feitos por seus parentes. Ela tenta descobrir os segredos que envolve seu sobrenome, revelando assim, a verdadeira identidade do homem que mais confiança, Vincent Bianchi.


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La Bella Famiglia

La Bella famiglia.

Itália, Milão.

Sophie Bianchi.

Eu sou uma Bianchi, e,apesar de não ser de sangue, sou uma deles. Talvez não conheça esse sobrenome, mas neste país é sinônimo de poder e luxúria. É uma longa história. Contudo, vale a pena contar.

A incrível Margareth Sanna, minha mãe, é apaixonada por duas peculiaridades:

dinheiro e beleza. Conheceu Vincent Bianchi, as duas coisas e ainda mais. Envolveu-se com ele ao ponto de se apaixonar, fazendo de tudo para conquistá-lo, até exibindo uma falsa vida com o dinheiro da pensão que meu falecido pai deixou para mim. Naquela época, não pude fazer nada, afinal, sendo minha única responsável, não tive por onde recorrer. Felizmente, o golpe do baú deu certo, eles se casaram. Vincent lhe entregou tudo que desejava, e,consequentemente, a mim também por ser filha, tratando-me como sua própria herdeira, com mimos que até Margareth sentia ciúmes. Por tanto tempo de convívio, acabei enxergando-o como um pai; era como ter de volta todos os momentos que não tive com o meu. Em determinadas circunstâncias, algo ocorreu no relacionamento deles e, por isso, se separaram. — tento descobrir o motivo até hoje. — Pelo nosso vínculo ter crescido durante os anos, Bianchi criou um enorme afeto por mim, o suficiente para me adotar. E, por isso, resolveu brigar pela minha guarda na justiça. Margareth não aceitou de primeira, sabendo que seria sua fonte de renda para a vida inteira.Entretanto, durante o processo, Bianchi propôs a ela uma ação pósdivórcio, já que segundo ele: não aguentava mais ficar longe de sua querida Sophie. Então, acabou que Sanna saiu ganhando com sua pensão de casamento mais o dinheiro que deveria ser gastado comigo caso ficasse com ela — é claro que esse ponto não chegou a ser visto pelo judiciário, tudo ficou entre eles — E ainda creio que se felicitou com o bônus de não precisar me aturar dentro de casa, atrapalhando os casos amorosos dela.

Portanto, venho morando com ele há alguns meses, mesmo ficando mais tempo com os empregados; porque está sempre trabalhando, nós temos um bom convívio. A questão é que não sou como minha mãe. Não quero passar a vida inteira atrás de uma outra pessoa vivendo às custas dela. Mediante a isto, inscrevi-me para a faculdade mesmo com todos contra; a famosa explicação de que nunca precisarei trabalhar por fazer parte do berço de ouro. E após ter conhecimento das várias possibilidades que posso ter, dos caminhos que posso seguir, meu objetivo se tornou sair de casa. Mas para a herdeira da família Bianchi, não será fácil, pois todos da família jogam na minhas costas que tenho que viver a prol do patrimônio familiar. Quanto a Vincent, para ele, sou apenas uma menina frágil que deve ser protegida a todo custo. E para ganhar os demais, preciso ganhá-lo, mostrar que sou independente, uma mulher adulta que pode resolver tudo sozinha e que não tenho interesse nenhum no ramo da família, assim como meu tio.


— Senhorita. Por favor, venha tomar seu café da manhã, o senhor Bianchi a espera. — disse-me uma das empregadas, em frente à porta do quarto.


— Calma! Estou indo. — respondi, colocando a mochila nas costas.


Não tenho o costume de tomar café da manhã, mas como hoje é um dos raros momentos em que ele está presente, preciso estar junto dele na mesa porque ele não gosta quando pulo as refeições. Considero um dos piores momentos porque é nessas horas que me trata feito uma criança, perguntando sobre assuntos fúteis, como se eu não soubesse cuidar da minha própria vida. Então, adentrei a cozinha, logo reparando na limpeza excessiva; não costuma ficar assim direto, mas sim na presença dele, pois todos sabem de sua mania de limpeza, cientes de que podem ser demitidos por isso.

— Oi, Pai. — cumprimentei, desanimada;jogando a mochila sobre a mesa. Sempre me tratou como uma filha legítima, até mais do que minha própria mãe, me dando apoio incondicional. Tratá-lo como pai é o mínimo que faço para retribuir.

— Hoje é seu primeiro dia na universidade, não? — perguntou, impecável como de praxe, trajando o majestoso terno preto da chanel, atribuindo mais destaque com o relógio prateado em uma das mãos; segurando o jornal do dia.

— Sim, senhor... — Ele continuou lendo, por vezes trocando de página. De repente, tossiu forçado, o que me leva a crer, por conhecê-lo bem, que vai puxar um assunto delicado.


— Então... Estou de folga do trabalho hoje. Para levá-la no seu primeiro dia, isso é importante, não? — É normal os pais levarem seus filhos no primeiro dia, mas soa estranho com ele porque sempre deu preferência ao trabalho em tudo.


—Por que isso agora? Não quero... Você nunca teve atitudes como essa. — reclamei. Pois é óbvio que é mais uma das atitudes superprotetoras dele, fragilizando todo o meu ser.


Ele abaixou um pouco o jornal; os olhos cinzentos para mim demonstraram toda a arrogância que não pude ver na expressão ocultada.


— É, senhor. E não faça pirraça. Está decidido. — concluiu, com autoridade no tom da voz.


Não quero ser conhecida como a filha do Papai na universidade. Já é muito o meu sofrimento em eventos familiares.


— Não quero ser vista como a filhinha do Papai, então vou sozinha.


"Basta algumas palavras, e ele se transforma." É o que costumo ouvir quase sempre sobre Vincent Bianchi, que, não obstante da aparência sedutora, a pele esbranquiçada, os olhos acinzentados e o corpo robusto, reside um homem cruel, cuja bondade é apenas vinculada a sua querida princesa, Sophie. Confesso que nunca presenciei esse lado dele. Por isso, não posso opinar.

Vincent pôs o jornal na mesa, se ajustando mais na cadeira. Jogou as mechas negras lisas para trás, suspirando.

— Está dizendo que tem vergonha de mim? — indagou, sendo falsamente manhoso. O cínico cruzou os braços, acrescentando:

— Não sou um velho. Fará inveja nas suas colegas de classe. — sorriu.


Meus olhos reviraram em desprezo e, assim, escutei a gargalhada dele. Está adorando a situação.


— Pois é! Ficaram enchendo o meu saco para conseguir seu número, por isso mesmo não quero.


— Olha o palavrão... Mocinha. — Bianchi levantou ainda descontraído, selou minha testa brevemente e avisou antes de sair:


— A senhorita tem dez minutos para o tomar o seu café e entrar no carro. Estou a sua espera, amore mio.


O poder de um empresário é a influência, o quanto consegue manipular as pessoas a seguirem todos os seus desejos egoístas. Para alguém no ramo há anos nesse país, Vincent Bianchi é mais que preparado quando o assunto é ter o que deseja, usando artimanhas a seu favor. E comigo não é diferente Então não quero arriscar que use os contatos para me tirar da universidade; caso isso vier a acontecer, nunca mais falarei com ele. Por isso, aceitei entrar no carro, até porque não é bom arrumar discórdia por tudo. Durante a viagem, além da música clássica italiana, o silêncio permaneceu, e não ousamos dizer nada um para o outro, além de que eu estava mais entretida olhando para a paisagem na janela e, aparentemente, observando pessoas apaixonadas pelo carro Lancia. Quem não fica? É sonho de consumo de muita gente. Porém, não quero ser vista pelo que tenho, e sim pelo que sou.

Em frente à universidade, os olhares mostraram que as pessoas realmente gostam dos que têm luxo a exibir. Pareciam boquiabertos. Bianchi abriu a porta do automóvel para mim, dizendo:


— Venha, querida. — E ao sair do carro, observei as meninas agirem como se nunca tivessem visto um homem bonito na vida; cochicharam, algumas até assobiaram para ele.


Por um momento, me senti no ensino médio.


Vincent prosseguiu comigo até metade do gramado. Logo que paramos, foi audacioso para beijar minha testa como uma despedida infantil. Segurei-me para não surtar, mas todos viram a cena vergonhosa e, para piorar, ainda falou:

— Seja uma boa garota. Eu vou mandar alguém vir lhe buscar. Estou de folga, mas ainda tenho afazeres. Eu te amo. — Virei a cara, indignada.

— Sabia! Mentiu sobre folga hoje para ficar comigo. — Sem demonstrar incômodo nenhum com os olhares voltados para nós, o moreno apertou minhas bochechas, refutando:


— Ei... Ei. Não diga isso, sabe que não é verdade. Espero-te em casa. — sorriu, virandose para o caminho de volta.


Por um instante, peguei-me observando ele ir embora, acompanhada do sentimento de acolhimento, pois mesmo sendo constrangedor, estava fazendo por mim o que minha mãe nunca fez: mostrar que não estou sozinha, que tenho uma família, me apoiando. Contudo, foi na aula que a solidão se fez presente; todos alvoroçados, mas não com a nova aluna, e sim com o nome que ela carrega.


— Nossa! Eu só reparei no carrão foda, não imaginei que fosse o herdeiro dos Bianchi. — comentou o rapaz que se apresentou anteriormente como Sandro.

Uma jovem loira, de olhos castanhos, sentou em cima da minha carteira, acrescentando:

— Quem pode ser tão legal além do herdeiro Bianchi? Meu deus! Reconheci ele na hora... igualzinho na revista... e você também, não é aquela menina mestiça que ele adotou alguns anos atrás?


Uma angústia imensa adentrou meu peito, meus olhos desviaram dos dela ao ver a feição de repulsa enquanto fazia a pergunta. Caçoou de mim indiretamente, como se fosse uma pobre coitada que tirou a sorte grande.


— Eu sou uma italiana como você. — disse-lhe, em tom baixo, reprimida.


— Enfim... Meu nome é Loren e espero que sejamos boas amigas. — ergueu a mão para cumprimentá-la,. Então, fui educada.


— Você é mestiça, mas não tem o corpo volumoso... não tem uma beleza exótica. — A loira me olhou de cima abaixo, saindo de cima da carteira. De repente, alguém se intrometeu:


— Miscigenação italiana é um bom tema, mas não para a nossa aula, Senhorita Loren.— Toda a turma se calou; era o professor, acomodando-se na mesa ao lado da lousa.


— O foco importante é a matemática financeira... — Ele continuou, focando na matéria.


Foi uma surpresa ver que um homem que aparenta não estar na casa dos trinta está lecionando para alunos universitários. A aparência típica de um italiano; o corpo robusto, alto, as mechas castanhas e os olhos escuros provavelmente arrancarão suspiros das jovens.


A aula foi mais impecável do que a beleza, todos os alunos prestaram atenção sem qualquer agitação. No final, o professor se apresentou:


— Bom, com o término da aula, mostrarei o meu respeito a vocês agora por conta do meu atraso e me apresentarei. Eu sou Robert Valence. Darei aula a vocês de matemática avançada, como minha primeira observação sobre a turma... — Ele deu alguns passos para frente, observando os arredores da sala. Parecia buscar alguém. Era Loren.

— Vocês precisam aprender respeitar as pessoas, impor seus próprios limites.

Ninguém ousou contradizê-lo. Pelo menos não agora. Afinal, são filhos de ricos, costumam ser mimados pelos pais, quem dirá ficar carregando sermão de professor, talvez aprontem algo depois.


— Espero que respeitem as diferenças um do outro. Vocês não estão estudando numa universidade qualquer. É uma de prestígio, com uma forma diferente de ensinar. Não manchem o nosso nome, entenderam? Por hoje, é isso.

Eles saíam encarando-me de um jeito, me fazendo de culpada, e não a vítima. É um sinal de que Loren talvez seja alguém respeitada por essas bandas. No fim, o professor me parou no corredor dizendo que me acompanhará até a saída por receio de que houvesse represálias contra mim, então aceitei porque foi gentil ao lutar por mim, no caminho, disse:


— Não dê importância aos comentários dos seus colegas de classe, a ignorância está enraizada no ser humano.


— Eu sei... E não me importo, obrigada.


Acabei sendo rude, mas foi o que me ensinaram. Não posso dar intimidade para as pessoas fora da família porque elas estão sempre mais interessadas no sobrenome que carrego do que comigo. Aposto que a administração da universidade sabe da existência de um Bianchi estudando. Então tomarão todas as precauções para que nenhum assunto importuno saia na mídia por mim, seja uma reclamação. Aliás, é o que mais fazem hoje em dia. Até pensei em fazer, mas creio que o professor tomou as medidas necessárias.

— Tente não faltar aulas, mesmo na presença de compromissos, já que iniciou seus estudos presenciais tarde. — avisou, antes de nos despedirmos em frente à porta da saída. É o que digo: deve achar que participo dos assuntos importantes da família, quando, na verdade, não sei de nada.

Foi ao sair da universidade, que avistei a chefe de segurança: Kathia,me esperando encostada no carro de passeio da família.

— Está tudo sob controle, Senhorita Bianchi? — questionou ela ao me aproximar do carro.

— Sim, não se preocupe. — Kathia respondeu com um sorriso discreto; abrindo a porta. Em um breve instante, reparei na beleza asiática, percebendo o descontentamento na feição, mas nada comentei, pois não há intimidade.

A volta pareceu mais rápido, talvez pela falta de ansiedade pelo fato do destino ser diferente. Ao chegar, me deparei com o compromisso importante que ele alegou: estava cozinhando, entretido com o corte das carnes na tábua; de costas para mim e de frente para a pia.

— Tantas coisas para fazer... E o senhor prefere isso. — disse-lhe, encostada no batente da porta.


Vincent virou para a frente, mas voltando atenção para os temperos espalhados na mesa, escolhendo-os e picando.


— Eu sei... Um hobbie peculiar para quem tem dinheiro para fazer algo considerado melhor. Porém, saiba que os melhores momentos da vida vem de situações mais simples. Enfim, como foi seu primeiro dia?


Meu corpo precisava relaxar graças à falta de costume de acordar cedo e começar as tarefas pela manhã. Então sentei na cadeira de frente para a mesa, descansando os braços nela enquanto lhe respondia:

— Foi bom. Fiz amizade com o meu professor Robert.

O foco maior era em terminar o cozido, mas escutou bem minhas palavras, porque agiu de mal gosto.


— Kathia. Traga para mim a lista de funcionários da universidade. Depois disso considere-se dispensada do serviço por hoje. — Juro que não a percebi na cozinha, sua presença silenciosa realmente faz efeito.


— Sim, senhor. — aceitou ela, provavelmente referenciando-o.


— O que o senhor vai fazer? Descobrir quem ele é? Pode me perguntar. Não seria mais fácil? — indaguei, vendo-o colocar o cozido no fogo e ir em direção à estante de bebidas, dizendo:

— Como você é ingênua, Sophie... Não é sempre que as pessoas mostram ser quem realmente são, principalmente, para pessoas como nós. É importante investigar o histórico de cada uma delas. — Ele pegou um dos vinhos e duas taças.

— O que deseja beber? — Bianchi colocou os recipientes na mesa, junto do vinho.

— Não concordo. É melhor conhecermos as pessoas com o tempo, isso é ser verdadeiro... O senhor age... como se estivéssemos em constante perigo. — Fui direta. Qual é a graça de sabermos tudo sobre uma pessoa assim?


Vincent demorou para responder. Terminou de preparar o cozido, dispondo-se a colocar a refeição para nós dois. Naquele instante, senti estranheza, algo não bem vindo chegando.

— Parece estar mais interessada nele do que nas suas aulas. — Ele sentou após colocar um recipiente de água na mesa; suponho porque não o respondi sobre qual bebida tomar.

— Claro que não! Depois de tanto esforço para conseguir fazer algo que amo... — resmunguei, observando a refeição. O cheiro estava maravilhoso, só de olhar o molho misturado aos pedaços de carne, deu água na boca.

Não houve comentários até que ele terminou de deliciar-se da degustação para dizer no momento que pegou o lenço:

— Eu amo você, querida. Por isso, estarei sempre buscando sua segurança, queira você ou não... Aliás, tem algo importante que precisa saber. — Bianchi provou do vinho, balançando o recipiente em seguida.

Meu instinto não falha. A gentileza não vem de graça. Ele está me preparando para pedir algo desconfortável.

— O que é...? Papai. — De imediato, demonstrei meu descontentamento com ironia, mas, em vez de repudiar, sorriu lisonjeado; creio que por chamá-lo de papai. Ainda provando da gloriosa refeição, que, por sinal, estava estupenda, escutei:

— Todo ano há confraternizações em família... Todos estarão presentes, até sua mãe.

— Quero que vá comigo dessa vez.


Minha resposta ficou entalada. Depois que Margareth trocou a oportunidade de ficar comigo por dinheiro, nunca mais a amei do mesmo jeito. Passamos por tantas coisas juntas antes dele chegar. Tudo bem que Margareth sempre foi interessada numa vida boa, mas nunca imaginei que iria tão longe. Apesar de tentar ser presente na minha vida, meu amor por ela não é o mesmo. Às vezes me pergunto se estava comigo apenas porque recebia a pensão do meu falecido pai.


— Está tudo bem. Não dá para fugir disso sempre. — respondi, indo em direção ao quarto, mas Bianchi interrompeu minha ação.


— Sophie... Você tem a mim. Não se esqueça.


É como dizem: “uma ação fala mais que mil palavras”. Sorri apenas. Vincent sabe bem que o considero como minha família, mesmo diante de nossas diferenças; desejando que minha mãe participasse da nossa vida, mas temos um ao outro, e isso é o que importa. Eu o deixei para continuar os estudos no quarto, o início de uma atitude cotidiana na vida de um universitário que me deixa feliz. Porém, nem todos estavam cientes disso. Digo, porque na madrugada, um barulho fora do comum chamou minha atenção; havia passos e vozes grossas sondando a área. Então fui verificar o corredor, caminhando sorrateiramente até perto da escada. E acabei me deparando com homens no andar de baixo, na sala. Todos de ternos e usando uns chapéus bem à moda antiga. Aquilo me intrigou e, então pensei em me aproximar um pouco mais. Contudo, um deles me avistou. Tomei um susto e comecei a andar para trás. Ele parecia um bandido. As olheiras ao redor dos olhos eram tão medonhas em sua feição acima do peso que foi assustador. Preocupada, corri para a suíte do Vincent para avisá-lo da tragédia ,— já que não havia sinal dele com os demais. — sendo a primeira vez entrando no quarto, comecei a procurá-lo. Encontrei mapas colados na parede e alguns papéis na cama. nada bagunçado; o que é de se esperar vindo de alguém com TOC. O notebook estava ligado em cima da cama. Havia também uma foto minha junto do Belinsky ao lado dele como papel de parede. — não lembro de ter tirado.- Os ícones, com nomes estranhos, parecendo códigos, despertaram minha curiosidade, mas, de repente, alguém entrou na suíte. — Reparei pelo barulho. — Minhas pernas bambearam, e meu coração disparou, de modo que pensei que morreria, mas, diante da situação, foi sorte ver que era o dono e não um dos homens estranhos.

— O que está fazendo, Sophie? Eu lhe disse para nunca entrar no meu quarto sem a minha permissão. — reclamou Vincent, de braços cruzados. Reparei que ainda usava o terno, o que é estranho, visto o horário.


— Não! Presta atenção. O que está acontecendo? — Nervosa, fechei a porta para que ninguém nos escutasse.


— Quem são aqueles homens? Eu vim lhe avisar...! Fiquei assustada...


— Que homens? Não temos visitas...E você não deveria me procurar no escritório em vez da suíte? Que desculpa mal feita, querida. — Ele caminhou para o closet.


"É real o que estou ouvindo?" Foi o que pensei, incrédula. De modo algum foi uma alucinação. Na hora, fui direto para a escada ver se eles estavam presentes, mas, incrivelmente, nenhum sinal deles. Comecei a cogitar na possibilidade de estar ficando louca, então direcionei-me alarmada ao closet a fim de tirar satisfações com Bianchi.


— Não! Não pode ser possível. Eu vi uns cinco homens na nossa sala! O que está acontecendo?! — perguntei.

Bianchi retirou a atenção dos sapatos; vai saber o que estava fazendo. E virou-se para mim, com as mãos na cintura nitidamente irritado.


— Pare com isso! Apenas não entre sem minha permissão novamente. Está bem?


Eu o puxei pelo braço, fazendo questão de levá-lo até a escada e explicar onde os homens se encontravam. E a reação dele? Um abraço de conforto, insistindo que foi somente um sonho.

— Foi apenas um sonho, Sophie. Está tudo bem. Venha assistir um filme comigo no quarto. O que acha? Pode ser um dos seus favoritos.


Extasiada com a situação intrigante, deixei-me ser empurrada para a suíte, começando a crer numa alucinação causada pelo cansaço ou sonho. No fim, ficamos assistindo filme até ser posta na realidade novamente. O problema não morreu, e sim tornou-se ainda mais vivo quando o escutei no telefone — Em meio a sonolência. — Proferindo, bem baixo, como se não desejasse ser escutado:

— Como o nome dele não está na lista? Ele é um Valence, um homem feito.

(...)

Um dia depois.

À noite, mansão dos Bianchi's.


Sophie Bianchi.

A impaciência de Vincent em me esperar terminar de se arrumar me apressou, gritando a toda hora para descer. Mas desta vez não por culpa do jeito metódico dele, e sim porque minha atenção, mesmo depois de horas, era focada na conversa que escutei ao telefone. É verdade que não tenho nada a ver com a vida do professor,. entretanto, Bianchi parece saber do passado dele.

— Pronto! Desculpe-me a demora. Como diz, tenho que ser a mais bela da família. — disse-lhe, ao terminar de me aprontar, descendo as escadas.

Vincent subiu alguns degraus para me ajudar a descer e, sorrindo, elogiou:


— Me pergunto se estou à altura dessa donzela.


Para um homem símbolo da elegância italiana, arrancando suspiros com seu terno de grife e relógio Rolex, é um elogio e tanto, mas não muito verdadeiro, visto os rumores das mulheres com quem teve casos.

— Não vai me envergonhar. — brinquei, enquanto íamos para a saída. Ele ainda respondeu descontraído:

— Tem acompanhante melhor que você? Não mesmo.


Além dos rumores da mansão, conheci algumas das acompanhantes: mulheres com algum histórico na mídia; atrizes, cantoras e empresárias de influência. Ele sempre as escolhia a dedo, analisando o currículo de cada uma. Me surpreende que decidiu colocar a mim como sua acompanhante, mas nunca o fez anteriormente.

Então veio a "simples reunião em família" que está mais para uma festa de gala. O evento foi colocado no local apropriado para muitos convidados, um castelo com jardim a céu aberto: o famoso Granham. E foi para onde nos direcionamos. Na entrada, os convidados eram recebidos com um glamoroso tapete vermelho e lustres belíssimos impregnados no teto do corredor. Caminhando para o ponto principal onde ocorre a festa, cheguei a perceber os olhares percorrendo conosco nessa entrada. Empresários sedentos para ter uma conversa com o líder da família Bianchi, fotógrafos entrando na frente para ter uma boa exclusiva, sem contar as belas mulheres com seus olhares discretos que diziam mais do que palavras. Tudo estava perfeito, com muito mais detalhes,. Porém, minha aflição em encontrar Margareth era mais importante do que qualquer coisa. Por isso, Vincent captou minha distração.

— Segure-se em meu braço. Não quero que se perca de mim. — disfarçou sorrindo e acenando para os convidados.

— Não vou. Não sou uma criança. — refutei.

Ao chegarmos na multidão aglomerada no gramado, a previsão dele aconteceu. Pessoas para todos os cantos, empurrando. Resolvi, então, procurá-lo nas mesas, crendo não estar tão longe. Afinal, foram poucos minutos de separação. E acabei encontrando o homem que não segue as regras da família, que não liga para o que os outros pensam e, muito menos, deseja viver do modo que as pessoas dizem ser o certo. Pelo contrário, está sempre mexendo com assuntos ilícitos, sendo nosso motivo de escândalos; se tatuando, usando drogas, cometendo adultério, sem ter muita classe, o que, infelizmente, é importante para os italianos.

— Oh, Minha querida Sophie! O que faz sozinha estando tão bela assim? — Os azulados me fisgaram rápido.

Belinsky me cumprimentou com dois beijos em cada bochecha e me apresentou as três acompanhantes dele: Antonella, Giulia e Martina. Todas belas modelos, o que se espera sendo convidadas do meu tio.


— O senhor continua o mesmo, sempre chamando atenção de todos, Tio Belinsky. — disse-lhe, sorrindo; cumprimentando as acompanhantes enquanto ele pegava duas taças de champanhe.


— E por isso sou mais charmoso que seu pai. Falando nele, onde está? Com a acompanhante? — entregou uma das taças.


— Bem, a acompanhante está bem na sua frente... Eu me perdi dele, na verdade. — Simulei beber um gole por educação. Não gosto de beber e será desastroso ser vista por Vincent degustando numa festa. Ele tem receio de que eu fique bêbada em eventos.


O loiro aproximou-se com sua taça para fazer um brinde. Parecia estar mais bêbado que o habitual para o início da reunião.

— Um conselho, querida. Não seja como seu pai. — Nós brindamos e atenção do mesmo foi voltada para trás. Era Bianchi vindo na nossa direção. Belinsky o recebeu de braços abertos.


— Meu caro irmão! Que saudades suas!


Os beijos postos nas bochechas tiveram o olhar de repulsa do moreno como resposta. O loiro sabe bem como o irmão odeia ser tocado indevidamente, mas gosta de provocar.


— Eu estava dizendo à nossa querida Sophie o quanto sou mais charmoso que você. — Belinsky, radiante, envolveu um dos braços ao redor dos ombros do mais novo que os retirou irritado.


— Não me toque. E não diga asneiras, não é isso que os artigos dizem. — De repente, o moreno segurou minha mão:


— Vamos. Tem pessoas importantes para conhecer. — Me puxou para longe do mais velho, mas o loiro interrompeu puxando-me de volta.

Vincent pareceu estressado.


— Pare com isso, Irmão! Deixe a menina se divertir, conhecer os membros da família. Por que não vamos conversar um pouco, hm? — Os dois me encaravam esperando uma decisão.


Não soube o que fazer, afinal, não tenho o costume de me opor às vontades de Bianchi e, então, com a minha reação demorada, meu tio se prontificou de enrolar o irmão.

— Vamos! Vamos! Vou lhe apresentar para as minhas princesas. — Guiou o mais novo até elas: Percebi o desgosto de Vincent enquanto Belinsky acenava para me afastar rápido.


— Tenha respeito. Você é um homem feito. Como fica sua mulher nessa situação?


Meu tio respondeu: "cheia da grana." Foi a última parte da conversa que escutei antes de começar a vasculhar o local cautelosamente, tentando não me esbarrar com Margareth, assim, tendo a brilhante ideia de conversar com os parentes. Observei em volta, avistando meus dois primos conversando sentados em uma das mesas com outros jovens, então me aconcheguei e os cumprimentei com educação, mas a vergonha foi a primeira impressão. Eles me ignoraram e, como uma segunda tentativa, lhes desejei boa noite novamente. E assim, recebi atenção do meu primo Davi: o filho da minha tia que quase não vejo por conta das inúmeras viagens. Dizem ser rebelde pela ausência da mãe e outros pelo afastamento do pai, mas, para mim, é apenas um típico adolescente que gosta de ter liberdade, usando o termo "ser rockeiro" como motivação.


— Oh! Mas não é a nossa querida Sophie? — Ele comentou em tom de ironia. É de se esperar, concordo que o tratamento diferenciado depende da importância na família, e isto não é bom.


— Como vocês estão? Há tempo não nos falamos. — Tentei ser educada mesmo depois do constrangimento. Lane se virou para o meu lado, escorando o braço na mesa.


— É claro que estamos! Não vê, querida Sophie? Nossos pais organizaram esse evento em família... Porque os líderes mesmo não se importam com laços. — respondeu a morena, arqueando a sobrancelha.


Ser irônica e estonteante é a marca da modelo da família. O ego inflado a fez cometer várias tentativas de ter atenção do presidente da empresa. Me pergunto se ainda continua.


— Do que está falando? Vincent é ocupado. Não há como ficar se preocupando com festas.


Bem, tive que defendê-lo. A vida de pessoas importantes não é tão fácil como dizem. Quando você tem o maior cargo da empresa, toda a responsabilidade é jogada para cima de você, sendo boas ou ruins. E, como alguém que mora com ele, conheço bem essa frustração. Davi não gostou da forma como falei com a irmã. Levantou-se tentando me intimidar. Senti um pouco de medo por nossa diferença de altura, mas não recuei. Continuei encarando-o, com as mãos na cintura.


— Hã? Agora você é a expert em negócios? Depois que sua mãe deu o golpe do baú no meu tio, você se acha no direito de falar dos assuntos da família?


É verdade que Margareth agiu desse modo, mas demonstrou ter sentimentos pelo Vincent durante o casamento. Foram felizes. Não posso deixá-lo difamar os dois nesse nível.

— Não ouse falar do que você não sabe.


Meus olhos ardiam de repúdio por ter que encarar aquela cara nojenta dele. Minha vontade era de cuspir. Se achando melhor porque nasceu em uma família boa? Poupe-me, Davi. O que fez pela família a não ser gastar dinheiro dos pais? Agora que arrumou um cargo, justamente, porque o homem que ele diz não ligar para família concedeu um a ele.


— Então o que é aquilo? —intrometeu-se Lane, apontando para frente.


— Não é sua mãe em volta de vários homens? Como dizer que estamos errados?


E lá estava ela, se insinuando para eles. Sempre fora difícil defendê-la e agora não foi diferente. Cabisbaixa, suspirei, deixando o orgulho de lado e caminhando alguns passos para longe deles. Mais uma vez, ela foi minha decepção. Eu estava decidida a deixar a discussão de lado, escolher o silêncio porque eles, de certo modo, disseram a verdade, quando, novamente, testaram minha paciência.


— Isso mesmo. Aceite sua realidade: quem vem de baixo não pode esconder suas raízes. — comentou Davi no tempo que os outros riram. Parei por um segundo e virei as costas jurando a todos o arrependimento que terão. Posso não ter influência, porém, tenho alguém que a possui o suficiente para fazê-los pedir desculpas.


O restante da festa foi encontrar o Líder dos Bianchi's que, por sua importância, está em constante mudança indo de lugar a lugar para conversar com os convidados. Foi a chance de repensar e ir contra a vingança, mas depois de anos convivendo com um italiano, você aprende a dar valor à sua honra. Então após receber confirmações por uma das acompanhantes que meu tio Belinsky saiu a pouco tempo atrás dele na ala pessoal da família. Me direcionei até lá, sendo barrada por um segurança no corredor.

— Me desculpe, senhora. Mas o senhor Belinsky deixou explícito que não quer a entrada de ninguém.


— Eu sou parente do Vincent Bianchi. Quero falar com ele. — O homem alto e gordo revirou os olhos, irritado, ainda mexeu no bigode, recusando:


— Eu sei quem é a senhora, mas não posso desacatar ordens.


Havia duas opções: voltar para o salão sem conseguir meu objetivo ou testar a veracidade de que tudo pode ser comprado com dinheiro, e assim o fiz, não podia perder todo esse tempo em vão. E como ele reagiu? Com um obrigado, pedindo para não demorar muito, pois, usará como desculpas a urgência de ir ao toalete.

Todos os quartos no corredor pareciam ocupados, exceto pelo último com a porta entre aberta e a luz acesa. Me aproximei com cautela, enxergando meu tio de frente para o mesa do escritório, segurando um copo de whisky; observando o recipiente sem dizer nada. Achei que fosse o momento apropriado para adentrar, mas quando o faria, escutei a voz do irmão dele:

— Não me diga que veio porque está preocupado comigo, Belinsky. Saia agora.

Descontraído como de praxe, o loiro ergueu o corpo para o mais novo, e respondeu rindo:

— Não! Eu vi apenas para brindar contigo, Oras! Vincent! — ele bebeu o líquido, respirando fundo depois.

— Sabe que só venho quando tenho algo importante para falar. É sobre os Valence.


Em pensar que cogitei interromper, felizmente, não fiz. Novamente, esse nome circulando, minha intuição estava certa sobre a ligação ter sido estranha. Minha curiosidade pediu, , mas afinal, sinto que há muitos assuntos da família que desconheço, principalmente, sobre Vincent Bianchi. Por que ele mentiu sobre os homens na sala? E por que tamanha preocupação com o sobrenome do meu professor? Eu preciso saber mais e, portanto, continuei escutando.


Vincent nada respondeu, e, então meu tio o pressionou mais:

— Soube que andou se aprofundando neles. Qual é o problema? Algo aconteceu? — Encostou na parede, cruzando as pernas.

— Está me espionando? Fui verificar o sobrenome... Tem um valence dando aula na turma da minha Sophie, não lhe é estranho? Porque na lista que me entregou o nome dele não constava.

De repente, Belinsky ficou preocupado. Afinal, o que diabos esse nome esconde?

— Como? Eu não sabia disso. Mas acha que é algo para se preocupar, Meu caro irmão?

O loiro se aproximou do outro de modo que não pude vê-lo, mas conhecendo-o, creio que está em mais uma de suas tentativas de confortar o mais novo com um abraço ou um tapa nas costas.


— ...Siga o seu próprio exemplo. Nem todos decidiram seguir essa vida.


— Você sabe que não funciona desse jeito, Belinsky. Não haja ingenuamente. Com nosso afastamento na área de campo, é momento dos abutres comerem. Eu espero que não esteja escondendo algo de mim, pois não o coloquei como representante disso à toa. É porque confio em você.


— Mas que isso, meu irmão! Nunca escondo nada de você! É estranho que o nome dele não esteja na lista, mas vou verificar... Deixe que o líder resolve isso, está bem?

Pelo que escutei, o loiro depositou alguns tapas de conforto nas costas do irmão.

— Aliás, não fique chateado com Sophie. Ela ainda não sabe o significado de ser uma acompanhante.


Estar atenta demais com o assunto da conversa me distraiu do perigo em ser pega escutando. Quando me dei conta, os passos dele já estavam próximos da porta, e minha única saída foi recuar de modo que aparecesse estar chegando. Surgiu efeito, contudo. A expressão do meu tio ao me ver no corredor foi incômoda.


— Como conseguiu entrar, minha querida Sophie? — indagou, acendendo o cigarro.


— Bem... Não encontrei nenhuma restrição, então... O senhor viu o Papai? Preciso falar com ele. — Fiz de desentendida. Belinsky indicou o lugar e comentou que há uma coisa importante para fazer. Nos despedimos nesse ponto.

Após descobertas de mais dúvidas, o problema dos meus primos não eram mais significantes, e sim o interesse no sobrenome Valence, mas precisei manter as aparências para o meu tio. Segui para o encontro com meu pai. Pois qual é o motivo do Belinsky se intitular o líder sendo que o dono da empresa é Vincent? Talvez seja proprietário de uma nova rede? Preciso descobrir. Mas, nas circunstâncias, foquei no objetivo principal: convencer o italiano de punir meus primos.

— Com licença... Procurei o senhor por todo lugar. — comentei, encontrando Vincent de costas, acendendo um charuto de frente para mesa. Ele se virou.

— Tem hora para o anfitrião participar do evento. Deveria saber disso, meu bem. — Bianchi encostou na mesa, ajeitando o terno enquanto manteve o charuto na boca e, assim tragou uma única vez. Fora o bastante para espalhar a fumaça pela sala rústica. Seus olhos acinzentados estavam prestes a penetrar na minha alma, e ele encarnou na face a dúvida sobre a minha visita. Não parecia feliz ao me ver, mas depois de caminhar todo o percurso, não pude voltar atrás.

— Eu... Eu quero um conselho. — falei, receosa. Faltou coragem para dizer o que realmente desejava. Era a chance de agir feito uma jovem mimada sabendo que ele resolveria para mim novamente. Porém, desta vez, senti que esperava algo de mim, e eu não quis decepcioná-lo.


— É bom pedir conselhos aos mais velhos, diga.


E o que direi? É minha mãe novamente? Não. É suicídio falar que estou defendendo alguém como ela, que me largou para continuar com a vida de status.

— O que fazer quando meus familiares sujarem a minha honra com palavras imundas? Eu... Não sei o que fazer.

O silêncio foi como me sentir em julgamento. Vincent continuou fumando, me encarando em profunda decepção. Sei disso. Para alguém como ele, uma pergunta dessas é de extrema repugnância, mas apesar de ser, não ignorou.

— Está vendo esse charuto, Sophie? — o moreno ergueu o tabaco, as cinzas quentes caíam sobre os dedos, o que era de longe desagradável para ele, que estava familiarizado com a dor. Continuou:

— Ele é caro, poucos têm dinheiro para comprá-lo, mas como qualquer outra coisa, é descartável e substituível.

Os passos vagarosos foram de encontro a mim. O charuto a centímetros do meu rosto, causou-me náusea pelo aroma forte.

— As pessoas são descartáveis e substituíveis. Descarte-as sempre que necessário. Faça isso agora.

Ele voltou à mesa, prestes a apertar o interfone. Naquele mero instante, tentei justificar:

— Mas são meus primos... será ruindade demais fazer isso.

— Traga os filhos de Valerie para mim agora. — Ele me ignorou, chamando-os no interfone.

A ansiedade se alastrou por todo meu corpo; minhas mãos começaram a tremer, a suar. Meu coração parecia atravessar a garganta. Em desespero, continuei procurando uma saída:

— Não! Eu vou até eles, Vincent. Por favor! N-não!

— Termine o que começou, Sophie. Nunca deixe de defender a sua honra. — interrompeu, sentando na poltrona atrás da mesa.


Tornou-se um beco sem saída. Por mais que justificasse, o italiano continuou me ignorando com atenção focada nos documentos na mesa. Então, em poucos minutos, os dois filhos de Valerie chegaram na sala. O nervosismo era tão grande, que sequer os encarei, a princípio, também não me olharam.

— O senhor nos chamou? — Lane tomou a frente. Davi parecia assustado: o pavor ficou evidente nos olhos arregalados dele. É provável que tenha passado por situações não favoráveis com Bianchi.


— Não tenho nada a dizer a vocês, e sim, à Sophie.


Eles me fitaram com repúdio, de forma totalmente diferente do jeito respeitoso que olharam para o tio. Isto me recobrou todas as ofensas ditas, mas ainda faltou coragem para destratá-los. O italiano percebeu e logo se intrometeu:

— Vamos, Sophie! Descarte eles. —


Ele se acomodou na poltrona, dizendo tais palavras como se não fosse nada, observando o declínio deles com gosto. Meus primos tremiam.

Quanto a mim, não houve outra escolha a não ser pagar pela minha impulsividade, com dificuldade de arrancar a frase hedionda dos lábios. Em tom desanimador, cabisbaixa, proclamei:


— Davi. Você está demitido. —


Sem tardar, Lane pôs as mãos na boca, desolada. As lágrimas escorreram pela incapacidade de tomar alguma atitude, no tempo, em que o irmão correu para se humilhar jogando-se na mesa do italiano. Uma cena angustiante, não pareciam familiares, e a culpa era toda do meu mal julgamento, do meu orgulho ferido, que se prolongou incapaz de revogar a situação por medo de ser punida por Vincent.

— M-mas tio! Por favor... Como vamos pagar a dívida da mamãe....? O senhor sabe!

Bianchi se levantou. Fora o suficiente para fazê-lo calar. O moreno ficou à frente do pobre garoto, observando a sua humilhação jogado aos pés dele. Em um estalo, meu corpo estremeceu. Vincent deferiu um tapa na cara de Davi, gritando:

— E ainda continua sendo impertinente! Sequer olhou na cara da pessoa que carregará o nome da família. Você não merece ser um de nós! Não tem o devido respeito! Foda-se os seus problemas e de sua mãe insolente. Cresça! vire um homem feito! Conquiste tudo sozinho. Está afastado. Não quero um frouxo usando meu sobrenome.


Davi ficou inconsolável. Lane se juntou a ele no chão tentando confortá-lo, implorando para revogar minha decisão. Entretanto, permaneci imóvel atrás de Bianchi. Não queria que me vissem chorando por pena, por medo de confrontar um pedido que eu mesma fiz.


— Saiam da minha frente!... Carlos! — gritou pelo segurança na porta, que assegurou o pedido eminente.


— Sim, senhor?


— Tire essas pragas da minha frente.


O homem nada respondeu, apenas acatou. Bianchi começou a pegar alguns acessórios na mesa. Decidindo reverter a situação, aproveitei a distração dele para seguir os dois no corredor.

— Lane! Eu vou tentar resolver essa situação, por favor! Me desculpem. — Ela se soltou da mão do segurança, e veio até mim.


— Resolver? Estamos falidos, garota! Tudo porque você não consegue aguentar algumas verdades. Nós a odiamos, nunca, nunca. Nunca vamos apoiar a sua sucessão! Entendeu?! Nunca! — O segurança não a deixou terminar, levando-a para longe acompanhada do irmão.


Igual uma fracassada, parei no corredor chorando, com a culpa consumindo-me por dentro, sentindo a necessidade de fazer algo para mudar a situação deles, mesmo com a certeza de que Vincent nunca voltaria atrás com sua palavra, sendo, na verdade, palavras ditas por mim. Um peso foi posto em meu ombro; arruinei vidas. De repente, o italiano apareceu do meu lado:

— Estou preocupado, querida. Você ainda não está preparada, temo que nunca fique. — Ele me abraçou por de trás, enroscando a cabeça entre meu ombro.

— Recebi uma ligação. Tenho uma urgência para resolver, me espere na suíte, descanse.— ficamos abraçados em silêncio por alguns instantes.


— Amanhã é outro dia. O dia que ficará mais forte. Eu acredito em você. — confortou.


Depois de todo ocorrido, não demonstrou nenhum remorso em relação a eles; agindo naturalmente, como algo cotidiano, mas o qual é a minha realidade? Quem é Vincent Bianchi? O que houve no passado para que se tornasse alguém tão insensível? É normal que alguém aja assim apenas para ter o respeito dos outros? Eu me sinto sendo acolhida pelo próprio diabo.

(...)

Minutos depois, em alguma localidade do Castelo Granham.

Belinsky Bianchi.


E o babaca aceitou o meu pedido. Não acredito, depois de agir feito um fraco com nossos sobrinhos — meu informante contou. — E ainda tem a audácia de aparecer. Passaram-se anos, mas a dúvida permanece: Por que meus pais o escolheram como líder?

Desde a sua sucessão, está arruinando o nome da família.

— Quem é este? — perguntou ao ficar do meu lado; ajeitando o colarinho.

O fracote tremeu ainda mais com a chegada do outro. Foi engraçado. Ainda que meu irmão saiba o que realmente é assustar alguém, sempre foi de se esconder atrás da vida de empresário. Diferente de mim, que está na linha de frente dessa merda, sendo o verdadeiro líder, tenho que garantir o título que é meu por direito.

— Você deve estar se perguntando como o lixo entrou. Bem, ele tem um crachá de fotógrafo, mas veio aqui para outra coisa, não é?


Não há sensação melhor do que pisar na cara daqueles que ousam te desafiar, não é? Minha virilha chega a formigar ao vê-los tentar respirar com um sapato cheio de bosta. É prazeroso vê-los debater a cara tentando tirar o sapatos, incapazes de usar as mãos. Um dia, o homem ao meu lado me proporcionará a mesma sensação.


— Chega, Belinsky. — Vincent atrapalhou meu momento de diversão. Revirei os olhos, obedecendo-o, já que ainda não posso contrariá-lo.


O babaca agachou de frente para o fracote, começando com as baboseiras de merda, assim como meu velho pai.


— Qual é o seu nome, Senhor? — com a boca toda suja de terra, tendo dificuldade para falar, o fotógrafo respondeu:


— Giancarlo Lombrett.


— Senhor... Lombrett. Como um homem que conhece os prazeres da carne, acredito que possua algum fetiche. Sabe... Eu tenho um gosto aprimorado pela dor, assistir as pessoas sendo torturadas, com seu sangue quente desviando do corpo enquanto a alma é consumida pela morte... É o fetiche que mais gosto. Agora, este homem ao meu lado...— Vincent apontou para mim, assim retirando um lenço do bolso do terno.


— Prefere resolver os equívocos mais rápido...


Ele estava fazendo aquilo novamente; limpando o rosto do fracote, tendo a coragem de chamar essa viadagem de “mania de limpeza”. Brevemente olhei para os seguranças para ver quais seriam as reações dele ao assisti-lo agir de tal modo; sequer esboçaram alguma expressão. Medo ou respeito? Pergunto-me o motivo da fidelidade.


— Darei-lhe alternativas. Me diga sem pestanejar quem o mandou, e o motivo, assim terás uma morte rápida, agora caso me faça esperar... farei ansiar pela morte por tamanho sofrimento que lhe causarei. — Ele levantou, observando o relógio de pulso.

— Você tem cinco minutos.

Eu quero sentir pena, mas não consigo. O fracote começou a chorar de desespero, arrastando o corpo imundo para perto do Vincent, suplicando para ser poupado, jurando não saber de nada. O sádico não expressou insatisfação e, como de costume, retirou um pequeno alicate do bolso, acenou para os seguranças o levarem até a cadeira próxima e o amarrarem. E logo iniciou o meu bel-prazer, trocando a música do evento com o sistema de som pessoal, colocando La follia de Vivaldi. A tortura é a única coisa da qual me orgulho do meu irmão, arrancando unha por unha, dedo por dedo, glorificando-se do aroma do sangue escorrendo por entre as mãos. Minha satisfação. Não perderia o momento por nada.


— Belinsky. Vá receber os convidados. — ordenou.


— E perder esse momento? Por nada! — gargalhei.


Era a primeira vez depois de muito tempo que o via sorrir de satisfação. O homem gritou pedindo socorro, mas quem o escutará no gramado atrás do castelo? Quem deixará de apreciar La follia por um pobre imundo? O cenário perfeito estava feito.


— Todo homem tem direito a uma segunda chance. Me diga o que sabe.— pediu uma última vez, parando a tortura logo que Lombrett correspondeu:

— E-eu... eu apenas recebi uma encomenda, está bem? E um email de uma conta estranha! Por favor! Me deixe viver! Eu tenho uma família para criar! — Ele se debatia feito um peixe fora d'água, as mãos tremendo sem controle, gritando de dor.


— O que lhe mandaram fazer?! Hã! Diga-me o seu propósito! — Vincent perdeu a paciência, arrancando com mais força agora as unhas dos pés. Giancarlo não suportou mais, confessou:


— Um pacote! Era para pôr uma droga na bebida!


— Assassinato! Assassinato! — berrei, debochando. É uma audácia tentarem enfrentar a família Bianchi, mas quem? Quem será astuto o suficiente?

Vincent encarou-o pensativo, retirando a arma das costas, apontando o revólver para o mesmo:


— Para atingir quem? Matar quem?!


— Sophie Bianchi. — Vincent ficou estático.


Não apenas ele, todos nós ficamos perplexos. Dúvidas foram postas na mesa: alguém está preocupado com a sucessão? Mas agora? Tão longe dela acontecer. Alguém como eu sabe que essa família não está sendo bem administrada, os lobos estão cercando os leões ou possa ser por algum segredo que Bianchi está escondendo?

— Procurem essa droga. — mandou. Um dos seguranças o vasculhou dos pés a cabeça, mas nada foi achado. O líder de merda resolveu pegar na máquina fotográfica e quebrá-la, um belo ato de inteligência. A droga foi escondida por trás da lente.

— Um ótimo momento para testar, não? — sugeri.

Os homens tiveram que segurá-lo, enquanto fiz questão de colocar o produto sobre a boca e as narinas. Não demorou para Giancarlo começar a se debater agressivamente, esticando os braços e as pernas, espumando feito um cachorro raivoso, os olhos sangrando como pipoca prestes a pular para fora. Uma obra de arte; foi satisfatório.

— Belinsky... Você não acha estranho usarem um homem comum para esse tipo de trabalho? —

Desgraçado! Bem pensado.

— Sim... Bem, não acha que isto foi uma distração, certo? — Todos ficaram surpresos.

— Belinsky. Me diga que conhece o segurança que colocou no corredor do escritório.


Meu erro foi percebido. Por que me importar com subalterno? Isto não é problema para o líder da família? Oras. Minha expressão cínica foi o bastante para fazê-lo correr em direção ao escritório. Não há nada mais prazeroso que assistir Vincent Bianchi em desespero, mas não pude ficar parado vendo minha querida sobrinha ser morta, então deixei o cadáver aos cuidados de Diego e seu grupo. Disputando a corrida do sofrimento com meu amado irmão, passando pelos convidados com tamanha simpatia enquanto o outro afundava na própria desgraça; seu nervosismo era nítido para qualquer um, o momento dele terminou. Mas, ao chegarmos na porta, a esperança foi arrancada de mim, o sangue espalhado no chão junto ao corpo com uma flecha fincada na face, não era do assassino. Sophie sentada do lado corpo, com o rosto e as roupas respingadas de sangue. Em choque, gritava sem parar:


— Pai! Me ajuda! Ele tentou me matar! Tentou me matar! — pela primeira vez, não sabíamos como reagir, pois, afinal, há alguma possibilidade de alguém como ela sobreviver?

9 de Maio de 2021 às 22:54 0 Denunciar Insira Seguir história
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