emvicente E. M. Vicente

Algo de estranho aconteceu no mundo. Criaturas trevosas tomaram o lugar do homem sobre a terra e um mistério no sol causa morte instantânea. A noite nunca fora menos segura agora, e algo mais ameaçador do que seres quase indescritíveis perambula lá fora em busca de saciar um credo bizarro. Sem qualquer resposta clara e sem um norte para seguir, Jonathan lidera seu pequeno grupo pelo caos do novo mundo enquanto enfrenta memórias dum passado obscuro e busca proteger a todo custo o último laço de sangue restante em sua vida. Uma luz no horizonte pode se tornar sua última esperança para longe da loucura sem precedentes que mudou fatalmente a natureza.


Horror Para maiores de 18 apenas.

#distopia #sobrevivência #morte #pos-apocalispe #misterio #ação #criaturas #especulativo #urbano #brasil #monstros #371 #288 #horror-cosmico
1
731 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Um


Dentro do ambiente escuro e empoeirado, Jonathan e Rubens arrastaram um sofá e bloquearam a porta de entrada com ele. Em seguida, o homem mandou que todos verificassem as janelas e outras portas do restante dos cômodos. Nenhuma delas, sequer, deveria permanecer aberta. O grupo se dividiu para assim checar cada área da casa, que não eram mais que cinco, contando com a sala onde estavam. Todas as janelas já estavam cobertas com lençóis, assim como as gretas das portas. Mas não fora possível de se verificar um dos locais, pois a porta se encontrava emperrada e deixaram-na de lado por um momento.

Rubens pegou uma vela gasta pela metade sobre um criado-mudo, onde havia mais três, dentro de um copo de vidro, e acendeu-a com o isqueiro Bic azul que pegou emprestado de Isabel e então a pôs de volta sobre o móvel, e o ambiente fora tomado por uma luz laranja e por sombras altas e medonhas projetadas nas paredes.

Uma chuva forte começou e, junto desta, também havia algo lá fora, ainda era possível de se ouvir, quase confundido com o som dos pingos. Não era um rosnado, nem urro, e nem um grasno duma ave. O som mais próximo que aquilo se parecia era com algo que se arrastava por uma superfície molhada; rastejava. Uma coisa pegajosa se arrastando por uma superfície úmida, com grande atrito... E estava lá fora. Aquilo veio de longe e deveria continuar seguindo, porém, parou, bem ali, na porta da residência onde se refugiavam. Um assombro as ouvidos, trajando agonia em aspecto sonoro.

Rubens abraçou Lurdes.

Isabel parou em frente à porta e apontou a arma em tal direção. Puxou o cão do revolver para trás e se preparou para atirar, caso fosse necessário. Permaneceu imóvel. Mal piscava. Manteve-se apenas ouvindo. Jonathan espiava-a de esguelha, a postura firme dela, o dedo perto do gatilho, sua expressão frígida enquanto mantinha os olhos na mira. Ele quase não a reconheceu mais por um instante. A pequena menina de vestido rosa que costumava carregar nos ombros em passeis dominicais ao parque próximo de sua casa nos anos dourados duma vida remota passada.

Rubens sugeriu que fossem para os quartos e se trancassem, no caso de a porta ser quebrada ou arrombada. Jonathan discordou. Sair pelos fundos seria melhor, ele sugeriu; pela porta dos fundos da cozinha, mesmo não tendo certeza do que havia lá. Não queria ficar encurralado num cômodo. Mas, naquele momento, pediu para que todos guardassem silêncio. Muito silêncio. Isso bastaria como noutras vezes.

Um trovão rugiu.

Isabel continuava mirando.

Jonathan parecia uma estátua olhando para a porta com a mão esquerda aberta e estendida a altura da cabeça. Os ruídos lá fora se intensificaram. Pedia apenas que esperassem, pedia que Isabel esperasse.

— Só esperem — sussurrou ele.

Algo tocou a porta, o que causou o gemido da madeira. Atrás de Jonathan, Rubens, abraçado à mulher, clamou a Deus. Lurdes rezava baixinho com os olhos fechados.

Jonathan espiou Isabel.

Ela estava estática.

Preparada.

Após alguns minutos apreensivos, os ruídos não foram mais perceptíveis. Porém a chuva continuava forte. Fora isto, tudo estava mais tranquilo. A garota empurrou o cão do revolver para frente e baixou-o em seguida, guardando-o por dentro da calça jeans preta, na parte da frente.

— Desgraçados — ela sussurrou.

— O importante é não ficar apreensiva — o pai a disse. — Ou pode errar.

— Eu sei.

— Sei que é difícil, mas tem que estar preparada.

— Também sei disso. Você não acha que estou?

— Vejo que sim. Está sim.

— Pois é.

— Preferia mil vezes você com aquele maldito celular na mão o dia inteiro do que com essa arma, mas...

— É. Eu sei. Esse tempo já era.

Isabel se encaminhou para o sofá que barrava a porta, baixou a mochila de couro das costas e deixou-a sobre o assento, sentando-se em seguida no braço do móvel. Levou a mão ao bolso da jaqueta de couro e retirou de lá um maço de Marlboro Reds e seu isqueiro Bic. Imediatamente, o homem tomou o objeto das mãos dela. Isabel exigiu de volta seu maço. Um trovão ecoou após o clarão azul do relâmpago. Jonathan fez que não e enfiou o maço no bolso frontal de sua calça jeans.

— Não adianta fazer birra — ele disse. — Eu falei e está falado.

Carrancuda, a jovem permanecera calada, mantendo o olhar para o lado.

— O que vamos fazer, Jon? — questionou Rubens Esteves, que costumava chamar Jonathan Martins da forma contraída.

O homem inspirou e se voltou para o amigo aos fundos, agora sentado na outra poltrona com sua esposa. Ela no assento e ele no braço deste.

— Vamos esperar — respondeu. — Vamos ficar aqui e esperar.

Retirou sua mochila militar e deixou-a sobre o sofá que barrava a entrada. Sentou-se e bufou. Inclinou-se para trás, correu a mão pelo rosto e pela barba grossa. Fechou os olhos com as costas das mãos seguradas sobre estes, e ficou assim por um instante. Imagens fragmentadas de tudo o que passara veio à sua mente, porém, desejava mesmo era não pensar em nada, não naquele momento. Adelaide. Este nome o perseguirá até o fim de sua jornada. Aquele nome e a face da qual ele pertencia. Um abafadiço fardo de suas inconsequentes inconsequências passadas. Uma cruz que há muito vinha tentando se libertar.

— Será que aqui é seguro? — perguntou Rubens.

Jonathan, ainda com os olhos fechados, respondeu de forma afirmativa ao amigo. Era seguro, sim. Precisava ser. Em todos os lugares que estiveram antes, a sensação de segurança era praticamente a mesma. Não mudava muito. Era arriscar ou nada. Qualquer lugar com teto e quatro paredes parecia perfeito, desde que a luz do dia não entrasse, e desde que aquilo lá fora permanecesse lá fora. Até o momento em que não for mais seguro, qualquer lugar é seguro. Ele estava contando que ali fosse por mais tempo possível.

De olhos fechados, Jonathan escutou Isabel bufar ao seu lado. Ela riscava o isqueiro e brincava com a chama, passando com a palma da mão bem próximo da mesma. Aquele barulhinho do riscar era irritante. Sua cabeça desejava sossego. Adelaide habitava nela, e muitas outras coisas. Mas não fez nada. Não mandou Isabel parar. Rubens conversava alguma coisa com Lurdes sobre uma das últimas paradas que fizeram antes de chegar ali, em uma loja de conveniências. Enquanto todos coletavam comida e qualquer restante de gasolina boa no posto, ele achou algo que julgou especial, que um corpo no chão usava no pescoço. Enfiou a mão no bolso do casacão marrom e tirou de lá um crucifixo de prata.

A mulher riu. Lurdes Esteves já carregava o sobrenome do marido a mais de 21 anos. Mesmo com a idade que já possuíam, eles pareciam um mero casal de jovens, sempre grudados.

— É para você. Para substituir o que você perdeu, da sua mãe. Queria esperar até que tudo ficasse mais tranquilo, então...

Ela o agradeceu e pegou o objeto, o acariciando com o polegar.

— Não tem o mesmo valor — ele disse. — Mas...

— Tem sim, querido. Agora tem sim.

Rubens concordou e a beijou nos lábios. Jonathan sempre achou que eles combinavam. Eram da mesma faixa de idade, dos quarenta anos, e ambos sempre se deram bem pelo que podia se recordar, e mesmo quando havia brigas era por coisas banais e não durava nada. Iam sempre à igreja juntos e organizavam retiros de Carnaval entre amigos para lugares calmos na cidade de Almas, onde viviam. Mas gostavam de ir mesmo para a chácara do velho tio de Rubens. Tio Régis, que só não fazia uma lasanha melhor do que a de Lurdes. E, por vezes, Jonathan participou, junto de Adelaide e de uma pequena Isabel na época, mais por insistência de sua esposa, porém também acabava gostando. Eram bons momentos de uma boa época.

A chuva começou a estiar. Isabel se levantou e foi até a janela, afastou o lençol e deu uma olhada pelas gretas. Não conseguia ver muito, tanto pelo fato de ser noite quanto pela chuva que, apesar de leve, ainda dificultava a visibilidade.

— Que droga — ela praguejou.

Jonathan se aproximou e perguntou a ela o que via. A garota sugeriu que ele visse com seus próprios olhos. O homem tomou o lugar dela na janela. Merda, ele pensou. A fonte dos ruídos ainda se encontrava perto. Não dava para ver muito, mas avistou um vulto se movendo mais à frente, algo esguio. E estava do outro lado da rua, onde conseguia ver um automóvel velho parado, ao lado de seu Honda WR-V. Pressionou os olhos para ver com mais acuidade e notou bem quando a coisa esguia se recolheu para dentro da janela do carona daquele carro velho. Jonathan se afastou com as mãos sobre o rosto.

— Merda.

— Ainda estão lá fora? — perguntou Rubens ajustando seus óculos Retrô redondos, um tique que possuía. — Pela sua cara...

— Parece que sim — disse se voltando para o amigo. — Dentro de um dos carros parados lá fora.

— Dentro do seu carro?!

— Não. Não que eu tenha visto, pelo menos. Era só um, pelo que vi.

— Mas podem muito bem ter entrado em seu carro, né?

— Não. Eu tranquei as janelas. Esqueceu?

— Mas eles podem quebrar, não é?

— Sim, Rubens, sim. Mas pelo que vi, estão intactas. As que pude ver. A chuva atrapalha.

— Senhor amado — falou Lurdes baixando a cabeça. — Isso nunca vai ter fim?

Rubens a tomou pela mão.

— Vai ficar tudo bem, querida. Acredite que vamos passar por tudo isso.

— Precisamos ficar em silêncio agora — disse Jonathan. — Mais cedo ou mais tarde eles vão embora.

— Eu não contaria com isso — falou Isabel no sofá. — Não seria a primeira vez que passamos por isso. A nossa sorte é que ainda temos um pouco de comida e água, senão, estaríamos ferrados.

— Não — sussurrou o pai. — Eles vão embora. O sol logo irá nascer, e eles voltarão para seus buracos.

— Mesmo assim, pai. Isso não vai acabar. Vai ser assim pra sempre agora.

— Não diga isso, menina — interveio Lurdes. — Meu marido está certo. Acredite que passaremos por essa peleja.

A garota fez que não.

— Ah, nem vem com essa conversa — cruzou os braços. — Estamos nessa há quanto tempo? Faça-me o favor, né, Lurdes. Deixa disso e vê se cresce.

A mulher, boquiaberta, encarou seu marido e, em seguida, voltou-se para Jonathan. O homem soube logo a razão de aquele olhar de cobrança pela parte de Lurdes e seu amigo. Eles esperavam uma atitude dele para com a sua filha. Jonathan então se voltou para a garota e a repreendeu. Exigiu que pedisse desculpas pelo que disse à mulher. Todos ali esperavam pela retratação de Isabel. Porém, a jovem se afastou e foi para outro cômodo. Coube a Jonathan retratar-se por ela.

— Me desculpem. Eu fico muito envergonhado por isso.

— Eu sei que ela é uma boa moça — disse Lurdes. — Mas ela nunca havia sido tão atrevida comigo como agora.

O homem correu a mão pelo cabelo preto e bufou.

— Essa merda toda ferrou a cabeça dela. Eu vou conversar com ela.

— Converse mesmo — disse Rubens compreensivo. — Pois, acho que a cabeça dela está atribulada há muito tempo... E não é por causa de toda essa situação. Sabe disso, não é?

— É. Eu sei.

— Acho que ela só precisa se abrir.

— Sim, amigo. Sim.

Antes de ir, ele pegou uma vela dentro do copo e acendeu-a com a chama da outra e então seguiu pelo corredor. Entrou na primeira porta à direita. Mantinha a vela ligeiramente inclinada, e alguns pingos de cera caíam no chão. Assim que entrou, fechou a porta. Caminhou até um criado-mudo, ao lado da cama, e pôs a vela sobre ele.

Jonathan parou ao lado da filha, que observava a janela coberta por um edredom azul que estava pregado. Havia alguns objetos por ali: um violão sobre a cama, caixas de remédios para dormir, um porta-retratos sobre o armário de cabeceira – que mostrava um homem gordo, uma mulher e uma garotinha loira posando juntos em um parquinho – e uma pilha de revistas de cosméticos também sobre o armarinho.

Jonathan sentou-se ao lado da filha, que riscava o isqueiro, brincando com a chama. Sua face estava carrancuda.

— Vim conversar.

— Devolve os meus cigarros primeiro — disse enquanto riscava o isqueiro. Não olhava para o pai e sim para a chama.

— Isso faz mal. Já conversamos.

— Não ligo.

— Faço isso assim como faço tudo pelo seu bem.

— É. Meu bem agora seria fumar meu cigarro.

— Sei por que começou. Não precisa disso.

Ela riu, encarando a chama.

— É claro que eu preciso.

O homem fez que não.

— Destratou a Lurdes daquele jeito. Por que fez isso?

A menina deu de ombros.

— Alguém precisava dizer a verdade a ela. Mostrar a realidade.

— Que verdade? Que realidade?

— Que está tudo perdido, e nós estamos ferrados.

— Não pode dizer uma coisa dessas. Você não sabe. Não pode magoar as pessoas assim. Tem que respeitá-las. Foi para isso que eu a eduquei.

A garota riu.

— Não. Quem me educou foi a mãe e a vó.

— Então é isso? Vai começar com essa conversa?

— Você que veio falar comigo. Eu só quero meus cigarros.

— Eu não vou te dar. Esquece.

— Então tá fazendo o que aqui?

— Já disse.

— Eu queria descansar um pouco. Pode ser?

Jonathan viu que aquela conversa não chegaria a lugar algum.

— Certo. Descansa então.

Ele tocou o ombro dela.

— Não vou te encher. Mas saiba que a Lurdes ficou muito chateada.

Isabel não disse nada.

— Te amo — ele acariciou o ombro dela e se levantou.

Encaminhou-se para a porta e disse:

— Pode ficar com a vela.

Tocou a maçaneta e no exato mesmo instante, ouviu uma batida na porta. Abriu-a. Era Rubens.

— Preciso que veja uma coisa — disse.

O homem seguiu seu amigo de volta até a sala. E Isabel acabou indo junto. Lurdes estava na poltrona com uma mão sobre a testa, parecia atordoada. Jonathan continuou seguindo Rubens, que levava uma vela. Entre a sala e a cozinha havia outro corredor. Cruzou por ele e parou diante à porta, a que estava emperrada. Mas agora se encontrava entreaberta. Um terrível odor esfaqueou suas narinas. Não pensou duas vezes em cobri-las com o braço e se afastar um pouco.

— O que é isso? Que porra tem aí dentro?

Mesmo da pequena abertura da porta dava para ver que o local estava bem escuro, como se não possuísse janelas ou nada do tipo.

— A Lurdes precisava ir ao banheiro — respondeu Rubens ajustando seus óculos. — O único cômodo que a gente não checou foi este, já que a porta estava difícil de abrir. Só podia ser o banheiro. Não tentei forçá-la tanto antes, quando verifiquei, mas forcei agora. Então me deparei com isso daí.

Jonathan segurou na maçaneta e empurrou a porta com o ombro e, aos poucos, ela foi abrindo mais. Algo razoavelmente pesado estava causando certa resistência, impedindo-a de abrir normalmente; algo que estava no chão. Com o esforço necessário, Jonathan conseguiu. Ainda mantinha a mão no nariz. Seus olhos estacionaram sobre a silhueta robusta caída no piso. Pediu a vela de Rubens emprestada. Era a última vela que ele havia pegado dentro do copo de vidro na sala.

Jonathan entrou primeiro, seguido por Rubens, mas ordenou a filha que aguardasse do lado de fora. Ela deu de ombros, parando recostada contra a parede, de frente para a porta. Jonathan, primeiramente, agachou-se ao lado do corpo — em um alto estágio de putrefação — e direcionou a luz da vela próximo ao rosto azul-esverdeado do morto. Alguns respingos de cera caíram sobre ele. Não obteve a melhor das visões. A face encontrava-se irreconhecível e encoberta de sangue. Os maxilares não existiam mais, e sua boca era um grande buraco, tal como o topo de sua cabeça careca, que possuía um enorme rombo. O homem então elevou a chama da vela, iluminando o topo da porta, onde haviam manchas de sangue coagulado esborrifadas em seu decorrer, e até mesmo no teto branco havia alguns respingos secos.

O homem levantou-se, direcionado a luz para tudo em seu entorno. Gotas de sangue decoravam as paredes azulejadas mais próximas ao cadáver. O vitrô estava bloqueado por uma toalha imunda, pregada à parede. Sobre a privada, jazia uma agenda aberta e ao lado de uma vela gasta, já quase no fim. Jonathan a pegou e correu brevemente os olhos nas anotações e logo a entregou a Rubens.

Abaixou e pegou a arma da mão do morto, uma espingarda de calibre .32, de canos justapostos. Revistou os bolsos, à procura das munições, mas não as achou. Então ele checou as câmaras e notou que também estavam vazias. Mesmo assim, levou a arma. Deixando o banheiro, encaminhou-se de volta para a sala. Rubens deixou a agenda sobre o criado-mudo e foi até Lurdes, na poltrona, e pegou na mão dela. Isabel assentou-se no braço do sofá vermelho que barrava a porta.

— Bem, gente — Jonathan apagou a vela e a pôs de volta dentro do copo de vidro —, o sujeito morto no banheiro... Não há dúvidas de que ele se matou.

— Se matou? — Lurdes o encarou com espanto. — Jesus! Como alguém é capaz de fazer algo assim?

— Simples — disse Isabel. — Ele não aguentou a pressão. Acho que ele ficou muito tempo preso aqui com aquelas coisas lá fora e sem poder ver a luz do dia e resolveu dar um jeito da melhor forma que ele conseguiu. Acontece.

— Acho que ele tinha família — falou Rubens. — Têm algumas fotos pela casa. Meu Deus. Para ele ter feito isso consigo mesmo... Devia estar muito atribulado.

Enquanto Rubens falava, Isabel foi até a janela, passando a espiar lá fora pelas gretas. A chuva estava ainda mais leve agora, do mesmo jeito como quando chegaram a casa.

— Verdade — Lurdes falou.

— Acho que ele estava mesmo muito perdido — falou Jonathan deixando a espingarda encostada no armarinho. Então se virou e foi até sua filha na janela. — O que está vendo agora?

— Agora, não vejo muita coisa. Tudo está muito parado. Não vejo nenhum movimento no carro. Mas, com certeza, ainda estão lá em algum lugar.

— Não adianta ficar vendo — falou Lurdes. — A gente vai ficar aqui por um tempo, não é?

Jonathan assentiu. Fazer aquele lugar valer era uma das prioridades, mas a outra era se livrar do corpo. O cheiro de podridão já era um problema, mas não dos piores. Pediu a todos que ajudassem a achar as caixas com as munições. Tinha certeza de que havia alguma pela casa. Os quartos foram revirados: armários, guarda-roupa, tudo. Lurdes então encontrou cinco caixas, quatro fechadas e uma delas aberta, no fundo do guarda-roupa, e as entregou a Jonathan.

Enquanto procuravam, também acharam pilhas, uma lanterna – embora já tivessem as suas próprias – e uma bandoleira, que Jonathan a tomou para si. Voltaram à sala. Jonathan apanhou sua arma recostada no armarinho e lhe acoplou a bandoleira, deixando-a novamente recostada. Ele não sabia explicar como o sujeito tinha uma espingarda dessas em casa, mas isso já não importava para ele. Em seguida, foi à cozinha. Abriu a geladeira. Não havia nada além de duas garrafas de água, mel, latas de atum e de salsichas abertas e outras fechadas na porta, um pote de macarrão e queijo. Cheirava mal. Abriu um dos armários e viu mais alguns enlatados e massas. Mas também viu outra coisa. Seus olhos brilharam.

— Seu grande filho da putaele sussurrou ao achar a garrafa de Red Label ainda pela metade.

Destampou-a e sentiu o aroma. Sua boca salivou. Estava prestes a voltar a provar o sabor adocicado que lhe trazia lembranças amargas. Não resistiu. Olhou em direção ao vão que dava para a sala. Não vinha ninguém. Isabel conversava com Lurdes e Rubens sobre o lugar. Então virou a garrafa na boca.

Estava meio quente. Mas não se importou, bebeu mais um pouco; então parou. Imagens vieram à sua mente. As razões de suas vergonhas. Apertou o vidro quase ao ponto de quebrá-lo. Depressa, foi até a pia e esvaziou o resto da garrafa. Sua mão tremia no processo. Quando acabou, sentiu-se um pouco aliviado. Virou-se de costas para a pia, se recostou nela e correu as mãos pelo rosto.

Ocultado dentro de sua blusa, havia um pingente prateado; puxou-o para fora e segurou-o em sua mão. Era do tipo customizado, contendo o nome Adelaide. Por você. Por vocês, ele pensou. Guardou o objeto na camisa e cerrou os olhos. Suspirou. Precisava conter o aperto no peito sempre quando a imagem do rosto da mulher vinha à sua cabeça. Um rosto que o afogava em culpa e o fazia lutar para chegar à margem e respirar. Mas às vezes, desejava ser tragado para as profundezas.

Tocou a aliança em seu dedo anelar da mão esquerda.

— Me perdoe — sussurrava para si mesmo. — Por favor, me perdoe.

Estava tudo guardado em um baú sombrio, nas masmorras de sua mente. Um sentimento que ainda perdurava e machucava mais do que qualquer ferimento carnal.

Abriu os olhos, viu a porta ao fundo, uma que já havia checado mais cedo, quando chegou a casa. Caminhou até ela. Estava trancada e continha um pano cobrindo sua greta, embaixo, o que Jonathan achava um exagero. A chave estava na fechadura. Ele não pensou em abri-la antes, mas, agora, conjecturava em fazê-lo, mas sabia que provavelmente era o quintal. Teve uma ideia. Aquilo poderia ser a solução para alguns problemas. O homem girou nos calcanhares e voltou à sala.

— Rubens... — chamou enquanto pegava sua arma, recostada no criado-mudo. — Preciso de sua ajuda, amigão.

— Para quê? — questionou assentado no braço da poltrona, ao lado da esposa.

Pela bandoleira, o homem lançou sua arma nas costas, como se estivesse vestindo uma mochila em apenas um dos ombros.

— Quero checar uma coisa lá fora. Vamos começar a agir... Agora mesmo.



26 de Março de 2021 às 20:28 0 Denunciar Insira Seguir história
1
Leia o próximo capítulo Dois

Comente algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 25 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!