rodrigo_c_ciarlini Rodrigo Cerqueira

Cada um de nós é um universo com uma história diferente para contar. Nenhum de nós encontrará uma receita da vida que sirva a todos. Assim, o que podemos fazer de melhor é compartilhar nossas experiências a fim de que um alguém possa encontrar a si mesmo em nossas palavras, nossas angústias, dores e quem sabe tomar para se alguma ferramenta construída com a experiência que passamos e que relatamos neste livro. As histórias aqui contadas foram tomadas de outros ou vividas. Chegada a velhice, aflora o resumo deste conjunto, a resultante dos vetores e revés das dificuldades da vida. Nada como uma boa xícara de chá em um dia frio, e claro, um longo papo que no mínimo nos remeta a reflexão. @ All Rights Reserved


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A madrugada da sabedoria na mente dos homens.

- Que bom que estamos aqui nesta noite tranquila e fria. Nos conhecemos a tantos anos e nunca tive a oportunidade de ouvir de você sobre coisas da vida, suas experiências. Só falávamos do trabalho e sempre conversas curtas. Como hoje a energia elétrica faltou e a fogueira é o que nos resta para nos aquecer, gostaria de bater esse papo íntimo. Será que esse velho de quase setenta anos aguenta uma garrafa de vinho e um coração aberto. – Indagou Edward.

- Claro velho amigo. Estamos aqui para isso mesmo. Em uma agradável noite como essa, onde a tecnologia nos deixa em paz, o melhor é conversar sem interrupções. Mas prefiro tomar uma xicara chá. – Respondeu Marcos.

- Agora que você vai se aposentar, o que pretende fazer? – Perguntou Edward em tom sorrateiro.

- Acho que vou fazer uma caminhada a pé. Pelo menos um ano seguindo de um lugar a outro a pé. Com mochila nas costas, bagagem leve, nada de celular e computador. Talvez um pequeno gravador de voz. Não quero planejar muito, só ir. – Falou Marcos.

- Por que disso? Afinal depois de tudo, achei que iria aproveitar mais o tempo disponível para descansar, fazer viagens, curtir um pouco. Você sabe. – Questionou Edward.

- Já descansei por muito tempo. Ainda na casa dos meus 30 anos me libertei de várias prisões que o trabalho profissional e as obrigações do lar trazem. Nada material me atrai mais. Só quero caminhar. Acho que como aquele rapaz do filme Forest Gump. Não existe um motivo. Vou de um lugar a outro, o quão mais próximo da natureza for possível. Se me sentir seguro, acampo, se não, fico em uma pousada mesmo. Não quero nada de exótico ou cheio de clichês. É uma coisa só minha. – Falou Marcos.

- E por que não faz uma viagem de moto ou mesmo de carro? Você podia comprar um motorhome e ir longe. No sul do país tem muitos locais para visitar de motorhome e você pode chegar a ir para a Argentina, Uruguai quem sabe. – Questionou Edward.

- Mas aí eu não me desconectaria. Sem falar da tralha extra e manutenção. Preciso de uma conexão espiritual no meu caminhar. Sem falar que em sendo uma viagem a pé posso tocar as plantas, sentir a brisa, o calor, a chuva os aromas, ver a bicharada. E tudo devagar. Observando no detalhe. Me conectando a natureza, a paisagem. Além disso, caminhar é um excelente exercício para o corpo, horas de moto me dariam dor na coluna e de carro já viajei demais. Preciso de uma experiência que me prepare para uma vida mais desapegada do material, que me ajude a identificar no simples, no comum, no natural o sorriso e a energia para que todas as manhãs quando eu acordar possa ficar feliz simplesmente pelo despertar e a natureza que me saltar aos olhos, independente da paisagem. Que isso seja pleno e me deixe um sentimento de gratidão por esta aqui, independentemente do local. Sou grato por minha passagem neste planeta. – Falou Marcos.

- É uma ideia interessante. Mas porque agora, já depois dos 60 anos. Você trabalhou tanto, foram tantas conquistas, tantas batalhas vencidas e perdidas. E os velhos hobbys e os filhos e netos, não entram em seus planos? – Questionou Edward.

- Por hora não. A caminhada de um ano não é só uma viagem ideológica para minha cabeça. Penso eu que é a cura para vários problemas de saúde e acima de tudo, o sentimento que me move, trará uma estabilidade mental que me manterá distante das doenças ligadas a depressão. Minha esposa me acompanhará quando possível. Não posso lhe obrigar a ir comigo. Entenda, não quero uma aventura, longe disso. Preciso apenas me sentir vivo com o que vive ao meu redor e tornar essa experiência um culto ao planeta que me serviu de moradia por tanto tempo e que em função da vida que me foi imposta não pude apreciar. Sabe quando dizem; nossa, você morou em Orlando nos EUA. Então deve estar cansado de ir a Disney? Só que não. Morei lá por quase cinco anos e nunca fui a Disney, só estudava e trabalhava. As vezes imagino que depois da morte vão me indagar; nossa, então você estava no planeta terra encarnado? Deve ter tomado muito banho de mar, banho de chuva, apreciado os pássaros e seus cantos, o som do silêncio, o grito do carcará, viu a terra ser semeada e a planta nascer, viu a noite calar e a lua escurecer. E aí a resposta, não. Seria uma grande frustração. Afinal, todas essas bobagens de tecnologia, bens de consumo, dinheiro e tudo mais que o homem inventou, trata-se de uma grande realidade do consumismo do ser humano, uma grande ilusão. Não existe Gaia, ou um deus, ou um espírito para uma Harley Davison. Bem, tem metal na sua construção e tudo mais que vem da natureza, mais é como um ser disforme, como uma aberração frente ao minério em seu estado puro. Um monte de metal retorcido e pintado. Onde está a conexão espiritual. Onde está a nossa conexão com o planeta? Acho que eu me sentiria envergonhado de ter que explicar isso a um espírito que me indagasse no além-túmulo. Então é isso. Me sinto meio hipócrita de falar tudo isso, afinal fui um consumista e por longo período me desconectei do que realmente é importante para viver a vida frenética no capitalismo de alma vazia. – Falou Marcos.

- Isso foi profundo. Você tem razão nas suas colocações. Infelizmente muitos não vão entender. Poucos tem essa preocupação espiritual. Menos ainda essa conexão com o planeta. Quase todas as pessoas que buscam espiritualidade estão apenas tentando encontrar solução para seus problemas incompreendidos que não podem mais ser explicados pela medicina comum ou pela fé cega sem razão. Mas seu ponto de vista leva o contexto para outro nível. Como se você já tivesse resolvido tudo no campo do pessoal e do inter-relacionamento dos que te rodeiam. – Falou Edward.

-Não, longe disso. Na verdade, à medida que vamos envelhecendo aprendemos a ter mais paciência como nossos problemas nos diversos campos da vida. Mas chega um ponto em que você perde o controle e assim só nos resta escolher, priorizar. Minha caminhada não representa o fato de que ocasionalmente resolvi meus problemas materiais, ou pessoais com meus familiares ou que as doenças que permeiam em meu corpo sumiram. Representa sim, minha vontade e prioridade. Penso inclusive que demorei muito para fazer essa conexão. Só com o tempo aprendemos a nos amar, nos priorizar. Só as duras experiências nos ensinam o caminho da felicidade. Caminho este que só é alcançado quando aprendemos a nos aceitar como somos, com todos os nossos defeitos. Veja bem, o sentimento de liberdade só pode ser gozado quando nos livramos de toda a carga. Quando entendemos que o que precisamos é tão somente o necessário para que nunca essa liberdade seja roubada. Quando eu era criança só andava a pé. Então um dia ganhei uma bicicleta no Natal. Eu pedi muito ao meu pai. No momento tudo foi festa, alegria, diversão. Podia agora ir aonde eu quisesse com minha bicicleta. A cidade era o limite e agora eu me sentia incluso. Afinal, todos os garotos da minha rua tinham sua bicicleta e agora fazia parte deste seleto grupo. No entanto, a bicicleta precisava de manutenção, de cadeado, de vigilância e de responsabilidade. Quanto aos passeios! Eu continuava indo aos mesmos lugares que já ia a pé. Não me dei conta de que a bicicleta acabou por me criar certas responsabilidades que por fim se tornaram um fardo e só roubaram minha liberdade. Pior mesmo foi quando ela foi roubada na escola. Por um descuido, deixei sem cadeado e alguém levou embora. Tomei uma bronca terrível dos meus pais. Em menos de um mês fui de um garoto livre que andava a pé para um garoto triste, deprimido, com sentimento de culpa. Claro, tudo passou, existiam outros problemas maiores para eu me preocupar como as notas baixas no boletim. Mais o que relato é uma gota d’água no oceano da vida. Quanto mais bens materiais você tem, mais e mais vende sua liberdade. Mesmo aqueles que tem grandes fortunas e levam a vida simples, como o famoso Warren Buffett, certamente vivem com a liberdade roubada por seus bilhões. – Explicou Marcos seu ponto de vista.

- Dinheiro compra tudo, a quem diga. O discurso leva a uma lógica coerente, mesmo assim ainda discordo. Creio que seja possível ter muito dinheiro e manter uma ampla liberdade. É tudo uma questão de lhe dar com as coisas ao seu redor e com a importância que você dá ao dinheiro e as coisas materiais. Você não acha? – Perguntou Edward.

- Ora meu caro, se não existe importância ou relevância em relação a dinheiro e bens materiais, por que trabalhou por isso? E o que está esperando para doar tudo, se assim é. Sou suspeito para falar nesse tom. Corri atrás de dinheiro e de dar bens materiais a minha família por muito tempo na vida. Ainda bem que em certa altura minha esposa me abriu os olhos me deu um basta que me fez reduzir a carga de trabalho e dedicação aos negócios e me permitiu ficar mais em casa com a família. Desconectado dos problemas, este tempo se tornou o tesouro mais caro de nossa casa. Não tem sentido algum ter filhos para serem criados por empregadas ou avós. Uma vez ouvi do meu filho que preferia me ter pobre em casa todas as tardes para estudarmos e brincarmos do que um pai rico ausente. Virei minha vida, desacelerei os negócios e todos os dias ficava com uma sensação horrível de que precisava fazer a empresa crescer e me dedicar. Foi um tempo confuso. Mais com o passar dos anos consegui me encontrar e trilhar o caminho que minha família tanto me solicitava. Não foi uma situação que se resolveu de imediato. Mais ano a ano consegui me ausentar cada vez mais dos negócios e ficar mais em casa. Essa questão foi resolvida com uma atitude muito difícil da minha parte, que é delegar responsabilidades as pessoas e deixarem que façam seu trabalho e inclusive errem para que amadureçam dentro da curva de aprendizado. Aquilo teve um preço. Mais não me arrependo de nada. Pude ver meus filhos arrancar quase todos os dentes, primeiras palavras, lemos livros juntos, escrevemos juntos. Jogamos muito vídeo game, nossa, e como jogamos. E claro, fiz o que é necessário para educar um filho. A parte chata; cobrar, brigar, corrigir, educar, respeitar. Verdadeiros pais se doam muito neste aspecto. Eu era um pai jogo duro e meus vizinhos me achavam grosso com a postura que eu adotava e a cobrança do respeito e educação aos meus filhos, quando precisava engrossar a voz a eles. – Explicou Marcos seu ponto de vista.

- Isso não deixou eles magoados com você? Você não tinha medo de perder o amor deles por conta de toda a pressão? – Perguntou Edward.

- O amor é uma escalada. O primeiro degrau é o respeito. Nunca o perca. Haja o que houver, respeito. Enquanto há respeito há chance de amar. Se você perde o respeito por seus filhos e vice e versa, o amor morre e recuperar isso vai ser complicado. Então sempre tive esse sentimento. E nunca perguntei se meus filhos me amavam, apesar de eles próprios falarem com certa frequência e eu a eles. Esse é o tipo de pergunta que na minha opinião não precisa ser feita a um filho. Se ele te ama, você sabe. Mesmo que por hora ele não fale sobre isso de uma maneira direta. De todo modo, ser duro não é fácil. Falar de liberdade e ao mesmo tempo ter que limar muitas vezes as atitudes de uma criança é uma eterna busca por equilíbrio. Tenho que me policiar toda hora para não parecer que sou hipócrita. Pois para mim o segundo ponto mais importante é a questão do exemplo. Sempre achei ridículo dar sermão. Faço, mas odeio. Tive que manter a mente aberta para ouvir também o que vinha de lá. Meus filhos também me davam lições e cobravam certas posturas. Tudo baseado exatamente no que eu mesmo os ensinei. Então por muitas vezes eu assumi que fiz errado e me redimi. Não me arrependo disso. – Explicou Marcos seu ponto de vista.

- Mais toda criança e sobretudo todo adolescente precisa de sermão. É natural no processo de educação. – Afirmou Edward.

- Depende! Se você é todos os dias o exemplo que você quer para os seus filhos o sermão é desnecessário. Assim, fica a necessidade apenas de tanger suas personalidades. Torná-las seguras ao ponto de que ninguém mais possa ser interessante que seus pais. Assim os pais passam a ser a referência. Se a personalidade de uma criança ou adolescente é forte e os pais são a representação de todos os valores e atitudes que se espera de seus filhos, o sermão é desnecessário. Eu posso garantir. Assim, penso que o sermão é o remendo das imperfeições que carregamos em nossa postura ou na falta de nossa construção de personalidade. Veja, bem. Eu sempre escrevi e fiz questão de me manter estudando, sobretudo no mesmo período que meus filhos começaram na escola, como uma forma de ofertar a eles um ambiente onde estudar, escrever livros e montar coisas, são um fato presente no seu dia a dia. Meu filho mais velho aos 7 anos me pediu para ajudá-lo a escrever seu primeiro livro. Me pediu para ajudá-lo a vender seus livros para ter uma renda e regularmente estuda para olímpiadas de astronomia e outros idiomas. Tudo de uma maneira muito espontânea e são escolhas dele. Inclusive não gosto de estudar línguas em geral, principalmente russo. São vontades atípicas para uma criança da sua idade quando visto por observador que não mora em nossa casa. No entanto, é a realidade que os rodeia dentro de sua casa. Ele não é um garoto superdotado ou algo do tipo. Simplesmente copia o que assiste dos seus pais. Cresci ouvindo meu pai mandando que estudássemos e vendo ele ler ou estudar muito pouco. Uma vez me perguntaram o que eu gostaria que meus filhos fizessem da vida. Imediatamente respondi que gostaria que eles fossem exatamente como eu e minha esposa e trilhassem os mesmos caminhos, profissionais, morais, espirituais e amorosos. Se algo der errado ou não sair como esperávamos provavelmente foi a personalidade ou livre arbítrio de cada um que falou mais alto. Exemplo foi dado. – Explicou Marcos seu ponto de vista.

- Pois é. O tal do faça o que digo mais não faço o que eu faço, nunca funcionou. Esse é um ponto muito interessante. E como você sempre teve empresa e trabalhou com ações e investimentos, imagino que muito cedo você e sua esposa os educaram nessa realidade. – Afirmou Edward.

- Fui muito criticado por permitir que meus filhos ainda crianças tivessem vontade de ganhar dinheiro e poupar. Mas é exatamente essa educação financeira que lhes permite uma vida mais livre da necessidade de um emprego ou um negócio que roube seu tempo em troca de poucos trocados. Quando jovem vivi outra realidade financeira. Meus pais não eram pobres, mas tínhamos uma vida financeira apertada e meu pai trabalhava muito. Nunca sobrava e nunca se poupava. Então, estudar, por muitas vezes, se tornou um fardo, quando a meu ver deveria ser uma grande satisfação. Eu não tinha escolha, precisava de uma carreira que me desse condições de conseguir um bom emprego e alguma garantia de melhores rendimentos que meus pais. Quando a meu ver, a escolha da carreira deveria ser puramente ligada a satisfação e afinidade. Estudar também é uma busca espiritual e está intimamente ligada ao processo evolutivo. Ainda no meio da faculdade comecei a trabalhar e abri meus primeiros negócios. Me agarrei a oportunidade de ser empresário e trabalhei muito. Muitas noites perdidas de sono, muitos dias fora de casa em viagens a trabalho. Muita incerteza. Me casei muito cedo porque amava a ideia de ter família, foi o exemplo que assisti na minha casa. Meus pais se amavam muito. No entanto, demoramos alguns anos para ter filhos pois sabíamos que naquela rotina pesada de estudar, trabalhar, viajar, acabaríamos punindo muito as crianças. Já que tinha sido tanto insuficiente em outras áreas da vida, pelo menos este ponto soube ser paciente e estratégico. – Comentou Marcos seu ponto de vista.

29 de Março de 2021 às 19:51 0 Denunciar Insira Seguir história
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