maxrocha Max Rocha

Sofrimento, dualidade, morte. O mal maior à espreita, incontrolável...


Horror Literatura monstro Para maiores de 18 apenas.

#destino #maldição #fúria #sina
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ENFURECIDO

Acordou mais uma vez com a já conhecida impressão de noite mal dormida: a fronte pesada... os olhos vermelhos... relutando em aceitar a luminosidade solar. A região lombar teimava em reclamar e a garganta seca tornava ainda mais difícil deglutir o café amargo que restara da noite anterior. Lembrou-se de outros despertares semelhantes, mas este lhe pareceu ainda mais penoso.


O ritual diário para encarar o tedioso escritório... desta vez, quase intolerável; o embate com os cabelos rebeldes, enquanto flashes ensanguentados, sons guturais e gritos de horror irrompiam em seus sentidos; o maldito nó da gravata... a perplexidade... açoitando sua mente; a água de colônia barata... incapaz de dissimular o odor rançoso; e as dores? Suas articulações gritavam como se fustigadas por instrumentos rudimentares de tortura; sentia-se confuso: uma aura de medo, remorso e culpa o envolvia, mas não conseguia entender sua origem.


A verdade é que desde jovem via-se envolto em pesadelos que o atormentavam, entremeados a períodos de quietude, mas sempre acabando por retornar. As crises se repetiam 1 ou 2 vezes a cada mês. Havia procurado inúmeros tratamentos infrutíferos: medicamentos, hipnose, medicina alternativa, ajuda espiritual... mas terminou dominado pelos delírios, vivendo em reclusão, receoso de expor seu terrível fardo; uma espécie de demência, talvez uma psicose latente... poderia melhorar com a idade, vaticinou um qualquer!


Evitava sempre que podia o acesso à mídia, sedenta de sangue e tragédias; seus pensamentos já o martirizavam de forma suficiente, apesar dos frequentes lapsos de memória: aquela estranha incapacidade cognitiva em reter os registros de sua mísera vida. Volta e meia uma lembrança... um misto de consciência e devaneio, em que rompantes de um distante acontecimento invadiam sua mente: uma trilha ao anoitecer... chuva... uivos... desespero... instantes de dor excruciante. A cicatriz em seu costado direito denunciava.


O choro incontido, sempre a suceder aquelas manhãs, era sua única alternativa. Em seu âmago, desconfiava de si próprio, mantendo à distância toda tentativa de aproximação. Como um pária, tentava inutilmente ludibriar sua sina macabra.


Sobreveio a fatídica noite: lua de caçador sob a miríade estelar; sombrios becos do subúrbio... caminhos lúgubres. A iminência de algo terrível emergia, irrefutável...


Muito poucos testemunharam a diabólica cena: olhos sinistros devoravam o ar viciado; garras inumanas arranhavam o piso fétido, em lugares abandonados pela dignidade. A criatura ensaiava seu instinto predatório, quando foi surpreendida: algo em tom prateado silvou no ar noturno, cravando-se definitivamente em seu tórax... um gemido rouco... um arfar desesperado... a voz do vento... a lua cheia, ofuscada por uma bruma negra, descortinou o ato final de misericórdia.


O edifício comercial amanheceu movimentado como de regra, todos atarefados com suas pequenas rotinas, em suas salas cinzentas e mal iluminadas pelas luzes de neon; sua ausência não chegou a ser notada e também não gerou qualquer mudança, exceto pelo silêncio incomum dos cães vadios àquela hora, habitualmente agressivos à sua chegada.

2 de Maio de 2021 às 15:19 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Max Rocha Um Fantasma literário ou alguém que apenas gosta de escrever... me interesso por ficção histórica e científica, suspense, misticismo e mistério com um toque de humor. Às vezes enveredo pelo tom crítico e motivacional do cotidiano. Escrevo ouvindo música instrumental relacionada com o tema no Spotify, ao lado da Duda, minha cadela australiana de 5 anos. The Phantom (O Fantasma) foi criado por Lee Falk, em 1936.

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IH Izzy Hagamenon
Olá! Faço parte do Sistema de Verificação e venho para te parabenizar pela Verificação da sua história. Gostaria de começar falando que eu adoro quando uma história coloca os leitores para pensarem uma coisa e no final é o oposto do que pensávamos. Foi isso que você fez aqui e eu adorei. Quero te parabenizar também por fazer um texto bem coeso que nos prende na narrativa. Acho que poderia repensar um pouquinho sobre a sinopse para atrair mais leitores para sua história. A melancolia e pessimismo do personagem nos faz pensar no porquê dele ser assim durante a história toda. Os flashes de memória que ele tem o faz parecer uma pessoa que sofreu um grande trauma e que agora ele está tentando viver com isso. Então imagina a minha surpresa quando chega no final e vemos que essa melancolia é, provavelmente, por ele se sentir culpado pelas coisas que fez quando estava fora de si. O conto está muito bem feito, mas na hora da revisão acho que você deve ter deixado passar o "os olhos vermelhos, relutando em aceitar a luminosidade solar." no lugar de "os olhos vermelhos relutando em aceitar a luminosidade solar.". É normal deixarmos uma coisa ou outra passar despercebida na hora da revisão. Você conseguiu me fazer sentir a solidão que o personagem sentia por ter que se afastar das pessoas, já que ele tinha medo de si mesmo e do que poderia fazer. Fiquei triste no final por saber que apesar dele não estar mais lá no escritório, ninguém notou isso. Ninguém sentirá a falta dele e isso é de cortar o coração. Mais uma vez, parabéns pela verificação. Bye bye!
May 06, 2021, 20:13

  • Max Rocha Max Rocha
    Muito obrigado pela leitura e pertinente comentário Izzy. Aceitei de bom grado suas sugestões. Muito feliz por você ter captado a aura de remorso, solidão e tristeza do pobre amaldiçoado de minha pequena história. Um abraço do Fantasma. May 06, 2021, 20:34
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