choientist Beatriz Fernanda

Lara era a amiga imaginária abandonada de Gabriela, mas, se tornaria algo mais naquele dia.


Horror Horror teen Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#terror #original #conto #medo #monstro #lésbico #assombração
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Uma velha amigo

Um passo.

Dois passos.

Três passos.

Eu me sentia tensa. Minha boca permanecia arreganhadaem um sorriso, involuntariamente. Minhas unhas arranhavamo assoalho frio fazendo um barulho horrível no quarto escuro.

Quatro passos.

Cinco passos.

Seis passos...

As paredes pareciam se fechar a minha volta tamanha a expectativa crescendo dentro de mim.A poeira embaixo da cama fazia o meu nariz coçar eessa, talvez, fosse a pior parte da minha nova profissão.

Uma sombra pequenapassou por baixoda porta, eriçando pelos do meu braço. O momento que tanto esperei estava chegando. Há dozeanos eu esperava por esse dia efinalmente poderia enfiar as mãos em quem tanto admirei na infância.

O assoalho rangeu.

Uma pausa.

A maçaneta girou.

Em um baque surdo, a porta abriu.

Saí do meu esconderijo sujo no mesmo instante e apareci em sua frente, como uma estátua gigante.

Ela gritou e abafei sua boca com uma mão. Apertei tanto o seu rosto que a marca dos meus dedos permaneceu ali quando a soltei.Esperei até que se acalmasse e mexi as sobrancelhas,animada que tivesse feito a excelente escolha de permanecer quieta.

— O qu-que vo-você quer? —Gabriela perguntou com a voz falha. Seus olhos marejavam conforme falava. — O que faz a-aqui?

— Oh? Você não me reconhece? — Estalei a língua e passei as mãos pelos cabelos curtos, respirando fundo. Afastei-me minimamente de seu corpo duro e afinei a voz: — "Só você me entende, Larinha. Vamos pro nosso castelo encantado".

— Lara? — A incredulidade em sua voz me encheu de alegria; uma alegria louca.

— Não escuto esse nome sair da sua boca faz tempo. Você lembra quantas vezes me chamou durante a noite, com medo? E eu sempre te socorria. Aqueles pesadelos terríveis que tinha acabaram?

Sua boca se abriu e achei que gritaria mais uma vez, contudo, sorveu o ar com força e engoliu em seco. Relaxei a postura.

— Vo-você não era real. Não passava de uma... De uma...

— Uma amiga imaginária, não é? A sua amiga imaginária mais fiel. Sim, bons tempos... — Baguncei mais o cabelo, aproximando-me. Como era bem mais alta que ela, tive que me encolher até chegar em seu ouvido e sussurrei:— Lembra da primeira vez que brincou comigo? Eu lembro bem. Você queria uma garota mais velha e mais forte para te proteger, e foi assim que eu surgi.

— Não... Não pode ser!

— Lembra do primeiro segredo que me contou? Aquele menino da segunda série que você gostava e te enviou uma carta fofa. Depois, você descobriu que gostavade garotas— continuei narrando minhas lembranças. As nossas memórias. — Oh, como eu posso esquecer de quando me pediu para te beijarpela primeira vez? Você tinha quantos anos mesmo? Nove, né? Não sabíamos o que estávamosfazendo, mas foi um beijo doce. — Lambi os lábios e sorri, aproveitando da situação. As cenas eram nítidas em minha mente ainda.— Lembro da sensação até hoje.

Gabriela projetou os lábios para frente, pronta para chorar como uma criança,e senti vontade de beijá-la como havia feito quando éramos mais novas. Tantas vezes, entre sussurros e promessas de amor.

Uma pena que a merda já estavafeita. E fedia.

Sempre fui uma amiga imaginário fielpara ela e todos crescem um dia. Até eu cresci.Em algum momento, fui deixada de lado, vivendo negligenciada pelos cantos desse lugar. Passei doze anos da minha vida presa na casa daquela que me criou e imaginou, e não cuidou mais de mim quando acreditou ter amadurecida o suficiente.

— Quantos outros beijos trocamos... Tantas promessas... — comentei mais para mim do que para ela, inebriada pelos momentos de solidão que passei por tanto tempo. Eu não passava de umaadolescente bobo quando fui abandonada; tinhacatorze anos e estava apaixonada por minha "criadora". Quando Gabriela começou a ignorar nossa amizade, me vi obrigada a crescer e encarar a realidade. Viver escondida e sozinha em uma casa que nem era minha, observando a minha melhor amiga interagircom pessoas reais foi como morrer por dentro aos poucos.

Agora eu não sou mais uma criança tola. Eu cresci do pior jeito possível.

— Por que você está aqui? Você não é real. Não é! — Gritou assustada, até mais pálida que o normal.

— Você consegue me tocar. Eu sou real. — Aumentei o tom de voz para que ecoasse por todo o recinto meio escuro. A única fonte de luz, vinda da lâmpada do corredor, iluminava de modo precárioas nossas formas. Peguei a mão de Gabriela e a fiz encostar em minha bochecha direita. Sua pele fria e suada me deixou animada de novo. Beijei apalma com carinho, olhando fixamente em seus olhos arregalados.

— Não é possível. Não pode ser. Você foi embora, Lara. Você não existe!

— Quando aqueles seus amigos idiotas riram de você por ainda ter uma amiga imaginária, você não pensou duas vezes em me abandonar. Afinal, era uma coisa de criança. E você não era mais uma, estava se tornando uma moça crescida— ironizei, sentindo a raiva meferver por dentro. Empurrei sua mão.—Lembro bem de você gritando para que eu sumisse. Você parou de acreditar emmim, mas eu não sumi. Sabe por quê?

Ela balançou a cabeça em negativa e alguns fios docabelo claro cobriram seus olhos. Empurrei-os com calma, abrindosua visão paramim e, em seguida, enfiei meus dedos entre suas madeixas. Puxei com força, a fazendo se contorcer e cair de joelhos no chão. Seus lamentos me davam energia.

— Porque amigos imaginários são para sempre. Esó você não sabia disso!

— O que você quer que eu faça agora? Isso foi há muito tempo. — A voz tremulava conforme eu apertava mais meus dedos em sua cabeça. — Me deixa em paz, por favor.

— Você não quis mais acreditar em mim e esse foi o seu maior erro. — Estiqueio pescoço e abri a boca, liberandoum urro que estava preso em minha alma.As garras apareceram e meus dentes alongaram. Sorri para Gabriela, que começou a chorar de forma mais desesperada. — Eu te amava. Por que você não me amava?

Eu fui a sua primeira amiga, primeira confidente e primeiro amor. Eu existia apenas em sua imaginação quando éramos crianças, mas, era mais real do que imaginava agora que éramosadultas.

— Me deixa em paz! — Repetiu um pouco mais alto. Alguém estava tomando coragem?

Neguei e a imobilizei entre minhas mãos.Dei um casto selinho em seuslábios rosados, arranhando seurosto delicadoem seguida. Aumentei a força de minha boca, a obrigandoa abri-la para mim. Juntei nossas línguas com violência, tomada pelo momento. Forcei-a se levantar e agarrei sua cintura, enfiando minhas garras em sua barriga macia. O líquido quente molhouo chão e meu corpo. Ela gemeude dor e eu, de satisfação.Mordi seu lábio inferior até sentir o gosto prazerosode sangue me preencher. Separei-nos quando algumas lágrimas dela salgaram o beijo.

— Tenha doces sonhos, Gabi.

Empurrei-a no chão novamente e voltei para a escuridão em silêncio. Olhei parasua figura pequena efraca encolhida, imóvel, fraca... Pequenos murmúrios incompreensíveis saiam de sua boca machucada e sua respiração estava entrecortada. A poucaluz que a banhava mostrava o rastro de sangue na madeira e em sua roupa.


Eu não era mais sua amiga imaginária.Eu estavapronta para ser o monstro que vivedebaixo de sua cama, assombrandoos seus sonhose causando medoquando estásozinha.Eu a observareiem cada momento, causando arrepios em seu corpo magroe choros descontrolados de madrugada.Eu a visitareitodos os dias, sem a sua permissão,para lembrar dos "velhos tempos" e dar-lhe novosmachucados.

E fareiisso para todo o sempre...

1 de Março de 2021 às 17:09 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Beatriz Fernanda ↬ The Sopranos, Downton Abbey, Peaky Blinders, Beastars, Brooklyn Nine-Nine, The Office, The Good Place e Sherlock. ↬ Detroit: Become Human, The Last of Us, God of War e Resident Evil.

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