alanmattosanjos Alan Anjos

Gabriela vivia seus dias nas paginas de seu diário, velho e sujo, pois aquele era seu único amigo e a ele cabia mais que os ditames de uma adolescente. No escuro fim da rua uma figura tremeu e acenou, capturada por sua câmera, revelou o terror que habita em cada um.


Horror Todo o público.

#chuva #sombra #solidão #medo #suspense #horror
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Aqui estou eu, outra vez...

— Bom partimos do pressuposto de que a vida e uma fudida, não qualquer fudidia, uma puta senhora de tantos anos com seu vestido curto e aquele olhar que faria seu pai desejar não ter conhecido sua mãe. Aqui estou eu, outra vez meu querido diário, relatando a única coisa que uma adolescente e capaz de transmitir, problemas, problemas dos mais variados tipos e cores.

Em um quarto genérico dos anos 2000, com posters espalhados de alguma banda popular norte-americana da época, há uma adolescente acordada, escrevendo em um caderninho sujo, com folhas dobradas, algumas rasgadas, quase devorada por seus próprios dentes em uma tentativa pífia de apaziguar o coração perdido em amor.

— Meus pais acham que estou beirando a insanidade, acredita que estão cogitando em me levar a um hospital de doidos? – no canto entre duas paredes, formando um ângulo reto, descansava de bruxos um pequeno urso de pelúcia marrom, não estava sozinho, outros como ele, sentavam ao seu entorno – Na escola a situação não é diferente – suspirou ofegante como se estivesse em uma maratona – estou cansada de todos e de tudo.

A noite se estendia pelas ruas, mergulhando entre as ruelas e por alguns poucos becos mal iluminados. Os vagos postes não eram eficientes, mas ali estavam, cravados nas calçadas cumprindo um trabalho promiscuo.

— No jantar comemos bolo de carne, e como eu odeio bolo de carne, a senhorita Solitude – deixou a caneta escorregar da mão encarando as próprias palavras, apanhou o tubo com o entalhe em relevo escrito “BIC”, sentiu a aspereza então riscou ate a virgula pondo entre parênteses, retornou a escrever – mamãe, preciso me acostumar a chama-la assim. Isso me dói, me fere.

Fechou o caderno com a caneta no meio. Sentiu o vento frio soar quase harmonicamente pela janela aberta, as gasta cortinas que um dia foram brancas, tremeram, talvez pelo frio proporcionado pela chuva que aterrorizou as madeixas louras de Gabriela durante o dia e a tarde.

O ruído da água escorrendo pelas bocas de lobo, acrescentou o que qualquer cineasta de filmes B, poderiam desejar, o ruído de perigo em uma noite escura.

A lua minguante sorria entre nuvens; Gabriela se ergueu em um único movimento, suas meias aderiram ao piso azul-celeste, mais uma vez detestou quando encarou com seus olhos castanhos. Seus pais desde o início acreditaram que teriam um menino como filho, já quer era um desejo de ambos, mas foram surpreendidos na sala de parto.

No parapeito da janela, encarou a rua, escura e silenciosa, os tímidos postes com suas pontas luminosos pareciam velas acesas na mente da jovem, ao mesmo tempo eram belos e únicos, puxou do criado mudo uma maquina fotográfica, tão antiga quando se pode imaginar, mas era um presente celebre, o único que ganhou em toda sua vida, tinha mais valor que qualquer coisa vinda de seus pais, quem lhe presentou já não encontra entre os vivos, ou como sua mãe (senhorita Solitude) costuma dizer, “passou do prazo de validade”, um ano antes de falecer, sua inestimada vó, que curiosamente possui o mesmo nome que a neta, lhe presenteou com tal objeto.

— A senhora faz falta.

Levou a câmera para o rosto, posicionou o olho direito na pequena lente da parte de traz e ajustou com a mão a lente maior na parte frontal. Sentiu uma lagrima cair, rolar por sua bochecha corada até desaparecer no mar azul a seus pés.

— Espero que eu possa lhe ver logo.

A curta frase tinha mais peso que as de seu diário.

Pela lente da câmera, a rua parecia viva, repleta de borrões produzidos pela umidade, subindo pelo asfalto.

— Agora vamos trabalhar – o som do obturador dizia que uma imagem foi capturada – estranho, achei que a rua estivesse vazia.

No fim da rua, onde ela se encontrava com outra e seguia rumo ao mercado mais próximo, uma figura acenava, talvez estivesse se despedindo; o zoom da lente tornava a tarefa de descobrir quem era algo completamente impossível, tudo que Gabriel pode fazer e clicar varias e varias vezes, registrando de distancias diferentes na esperança de poder ver algo quando for revelar.

A chuva retornou e prejudicou as fotos, o vento jogava água pela janela.

— Que merda.

Selou a janela com a ajuda de uma tira de metal que se dobrou, o vento açoitou o vidro, cada vez mais forte.

— O vento parece querer entrar - mão no peito sentindo o coração pulsar, a câmera na outra, com a alça de couro escorrendo pelo chão – mamãe talvez tenha razão – retornou para a cama, o conforto do colchão macio e quente, lhe avivou boas lembranças, ainda assim tinha a imagem do fim da rua – acho que devo estar realmente maluca.

Por um instante a luz da rua se apagou, incluindo a de seu quarto, por alguma razão sentiu ser espiada, como se seus pensamentos fossem revelados antes mesmo de serem produzidos por qualquer reação química selada hermeticamente em seu cérebro.

Abri a boca para gritar o mais alto que seus pulmões poderiam suportar, mas antes que qualquer coisa fosse feita, teve sua boca tampada por uma mão que jamais teve braço, Gabriela se debatia, esforçava ao máximo para arrancar a todo custo os dedos que lhe calara, assim que a luz dos postes reacendera a de seu quarto também retornou e o grito contido exalou, tão alto que se engasgou. Entre lagrimas e saliva seu pai a encontrou na cama.

— O que a com você?

As primeiras palavras daquele homem foi o suficiente para Gabriela não lhe dizer o que havia ocorrido, ate porque, ela não poderia se quer saber explicar, seria aterrador para relembrar os últimos segundos; ele não se sentou e também não disse mais nada, aprecia estar afoito.

— Não foi nada pai. —” Menti na esperança dele insistir, mas eu e ele ficamos em silencio”.

O vento rompeu o trinco da porta, além do frio veio a chuva e folhas apodrecidas de um bosque distante que jamais pude conhecer.

— Gabriela – assim me chamou, parecia ter esquecido duas únicas palavras que poderia ter me feito dormir bem naquela noite “minha filha” – estarei no quarto ao lado, se algo ocorrer me chame.

Antes de sair por completo, espiou novamente a janela escancarada, até hoje não sei dizer o que lhe fez fecha-la, mas ali foi ele, arrastando os pés em uma obrigação.

— Pai você vê algo no fim da rua?

A princípio me encarou desconfiado, ainda assim espiou.

— Parece que os vizinhos no fim da rua esqueceram outra vez a capa de chuva para o lado de fora.

— Então e isso – senti o coração aliviar no peito – obrigada pai, mas será que hoje eu poderia dormir com a luz acesa?

Eu sabia que ele não iria permitir, ate porque meu pai era o único que trabalhava naquela casa, Solitude passava o dia no seu quarto, e as poucas vezes que eu via minha mãe era quando eu a chamava para comer.

— Claro.

Então ele saiu pela porta sem se despedir, mas não a fechou por completo, pude notar quando a luz do corredor se apagou, e o clique do corredor gelou meu coração.

— Definitivamente tem algo de errado – cobri a cabeça com a manta rosada que mantenho sempre a meu lado – mas o que foi aquilo?

18 de Abril de 2021 às 19:59 0 Denunciar Insira Seguir história
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