lara-one Lara One

Todos conhecem em detalhes a história de amor entre Mulder e Scully. E a história de Krycek e Barbara? Essa é apenas outra história de amor - e como toda a história de amor - também é feita de altos e baixos. Referências a fanfics anteriores nos próprios capítulos caso você queira ler na íntegra.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas.

#drama #romance #krycek #x-files #nicholas-lea #eva-longoria
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1. Origens

📷


"E assim, de repente as lembranças me batem à porta,

um pouco de você, um pouco de mim e muito de nós dois.

Passado e presente interligados em chegadas e partidas...

Assim revezamos entre idas e vindas.

Dessa forma é a nossa história,

em um entrelaçar de vidas".

(Neide Alves)


INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Residência dos Krycek - 10:47 PM

No quarto, Rasputin dormindo na poltrona. Barbara sentada na cama, tomando uma caneca de café e escrevendo no notebook.

BARBARA (OFF): - Não existem relacionamentos perfeitos como nos livros, aliás os autores têm uma grande parcela de culpa ao criarem romances imaculados e nos venderem a perfeição. Crescemos buscando o príncipe encantado, o homem perfeito das histórias, mas pessoas perfeitas não existem, nós todos possuímos defeitos. O que há realmente são relacionamentos, pessoas diferentes e dispostas, ou não, a dividirem uma vida juntos. E quando duas pessoas decidem por viver juntas, sempre haverá negociações envolvendo verbos como ceder, doar, dividir, compreender, dialogar, construir e respeitar. Todos esses verbos conjugam o verbo amar. Amor é mais que sentimento. Você não pode apenas sentir o amor, você precisa vivê-lo. E como todo o verbo, viver também é ação.

Barbara olha para os filhos deitados ao lado dela. Dimi dormindo de bruços, só de fraldas, agarrado no paninho e recostado em Svetlana, que dorme fazendo beicinho.

BARBARA: - Meus ratinhos, oh "toisinhas" fofasda mama. Como seu pai e eu pudemos fazer umas coisinhas tão lindinhas e engraçadinhas?

Barbara solta o notebook e cheira os filhos, enchendo-os de beijinhos. Dimi se vira de lado, num sorriso, dormindo. Svetlana também dormindo, esboça um sorriso, levando a mão ao rosto da mãe.

BARBARA: - Ui, vontade de morder vocês dois! Agarrar e espremer os dois juntos num só abraço. Ô coisinhas gostosas e cheirosas, alegrias da minha vida.

O celular toca. Rasputin ergue a cabeça e abana o rabo. Barbara atende.

BARBARA: - (AO CELULAR/ SORRI) Fala, Ratoncito... Não, eu estava terminando uma matéria e parei pra cheirar nossas crias... Sim, os dois estão aqui dormindo na nossa cama... E o Rasputin já acordou, tá abanando o rabo pra você... Sim, calor demais pra primavera... Tudo bem, só saudade, né? ... (BEIÇO) Eu sei que está trabalhando, mas eu sinto falta do meu Grandão... (DEBOCHADA) Principalmente pra trocar a lâmpada do corredor, aquela porcaria queimou de novo... É, imagina uma escada e eu... Humhum. Aí sua nanica se estabaca inteirinha nas escadas...

Ela sorri, mordendo o polegar e se ajeitando sentada na cama.

BARBARA: - (AO CELULAR) Ele gostou? Hum, então diz pro Bishop que amanhã vai ter bolo de banana pro lanche... O que você tá fazendo agora? ... Isso é um saco, mas tem a parte divertida, você deve ouvir cada história... Ai, volta cedo pra casa, tá? Também te amo, hermoso. Se eu estiver dormindo, deixei um lanchinho pra você no micro-ondas... Se cuida, amor. Guarda esse rosário e me traz quando voltar, não fura o nosso acordo... Eu te amo, mi vida.

Ela desliga. Olha pro celular, num suspiro. Olha para o quadro na parede, com várias fotos dela com Krycek e os filhos. Desvia o olhar para o porta-retratos, onde os dois se beijam. Olha para os filhos dormindo. Barbara enche os olhos de lágrimas e morde os lábios, perdida em pensamentos.

BARBARA (OFF): - Tem vezes que olho para trás, para as coisas todas que aconteceram desde que nos conhecemos e não acredito que você e eu estamos juntos. Você se apaixonou por mim? Construímos uma família? Um mundinho só nosso? Uma história? Isso fazia parte dos meus planos, mas não fazia parte dos seus. Eu amava sozinha, você não me queria. Era um amor platônico, impossível e doído, mas eu lutei e insisti, por vezes pensando que terminaria sozinha e magoada novamente... Eu nunca tive medo de você, enquanto as pessoas ao meu redor diziam que eu estava louca por amar um homem que fazia as coisas que você fazia, que com sorte você acabaria preso e com azar você poderia me matar um dia. Era a receita pronta para o desastre. O amor bandido, sem final feliz. Mas algo no meu coração não me deixava enxergar essas coisas, eu só conseguia ficar mais atraída pelo seu silêncio misterioso, seu medo que fazia você fugir pra longe de sentimentos e seus segredos ocultos por trás daqueles olhos verdes que temiam olhar nos meus. E agora penso que se eu tivesse desistido de você, como seria a minha vida hoje? E a sua? Éramos um do outro por destino e acho que esse destino nos uniu na hora certa, quando nós dois decidimos mudar nossas vidas. Então nos encontramos, prontos para enterrar nossos erros e pecados e começarmos a viver de verdade o que o destino nos reservou.

Barbara pega o notebook e começa a digitar.

BARBARA (OFF): - Era 1972. Alex tinha apenas dez anos e eu acabava de nascer em Havana. Enquanto eu chorava por ter recebido a vida, lá do outro lado do mundo, em Moscou, ele chorava por ter perdido a dele. Eu ganhava um pai e uma mãe. Ele nem tinha superado a perda da mãe e agora perdia o pai. Enquanto eu tinha uma família comemorando a minha chegada, ele perdia o resto de família que lhe sobrara e começava a conhecer a realidade de um orfanato. Enquanto eu ganhava amor, presentes e mimos, ele recebia desprezo, solidão e maus tratos. Minha inocência crescia, a dele ia embora... Eu me tornava uma criança feliz, sorrindo e buscando a luz, enquanto ele se tornava um adolescente amargurado e sério. Assim a vida fez, porque sabia que um dia nós dois iríamos nos encontrar. Ele seria a resposta dos anseios do meu coração e eu seria aquela que o traria de volta pra luz..."

VINHETA DE ABERTURA:OMNIA VINCIT AMOR




BLOCO 1:

1972


Havana, Cuba

Tempestade com chuva e ventos fortes que agitam as palmeiras na calçada. O mar revolto. O fusca branco estaciona na frente do hospital. Tonhão, bem mais jovem, sai do carro, sujo de graxa e abaixo de chuva. Entra desesperado no hospital.

Corte.


Som do choro de bebê. O médico coloca a pequena Barbara sobre a mãe. Barbara chora muito.

Corte.


Tonhão entra apressado no quarto. Serena, deitada no leito, com a filha nos braços. Tonhão sorri bobo e se aproxima, olhando pra filha. Troca um beijo com Serena e afaga seus cabelos.

TONHÃO: - Como você está?

SERENA: - Feliz, mas ainda preocupada. Cinco meu amor. Como vamos criar mais essa?

TONHÃO: - Como criamos os outro quatro. Gabriela, Guilherme, Jorge e Alice. Uma boca a mais ou a menos não fará diferença, não é "hermosa niña de papá"?

Tonhão pega a filha nos braços.

TONHÃO: - Pensou num nome pra ela?

SERENA: - Ainda não.

TONHÃO: - Hoje aconteceu uma coisa estranha no porto. Os caras e eu estávamos debaixo dessa tempestade consertando um dos guindastes pra tirar os contêineres do navio. Chegou uma carga de alimentos da Poltávia e os russos queriam partir o mais rápido. Juro pra você que por pouco eu não conheceria a minha filha.

SERENA: - (NERVOSA) Tonho, pelo amor de Deus! O que aconteceu?

TONHÃO: - Eu estava em cima da porra do guindaste quando caiu um raio. Serena, por Deus, e só por Deus, que o negócio caiu tão perto que eu voei lá de cima caindo dentro de uma carga de milho. Se o raio tivesse caído em cima de mim, sem equipamento de segurança, agarrado nos metais... Eu tinha morrido eletrocutado!

SERENA: - Santa Barbara protegeu você!

TONHÃO: - E logo em seguida seu irmão me ligou dizendo que tinha trazido você pro hospital... Então... Acho que essa é a Barbara.

SERENA: - (SORRI) Barbara. Gosto desse nome. Barbara Arenas Ramirez.

Tonhão olha pra filha, que esboça um sorriso, se revirando nos braços dele.

TONHÃO: - Barbara gostou do nome. Então, Barbara? Sua mãe e eu não queríamos mais filhos e você veio no descuido. A que veio, querida filha? Nada nasce nesse mundo sem uma missão. Minha benção sobre você, mi hermosa y bendita niña.


Moscou, URSS

Krycek com dez anos, deitado no chão de madeira, abraçado no pai morto.

KRYCEK: - (CHORANDO) Papa!!! Não me deixa sozinho, por favor!!! Papa!!!!

Corte.


Os policiais levam Krycek pelos braços, que reluta, olhando pra trás, para o corpo do pai. Os vizinhos se afastam da porta. Os policiais tomam o corredor.

KRYCEK: - (CHORANDO) Eu quero meu papa!!!

POLICIAL: - Seu pai está morto. Como qualquer traidor do partido!

KRYCEK: - (CHORANDO) Eu quero a minha casa!!!

POLICIAL: - E agora? O que faremos com esse garoto?

POLICIAL #2: - Não tem família, nenhum vizinho o quer. Orfanato.

Krycek chora, desesperado, tentando segurar-se nas escadas. Eles o puxam à força.

Corte.


Sonja, uma mulher de seus 40 anos, abre a porta do dormitório. Krycek ao lado dela, segurando um cobertor e um travesseiro, todo tímido e assustado. Crianças correndo, alguns pulando sobre as camas.

SONJA: - Hei! Deem boas vindas ao Alexander!

Eles nem ligam, continuam a brincar. Karel, o garotinho magrelo e mirrado, louro de olhos azuis, sentado na cama, olha pra Krycek e acena pra ele. Krycek devolve o aceno.

SONJA: -Escolha uma cama vazia pra você. Karel, explique as regras para o Alexander.

Ela sai fechando a porta. Krycek se aproxima tímido. Karel aponta pra cama ao lado.

KAREL: - Essa está vazia. Pode ficar com ela.

KRYCEK: - Obrigado.

KAREL: - Eu sou Karel e você é o Alexander, né?

KRYCEK: - Sim.

Os dois se cumprimentam num aperto de mão.

KAREL: - Qual a sua idade?

KRYCEK: - Dez anos e você?

KAREL: - Dez também.

Anton, um dos meninos, se aproxima por trás de Krycek e dá um tapa na cabeça dele. Krycek olha magoado sem entender. Os outros começam a rir e debochar de Krycek. Karel cerra o punho e acerta um soco no garoto que cai no chão. Senta em cima dele e desfere socos. Os outros começam a estimular a briga. Krycek observa apavorado, recuando assustado até cair sentado na cama. Karel sai de cima do outro, deixando o menino com o rosto sujo de sangue. Cospe nele e aponta o dedo.

KAREL: - Não se meta com o meu amigo Alexander. Ou da próxima vai ser pior. E serve pra todo mundo aqui!!!

Eles se calam e ajudam o outro a levantar. Um dos meninos abre a porta do quarto e espia para o corredor. Então sinaliza para os outros, que levam Anton. Karel senta-se em sua cama.

KAREL: - Não se preocupe com o idiota do Anton, ele vai lavar o rosto. E não vai me delatar, porque se ele me delatar vai sofrer as mesmas punições por ter apanhado. Aqui você precisa bater antes de apanhar, entendeu?

Krycek afirma com a cabeça.

KAREL: - Sabe brigar? Bater, dar um soco?

Krycek nega com a cabeça.

KAREL: - Melhor ensinar você. Vai precisar disso. Sete horas toca o sino. Você tem que levantar e arrumar a sua cama, porque a Diaba Vermelha fiscaliza tudo!

KRYCEK: - (ASSUSTADO) Quem é a Diaba Vermelha?

KAREL: - Ela é a responsável pelo turno da manhã. Ela anda com uma vara enorme na mão. Se você não arrumar a cama direitinho, ela acerta a vara nas suas mãos. Se não estiver pronto para o café, se fizer qualquer merda, ela pune você com vara nas mãos, nas pernas ou onde pegar. Tem um garoto no outro dormitório que ficou cego de um olho.

Krycek arregala os olhos. Karel ergue a camisa e mostra uma cicatriz enorme na cintura.

KAREL: - Primeira vez que tentei fugir. Ela me acertou aqui quando eu estava em cima do muro. Ficou a marca até hoje! Doeu pra burro! Mas eu ainda vou fugir daqui. Quer ir comigo?

Krycek afirma com a cabeça.

KAREL: - Legal! Então, o que você fez para os seus pais se livrarem de você?

KRYCEK: - Meus pais morreram.

KAREL: - Os meus também, num acidente. Quer ser meu amigo?

KRYCEK: - Quero.

KAREL: - Depois do café da manhã tem a escola. Não é bem uma escola de verdade, eles ensinam mesmo é a gente a trabalhar e carregar lenha, tijolos, a plantar legumes e verduras porque algumas vezes a comida não chega. Dizem que o governo quer manter as aparências e manda tudo pra Cuba, enquanto a gente aqui passa fome, mas quem no mundo vai saber?

Sonja entra no quarto e apaga as luzes. Os meninos todos se deitam.

KAREL: - Hora de dormir. Amanhã a gente conversa. E se a porta abrir no meio da noite, se esconda debaixo da cama.

KRYCEK: - Por quê?

KAREL: - ... Só se esconda. Tem um monstro que pega as crianças aqui. Já aconteceu comigo. Só faça isso, tá bem?

Krycek afirma com a cabeça e se deita na cama. Olhos arregalados. Karel se deita na cama dele.

KRYCEK: - (NERVOSO) Como é o monstro?

KAREL: - Ele parece um homem, mas é um monstro. Vem no meio da noite e leva você pra uma sala e faz coisas terríveis com você, coisas que doem muito. Coisas que adultos não deviam fazer com crianças. E se você contar pra alguém, ele diz que vai matar você.

KRYCEK: - Que coisas?

KAREL: - Você é novato e bobo. Melhor não saber, só se esconde debaixo da cama se aquela porta abrir. Agora dorme.

Krycek olha para o ambiente escuro, amplo e assustador. Começa a chorar em silêncio.

KAREL: - Você tá com medo, né?

KRYCEK: - Tô. Eu quero o meu pai. Quero voltar pra minha casa...

KAREL: - Deita comigo. Não vai acontecer nada com você. Eu te protejo. Com o tempo vai passar. Eu sei, quando cheguei aqui eu chorava tanto! Agora não tem mais lágrimas. Elas secam como um rio, sabia? Se você chora muito, acaba todas as lágrimas. E eu acho que chorei muito mesmo!

Krycek sai da cama e deita-se ao lado de Karel. Os dois meninos ficam olhando para o teto.

KRYCEK: - Há quanto tempo você está aqui?

KAREL: - Há três anos. Dizem que esse lugar era maravilhoso, antes do governo tomar das freiras. Eu preferia as freiras. Dizem que no pátio lá atrás mataram todas as freiras por não serem comunistas. Os fantasmas delas rondam os prédios, sabia?

KRYCEK: - E são esses fantasmas que pegam as crianças de noite?

KAREL: - Não, porque as freiras são boas, elas não incomodam. É um monstro que pega as crianças. Ele se transforma em homem pra enganar os meninos.

Karel fecha os olhos. Krycek não consegue dormir. Derruba lágrimas, calado.



TEMPO ATUAL


Residência dos Krycek - 6:07 AM

Rasputin uivando e olhando pra porta dos fundos, abanando o rabo. Krycek entra. Rasputin pula em Krycek. Krycek afaga o cachorro. Barbara vem correndo e pula em Krycek, que a segura. Ela envolve as pernas nele. Os dois trocam um beijo.

BARBARA: - Bom dia, Ratoncito!

KRYCEK: - Bom dia Malyshka. Acho que o Rasputin aprendeu com você a me esperar na porta e pular em cima. Todo mundo pula em cima de mim? Eu nunca fui acostumado com recepção calorosa, muito pelo contrário, quando pulavam em mim era pra me socarem.

BARBARA: - É a saudade que a sua família sente de você, até o cachorro. Lanchinho?

KRYCEK: - Não. Banho e cama, Malyshka.

Ela envolve os braços no pescoço dele e deita a cabeça no ombro. Krycek vai pra sala e sobe as escadas com Barbara grudada nele.

KRYCEK: - Você tá folgada, nanica. Está pior que as crianças, só quer colo.

BARBARA: - Cuidado, a lâmpada queimou de novo.

KRYCEK: - Quando eu acordar vou checar esses fios.

Os dois entram no quarto. Krycek solta Barbara no chão e olha pra cama.

KRYCEK: - (SORRI) Nossa cama virou ninho?

BARBARA: - É um ninho lindo de ratinhos!

Krycek se ajoelha ao lado da cama, apoiando os braços cruzados no colchão e o queixo sobre os braços, admirando os filhos dormindo.

KRYCEK: - Nunca imaginei isso. Nunca, nem sequer em sonhos. Nem parece realidade.

Barbara afaga os cabelos dele. Se ajoelha ao lado. Os dois ficam observando os filhos.

BARBARA: - Não são bonitinhos? Tá, eu sei, somos os pais, sempre vão ser as crianças mais lindas do mundo.

KRYCEK: - São as crianças mais lindas do mundo... Svetlana tá escurecendo os cabelos...

BARBARA: - Tá ficando castanho claro... Dimitri tá comprido né? Vai ser alto como você.

KRYCEK: - Tá crescendo feito coqueiro. Esticando pra cima e magrela.

BARBARA: - Dimi tá a sua cara. Lana ainda tá meio indecisa, se puxa ao pai ou a mãe.

KRYCEK: - E vai ter os seus cabelos. A minha Barbarazinha branquela...

BARBARA: - Ela tem o seu nariz.

KRYCEK: - A boca é a sua. Tá vendo as sobrancelhas? Iguais. Ela dorme com um sorrisinho no canto da boca...

BARBARA: - Igual ao seu quando tá acordado. E o Dimi tem o mesmo jeitinho que você quando dorme. Sério, boquinha meio aberta...

KRYCEK: - Ah, eu durmo de boca aberta?

BARBARA: - (RINDO) Dorme. Tão bonitinho...

KRYCEK: - Olha as pernas da nossa filha. (SORRI) Rechonchudas. Svetka tá ganhando peso, tá ficando mais engraçadinha. Isso é gente de usar pulseira?

BARBARA: - Ela adorou o presente do papa com o nome dela gravado em cirílico.

KRYCEK: - Vai ser vaidosa e linda como a mãe dela.

BARBARA: - Você não estava cansado?

KRYCEK: - Quem se lembra de cansaço quando olha pra eles? Barbara, acha que eles são felizes?

Barbara olha pra ele.

BARBARA: - Claro que são felizes, Ratoncito. São crianças felizes.

Krycek sorri. Olha pra Barbara. Eles ficam se olhando.

KRYCEK: - E você é feliz, moya Malyshka?

BARBARA: - Eu sempre tive tudo o que sonhei e desejei na vida. Sou feliz o suficiente pra algumas vezes rir sozinha dentro dessa casa quando olho pra tudo o que a gente construiu juntos. E nem era pra haver o juntos. Essa foi a parte mais difícil. Conquistar o seu amor e a sua confiança.

Os dois sentam-se no chão, um de frente pro outro.

KRYCEK: - Não acho. Você é a mulher mais incrível que eu conheci. Era só questão de tempo pra eu me apaixonar por alguém que me enxergava com outros olhos. A única que conseguiu ver o meu íntimo, as coisas boas em mim, muito além do bandido canalha que Alex Krycek representava. Acho que a parte mais difícil foi você pegar um lixo e transformá-lo em alguém.

BARBARA: - Eu nunca vi lixo. Sempre vi um homem desprezado e torturado por um passado. Alguém com vontade de mudar, que só precisava de apoio pra não desistir. E você foi forte, superou muitas coisas e tentações. Poderia simplesmente ter voltado atrás e seguido o destino que os outros lhe deram. Mas não. Quando pela primeira vez na sua vida você viu que tinha a chance de fazer suas próprias escolhas, você as fez. Eu apenas apoiei, Ratoncito. A decisão foi sua, apenas sua. Você nunca desistiu.

Ele abaixa a cabeça.

KRYCEK: - Eu tentei várias vezes desistir. Você não deixou. Escondia a minha arma.

BARBARA: - Existem tantas palavras belas que Jesus disse, mas a frase que eu mais amo é "atire a primeira pedra quem nunca errou". E todos soltaram as pedras e pararam de acusar a prostituta, até porque ela não errou sozinha. Nunca erramos sozinhos, Alex. Nunca devemos julgar os outros pela nossa lente, mas se colocar no lugar do outro, na situação dele e pensar se não teríamos cometido o mesmo erro naquela circunstância. Eu tive uma vida feliz e mesmo assim cometi erros. Que pedra eu atiraria num menino que teve sua infância roubada, vítima de toda a violência da sociedade e que acabou com uma arma na mão? Olha para o seu filho.

Krycek olha pra Dimi.

BARBARA: - Você deixaria que Dimi tivesse uma vida como a sua?

KRYCEK: - Nunca!

BARBARA: - Nem seus pais deixariam, se não tivessem morrido. E eles morreram porque queriam? Sua mãe praticamente morreu de desnutrição, Alex. Seu pai foi executado na sua frente porque o crime dele foi escrever poemas que deixaram o partido comunista enraivecido. Foram vítimas de uma época cruel e você foi tão vítima quanto eles. Era tentar sobreviver, amor. E eu sei o que é isso, nasci num país fechado também. Fomos vítimas de uma época dura e confusa.

KRYCEK: - Meu filho nunca vai pegar numa arma. Mesmo que eu morra, ele vai ter como sobreviver com o que já deixei pra vocês. Ele terá escolhas, assim como a minha filha.

BARBARA: - Esse é seu coração, Alex. Esse é o verdadeiro Alex Krycek. O outro apenas tentou sobreviver aos restos que lhe deram. Se você tivesse tido as chances que Dimi tem, você teria sido o que foi? Se os seus pais não tivessem morrido, você teria feito o quê? Já se fez essa pergunta?

KRYCEK: - Todos os dias da minha vida.

BARBARA: - E qual é a resposta?

KRYCEK: - Se o governo russo não tivesse confiscado o dinheiro que o meu papa recebeu do livro, provavelmente teríamos fugido pra França. Mama estaria viva. Os dois estariam... Eu teria feito faculdade de música ou artes cênicas. Eu gosto das duas. Acho que teria feito as duas.

Barbara sorri, olhando pra ele com ternura.

BARBARA: - Não teria entrado para o Sindicato das Sombras? Tem certeza?

KRYCEK: - (SORRI) Tá maluca? Eu teria entrado é pro Sindicado dos Músicos!

BARBARA: - (SORRI) E o que mais? Conta como seria Alex Krycek um artista, estou curiosa.

KRYCEK: - (EMPOLGADO) Acho que faria música pra peças teatrais. Escreveria uma ópera! Nossa, nem sei, teria tanta coisa pra fazer. Aproveitaria a veia romântica do velho Micka com seus poemas. Ele faria a letra, eu a música... Mamãe provavelmente iria querer costurar roupas para o elenco. Eu cantaria, atuaria...

Os dois riem.

KRYCEK: - Sabe, algumas vezes, eu me pego pensando na minha vida... Olho para os meus filhos... Lembro como era bom ter uma família. Meu pai, minha mãe... Carinho, cuidado... Era uma miséria, mas a gente era feliz... Lembro daquele orfanato, Karel e eu cansados de apanhar e fugindo de lá apenas com a roupa do corpo, nos escondendo pelos becos, roubando comida e dormindo escondidos nos esgotos... Graças a Deus meus filhos não sabem o que é isso. E se depender de mim, nunca vão saber o que é. A gente tem filhos? Eu tenho você? Isso tudo é real ou estou dormindo?

Barbara sorri e o beija na testa.

BARBARA: - Isso é real, Ratoncito. Agora você tem uma família, um lar, uma casa e até um cachorro bobão e uma mulher babona por você. Você venceu, amor. Contra tudo e todos. Você venceu.

Krycek se abraça nela. Barbara o envolve nos braços. Ele recosta a cabeça no ombro dela e fecha os olhos.

KRYCEK: - Só tem uma coisa de errada no destino alternativo, Barbara.

BARBARA: - O quê?

KRYCEK: - A gente nunca teria se conhecido. Dimitri e Svetlana nunca existiriam.

BARBARA: - Bom, mas mesmo que isso nunca acontecesse, por mais que eu ame você, se pudesse voltar no tempo e mudá-lo, eu preferia que você tivesse tido os seus sonhos realizados, seus pais vivos e uma vida diferente da que teve.

KRYCEK: - Por mais que eu quisesse ter tido essa vida bonita que falamos, eu prefiro a vida que eu tive mesmo. Você vale muito mais que qualquer vida alternativa por mais feliz que pareça ser, porque não acho que seria tão feliz sem você comigo.

Ela enche os olhos de lágrimas, afagando os cabelos dele.

KRYCEK: - Eu só conheci uma felicidade e ela se chama Barbara. E duvido que exista outra em qualquer tempo alternativo, dimensão paralela ou seja lá como digam. E não estou dizendo isso pra ser romântico ou porque seja algo bonito, ou pra fazer média com você. Estou dizendo a verdade. A minha verdade. Você é única pra mim, Malyshka. Você é tudo pra mim. Eu não saberia mais viver sem você.

Corte.

Krycek coloca Dimi no berço. Afaga o pezinho dele. Sorri. Apaga a luz do abajur. Fica pensativo. Então acende a luz do abajur e vai até a porta. Para. Ri dele mesmo. Volta e apaga a luz. Agacha-se ao lado do berço e leva a mão entre as grades de proteção, fazendo carinho nos cabelos de Dimi.

KRYCEK: - Você não precisa ter medo do escuro, filho. Pode dormir tranquilo, é o seu quarto, sua casa, não precisa acordar assustado e se esconder debaixo da cama. Aqui não existem punições com varas, monstros pedófilos ou fantasmas de freiras vagando nos corredores. Dorme em paz, Carinha.Seu pai está aqui pra proteger você.



1977


Havana, Cuba

Barbara com cinco anos, sentada na sala, cabelos presos em chuquinhas, brincando com as bonecas e assistindo televisão. Tonhão sentado na poltrona, sem camisa, tatuagens à mostra, fumando um charuto e bebendo uma dose de rum, assistindo Fidel discursando.

BARBARA: - Que barba feia!

TONHÃO: - Bábi, não diga essas coisas ou vai meter seu pai em encrenca, certo? Não se fala mal de Fidel.

BARBARA: - Por quê?

TONHÃO: - Porque não se fala. Se você falar mal dele, pessoas vão entrar aqui e levar o papá. Você não tem idade ainda pra entender, então me obedeça.

Serena entra em casa, com os dois meninos mais velhos, carregando sacolas.

SERENA: - O cupom pra leite diminuiu esse mês e a comida também. O que o governo nos deu não vai chegar pra um mês. Vamos ter que comprar, se tivermos sorte de achar e se pudermos pagar. Parece que uma frota americana está impedindo os navios russos de trazerem comida pra Cuba. Vamos ter que apertar os cintos.

TONHÃO: - Foi o que ouvi dos soviéticos no porto. Esse filho da puta do Jimmy Carter continua se estranhando com o Brezhnev, outro desgraça do cacete! Tudo por causa do Irã.

SERENA: - Tonhão, fala baixo!!! Meninos, levem as sacolas pra cozinha, ajudem a mamá. E depois peçam alguns limões pra vovó, pra fazer uma limonada. E não caiam do limoeiro, por favor!

Guilherme e Jorge vão pra cozinha levando as sacolas. Serena senta-se no colo do marido.

TONHÃO: - E digam pra sua avó que a Dona Olga esteve aqui, quer falar com ela sobre o aluguel da casa da frente!

SERENA: - A Russa vai alugar a casa da mamãe?

TONHÃO: - Foi o que me disse. Ela perdeu o marido, quer vender tudo e morar de aluguel numa casa menor. E já que é amiga da sua mãe, vão ter companhia no mesmo pátio... Duas velhas se entendem e fazem companhia uma pra outra. Vão falar mal dos falecidos o dia todo!

SERENA: - (RINDO) Tonho, para! A melhor coisa que a gente fez foi ter comprado esse terreno de esquina e dado entrada no terreno ao lado pra mamãe. Pelo menos ela construiu duas casas e agora tem aluguel pra ajudar.

TONHÃO: - Não tá grandinha pra querer colo?

SERENA: - (SORRI) Adoro o colo do meu marinheiro tatuado, aquele que prometeu me levar de moto pra assistir o romântico pôr do sol no Malecón e até agora nada!

Barbara olha para os dois e sorri. Continua brincando, arrumando o cabelo da boneca.

TONHÃO: - Marinheiro? Eu sou estivador! Acho que me confundiu com o seu amante, Serena.

SERENA: - (RINDO) Tonho, todo mundo que nasce numa ilha, de certa forma é marinheiro. Até eu sou! Atire um cubano na água e ele não se afoga, e se não sabe nadar, flutua feito coco!

TONHÃO: - (PREOCUPADO) Serena, acha mesmo que os soviéticos não vão se meter no Irã? Claro que vão! Tudo pelo petróleo, sabia? E os americanos vão ferver com isso. Só escuta o que estou dizendo, vai dar merda. Qualquer hora um deles aperta o botão da bomba atômica e pronto! Era uma vez um planeta!

SERENA: - Pare de falar essas coisas, homem! Eu morro de medo dessa guerra fria! Já não chega essa guerra na Angola! Eu nem sei se meu irmão voltará vivo!

TONHÃO: - Pode apostar que Fidel não vai afrouxar na Operação Carlota. Pelo amor de Deus, pobre dos Angolanos, eles precisam de independência ou Portugal vai matar os miseráveis de fome!

SERENA: - Eu sei lá, essa coisa toda que Che começou com fortalecer as guerrilhas...

TONHÃO: - E ele estava errado? Serena, se a coisa está ruim pra gente, já esteve muito pior quando estávamos sozinhos sem perspectivas! Uma ilha sem economia, sem nada, Fidel tentando ajuda americana e o que fizeram? Nem deram ouvidos aos pedidos dele! Cagaram pra nossa miséria! Vinham aqui só pra se divertir, como se Cuba fosse o paraíso deles, explorando nosso povo. Nessas coisas até concordo com o barbudo. Pelo menos tem colhões, coisa que ninguém teve!

SERENA: - Ah sim, e os russos nos abraçaram por caridade?

TONHÃO: - Não foi por caridade. Foi por pirraça contra os americanos, foi pra fazer da gente uma base pras ogivas deles estarem num alcance melhor do rabo do Tio Sam. Mas pouco importa, entende? Eles que são grandes, que se entendam! Olha pra situação da América Latina, mulher. Nós estamos bem, os outros estão comendo o pão que os americanos amassaram. Olha o monte de morte e perseguição política na Argentina, no Chile, no Brasil, na Venezuela...

SERENA: - Nem me fala.

TONHÃO: - Todo mundo que discorda da política miserável de exploração virou inimigo do estado! Pessoas estão sendo torturadas, fuziladas e mortas por governos ditadores colocados pelos americanos pra garantir que a ameaça vermelha não procrie! Tudo por uma neura coletiva entre americanos e soviéticos! O mundo não tem espaço para as duas grandes potências? Quem está perdendo nessa guerra deles é a América Latina! Acha que esses atrasos políticos vão servir para o quê num futuro? Tanto faz comunista como capitalista, a merda a longo prazo é a mesma.

SERENA: - Não tem que ir trabalhar?

TONHÃO: - Hoje me escalaram pra noite. Quando isso acontece, você sabe. Tem armamento soviético chegando. Pelo menos os americanos aqui não entram, podemos dormir tranquilos. Podem foderem com o resto da América Latina, mas aqui aqueles imperialistas não pisam mais. Tem vezes que penso que a URSS deve ser bem mais rica que os EUA. Se podem nos bancar financeiramente...

Os meninos entram na sala.

JORGE: - Mamá, a vovó não tá em casa e as meninas estão em cima do limoeiro dela catando limão sem permissão!

SERENA: - Deixa, depois eu digo pra sua avó. Tô seca por uma limonada bem gelada. Muito calor!

Tonhão se levanta.

TONHÃO: - Vamos, Bábi, vamos pescar com o papá. Garotos, vão pegar as varas de pescar. Aposto que eu pesco mais que vocês dois! Serena, hoje vai ter peixe. Essas crianças precisam comer mais peixe.

Os meninos correm pra fora da casa, empolgados. Barbara vai atrás deles.

BARBARA: - (AOS GRITOS) Espera eu!!! Espera eu!!!

SERENA: - Bábi, coloca o chapéu, o sol tá muito forte! E Tonho, não desgruda os olhos da Bábi. Sabe que a peralta aí não tem medo de água. Ela vai pulando onda e quando vê está se afogando!

TONHO: - Filha de peixe, peixe é. Minha garotinha não é boba. E como você disse, cubano se não sabe nadar, flutua feito coco!

Corte.


Barbara deitada na cama, agarrada na boneca de pano. Tonhão entra no quarto, segurando uma sacola e dá um beijo na filha.

TONHÃO: - Bons sonhos, Bábi. Papá vai trabalhar. Amanhã cedo nos vemos.

BARBARA: - Tá bom, papá. Se cuida, tá?

TONHÃO: - Eu vou me cuidar. E você se comporte. Obedeça sua mãe e suas irmãs, se eu souber que subiu novamente na toranjeira da Dona Olga, eu vou ficar bravo.

BARBARA: - Mas não foi pra pegar toranja!

TONHÃO: - É, foi pra cair e quase se quebrar toda e abrir o berreiro. Da próxima vez, pelo menos traz uma toranja pro seu pai. É pra compensar o susto que você deu. E fique longe de coqueiros!

Tonhão sai rindo do quarto, apagando a luz. Barbara sorri e fecha os olhos, se aninhando na cama.


Moscou, URSS

Um quarto de pensão. Cama arrumada, ambiente simples e decadente. Krycek com 15 anos, parado ali. Vanya, a prostituta, sai do banheiro, vestida apenas de calcinha, sutiã e cinta-liga. O jovem Krycek olha pra ela, então disfarça, ruborizado. Ela acende um cigarro. Espalha cocaína sobre a cômoda.

VANYA: - O que foi? Está vermelho em homenagem a pátria ou nunca viu uma mulher em trajes íntimos, camarada?

KRYCEK: - Por que me chamou? Temos trabalho? Vou trazer outro trouxa pra você enrolar enquanto roubo a carteira dele?

VANYA: - Você tá muito nervosinho hoje, garoto.

Vanya separa as fileiras de cocaína, enrola uma nota de rublo e aspira uma carreira.

VANYA: - Ah!!! Adoro minha clientela. Essa velharada não trepa bem, mas em compensação a droga é pura.

Vanya serve dois copos de vodca. Entrega um pra ele.

VANYA: - Você já é homem, camarada, ou é apenas um garotinho bobo que acha que o que tem entre as pernas serve apenas pra fazer xixi?

KRYCEK: - O que quer, Vanya? Saber se posso beber? Se posso cheirar sua cocaína? É, eu posso. Eu quero ficar doido hoje porque preciso muito sair da realidade!

Krycek puxa o cigarro da mão dela e traga. Dá uma tossida, mas continua tentando fumar.

VANYA: - Nossa! O que aconteceu com você? Virou um adolescente revoltado? Sabia que se ficar muito revoltado as espinhas vão começar a crescer e estragar essa carinha linda?

KRYCEK: - Ah, me deixa, Vanya! Eu sou um adolescente revoltado! E tenho meus motivos pra isso! Se pudesse matava um hoje, de tanta raiva dessa merda de vida!

Krycek entrega o cigarro pra Vanya.

VANYA: - Querido, eu também tenho meus motivos pra ser puta e nem por isso eu saio por aí descontando a minha vagina na cara dos outros! Se bem que eles adorariam!

Krycek começa a rir.

VANYA: - Ah, agora sim. Meu garoto voltou! Querido, infelizmente uns tem sorte na vida e outros... Precisa haver os que fodem e os que são fodidos. É a vida. Não é bom fazer parte dos fodidos, mas o que importa mesmo é viver. Do jeito que dá. Acha que tenho remorso de roubar esses cretinos? Eles não se importam comigo. Eles querem algo que eu tenho e eu quero o dinheiro deles pra sobreviver. Nenhum homem vai bater na minha porta e dizer: Ei, Vanya, quer casar comigo e sair dessa vida? Não, Alex. Quando querem casar, eles vão atrás das puritanas. Como ninguém vai dizer pra você: Ei, garoto, quer fazer parte da minha família, já que perdeu a sua? Não. Eles fazem seus próprios filhos, não precisam pegar os filhos das ruas. As pessoas não ligam, querido. Elas não se importam com o sofrimento das outras. Por que você vai se importar com o sofrimento delas? Elas sofrem em suas casas confortáveis com refeições na mesa. Pensam que sabem o que é sofrer!

Krycek bebe a vodca num gole só. Coloca o copo sobre a cômoda, pega a nota de rublo e aspira uma carreira de cocaína. Sacode a cabeça.

KRYCEK: - Preciso ir.

Vanya o puxa pelo braço. Empurra Krycek contra a parede. Os dois se olham. Vanya leva a mão dentro das calças de Krycek, o massageando. Ele fecha os olhos, nervoso.

VANYA: - Já sentiu isso? Hum? É gostoso, não é? Hum... Grandinho pra sua idade, não? (MORDE A ORELHA DE KRYCEK) Me diz que não gosta, moleque, e eu paro. Porque eu tô cansada de coisa velha. Hoje eu não quero trabalhar, quero me divertir. Também quero fugir da merda da realidade!

KRYCEK: - E-eu...

VANYA: - Você sabe que é uma gracinha, não sabe? Eu posso ensinar tudo o que precisa sobre mulheres. Em primeiro lugar, elas gostam de homens rudes e sérios.

Vanya empurra Krycek na cama. Fica sobre ele, descendo a mão pelo zíper das calças. Krycek tenta levantar, mas ela o empurra com força, metendo um tapa nele.

VANYA: - Selvagem, garoto. Seja selvagem! O amor é uma ilusão, ele não existe. O que existe é apenas interesse do homem e da mulher. Aprenda isso agora ou vai se machucar pensando em donzelas que nunca irá ter. É a regra da vida.

Vanya abre as calças dele. Krycek está nervoso.

VANYA: - Calminha, garoto, só relaxa e deixa o resto comigo. Não se preocupe, eu sei que vai gozar rapidinho, não vai conseguir segurar, mas depois disso você vai se sentir mais aliviado e vai se divertir mais ainda... Com o tempo você aprende a controlar o seu pau.

Ela leva a boca entre as pernas dele. Krycek fecha os olhos, angustiado.

Corte.


Krycek deitado na cama, entre os braços de Vanya, abraçado nela. Vanya faz carinhos nele. Ele recosta a cabeça no peito dela e fecha os olhos.

VANYA: - É bom se sentir amado, não é, garoto? Ai como é bom sentir alguém do seu lado. Um carinho, um abraço...

KRYCEK: - O último abraço que eu tive foi do Karel, porque eu me sentei na calçada e comecei a chorar. Um mês atrás a gente foi dar uma espiada na casa que era do meu pai. Não o cortiço que a gente morava, a casa que era dele, da família, que meus antepassados ergueram com dificuldades. Malditos comunistas, desapropriaram tudo o que os Kryceks construíram! Tá cheio de gente morando lá, virou um cortiço. Eu tendo uma casa enorme e estou morando na rua. Dividir... Dividir o que é da gente, o que é do partido eles não dividem. Meu pai tinha razão!

VANYA: - Seu pai era um homem muito a frente de seu tempo... E Karel é um rapaz bonito. Seu amigo é gay, não é? Já vi como ele olha pra você. Acho que Karel está apaixonado.

KRYCEK: - Eu sei, mas finjo que não sei. Eu não entendo dessas coisas, mas acho que foi culpa dos abusos que ele sofreu nas mãos daquele guarda canalha do orfanato. Karel sempre me protegeu lá dentro, me jogava pra baixo da cama e o cara pegava ele. Nunca diga isso pra ele, Vanya. Não o magoe, eu só peço isso pra você. Eu devo minha vida e muito mais ao Karel. Não vou admitir que ninguém o machuque ou magoe. Ele é meu irmãozinho.

VANYA: - Não, eu nunca faria isso. Quem sou eu pra criticar seu amigo? Só estou comentando com você. Curiosidade de mulher, o bicho mais curioso do mundo!

KRYCEK: - Eu desconfio que ele seja gay, mas Karel nunca toca nesse assunto, nunca disse nada e eu muito menos. Somos amigos desde o orfanato, e se não fosse por ele, eu nunca teria fugido de lá e nem teria sobrevivido lá dentro. Eu tenho certeza de que os amigos que o ajudam com coisas e dinheiro são clientes de programas, por isso ele trabalha do outro lado da cidade, por vergonha de mim e longe de vocês que me contariam. Nós só contamos um com o outro. Não me importa se ele gosta de homens ou mulheres, se é ateu ou ortodoxo, capitalista ou comunista, não faz diferença alguma, ele é a minha família e eu o amo como se fosse meu irmão de sangue.

Vanya senta-se na cama e pega o maço de cigarros. Acende um e sopra a fumaça, fazendo círculos no ar.

VANYA: - Foi sua primeira vez. Espero que tenha gostado.

KRYCEK: - Gostei, mas não foi a minha primeira vez.

VANYA: - Deixa de ser mentiroso, moleque! Eu sou mulher da vida, você pode enganar as meninas da sua idade, não uma mulher com 35 anos! Você gozou rapidinho quando eu chupei você! Depois nem sabia como colocar o preservativo e nem mesmo enfiar o seu pau!

Krycek fica corado. Ela começa a rir.

VANYA: - Pare seu bobinho, ninguém nasce sabendo tudo! Eu fui bem legal com você, não fui?

KRYCEK: - Tá, você foi mesmo, foi a primeira vez que eu transei e eu estava bem nervoso.

VANYA: - Eu sei, eu senti, eu notei, eu ajudei. Pronto. Não é mais fácil dizer a verdade? Quer ouvir outra verdade?

KRYCEK: - Vanya, eu tenho medo das suas verdades... O que sei é que você não parece ter 35 anos. Eu pensei que tinha menos.

VANYA: - Ah, você é um cavalheiro. Mas continue mentindo que tenho 28 para os clientes.

Ele sorri. Ela pega a garrafa de vodca, tomando alguns goles.

VANYA: - Moleque você é quente. Acho que não sentia um homem tão empolgado desse jeito em cima de mim há anos. Tudo bem que você é um garoto, na potência máxima e não cansa, mesmo assim... E tira essa cor comunista das bochechas! Depois que pegar a prática da coisa, as garotas que transarem com você vão ficar bem animadinhas.

KRYCEK: - (SACANA) E você vai me ensinar?

Ela empurra a garrafa de vodca contra o peito dele. Krycek ri.

VANYA: - Você é abusado, sabia? Vai me pagar? Não pensa que vai me comer todo o dia de graça!

Krycek senta-se na cama. Toma um longo gole de vodca.

KRYCEK: - Se eu tivesse dinheiro, eu não pagaria você pra trepar comigo. Eu tiraria você dessa vida, me casaria com você, compraria uma casa bonita e lhe daria todas as coisas que você sempre quis.

Vanya enche os olhos de lágrimas. Silencia os lábios dele com as mãos, com unhas vermelhas longas.

VANYA: - Não sonha, meu menino. Não sonha. Sonhar dói. Eu tenho idade pra ser sua mãe, sou uma puta e você um moleque de rua. Nosso tempo nesse planeta é bem menor do que o tempo das pessoas "normais". Apenas sobreviva o máximo que puder. Faça o que tiver que fazer, mas sobreviva, porque a vida é linda. Os homens é que estragam tudo.

Ela o beija suavemente na boca, afagando o peito dele. Krycek olha apaixonado pra ela.

VANYA: - Quando estiver com vontade de aliviar ou querendo colo... Se nenhuma garota da sua idade tiver interesse em você, o que me faz pensar que essas meninas são umas idiotas... Eu estou aqui. Espero que um dia você encontre uma garota que faça você feliz, cure as suas feridas, lhe dê filhos e ame muito você.

KRYCEK: - Que garota, Vanya? Ahn? As meninas da minha idade estudam e tem família, querem garotos que possam dar uma vida pra elas, um casamento, casa... E as que não estudam estão na sua profissão querendo dinheiro. O que vão querer com um miserável como eu? Um burro sem estudo, sem emprego, um ladrão, viciado... E agora tô virando até gigolô!

VANYA: - Querido, não olhe para a realidade. Olhe para o seu coração. É nele que está a sua verdadeira identidade. Você não aprende a ser bom ou mau. Você nasce bom ou mau. A necessidade de sobreviver é que joga você entre as duas coisas. Um dia, quando você estiver mais velho, vai se lembrar das palavras dessa puta aqui e vai me dar razão.

Ela desenha um coração invisível sobre o peito dele com a ponta do dedo.

VANYA: - Eu vejo aí dentro, meu menino. Você jamais estaria nessa vida se tivesse opção. Você não foi feito para o submundo, meu amor. Gente ruim não têm reciprocidade pela dor alheia. Você tem. Me dá essa vodca. Vamos cheirar, beber e trepar muito pra sair um pouco dessa realidade de merda! Depois você pega aquele violão lá no canto, toca uma canção e canta pra mim com essa sua voz linda, porque a música alegra a alma e o coração, meu artista.



TEMPO ATUAL

Krycek entra na delegacia. Um tumulto de gente. Homens algemados, policiais e meia dúzia de prostitutas xingando os policiais. Uma delas olha pra Krycek.

LIANA: - Hei, Checov!!! Olha lá garotas, é o Checov!!!

Elas acenam empolgadas. Krycek abaixa a cabeça rindo. Senta-se a uma das escrivaninhas e faz sinal pra elas.

KRYCEK: - Ok, meninas, quem é a primeira a ser fichada e me contar uma história triste?

Elas correm pra perto da mesa dele. Se ajeitam dividindo cadeiras.

LIANA: - Na verdade a coisa aconteceu comigo, as meninas só vieram testemunhar a meu favor. Checov, tá vendo aquele seu colega lá atrás? Ele me prendeu porque um cliente disse que me pagou e chamou a polícia. Me fez dar o dinheiro de outro programa que eu fiz, porque seu colega não acreditou em mim!

KRYCEK: - E ele pagou você? Seja sincera, Liana. Sabe que detecto mentirosas de longe.

LIANA: - Pagou nada, Checov! O desgraçado exigiu um boquete e nem ao menos me pagou por isso! E ainda tinha um pau torto!

KRYCEK: - (SEGURA O RISO) Me poupe dos detalhes sórdidos! Gravaram a cara dele? Porque ele vai tentar aplicar de novo com outra de vocês.

LIANA: - Claro que gravei! Pode deixar que ele nunca mais vai ter boquete pro resto da vida!

KRYCEK: - Ok, Liana. Tá liberada.

LIANA: - Não vai me prender?

KRYCEK: - Não, mas se quiser dar queixa desse cara, o nome dele já entrou no sistema, pois ele teve que fazer uma ocorrência com o meu colega.

LIANA: - E eu posso?

As outras prestam atenção, curiosas.

KRYCEK: - Claro que pode. Você vende um serviço, o cliente não pagou, isso é estelionato. Ele não vai pra cadeia, tem uma série de leis que o protegem disso, mas vai ficar registrado aqui. Da próxima vez que ele aprontar pra cima de vocês, o meu colega vai checar o sistema, só que dessa vez o nome dele, juntamente com a queixa, vai aparecer. Quem vai fazer uma visitinha na delegacia vai ser ele e não você ou suas amigas.

LIANA: - Ok, vamos fazer a ocorrência. Pelo menos ele não vai mais aplicar em nenhuma de nós. Ai, Checov, só você mesmo pra explicar as leis pra gente! Eu nem sabia disso!

KRYCEK: - Agora sabem, por isso é bom que deem queixa. Me dá um documento que vou entrar com a ocorrência. Acabou a farra do engraçadinho. Preciso da assinatura das suas amigas como testemunhas.

Uma delas, mascando chiclete, se debruça na escrivaninha, mostrando os peitos.

ABIGAIL: - E quanto a Liana deve pelo favor? Tá querendo um programa? Eu pago por ela.

LIANA: - (IRRITADA) Abigail, cala a sua boca, respeite o Checov! Ele é o único nessa delegacia que sempre nos respeitou e acreditou na gente! Ele já livrou a cara de muitas das nossas colegas de profissão, não é Checov? Uma vez ele sentou a porrada num imbecil que estava batendo na Wanda no meio da rua.

KRYCEK: - Eu tenho meus motivos pra isso, meninas. Agora vou buscar o formulário pra assinarem.

Krycek se levanta. Abigail fica olhando pra ele. Faz uma bola com o chiclete e estoura.

ABIGAIL: - Ele é gay?

LIANA: - Ele não é gay. Ele é um cavalheiro. Casado, ama a esposa e é pai de dois filhos pequenos. Ele nos respeita como se fôssemos damas. Deixe o Checov em paz.

ABIGAIL: - Mas por que ele livra a cara das vadias sem querer nada em troca? Policial nenhum faz isso!

LIANA: - Eu não faço ideia, ele nunca diz. Só sei que se tiver algum problema, é o Checov quem vai resolver, ninguém mais se importa com as vadias. Então o respeite como ele nos respeita.

Corte.


Krycek sentado ao piano, olhando para as teclas. Barbara sentada no sofá, trabalhando no notebook. Krycek leva as mãos ao piano. Começa a tocar uma música lenta, suave e melodiosa. Barbara tira os olhos da tela e admira o marido, que toca de olhos fechados, mergulhado em outro universo. Ela coloca o notebook de lado, e apoia o rosto na mão, fechando os olhos, mergulhada na música.

BARBARA: - Que música linda, Ratoncito! Como se chama?

KRYCEK: - Se chama Malyshka Moya.

BARBARA: - (SORRI) Sério? Quem é o compositor?

KRYCEK: - Fiz pra você.

Barbara leva a mão ao peito, resvala o corpo no sofá, revirando os olhos e terminando sentada no tapete. Krycek olha pra ela, começa a rir e para de tocar.

KRYCEK: - O que foi? Uma mulher linda como você nunca foi musa de alguém?

BARBARA: - Eu não!

KRYCEK: - Sério, Barbara. Eu nunca entendi como os homens não olhavam pra você.

BARBARA: - Ah, eles olhavam. E muito! Para os meus peitos, pernas, bunda...

KRYCEK: - Não dessa maneira. Não olhavam pra você como uma mulher fantástica, incrível, uma pessoa maravilhosa pra dividir a vida... Que idiotas! Mas ainda bem que foram idiotas...

Ele volta a atenção para o piano e continua a tocar. Barbara se deita de bruços no tapete, cotovelos no chão e a cabeça apoiada nas mãos, olhando apaixonada.

BARBARA: - E eu me pergunto todos os dias: Por que uma arma nas mãos desse homem, se as mãos dele servem para criar coisas tão lindas?

KRYCEK: - Não exagera. Não sou tanto.

BARBARA: - Ah você é, mas não vê isso. Pra mim você é o meu tudo, o amor da minha vida. Minha costela de onde saí e que Papai do Céu trouxe pra mim. Só pra mim. Azar das outras que não deram valor. Eu dou e agradeço todos os dias.

Ela deita a cabeça sobre os braços, fechando os olhos.

KRYCEK: - Sou eu quem precisa agradecer todos os dias.

BARBARA: - Hum... Agradecer por eu ter domesticado o ratinho selvagem?

Ele segura o riso. Para de tocar.

KRYCEK: - "Você não aprende a ser bom ou mau. Você nasce bom ou mau. A necessidade de sobreviver é que joga você entre as duas coisas"... É, ela tinha razão. Quando eu ficasse mais velho eu veria isso e daria razão pra ela.

BARBARA: - Sábias palavras. Quem as disse?

KRYCEK: - A minha primeira mulher e primeiro amor da minha vida.

Barbara olha pra ele.

BARBARA: - Nunca pensou em procurar Vanya? Saber o que houve com ela, depois que foi embora com o oficial? Nunca se perguntou se ela teve a felicidade que buscava?

KRYCEK: - Ela teve sorte, eu acho. Ela merecia. Pelo menos sempre desejei isso, mesmo ela tendo ido embora sem me dizer nada e despedaçado o meu coração adolescente. O que ela me desejava se concretizou com você na minha vida. Se Vanya estiver viva, já deve estar velhinha.

BARBARA: - Aposto que se ela estiver viva, adoraria saber que você está casado, com dois filhotes, virou detetive e tem uma boa vida nos Estados Unidos. Tenho certeza de que ela ficaria muito feliz... Continua tocando... Adorei minha canção, Ratoncito... Já fez a letra?

KRYCEK: - Ainda não terminei.

BARBARA: - Hum... Quando estiver pronta, quero essa voz linda cantando pra mim.

KRYCEK: - Nunca entendi o que uma mulher inteligente e bonita como você viu num cara como eu. Pensei que se soubesse quem eu era, você daria o fora. Você ficou. Depois pensei que quando eu contasse o meu passado, você desistiria e sumiria pra sempre. Você não sumiu, ficou.

Ela ergue a cabeça, olhando atrevida pra ele.

BARBARA: - O que eu vi em você, Alex Krycek? Nossa, vi muitas coisas! Um cara mais velho, uma voz sexy, aquela jaqueta de couro, brinco na orelha, cara amarrada e brava, sorrisinho de malandro, uma bunda linda, coxas grossas, a altura, mãos grandes, braços fortes e nem vou falar daquele outro talento escondido dentro das suas calças...

Krycek começa a rir. Ela rindo, volta a deitar a cabeça sobre os braços. Fica séria.

BARBARA: - Um menino sozinho precisando de colo, um cara errante que queria se consertar, mas a maior delas foi um coração verdadeiro... Isso não é fácil de encontrar. Um coração que nunca mentiu quem era, o que fazia e também não me julgou pelos meus erros. Eu sei você, Ratoncito. E você me sabe. E a gente se dá bem. E o resto que nada sabe da gente, que se foda! Agora toca a minha canção desde o início e me deixa curtir.

Krycek sorri. Começa a tocar a música novamente. Barbara se levanta. Toma posição de bailarina, respira fundo, abre os braços e tenta dançar na ponta dos pés. Krycek olha sorrindo pra ela. Barbara dança pelo tapete, como uma bailarina, ao som do piano.



1980

Havana, Cuba

Barbara com oito anos, entra correndo, vestida num frufru rosa, usando um coque e segurando as sapatilhas de balé. Serena sai da cozinha, secando as mãos no pano de prato.

SERENA: - Oi, né?

BARBARA: - Oi mamacita!

SERENA: - Pra que tanta pressa, Bábi? Cadê o Jorge?

BARBARA: - Ah, ele me largou em casa e foi falar com os amigos.

SERENA: - E como foi o balé?

BARBARA: - O balé foi bom. Quer ver o que aprendi hoje?

Barbara senta no chão e tira os sapatos. Coloca as sapatilhas de balé, começa a amarrar.

BARBARA: - Espera aí, mamá.

SERENA: - Pode amarrar sem pressa.

Barbara termina de amarrar. Se levanta e começa a dançar. Serena olha apaixonada.

SERENA: - Ai, Bábi, minha bailarina! Filha, eu fico apaixonada quando você dança. Você nasceu pra coisa. Parece uma pluma!

BARBARA: - Eu quero ser bailarina quando crescer. Bailarina e jornalista!

Serena sorri. Barbara para de dançar e senta-se no chão, tirando as sapatilhas.

BARBARA: - Tô com fome, mamacita!

SERENA: - Minha pequena gulosa. Eu não sei aonde vai tanta comida nesse estômago. Deve ter uma lombriga enorme nesse corpo magrela!

Serena vai pra cozinha. Volta com um iogurte.

SERENA: - Coma isso antes que seus irmãos cheguem. Só tenho esse.

BARBARA: - Não é justo com eles!

SERENA: - Eles são grandes, não precisam de iogurte. Você é pequena e precisa. Coma e não discuta. E não derruba iogurte na sua roupa de balé. Depois tira e me dá pra lavar. E cama cedo, porque hoje foi uma novela tirar você da cama pra escola. Não pode dormir tarde. Se for atrás do seu pai, assistindo filme com ele, você vai virar uma coruja.

BARBARA: - Mas estava bom o filme, mamacita! Eram dois caras que brigavam o tempo todo! Um deles batia com uma frigideira nos bandidos! Agora eu sei como me defender, nada como uma boa frigideira!

SERENA: - Ah! Filme do Trinity! Seu pai adora!

[Som da moto estacionando na frente da casa]

Barbara liga a tevê. Fica assistindo, atenta.

TV (OFF): - ... O corpo do suboficial está sendo retirado neste momento...

Tonhão entra correndo em casa e senta-se no sofá, prestando atenção.

SERENA: - O que está aconte...

TONHÃO: - Pra variar os noticiários não podem contar a verdade.

BARBARA: - Por quê?

TONHÃO: - Porque estamos num regime fechado, Bábi.

BARBARA: - ... Mamá, você mentiu pra mim!

Barbara larga o iogurte e cruza os braços num beiço.

SERENA: - Menti? Quando? Do que está falando, Bábi? Nunca menti pra você!

BARBARA: - (BEIÇO) Mentiu sim, dizendo que só tinha esse iogurte. O papa disse que estamos de regime, você não falou nada sobre regime! Eu não quero fazer regime, eu não tô gorda!

Tonhão e Serena se olham e começam a rir. Barbara fica mais séria e emburrada.

TONHÃO: - Não, Bábi. O país está num regime fechado, que chamamos comunismo e nada tem a ver com dieta. É um tipo de governo. As pessoas não podem sair por aí falando contra o governo ou podem ser castigadas.

BARBARA: - Sério? Com chineladas no bumbum?

TONHÃO: - Muito pior que chineladas no traseiro.

Barbara arregala os olhos e pega o iogurte, voltando a atenção pra TV.

TONHÃO: - Serena, um grupo bateu um ônibus contra as grades da embaixada do Peru, invadindo e solicitando asilo político. Um suboficial morreu tentando proteger o prédio. Fidel solicitou a entrega dos cubanos e ameaçou retirar a proteção da delegação diplomática peruana, mas eles não querem expulsar os cubanos do prédio. Vai dar merda, Serena. Eu não disse? O povo quer dar o fora de Cuba! Liberdade é tudo!

Serena senta-se nervosa ao lado do marido. Faz o sinal da cruz.

SERENA: - Deus nos proteja de outra revolução!

TV (OFF): - Nosso líder Fidel Castro pede calma a todos os cidadãos, este é um fato isolado. Reiteramos o pedido para o povo não se dirigir até a embaixada peruana.

A porta se abre. Guilherme - o jovem de cabelos crespos e meio longos - entra nervoso, de jeans e uma camiseta do Che Guevara. Barbara olha para o irmão, solta o iogurte, se levanta e pula no colo dele. Guilherme a segura e dá um beijo nela.

SERENA: - Que faz em casa, Guilherme? Não estava na oficina...

GUILHERME: - Estava, mas fecharam tudo e mandaram a gente ir embora por causa de uma confusão nas ruas do centro. Façam as malas. Vamos embora!

TONHÃO: - Como embora? Está maluco?

GUILHERME: - Tem mais de dez mil cubanos invadindo a embaixada peruana pedindo asilo político. Eu passei lá na frente, tá dando uma pauleira e quebra-quebra.

TONHÃO: - Dez mil???

GUILHERME: - Os noticiários não vão dizer. Estão pedindo para ficarmos longe de lá, mas o povo está chegando com malas! Velhos, jovens, homens, mulheres, crianças, famílias inteiras, papá!!! Todos invadindo o prédio da embaixada querendo dar o fora da ilha. É a nossa chance.

Batidas na porta. Tonhão se levanta. Abre a porta. Um homem negro e barbudo entra nervoso.

EMILIO: - Tonhão, o Díaz mandou a gente voltar agora para o porto.

TONHÃO: - O que foi?

EMILIO: - Por causa da confusão na embaixada, a polícia vai cercar o porto para ninguém tentar fugir escondido nos navios e não vamos poder entrar pra trabalhar. O Díaz mandou a gente pegar uma muda de roupa e ir agora, antes da polícia chegar. O porto não pode parar, tem carga saindo e chegando.

Tonhão vai pro quarto. Serena vai atrás.

SERENA: - Espera, homem! Eu vou ver umas camisas limpas pra você!!!

GUILHERME: - Meu pai é um idiota! A gente podia dar o fora daqui agora! É a nossa chance!

EMILIO: - Guilherme, seu pai é um homem sensato, ele tem cinco filhos e esposa. A Bábi ainda é pequena, né Bábi? Vão trocar o certo pelo duvidoso? Acredita mesmo que será tratado como gente se for pra outro país? Vai ser apenas mais um refugiado cubano sobrevivendo de migalhas. Aqui você tem uma casa, emprego, o governo dá educação, saúde... Cuba vai ser exemplo pra muitos países, só espera pra ver.

GUILHERME: - E liberdade vigiada! Cara, se Che estivesse vivo ia surtar com a merda que o Fidel está fazendo!

EMILIO: - Guilherme, Fidel não é perfeito, mas está se esforçando pelo povo. E agradeça por tudo o que Cuba está se tornando, filho. Éramos um ilha menosprezada no meio do nada e hoje somos respeitados lá fora e temos chances iguais aqui, tanto pobres quanto ricos. Não pense você que num país capitalista pobre e rico tem chances iguais...

GUILHERME: - Eu sei, eu entendo, amo o meu país, mas não concordo com os rumos da política do Fidel. Ele deveria se divorciar dos russos antes que eles se divorciem de nós, porque a coisa lá tá ficando bem feia e na Alemanha Oriental os caras tão se revoltando. A década passada estava melhor do que essa pra gente. É crise em cima de crise! Eu tô ralando naquela oficina pra ajudar o meu pai! Minha namorada quer casar, imagina que vamos poder nos casar e morar aonde? Aqui? Socados todos nessa casa? Prefiro fugir para o Peru do que esperar ajuda daqueles russos desgraçados! Eles são ricos e não estão nem aí pra gente!

EMILIO: - Você é jovem, não entende ainda. As coisas vão melhorar, tenha paciência. Acha que ir para o Peru vai resolver alguma coisa? Sabe o que está havendo por lá? Conflitos e mais conflitos armados, revoluções! O Tupac Amaru e o Sendero Luminoso contra os militares! Fujimori viola todos os direitos humanos e os peruanos estão sofrendo uma miséria pior do que a nossa. Na Nicarágua, os Sandinistas estão lutando pelo poder. Na Argentina os estudantes estão marchando e protestando e no Brasil os partidos políticos estão se criando. Aos poucos a América Latina está tentando se libertar da ditadura militar que os lesionou por duas décadas. Filho, por pior que seja sua pátria, ela é a sua pátria. Se não gosta do que vê, lute por ela e tente mudar, mas fugir não vai resolver nada. Honre a memória desse argentino de coração cubano estampado na sua camisa. Ele morreu pela causa do povo.

BARBARA: - Eu sei o que vou ser quando crescer! Bailarina e jornalista, igualzinha a moça da televisão! Aí eu posso dar as notícias mais rápido, porque essa moça é muito atrasada, o Emílio chegou da rua bem antes com um monte de notícia quentinha, né Gui?

Eles olham pra ela e riem.

Corte.

No quintal, debaixo de uma goiabeira, uma carcaça de televisão velha, já sem tela, sobre um caixote de feira.

Tonhão sentado numa cadeira de frente para a televisão tomando um copo de cerveja e fumando um charuto. Guilherme serve um copo e senta-se no chão, ao lado do pai. Jorge, mais novo que Guilherme, senta-se ao lado do irmão.

TONHÃO: - Jorge, como estão as coisas na fábrica de charutos?

JORGE: - Tranquilo, papá. Os caras tão gostando do meu serviço. Eu sou rápido pra carregar o caminhão.

GUILHERME: - Quando tirar sua carta, tenta ser motorista, eles pagam bem melhor. Papá, amanhã já pode andar com a moto. Tá ficando uma belezinha. Serviço de primeira. Dou garantia.

TONHÃO: - Olha, garoto, não me enrola porque de mecânica eu manjo tudo. Quem arruma aquelas sucatas lá no porto?

GUILHERME: - Cuidado quando sentar naquela empilhadeira, pode pegar tétano!

Os garotos riem.

TONHÃO: - Você vai ver. Não fale mal da Natasha.

Eles começam a rir mais ainda.

JORGE: - Natasha! A empilhadeira tem até nome!

GUILHERME: - Por que Natasha? Por que não Lola?

TONHÃO: - Porque ela é russa. Está ultrapassada, demora pra levar as caixas até os navios e os russos ficam putos! A gente senta na Natasha, mete carga na Natasha, dá porrada na Natasha... A Natasha é a única maneira discreta que a gente tem de trepar em alguma coisa russa e foder com a vida deles como eles fodem com a nossa!

Eles caem na gargalhada.

TONHÃO: - O Emílio pintou aquela coisa velha soviética e tá ronronando feito russa sentada num negão cubano.

Os garotos riem mais ainda. Tonhão sopra a fumaça, bem sério. Serena sai da casa com um pote de pipocas, as duas filhas mais velhas a seguem. Serena senta-se na cadeira ao lado de Tonhão e as irmãs de Barbara sentam nas cadeiras atrás dos pais, cochichando e rindo.

Barbara sai da casa com os saltos da mãe, maiores que os pés dela e num vestido que quase se arrasta, uma maquiagem borrada e senta-se atrás da carcaça de televisão. Tonhão leva a mão à boca, tentando não rir.

GABRIELA: - Ô fedelha, você não pegou a minha maquiagem, não é? Se você estragou a minha maquiagem eu caço você pela rua inteira!

SERENA: - A maquiagem é minha.

ALICE: - Esse vestido é meu! Eu não acredito! Mamá, ela tá com o meu vestido!

SERENA: - Você nem usa esse vestido, Alice, está apertado na sua bunda! E os sapatos são meus. E daí?

TONHÃO: - Dá pras matracas ficarem quietas? Eu quero ouvir o noticiário da repórter mais bonita do mundo!

BARBARA: - Ninguém vai ligar a TV?

Guilherme se levanta rindo e aperta o botão da carcaça de TV. Volta a sentar.

BARBARA: - Boa tarde! Eu sou Barbara Ramirez e vou trazer as notícias pra vocês.

As irmãs começam a rir, Tonhão vira-se e censura as duas num olhar. Elas disfarçam.

SERENA: - Olha, Tonhão! Não é a Bábi?

TONHÃO: - (QUASE RINDO) Fica quieta, mulher. Deixa a jornalista Bábi dar as notícias do dia!

BARBARA: - Essas são as principais notícias do dia. A Dona Olga plantou hortênsias no jardim a tarde toda com a vovó e falaram sobre os maridos falecidos.

Tonhão olha debochado pra Serena, que coloca pipoca na boca.

TONHÃO: - Não falei?

Serena dá um cutucão nele, rindo.

BARBARA: - Seu Sebastião do mercadinho deu o troco errado e mamá brigou com ele de novo pra trocar os óculos. O papá não vai trabalhar hoje porque deram folga pra ele e Jorge conseguiu um emprego legal na fábrica de charutos. O Guilherme está consertando a moto do papá na oficina. Alice e Gabriela vão sair hoje à noite pra dançar no clube com os namorados...

Tonhão olha pra trás, sério e invocado. As filhas disfarçam. Jorge abaixa a cabeça, rindo.

TONHÃO: - Que namorados? Que história é essa de namorados? Serena, desde quando essas meninas estão namorando? Uma tem 14 e a outra 16!

SERENA: - Eu não sei! Não me culpa, eu não estou sabendo de nada disso! Elas disseram que iam dormir na casa da Talita!

GUILHERME: - (RINDO) Notícias em primeira mão! E quentes! Acho que vou assistir esse telejornal todos os dias!

Alice se levanta, furiosa.

ALICE: - Bábi, sua dedo duro! Fica aí catando as coisas atrás da porta! Você não pode ficar ouvindo coisas de adultos, sua moleca enxerida!

TONHÃO: - Adultos? Que adultos? Só vejo duas molecas espinhentas e mentirosas achando que podem fazer o que quiser enquanto estão debaixo do meu teto!

BARBARA: - Vocês estão atrapalhando as minhas notícias!!!

TONHÃO: - Ninguém vai em clube algum! E um mês de castigo. Da escola pra casa e da casa pra escola.

Gabriela se levanta.

GABRIELA: - Eu já tenho 16 anos, vou fazer 17, eu já posso namorar!

TONHÃO: - Vai namorar é a porra do meu chinelo! Quero as duas em casa e vão ficar de castigo por enganarem sua mãe e eu! Filha minha não vai se esfregar em clube com qualquer zé ruela! Eu dou um duro do cacete naquele porto pra não deixar merda nenhuma faltar na porra dessa casa e minhas duas filhas se esfregando por aí pra ficarem mal faladas na boca do povo? Uma bosta que vocês vão namorar! Se querem namorar, queremos conhecer o bosta primeiro!

GABRIELA: - Não é qualquer um! Vocês conhecem ele! É o Pablo! Ele me ama e eu o amo!

Serena põe a mão na testa, incrédula.

SERENA: - O Pablo, o caçula do Mathias? Meu Senhor!

TONHÃO: - (INCRÉDULO) Aquele vagabundo cara de bosta que nem olha pra gente? Fica com aquela moto pra cima e pra baixo na rua, matando aula e se aparecendo? É ram dan dan dan dan o dia inteiro nos ouvidos! Mas nem por cima do meu cadáver! Aquele cara não ama você, ele ama o que você tem no meio das pernas!

SERENA: - (CUTUCA O MARIDO) Tonho, a Bábi.

TONHÃO: - É, ele ama os seus joelhos, me entendeu né? As duas, já pro quarto e depois vamos ter uma conversa séria!!!

ALICE: - Essa moleca dos infernos, fofoqueira!!!

BARBARA: - Eu não sou fofoqueira!!! Eu sou jornalista!!!

GABRIELA: - Minha vida não é notícia pra você, pirralha melequenta! Jornalista nada, você nunca vai ser jornalista, nem famosa! Cresce de uma vez e veja aonde você nasceu, e falando nisso, você é um acidente de percurso! Você nem foi esperada, nem desejada! Nasceu por descuido da mamãe, quando todos nós já estávamos crescidos! Ninguém queria você não!

Barbara abaixa a cabeça, chorando calada. Serena puxa com força a orelha de Gabriela, que solta um grito e fica olhando incrédula pra mãe.

SERENA: - (FURIOSA) Jamais fale assim da sua irmã! Isso não é verdade! Seu pai e eu não esperávamos por outro filho, mas Barbara foi desejada e amada desde o início sim! E você é mulher, um dia vai se casar e ver que essas coisas acontecem quando se dorme com um homem!

GUILHERME: - Pelo menos mamãe é uma mulher casada e teve uma filha do marido. Pior é você, que se continuar de frescura com esse cara, vai é acabar grávida e sozinha! Escola que é bom nada, né? Só quer saber de namorar.

GABRIELA: - Se meta com a sua vida, Gui!

GUILHERME: - Você é a minha irmã, eu vou dar uns safanões naquele cara pra ele ficar longe de você, sua burra! Eu vejo ele todo dia dando em cima das garotas lá no centro, enquanto desfila de moto, todo empetecado! Ele ama você, imagina se não amasse! Nossos pais têm razão em não querer esse cara com você!

Gabriela olha com ódio pra Barbara.

JORGE: - Gente, por favor, olha o barraco, a Dona Olga vai ouvir e vão assustar a velha. Gabi, a Bábi não fez por mal. De todos nós, ela é a mais criativa!

ALICE: - É, ela nunca faz por maldade, ela é criativa. Fofoqueira sim! Tomara que morra envenenada com a própria língua! Jornalista... Do jeito que essa menina é mimada, nem vai terminar seus estudos, vai é embarrigar do primeiro na rua e aí quero ver o papá defender a favorita dele! Menina idiota!

TONHÃO: - Alice, pare de ser cretina com sua irmã! Ela é uma criança, não fez por mal! Quando sua mãe e eu negamos alguma coisa pra vocês? Falam da Barbara como se apenas ela tivesse sido mimada. Vocês foram mais mimadas do que ela, porque não tem um pingo de educação para com seus pais e sua irmã! E a culpa é minha porque vara de marmelo tem de sobra nesse pátio! Ainda dá tempo de catar uma bem grande!

Guilherme vai até Barbara e a pega no colo, secando as lágrimas dela e dando um beijinho no rosto da irmãzinha. Os sapatos enormes caem dos pés dela. Ela se abraça nele.

SERENA: - Vocês duas não têm juízo algum! Se fossem tão adultas quanto dizem, teriam conversado comigo e com o seu pai. Ninguém aqui proibiu vocês de namorar! Só não gostamos de mentiras! Tinha necessidade de mentir?

GABRIELA: - Ah, certo, não proíbem. Acabo de dizer que amo o Pablo e levei um sermão e um castigo por querer sair com ele!

TONHO: - Levou um sermão e um castigo pela mentira! Você pode namorar, mas sua irmã ainda não tem idade. Até o Guilherme quando decidiu namorar trouxe a menina aqui pra gente conhecer. Vocês duas não entendem o que é ser pai e mãe, um dia vão entender! A gente se preocupa. Criamos os filhos com amor e queremos protegê-los da perversidade do mundo. E aquele cara não presta, mas você não vai acreditar no seu pai, vai ter mesmo que apanhar da vida pra aprender?

GABRIELA: - Vem Alice, vamos pro quarto. E você, Bábi... Se eu pegar você atrás das portas escutando minhas conversas com a Alice, você tá ferrada garota! Vai sentir o peso da minha mão na sua cara!

Barbara começa a chorar. Alice e Gabriela entram furiosas em casa. Serena e Jorge vão atrás.

GUILHERME: - Fica assim não, Bábi. Elas não falaram por mal, só ficaram bravas e quando a gente está com raiva, diz coisas que magoam. Aquelas duas têm um parafuso a menos.

TONHÃO: - Me dá ela aqui, Guilherme.

Guilherme coloca Barbara sentada na perna do pai.

TONHÃO: - Bábi, escuta o papá. Por que estava ouvindo suas irmãs atrás da porta do quarto delas?

BARBARA: - (CHORANDO E MURMURANDO) ...

TONHÃO: - Filha, não entendo nada do que diz. Pare de chorar. Tá tudo bem agora. E nós gostamos do jornal. Você é uma ótima jornalista.

GUILHERME: - Verdade, Bábi. A melhor jornalista que a gente conhece.

Ela seca as lágrimas, com as mãos.

BARBARA: - Eu queria achar notícias pro jornal... Pedi pra elas, mas me correram jogando revistas em mim!

TONHÃO: - Escute seu papá. É muito feio ouvir atrás das portas. Certo? Promete que não vai mais fazer isso?

Barbara triste e magoada afirma com a cabeça.

TONHÃO: - Você pode encontrar notícias em todos os lugares, sabia? Por que não faz entrevistas também?

BARBARA: - Como assim?

TONHÃO: - A Dona Olga, por exemplo. Ela é amiga da vovó e é uma senhorinha, tem tanta coisa legal pra contar. Sabia que ela nasceu na Rússia e o falecido marido dela lutou na guerra?

Barbara nega com a cabeça.

TONHÃO: - Ela sempre faz uns quitutes gostosos e entrega pelo muro pra você. Diz pra ela que quer ser jornalista e está praticando. Pergunta se ela pode responder coisas pra você. Se ela disser que sim, faz uma entrevista com ela. Pode fazer comigo, sua mãe, suas irmãs, irmãos, até o seu Sebastião tem coisas pra contar daquela bodega...

GUILHERME: - E como tem! E eu tenho cada história pra contar daquela oficina...

TONHÃO: - A vovó também tem tanta história, da época em que ela era miss. Sabia que a vovó foi miss Havana?

Barbara acena que não com a cabeça.

TONHÃO: - É, a mãe da sua mãe causou furor entre os jovens da época. Viu como tem história pra virar notícia? Mas não esqueça que um jornalista sempre pede permissão para entrevistar. Você vai ver que existem tantas histórias bonitas que são notícias também.

BARBARA: - Eu não sabia que tinha que pedir permissão. Vou pedir desculpa pras maninhas.

Ela desce do colo do pai e vai correndo pra dentro de casa. Guilherme sorri.

GUILHERME: - Acho que agora ela entendeu a diferença entre fofoca e jornalismo.

TONHÃO: - Mas foi bom acontecer ou suas irmãs fariam merda. Vou lá dentro, aproveitar que sua mãe está com elas e levar um papo sério com as duas. E se você e o Jorge encontrarem aquele malandro, falem sutilmente que querem ele longe da Gabi ou eu vou falar pessoalmente com ele e não serei nada sutil.

GUILHERME: - Pode deixar, papá. Eu vejo ele todo o dia lá da oficina, mas ele não me vê, fica parado com aquela moto só chamando as garotas pra darem uma volta. Eu vou dar uma dura naquele fanfarrão e se ele não me escutar, uma banana naquela surdina e a moto já era!

TONHÃO: - Prefiro a sua banana na surdina dele que a banana dele na surdina da sua irmã!


Moscou, URSS

Vanya nua abre a porta do quarto da pensão. Krycek com 18 anos, parado na porta, vê a mulher nua deitada na cama e o homem só de cuecas sentado na poltrona.

KRYCEK: - (SUSSURRA) Por que me chamou se está com clientes?

VANYA: - (SUSSURRA) Quer ganhar 120 mil rublos*? (20 dólares americanos*)

KRYCEK: - (SUSSURRA) Em quem eu tenho que bater?

VANYA: - (SUSSURRA) Lembra dela?

Krycek espia pra dentro do quarto.

KRYCEK: - (SUSSURRA) Lembro. Você estava transando com ela e me incluiu no pacote. Ela me deu 50 mil, foi uma grana bem vinda.

VANYA: - (SUSSURRA) Pois então, agora ela trouxe o marido e ele quer um homem na nossa brincadeira. Ela pediu por você e ele concordou. E aí? 240 mil rublos, 120 mil só pra você. Meio a meio.

KRYCEK: - (SUSSURRA) Tá louca, Vanya? Nem ferrando que eu vou transar com macho!

VANYA: - (SUSSURRA) Deixa de ser idiota, garoto! Eu nunca chamaria você pra uma coisa dessas! Aqueles dois são casados, ele gosta de ver.

KRYCEK: - (SUSSURRA/ RINDO) Ver? Como assim? Ele gosta de ver um cara transando com a mulher dele?

VANYA: - (SUSSURRA) É, tem doido pra tudo nesse mundo, garoto! E aí? Você só tem que transar com a gente pra ele ver. São 120 mil rublos pra se divertir com duas e o corno ali bater uma. Toma uns goles de vodca, engole a vergonha, finge que ele não tá aqui e manda ver. É uma boa grana pra meia hora de trabalho. Você levaria dois dias pra conseguir isso, arriscando ser preso!

Krycek entra no quarto, fechando a porta.

Corte.


Krycek anda pela rua. Karel ao lado dele. Os dois olham pra relojoaria.

KRYCEK: - É agora ou nunca. Vão nos dar uma bolada pelas joias e nós dois vamos pra América. Já tenho quem nos atravesse pra Finlândia. O problema é atravessar os estados até chegar em São Petersburgo. Nem que vamos a pé, pelas florestas, mas vamos dar o fora desse país. Eu enchi! Cansei! Olha pra mim, consegui até agora realizar algum sonho?

KAREL: - Você canta. Você tem talento. Uma voz linda. Vai fazer sucesso. Eu sei que vai e eu tenho orgulho de ter você como amigo. Um amigo fiel é o melhor remédio que se encontra na vida... Lembre-se disso Alexander...

Krycek confere a arma dentro das calças. Tenso, fecha os olhos.

KRYCEK: - Nunca fiz isso... Deus, me perdoe, mas eu mato um se preciso for pra poder dar o fora dessa vida ordinária.

Corte.


O carro do exército russo estaciona na calçada. Alguns soldados tomam posição pela rua. Krycek e Karel saem em disparada da loja. O joalheiro grita, desesperado. Os soldados ao verem a confusão saem atrás dos garotos. Eles tomam o velho beco conhecido. Param.

Close nos policiais armados que olham pra eles.

Krycek, nervoso, puxa a arma e mira neles. Karel grita. Os policiais miram as armas neles. Krycek deixa a arma cair ao chão. Os soldados chegam. Agarram os dois os colocando contra a parede e os revistando. Depois começam a bater nos garotos com violência.



TEMPO REAL


Residência dos Krycek - 3:23 PM

Krycek entra pela varanda, carregando a maleta de ferramentas. Barbara sentada no tapete, amamentando Svetlana e Dimi brincando. Krycek para. Fica olhando pra eles. Dimi se levanta e vai correndo até o pai, rindo e se abraçando na perna dele. Krycek pega o filho no colo.

KRYCEK: - Quer ajudar o papa a arrumar a fiação do corredor lá em cima? Hum? Depois a gente vai brincar?

Dimi afirma com a cabeça.

KRYCEK: - Malyshka... Outro dia você estava dizendo que Mulder e eu damos mais atenção aos primogênitos porque foram os primeiros. Não é verdade.

BARBARA: - Então me conta a verdade.

KRYCEK: - Eu fui um menino, como o meu filho é um menino. Olho pra ele e quero fazer por ele o que nunca fizeram por mim. Assim como o Mulder era o filho estranho, agora ele quer fazer pela Victoria o que nunca fizeram por ele. Lana é menina. Bryan é normal. Não é sexismo ou favoritismo. É psicológico. Entendeu?

Krycek vai pra sala, levando Dimi com ele. Barbara olha pra Svetlana e sorri.

BARBARA: - Mistério resolvido, Lana. Hei, vamos ligar pra vovó e saber como eles estão lá em Havana? Hum?


8:09 PM

A TV ligada no estar íntimo. Na tela, a imagem do apresentador do telejornal e Barbara aparecendo no telão atrás dele. Krycek na cozinha, segurando Svetlana que resmunga e tentando servir um prato de papinha.

KRYCEK: - Calma aí, Barbara comilona! Não vamos chorar de novo.

Dimi sentado no tapete, sério, num beicinho, brincando de carrinho, colocando peças plásticas de figuras geométricas dentro da caçamba. Depois derruba tudo e começa a colocar de novo.

BARBARA (OFF): - De forma alguma o senado aprovaria uma medida restritiva dessas.

Dimi desvia a atenção pra televisão. Se levanta e começa a bater a mãozinha na tela.

DIMI: - Mama "dento" da tevê, papa!!!

KRYCEK: - (SORRI) É, a mama faz mágica!

DIMI: - (RINDO) Dimi na tevê "tamém"?

KRYCEK: - Ah sim, quem duvida que um dia você não esteja aí dando as notícias?

Krycek senta no sofá, segurando a filha e um pratinho com colher. Coloca o prato no sofá. Tenta fazer Svetlana sentar na sua perna, mas ela fica na ponta dos pés e não cede.

KRYCEK: - Milaya* do papa, não banca a bailarina agora, você tava chorando querendo comer. Vamos, sentadinha.

(*Doçurinha)

Krycek tenta de novo e Svetlana senta. Ele coloca uma colherada de papinha na boca da filha, ela come e estende a mão tentando pegar o prato.

KRYCEK: - Não... Sem sujeira. Comida não é pra brincar.

Ela olha séria, franzindo as sobrancelhas para o pai. Coloca as mãozinhas na boca, se babando toda. Krycek enche a colher.

KRYCEK: - Babushka foi na floresta pegar amoras e encheu uma cesta assim.

Krycek ergue a colher com comida fazendo aviãozinho.

KRYCEK: - Babushka sujou as mãos e foi lavá-las no rio. O urso com fome queria tanto as amoras!

Krycek leva a colher parando na frente da boca de Svetlana. Ela tira as mãos da boca, atenta na colher.

KRYCEK: - Corre urso! Coma tudo antes que a babushka volte!

Svetlana abre a boca.

KRYCEK: - Urso comeu! Babushka perdeu!

Ela começa a pular feliz e passa as mãos babadas no rosto dele, dando risadas. Krycek sorri e dá um beijo nela. Svetlana desvia a atenção pra tevê.

KRYCEK: - O que foi, filha? Hum? É a mama?

Svetlana sorri deixando a papinha escorrer da boca.

KRYCEK: - Filha, tem mais comida nesse babeiro que na sua boca!

Rasputin entra correndo com uma bola na boca. Deixa aos pés de Dimi. Dimi atira a bolinha e o cachorro vai buscar. Dimi grita e ri alto.

KRYCEK: - Dimi, não faz barulho filho! Sua mãe tá lá embaixo falando pra televisão... Minha nossa, Lana, mas que bagunça a gente tá fazendo aqui... Dimi, pega a toalhinha da sua irmã pro papa. Tá ali no banco.

Dimi vai pegar a toalhinha e volta entregando pra Krycek, que limpa o rosto de Svetlana. Depois sai correndo atrás de Rasputin que foge pro quintal com a bola na boca.

KRYCEK: - Dimi! Dimi volta aqui, não é pra ir sozinho no quintal!

Dimi volta correndo, subindo no sofá e olhando pra Krycek.

DIMI: - "Tamém" qué papá!

KRYCEK: - Vou só terminar com a sua irmã e vamos "papar" juntos, tá bom?

DIMI: - Tá.

Dimi desce do sofá e corre pra sala dos fundos. Volta correndo com um xilofone de brinquedo. Coloca no sofá.

KRYCEK: - Isso, toca pro papa.

Dimi bate a baqueta nas teclas. Svetlana observa, enquanto come.

KRYCEK: - Filho, primeiro a vermelha, depois a azul e depois a verde. Lembra das cores?

Dimi vai apontando com o dedinho.

DIMI: - Sim! "Esa é vemelha, esa zul, esa vede"!

KRYCEK: - (SORRI) Isso aí. Agora toca só essas três.

Dimi bate uma vez em cada uma.

KRYCEK: - Isso aí, filho, agora sim está fazendo música, já fez um acorde. Pode tocar ao contrário. Começa na verde, depois a azul e depois na vermelha.

Dimi faz. Krycek sorri, olhando apaixonado pro filho. Depois olha pra tevê.

KRYCEK: - Olha, a mamãe deu tchauzinho. Logo ela vai estar aqui com a gente.

O celular toca. Dimi solta a baqueta e corre até a mesa, trazendo o celular e entregando pra Krycek.

KRYCEK: - Valeu, Dimi! (AO CELULAR) Fala, parceiro... Não, não tá na minha gaveta, eu deixei com a oficial Lena, pra fazer cópia... Espera aí, Bishop...

Krycek ajeita Svetlana no colo. Volta ao celular. Svetlana tenta pegar o celular. Dimi continua tocando o xilofone.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Veja dentro da pasta verde, eu deixei um relatório preliminar, junta os dois e entrega pro Norris... Ok, bom trabalho, até amanhã.

Krycek desliga. Se levanta com a filha. Barbara sai do porão e atravessa a sala até a cozinha. Da cintura pra cima toda ajeitada: Cabelo arrumado, maquiada, uma blusa de babados. Da cintura pra baixo bem à vontade: shortinho jeans e pés no chão. Barbara vem prendendo os cabelos.

BARBARA: - Minha nossa, quem jantou? Svetlana ou a roupa dela?

KRYCEK: - Tá ficando difícil, ela não para, mas comeu tudo.

BARBARA: - (PÕE AS MÃOS NAS BOCHECHAS) Oh meu Deus, meu filho é um músico?

Barbara bate palmas, Dimi sorri.

KRYCEK: - Ele pega rápido. O garoto tem ouvido.

BARBARA: - Isso aí, filhinho. A música está nos seus genes, né? Vem, Ratoncito, vamos jantar, eu tô morta de fome, o cheirinho da sua comida chega lá no porão. Coloca essa cópia gulosa da mãe dela sentada no carrinho. Vem, Dimi, mamãe vai fazer um pratinho pra você.

Krycek coloca a filha no carrinho. Empurra o carrinho pra perto da bancada da cozinha.

KRYCEK: - Um prato pra nós dois, hoje estou em casa, Dimi quer jantar com o pai dele.

DIMI: - É!!! Jantá com papa!!! "Memo pato"!

BARBARA: - Ah, no mesmo prato! Mama sabe, filhote lindo, puxa saco do seu pai. Alex Krycek Júnior. Xerocado e carimbado! Quando os dois saem de jaqueta de couro então...

KRYCEK: - (RINDO) Malyshka, nem servi a mesa...

BARBARA: - A gente come na bancada hoje. Eu sirvo os pratos. E aí, Ratoncito? Fui bem no meu comentário?

KRYCEK: - Na parte que prestei atenção foi, mas a nossa filha aqui começou a berrar de fome e resolvi atender antes que o choro dela fosse ouvido ao vivo em toda a costa leste americana!

Os dois riem. Barbara pega os pratos no armário. Krycek senta-se no banco, com Dimi em seu colo.

BARBARA: - Amor, que tal assistirmos Diários de Motocicleta? Queria assistir de novo. Faço umas pipoquinhas pra gente.

KRYCEK: - Tudo bem, eu nem lembro se assisti esse... Malyshka, sabe aquele pudim? Aquele pudim gostoso de leite que você faz... No forno... Com bastante calda de caramelo...

BARBARA: - Ai, Grandão! Eu esqueci! Depois pega a forma em cima do armário que eu não alcanço!

KRYCEK: - Não precisa fazer hoje.

BARBARA: - Vamos jantar, depois você dá banho nos ratinhos enquanto eu faço o pudim. É rápido. Não vou deixar você salivando por um doce. Isso é muita maldade, negar pudim pro marido. Que tipo de esposa nega pudim pro marido? Isso é caso de polícia!

DIMI: - Bolo?

Krycek começa a rir. Barbara coloca as mãos na cintura.

BARBARA: - Quem falou em bolo? Eu ouvi pudim. Será que tô ficando surda?

DIMI: - Dimi falou bolo. Bolo "gotoso".

BARBARA: - Tô bem arrumada! Agora é o filho! Tá bom, vou fazer bolo gostoso. Chocolate?

DIMI: - (SORRI COM O CANTO DA BOCA) "Colate"! Dimi "góta"!!!

Os dois riem. Krycek dá um beijo no filho.

KRYCEK: - Não é a coisa mais engraçadinha do mundo esse nosso molequinho?

BARBARA: - Eu faço bolo, pudim, torta, o que os meus ratinhos quiserem. E você, Lana? A minha ratinha quer o quê?

Svetlana quase dormindo, sentada.

BARBARA: - É, acho que ela quer é o berço mesmo!


1:03 AM

Krycek sai do banheiro, enrolado numa toalha, cabelos molhados. Barbara, deitada na cama, desliga a televisão.

KRYCEK: - O filme foi ótimo. Eu nunca tinha assistido mesmo... Acredita que tinha farinha até na minha orelha?

Barbara solta uma gargalhada.

BARBARA: - Acho que nosso filho se divertiu ajudando no bolo. Voou mais farinha em você e na cozinha que pra dentro da tigela da batedeira! Pena que o cozinheiro novato dormiu no sofá esperando o bolo assar. Tadinho.

Krycek entra rindo no closet. Barbara se vira de lado e fica olhando para o marido.

BARBARA: - Vou ter outro cozinheiro em casa?

KRYCEK: - Provavelmente, se depender de mim. Um menino precisa aprender a se virar numa cozinha. Eu ajudava minha mãe a fazer pão.

BARBARA: - E que pão você faz! Hum... Amanhã quero pão caseiro de russo pro café da tarde! Fazer aqueles sanduíches, bem típicos dos europeus. Pão feito em casa, queijo, salame... Nossa, engordei três quilos só imaginando! Lembra daquele filme Kolya? Aquele do cinquentão e solteirão tcheco, que é professor de música e se casa com uma jovem russa, só porque ele precisa de grana e ela de cidadania tcheca. E um dia ela some e deixa o filho pra ele criar?

KRYCEK: - Aquele filme é ótimo, mas muito triste. Eu chorei naquele filme.

BARBARA: - Eu lembrei agora daquela cena do Kolya fazendo sanduíche pro menino... Com tanta coisa linda no filme, a esfomeada aqui lembra do sanduíche!

KRYCEK: - (RINDO) É, vou ensinar o Dimi a cozinhar. Depois ele casa e vai ter que mendigar pudim pro resto da vida!

BARBARA: - Que maldade, Ratoncito! Eu adoro fazer sobremesa pra você. Eu que fico mendigando a sua comida! Acho bom ensinar aos nossos filhos todo tipo de trabalho. Na minha família era um saco, as meninas ajudavam a mamacita em tudo e os garotos não faziam nada, só bagunça. Eu acho que Svetlana pode trocar uma resistência de chuveiro e Dimi lavar uma louça. Quero meus filhos longe da educação machista de homem faz isso e mulher aquilo. Um pensamento bem típico de nós latinos, vocês europeus são mais evoluídos nisso.

KRYCEK: - Malyshka, não se iluda. Isso vai da criação também. No Japão sim, as crianças já aprendem a serem responsáveis desde cedo. E concordo com você, até porque um dia eles vão crescer, sair de casa e precisam aprender a se virar na vida. Vou ensinar até mecânica básica pra minha filha. Uma garota sozinha com um carro estragado na estrada é muito perigoso.

BARBARA: - Sabe de uma coisa? Você tem razão. Vou começar a ensinar o Dimi desde agora a ajudar nas tarefas e tornar isso divertido pra ele. Viu como ele ficou feliz em ajudar a fazer o bolo? Quando Svetlana estiver maior já vai achar isso normal e querer fazer porque o maninho faz... Amor, lembra quando eu disse que iria escrever a sua história? Bom, eu acho que vou escrever a sua e a minha, tudo dentro da nossa história de amor. Já comecei a fazer isso.

KRYCEK: - Sério? E os contos eróticos?

BARBARA: - Desisti da ideia. E tira esse sorriso sacana do rosto! Mas amor, eu não sei se vou publicar. Na verdade eu quero é um registro para os nossos filhos. Acho legal isso. Tenho minhas memórias de família, você tem as suas memórias e acho que eles precisam saber de onde vieram e quem são seus antepassados. E vou pedir permissão ao Mulder para tirar uns trechos do original de Girassol & Canela, porque ele falou muito sobre o seu avô Yuri Krycek. Tudo isso é informação para os nossos ratinhos.

Krycek sai do closet vestido apenas com a calça do pijama. Barbara sorri.

BARBARA: - Tão bonitinho e sexy de pijama! Nada como um rato domesticado.

Krycek sorri com o canto da boca. Senta-se na cama e acerta o celular pra despertar.

KRYCEK: - Nossa, como a hora voa quando a gente está de folga. Se estivesse na delegacia, o tempo estaria se arrastando.

BARBARA: - Amanhã cedo eu vou ligar pro Calvin, ele me escalou pra fazer a reportagem daquela confusão dos democratas com republicanos. Ai, sabe? Eu tô de saco cheio de editoria política. Quero voltar pra editoria policial. Pelo menos tenho a minha fonte na polícia... O trabalho ficaria mais fácil e eu não teria que deixar dois bebês com você a tarde toda. Você me ligaria dando as pautas do dia.

Krycek se deita.

KRYCEK: - Eu não sei como você aguenta político o dia todo no seu ouvido, mas eu não me importo de cuidar dos nossos filhos e nem de dar pautas pra você. Ainda acho que devia largar as reportagens de rua e sentar naquela bancada do jornal das oito, aonde é o seu lugar. E o Calvin concorda comigo. Você merece mais do que ficar como correspondente de Washington, falando por internet enquanto aquele idiota lá fica apresentando o telejornal.

BARBARA: - Eu gosto de apresentar. Sempre foi o meu sonho, Ratoncito. Mas ainda não superei o tombo da RBN. E aquele idiota lá é um colega, não acho legal o demitirem pra me colocar no lugar dele. Por mais idiota e ofensivo que ele seja.

KRYCEK: - E por ser incompetente? Ahn? Calvin só não demitiu ele da emissora porque quer você e só você naquela bancada. E ele nunca faria com você o que o Rockfell fez. Calvin não tem o que esconder como o Rockfell tinha. Acho melhor você repensar, Malyshka.

BARBARA: - Amor, mas quem vai ficar com as crianças? Você sai às seis da tarde, eu vou estar no trabalho até umas dez da noite. Do jeito que está, está ótimo! Você fica com eles umas três horas na tarde, isso me dá tempo de ir até Washington e fazer as entrevistas pra escrever a reportagem e entrar no ar ao vivo no jornal das oito. Não fica corrido e estou com eles a noite toda. Claro, preciso enrolar os dois por 15 minutos quando me preparo e depois entro no ar. Mas eles já se acostumaram, eu levo os dois lá pra baixo, Svetlana dorme no carrinho e Dimi fica brincando. Um olho na tela do computador e outro nas crias.

KRYCEK: - Isso é muita loucura pra você, Barbara.

BARBARA: - Não é nada. Lembra daquela vez que o Dimi era bebê ainda e começou a chorar bem no meio da minha transmissão e eu tive que pedir desculpas, pegá-lo no colo e dar a notícia?

Krycek começa a rir.

BARBARA: - (RINDO) Até foi engraçado. No outro dia choveu e-mail e telefonemas na emissora, um monte de gente querendo me dar parabéns pelo filho lindo, mulheres elogiando a minha atitude de mãe e comentando que adoraram o intruso na transmissão. Virei a mãe do ano pra eles. Tem gente que até hoje manda e-mail perguntando quando vou mostrar o Dimi de novo e a cara da Svetlana pra eles conhecerem. Fãs são uns doces mesmo. Eles querem saber tudo!

KRYCEK: - E o marido? Ainda perguntam do marido? Pelo menos não vi mais nenhum fotógrafo rondando a delegacia às escondidas, perguntando se tinha algum policial casado com Barbara Wallace trabalhando lá. Os caras já estão até avisados pra dizerem não. Eu odeio essas revistas de fofocas!

BARBARA: - Claro que perguntam do marido, meus fãs sempre querem saber quem você é, como você é, porque eles só sabem que você é policial. Você nunca quis aparecer em público comigo! Eu não tenho medo de mostrar o meu gostosão, elas que babem!

KRYCEK: - Você vai ver, gostosão...Não convém, vai que alguém me reconheça dos tempos antigos e você queime a sua imagem pública? Ahn? Malyshka, eu falo com o Norris pra entrar às onze da noite e sair mais tarde. E você volta pra bancada do jornal.

BARBARA: - Ah sim, aí você vai chegar quase meio dia e eu vou sair às quatro para a televisão. Vai dormir o quê com dois bebês acordados, Ratoncito? E se chamarem você? Policial não tem hora! Não mesmo! Eu vou fazer esse sacrifício, não quero meus bebês com estranhos. Eu queria filhos, disse que eles seriam a minha prioridade e serão. Quem quer filhos precisa abrir mão de muitas coisas e eu abro mão sem pensar duas vezes.

KRYCEK: - Tem certeza? Ou eu deveria abrir mão da polícia porque seu salário vai ser maior que o meu?

BARBARA: - Nem pensar! Você ama aquela delegacia, tá feliz fazendo o que faz e eu tô feliz fazendo o que eu faço. Quando nossos filhos estiverem maiores, talvez eu volte pra uma bancada de telejornal. Talvez. Agora eu quero mais é curtir minhas crias, minha casa e meu marido. Me deixa ser feliz, Ratoncito.

KRYCEK: - Sempre, Malyshka. Só penso se você está feliz mesmo. Uma mulher que deu duro a vida toda pra ser uma profissional respeitada...

BARBARA: - É, e já aproveitei o meu tempo de solteira. Agora é tempo de ser mãe e esposa e tô adorando isso, muito mais que ficar sentada numa bancada de televisão. E ainda posso escrever reportagens, entrevistar pessoas e ser correspondente. Gosto da minha vidinha assim. Já tive meu tempo de me dedicar exclusivamente a profissão, gritando pra todo mundo que nunca iria casar e ter filhos... Até que um dia baixou a febre dos trinta, comecei a querer ser mãe e esposa, saí louca caçando um marido e arrumei você, que tentou escapar de todo o jeito. Agarrei na unha!

Krycek dá uma risada.

BARBARA: - Não mesmo, Ratoncito. Agora as prioridades mudaram. Vocês são mais importantes. E eu gosto dessa nova etapa da vida. Fala se não combino bem com esse papel?

KRYCEK: - Você é fantástica como mãe e esposa, mas também é fantástica como jornalista.

BARBARA: - O jornalismo espera. Meus filhos e marido não. E chega desse assunto. Me deixa curtir, Ratoncito! A gente tá tão mal de dinheiro assim?

KRYCEK: - Não é por dinheiro, é pra você se sentir bem.

BARBARA: - Ok, então me deixa ser mãe e esposa, porque eu me sinto bem sendo mulher. Scully tem um surto toda a vez que eu digo que prefiro ficar em casa a trabalhar fora, mas eu estou gostando disso. Gosto de cuidar do meu marido e dos meus filhos. Adoro passar suas camisas, deixar você bonitão pra trabalhar. Amo brincar e passear com meus filhotes, gastar meu tempo cheirando eles. Eu sou a dona Serena, não adianta fugir! É coisa da minha cultura, da minha criação, que até concordo, é antiquada e machista mesmo, mas... Sei lá, sou mulher e tô adorando brincar de casinha.

Barbara apaga a luz do abajur e se vira de costas. Krycek vira-se pra ela e envolve o braço nela, fechando os olhos. Barbara empurra o traseiro contra ele. Krycek sorri de olhos fechados.

KRYCEK: - Isso é sério?

BARBARA: - Só se está cansado demais. É sua noite de folga...

KRYCEK: - Você é quem tá cansada, teve um dia cheio... Barbara, sério. Vamos falar de uma coisa que está me incomodando. Desde que Svetlana nasceu você mudou. Nós ficamos sozinhos por seis anos e depois que as crianças nasceram as coisas mudaram muito, mais ainda com um segundo filho. O tempo livre que a gente tinha um pro outro reduziu e não estou me queixando disso, muito pelo contrário, eu entendo a nossa situação. São dois bebês que requerem todo o nosso tempo. Nós decidimos por isso. Estamos juntos nessa. Era o que queríamos.

BARBARA: - O que foi, Ratoncito? Não tô dando atenção o suficiente pra você?

KRYCEK: - Não é isso. Esse negócio que você falou sobre a sua criação acendeu uma lâmpada na minha cabeça. Você não tem que transar comigo porque alguém disse que as esposas precisam transar com os maridos mesmo que não queiram. Eu sei como criavam as meninas antigamente.

Barbara solta uma risada.

KRYCEK: - Barbara, o assunto é sério, você está rindo, mas eu tenho certeza que é essa a sua mentalidade: se não transar com ele, ele vai procurar na rua. Eu me sinto mal com isso, posso ser muitas coisas, mas não sou nenhum tarado. Você não era assim antes, você recusava e agora não recusa nunca, entende? O que eu vou pensar? Ela tá fazendo só pra me agradar. Malyshka, sexo é necessidade de ambos e só é bom quando os dois querem. É prazer e prazer tem que ser mútuo pra ser gostoso. Não é obrigação, tipo "hoje é sua noite de folga". Estamos entendidos?

Krycek dá um beijo no ombro dela.

KRYCEK: - Bons sonhos pra você, Malyshka. E se acordar descansada e animadinha, pode me cutucar que eu acordo rapidinho.

Barbara dá uma risada e se vira pra Krycek. Se aninha contra ele, fechando os olhos. Ele a abraça. Ela boceja, cansada. Ele segura o riso.



1982


Havana, Cuba

Barbara, com dez anos, sentada à mesa da cozinha. A professora fecha o livro.

PROFESSORA: - Ok, Barbara. Verb to be. Please.

BARBARA: - I am, You are, He is, She is...

Tonhão e Serena espiam da sala.

TONHÃO: - Ela não brincou quando disse que queria aprender inglês.

SERENA: - Ainda acho perigoso...

TONHÃO: - Deixa a menina, Serena. Das nossas filhas ela é a mais estudiosa e esforçada.

SERENA: - Tonho, eu sei que está magoado com a Gabi...

TONHÃO: - Não me fale. Dos males o menor que o Ran dan dan dan dan resolveu casar com ela. Eu mataria aquele bosta se deixasse ela grávida e sozinha. Que decepção... Agora a Alice já querendo casar e ter filho... Umas garotas novas e bonitas, com a vida inteira pela frente! Largaram os estudos, arrumaram marido e filho tão cedo! Pior que estou mal de genro! Um bebe demais e o outro come demais e os dois vivem pedindo dinheiro emprestado!

Serena abraça o marido.

SERENA: - Tonho, esquece isso, curta o seu primeiro netinho. Os filhos crescem e casam.

TONHÃO: - E decepcionam a gente. Mas não a minha Bábi. Minha garotinha vai longe! Está aproveitando todas as chances que tem, por isso eu me sacrifico e dou tudo o que ela precisa. Eu me sentiria um pai inútil se não ajudasse a minha filha. E mulher tem que estudar mais que homem. Se um dia casa com um desgraçado, pelo menos pode saltar fora e se virar sozinha com os filhos. Não criei filha pra se humilhar e depender de homem, mas aquelas duas lá não entenderam. Deus me livre de um porco safado meter um tapa numa filha minha, mas eu mato o filho da puta na mesma hora!


Base Militar Achinsk,Sibéria - URSS

Krycek sai porta à fora, debaixo da neve que cai, segurando o cobertor por cima dos ombros. O termômetro no campo marca 15 graus negativos. Ele caminha, os pés afundam na neve. Ele empurra a porta do prédio do comando e entra. Caminha pelo corredor e para na frente da sala do sargento. Tenta entrar, mas está fechada. Krycek então anda pelo corredor, abrindo todas as portas que consegue, procurando pelo amigo. Para em frente a porta do banheiro. Leva a mão com receio, empurrando a porta. Entra, silenciosamente. Para, olhando para os chuveiros. Um deles ainda está ligado. Krycek entra em estado de choque.

Karel está deitado nu e de bruços no chão de ladrilhos. Surrado e espancado, rosto irreconhecível. Sangue escorre entre as pernas dele. A água do chuveiro leva o sangue do jovem pelos ladrilhos até o ralo. Krycek corre até o amigo, tentando acordá-lo. Ao virá-lo percebe o furo da bala que saiu pela barriga. Karel não respira. Está morto. Krycek o segura nos braços, dando um grito alto de dor e ódio.

Corte.


O sargento Sharapov assiste um show na TV P&B. Sentado, pés sobre a mesa. Krycek adentra a porta com a pistola. O sargento olha pra ele.

SHARAPOV: - Você não mata nenhum rato, soldado Krycek. Aliás você é um rato. Você nunca terá a coragem de puxar esse gatilho.

Krycek, mãos trêmulas, aperta o gatilho. A bala atinge parcialmente a orelha do sargento. Os soldados entram, desarmam Krycek e o seguram pelos braços. O sargento se levanta, passando a mão na orelha, observando o sangue. Aproxima-se de Krycek. Mete um soco no estômago dele. Krycek se encolhe.

SHARAPOV: - (GRITA) Levem esse traidor para a sala vermelha do juízo e deem uma surra nesse desgraçado até ele desmaiar!!! Tragam o médico aqui!!! E não matem esse filho da puta, ele é meu!!!

Corte.


Apenas as luzes dos postes no pátio do campo entram pela pequena e estreita janela de vidro e grades, no alto da parede do porão. Krycek desacordado e nu, todo surrado, com os pulsos atados por grilhões de ferro e pendurado nas grades da janela. Uma corda amarrada nos grilhões e nas grades o mantém pendurado e esticado, sem que ele toque os pés ao chão. O sargento Sharapov, com um curativo na orelha, entra no porão e acende as luzes. Tranca a porta. Pega um balde de água e joga em Krycek. Ele se acorda assustado, tentando se localizar.

SHARAPOV: - Eu sei que sabe minha fama. Mas não sou como dizem. Sou pior que isso.

Krycek começa a tremer de frio, quase congelando.

SHARAPOV: - Está com frio, soldado Krycek? Vou esquentar você.

Sharapov pega dois fios que estão conectados a uma bateria e passa um no outro, fazendo faíscas. Então leva os dois fios e dá uma descarga elétrica nos mamilos de Krycek que solta um grito, se debatendo.

SHARAPOV: - Acho que agora está mais quente. Vamos estabelecer algumas regras, soldado. Você atirou contra o seu sargento e me fez perder metade da orelha. Isso é um crime passível de punição e exílio na Sibéria, mas visto que já está aqui... Quem sabe essa parte da Sibéria não esteja tão fria pra você, talvez precise ir pra uma parte mais gelada.

KRYCEK: - (ÓDIO) Você matou Karel!!! Eu sei que foi você!!!

Sharapov dá outra descarga elétrica, agora nos testículos de Krycek, que grita, erguendo as pernas e se contorcendo.

SHARAPOV: - (RINDO) Karel? Aquela bicha? Eu fiz um favor para o Estado.

Krycek tenta se virar, mas não consegue, com os olhos cheios de ódio.

KRYCEK: - Eu vou matar você desgraçado!!! Eu juro que vou matar você!!!

Sharapov acerta socos nos rins de Krycek que urra de dor e se contorce todo. Acerta um soco no estômago e Krycek ergue as pernas, gritando com mais dor. O sargento tira um canivete do bolso e corta a corda que segura os grilhões nas grades. Krycek cai ao chão, com os grilhões ainda nos pulsos, sem defesa.

SHARAPOV: - Quer me matar, soldado? Ahn? É isso o que quer?

Sharapov começa a chutar Krycek, que se encolhe no chão.

SHARAPOV: - Tem algum parente que reclame o seu corpo ou posso atirá-lo aos lobos da floresta siberiana? Você não é nada, soldado! É apenas um perdedor amante de bichas! Um pária da sociedade que acabou aqui e não tem dignidade nem honra para vestir uma farda do exército russo! Você é uma vergonha para o nosso país!

Sharapov se inclina e ergue Krycek pelos cabelos. Krycek grita. O sargento, com violência, atira Krycek contra a parede. Krycek dá com a cabeça na parede, fica tonto e cambaleia.

SHARAPOV: - Aqui é o inferno, soldado Krycek. E eu sou o demônio.

Sharapov novamente agarra Krycek pelos cabelos, o puxa pela sala até a bandeira russa aberta e pendurada na parede. Ergue a cabeça dele.

SHARAPOV: - Olhe pra essa bandeira, camarada. O vermelho é o sangue dos nossos antepassados. A cor predominante nela é o sangue. Muitos homens morreram para que essa bandeira fosse respeitada no mundo inteiro. Homens, não bichas covardes. Vê a foice e o martelo? Elas representam a classe trabalhadora, agrícola e industrial. Não representam bichas e vagabundos, covardes e ladrões, putas e marginais. Nem amantes de bichas.

Sharapov arrasta Krycek pelos cabelos e dá com o rosto dele diversas vezes contra a parede. Depois joga Krycek que cai no chão, gemendo de dor e desatinado, com o rosto cheio de sangue e o nariz quebrado. O sargento vai até a parede e pega uma foice e um martelo pendurados. Se agacha ao lado de Krycek, que olha assustado para a foice na mão dele. O sargento leva a foice no pescoço de Krycek, que arregala os olhos. Depois leva a foice nas partes íntimas de Krycek, que agora fica mais apavorado.

SHARAPOV: - Você tirou a minha orelha. É justo, não acha? Cortar seus colhões fora, já que você não tem colhões pra ser um soldado. Deixar você sangrando lentamente aí feito um porco até morrer.

Sharapov ergue a foice e o martelo, olha pra um e pra outro. Krycek se arrasta, recuando.

SHARAPOV: - Prefere que eu corte ou esmague? Você escolhe.

Krycek se vira de costas, tenta se arrastar pra baixo de uma mesa. Sharapov se ergue e acerta um golpe de martelo no osso da canela de Krycek, que chega a fazer barulho. Krycek dá um grito de dor lancinante. O sargento sádico joga o martelo e a foice sobre a mesa e agarra Krycek pelos cabelos, o arrastando pelo chão. Krycek chora de dor.

SHARAPOV: - Agora não vai fugir de mim.

Ele retira um maço de cigarros do uniforme e acende um cigarro. Coloca o pé com a botina pesada na lateral do rosto de Krycek, pisando forte e forçando o rosto dele contra o chão. Traga o cigarro, soltando calmamente a fumaça pra cima, enquanto Krycek geme, de olhos fechados.

SHARAPOV: - Estou há dez anos aqui e não será um marginal imbecil que vai me desafiar, dar um tiro na minha orelha e colocar minha fama e minha honra num buraco, na frente de todos os soldados desse campo! Seu amigo teve o destino que toda bicha deve ter. Pense nisso como um favor. Mais cedo ou mais tarde, alguém aqui dentro iria fazer. Ele não sofreu. Não, não sofreu. Depois de currado, eu dei um tiro no rabo dele. Morreu como toda a bicha gostaria de morrer, levando uma pistola enorme dentro do cú.

KRYCEK: - (MURMURA/ CANSADO) Desgraçado... Eu juro que vou matar você... Eu juro...

O sargento aperta mais ainda a botina contra o rosto de Krycek, que com o rosto prensado no chão, mantém um olhar de ódio e vingança.

SHARAPOV: - Vai mesmo me matar? Aposto que mato você antes, camarada. Linha dura. É o que sempre digo. Precisamos de homens linha dura no exército, não de maricas. Você também é uma bicha, Alex Krycek? Hum? Porque só bichas suportam bichas.

Sharapov se agacha e apaga o cigarro no pescoço de Krycek. Krycek segura a dor num olhar de ódio, cerrando os dentes. Sharapov arrasta Krycek pelo chão da sala, o segurando pelos cabelos. Krycek grita, esperneia e tenta reagir, mas as mãos presas não ajudam em nada. Sharapov o ergue pelos cabelos, Krycek grita. O sargento aperta o nariz quebrado dele com força e Krycek grita novamente. O sargento dá com a cabeça de Krycek contra a parede, repetidas vezes, até Krycek tontear novamente e perder as forças, já quase desmaiando. Então joga Krycek de bruços por cima da mesa.

SHARAPOV: - Você apenas começou a entender o que é tortura, camarada. E agora, eu vou dar a você o tratamento que toda a bicha recebe por aqui.

Sharapov abre o zíper das calças.

SHARAPOV: - Seu amiguinho gostou. Você também vai gostar.



TEMPO ATUAL


Residência dos Krycek - 1:11 PM

Barbara limpa o espelho do banheiro com spray e um pano. Vestida numa blusinha decotada e shortinho jeans bem curto. Krycek entra no banheiro.

BARBARA: - Você não dormiu bem essa manhã. Nas duas vezes que entrei no quarto, você estava se revirando na cama. Pesadelos de novo?

KRYCEK: - Será que devo voltar a tomar os remédios?

BARBARA: -Fala isso com o Mulder. Tem alguma coisa incomodando você?

KRYCEK: - Nada, Barbara. Tá tudo bem.

BARBARA: - Eu não fiz barulho né?

KRYCEK: - Não ouvi nada. Nem as crianças. Cheguei tão cansado hoje de manhã...

BARBARA: - Tome seu banho, se acorde e vamos almoçar. O Dimi não tá em casa.

KRYCEK: - (RINDO) Como assim? O Dimi já está saindo por conta própria? Pelo menos ele levou as fraldas e o paninho dele?

Barbara solta uma gargalhada.

BARBARA: -E o xilofone! O Mulder esteve aqui cedo. Disse que ia passar o dia com a Scully e as crianças num parque, ia fazer churrasco pra elas e queria levar o "Elvis" junto... E acredite, o Dimi se agarrou no padrinho dele e foi todo feliz e empolgado, com direito a mochila nas costas!

KRYCEK: - Ah, ele tá se vingando por eu ter roubado o Bryan naquele dia. Mulder tá apaixonado pelo nosso filho.

BARBARA: - Lógico que está! É o afilhado dele! Quem não ama o nosso Dimi?

KRYCEK: - É, mas o filho dele é meu único afilhado. E fala sério, o Mulder tá ferrado! O Bryan pode ser pequeno ainda, mas você viu como o malandrinho chuta bem uma bola e tem força naquele pé direito. Vou continuar ensinando futebol pra ele. O Mulder que se dane! Sabia que o Bryan leva mais jeito que o Dimi? Talvez o lance do Dimi seja ser goleiro.

BARBARA: - Talvez o lance do Dimi não seja futebol.

KRYCEK: - Aposto que o safado do Mulder tá fazendo o Dimi se apaixonar por algum esporte americano. Fizemos uma aposta pra ver os esportes que os meninos iam gostar. Isso é truque sujo.

BARBARA: - E você não tá fazendo igual puxando o Bryan pro que você gosta? Os meninos vão crescer e vão acabar jogando o que gostam, não adianta ficarem sabotando o filho do outro. O pior de tudo...

Barbara começa a rir. Krycek olha pra ela.

BARBARA: - O pior de tudo mesmo é que o Bryan tem muita coisa parecida com você e o Dimi com o Mulder! O problema todo é que o Mulder tá mexendo num vespeiro porque o Dimi é o seu xodó!

Barbara começa a rir. Krycek faz careta pra ela.

KRYCEK: - Do jeito que você fala, a Lana vai pensar que não gosto dela. Eu amo os dois. E se eu fosse você parava de rir, porque a Scully é maluca pela nossa filha, que nasceu ruiva, não se esqueça.

BARBARA: - Justo, sou louca pela Victoria. Sabe, Ratoncito? A Victoria sempre me lembrou alguém.

KRYCEK: - Quem?

BARBARA: - Eu quando criança. Lógico, eu era mais moleca, mas também me interessava por coisas que crianças não ligam muito, tipo os telejornais. Eu gostava de assuntos de adultos. De livros, músicas, filmes... Ainda lamento não ser madrinha dela. Não vejo nada da Ellen na Victoria. Acho ela mais parecida comigo. Até no gosto pra livros de romance. Lembro quando eu estava grávida do Dimi, Victoria sempre dormia aqui nas sextas-feiras pra me fazer companhia, a gente fazia roupinha de boneca, ensinei tricô pra ela e até a costurar na máquina.

KRYCEK: - (RINDO) Você tá com ciúmes da Victoria?

BARBARA: - Não preciso. Tenho mais da Victoria que a Ellen e estou sempre mais perto, é só atravessar a rua. E admite você também tem ciúmes.

KRYCEK: - É, não acho o Skinner um padrinho a altura pra ela. Eu seria melhor. E tenho mais dela também que o carecão do FBI. Ele nunca ganhou uma girafa de crochê pra pendurar no retrovisor. Eu ganhei um ratinho! E até um braço novo. Não diz isso pro ciumento da casa da frente, mas eu devia ter sequestrado Victoria quando bebê.

Barbara olha pra ele, incrédula.

KRYCEK: - Não se preocupe, eu não a entregaria pro Sindicato. Eu roubaria ela pra ser minha filha. Eu sou apaixonado por aquela menina. Mas você sabe como as coisas são. Uma hora ela vai ficar adolescente e rebelde, não vai aturar aqueles dois chatos no pé dela e vai pedir asilo político na casa do tio Tchek e da tia Barbie. E nós vamos dar, não tenho dúvidas disso!

Os dois riem. Krycek liga o chuveiro. Fica parado olhando para a água que escorre pelo ralo.

BARBARA: - Ratoncito, eu fiz uma limpa em um monte de coisas nesse armário. Joguei fora medicamentos vencidos e coisas que a gente não usa.

KRYCEK: - ...

BARBARA: - Amor, sua espuma de barbear está acabando. Eu vou no mercado hoje. Mais alguma coisa?

KRYCEK: - (OLHOS PERDIDOS NO RALO DO CHUVEIRO) ...

BARBARA: - Alex?

KRYCEK: - ...

Barbara percebe. Larga o spray e o pano sobre a pia e se aproxima dele.

BARBARA: - Ratoncito, amanhã é dia de Club Havana. Preparado pra dançar?

Krycek sai de suas lembranças.

KRYCEK: - Desculpe, o que disse?

BARBARA: - Que amanhã é dia de dançar e dar uma surra no Mulder.

Barbara se abraça nele.

BARBARA: - Ei, amor. Respira e repete: Só preciso desfocar a minha mente pra não reviver a mesma dor. Eu posso, eu consigo.

KRYCEK: -Só preciso desfocar a minha mente pra não reviver a mesma dor. Eu posso, eu consigo.

Barbara olha ternamente pra ele. Krycek desliga o chuveiro. Senta-se na borda da banheira.

BARBARA: - Mantra do Dr. Mulder... Sempre funciona.

KRYCEK: - Me desculpe, Barbara. Tem vezes que as coisas voltam na cabeça, assim do nada.

BARBARA: - Ratoncito...

KRYCEK: - (VOZ EMBARGADA) Isso... Isso nunca vai ir embora da minha cabeça, né, Malyshka? Eu vou morrer com esse fantasma. É como um inimigo que está sempre espreitando você e ataca quando você está distraído, sem nem lembrar que ele existe... Numa noite dessas, percebi que deixava a luz do quarto do Dimi acesa, não porque Dimi tenha medo do escuro, ele não tem. Era eu quem tinha. Então ri de mim mesmo, sabe? Meu filho não corre perigo, quem corria era eu quando criança... Eu não quero transferir meus medos para o Dimi. Ele é uma criança que não precisa ter medos.

BARBARA: - Amor, eu entendo e acho louvável que você perceba isso. O Mulder disse que a violência a que você foi exposto, que traumas assim são profundos demais pra irem embora, mas você pode ser superá-los, numa eterna vigilância, como aconteceu com a luz acesa no quarto do Dimi. Você só precisa lutar quando vier na sua cabeça, desviar o foco pra outra coisa, bem rapidinho e tentar achar graça como fez. Quando eu percebo que você teve um vislumbre do passado, que essa portinha aí no seu emocional abriu, como foi agora, eu já tiro você do foco.

KRYCEK: - ... Por isso mesmo eu vivia sozinho, escondendo meus piores segredos.

BARBARA: - Mas Ratoncito, eu amo você! Amar também é ajudar o outro, estar com ele nas horas difíceis. Por isso nunca escondemos do outro o nosso passado. Porque se nos ama de verdade, vai ajudar a cicatrizar nossas feridas.

Krycek olha pra ela.

BARBARA: - Nós aprendemos as armas psicológicas que Mulder ensinou. E quando acontecer, eu tô aqui com você. Nós já vencemos coisas piores, nós já superamos e nós lutaremos quando for preciso. É nós, você não está mais sozinho nessa.

KRYCEK: - Eu sei.

BARBARA: - Alex, você está bem melhor do que quando nos conhecemos. Aquele ódio de tudo e todos foi embora, aquela revolta guardada aí dentro, explodindo nas pessoas que não tinham culpa alguma. Fora o medo que você tinha de voltar a fazer o que fazia antes. Amor, conforme esse passado vai sendo superado, mais do verdadeiro Alex sai pra fora. Você já sorri bem mais do que quando eu conheci você. Já me deixa tocar no seu traseiro e até faz piadas sexuais com o Mulder!

Krycek abaixa a cabeça e sorri.

BARBARA: - E agora vou contar uma coisa que você não sabe. Um segredo de muitos anos.

KRYCEK: - Que segredo?

Barbara senta-se ao lado dele.

BARBARA: - Não mate o Mulder por isso. Um dia eu acordei com o pé esquerdo e fui tirar satisfações dele: Mulder, você como psicólogo é um bosta idiota!

Krycek olha assustado pra ela.

BARBARA: - Eu disse: Você sabe todo o trauma que o Alex tem por causa de um estupro, do quanto isso mexeu com a cabeça dele e o deixa perturbado achando que perdeu a masculinidade por causa disso e você ainda tem a cara de pau de ficar fazendo piadas sexuais com ele? Chamando ele de amorzinho? De viadinho? Isso é cruel!

Krycek começa a rir.

KRYCEK: - Ok, eu sei aonde isso vai acabar, mas fala.

BARBARA: - Você sabe? Ele contou?

KRYCEK: - Sim, ele me contou um tempo depois, mas fala, porque agora eu quero saber como ele explicou essa pra você.

BARBARA: - Bom, aí o Mulder me olhou sério e com aquela cara debochada dele: Não estou fazendo piadas com o Krycek pra alimentar o trauma dele. Estou fazendo piadas com ele pra me libertar do meu homossexualismo reprimido.

Krycek começa a rir. Barbara segura o riso.

BARBARA: - Juro que eu fiquei parada na porta dele, num silêncio que dava pra ouvir até os grilos na rua! Não ri, Alex! É sério! Eu acreditei na palhaçada do Mulder! Aí quando ele viu que eu tinha acreditado, começou a rir da minha cara!

KRYCEK: - Bem típico do Mulder. Você pensa que ele tá falando sério até perceber que ele tá sacaneando você.

BARBARA: - Então ele veio com outra: Você lembra de onde deixou seu guarda-chuva, Barbara? "O que isso tem a ver, Mulder?" Lembra ou não? "Lógico que não, Mulder!" E se eu ficar o dia todo dizendo que seu guarda-chuva está em tal lugar, folgando em você, logicamente respeitando uma linha delimitada que não seja agressiva a ponto de você bloquear, você não vai se irritar comigo? "Claro que vou, Mulder!" Então, se irrite! Isso é reação. Esse é o objetivo e foi a técnica que senti ter mais efeito nesse caso. Quanto mais você reagir, uma hora não vai mais se sentir afetada com isso e vai mandar eu enfiar o guarda-chuva no rabo. Reza pro Krycek chegar ao ponto de dizer que vai enfiar o guarda-chuva no meu rabo, porque aí ele vai ter superado!

Krycek começa a rir. Barbara ri com ele.

KRYCEK: - Um dia eu disse pra ele, Mulder por que essas coisas acontecem com a gente? Não dá pra ser feliz a vida toda? Aí o Mulder me disse uma coisa que nunca mais esqueci: Rato, se a gente nascesse pra ser feliz o tempo inteiro nesse mundo, não teríamos como linguagem primária o choro, para sermos entendidos quando estamos sujos ou com fome. Bastaria o bebê sorrir e a mãe saberia que ele precisa de alguma coisa.

BARBARA: - Mulder é foda, eu sou fã daquele cara e me dá o maior prazer ser a agente literária dele. Não tem como não se apaixonar pelo Mulder.

KRYCEK: - Um cara que também passou tantas barras na vida e consegue achar graça disso. Mulder é um sobrevivente, eu sempre digo.

BARBARA: - Vocês dois são sobreviventes.

Barbara senta-se no colo de Krycek, de frente pra ele. Tira a blusa.

BARBARA: - Sei que adora os meus peitos, que tal se distrair com eles, hum?

KRYCEK: - Barbara, eu entendi o que está tentando fazer e não acho que...

BARBARA: - Psiu! Entendeu nada. Nossa filha tá dormindo e eu tô pegando fogo.

Ela toma o rosto dele nas mãos. Devora os lábios dele num beijo. Krycek corresponde, levando as mãos na cintura dela. Barbara percorre os lábios semiabertos no pescoço dele. Krycek fecha os olhos. Ela termina mordiscando o queixo dele, sensualmente. Roça o rosto no rosto dele.

BARBARA: - (MURMURA) Hum, Grandão... Eu preciso sentir desesperadamente o meu homem... E quero agarrar o traseiro dele, o puxando mais ainda pra dentro de mim. Porque eu amo esse homem. E eu quero me sentir a mulher dele naquela cama. Hum?

KRYCEK: - ... Eu te amo.

BARBARA: - (SORRI) Então me leva pra cama e me faz a mulher mais realizada do mundo? Eu quero curar todas as suas feridas e sei que você vai curar todas as minhas... Sabe por quê?

Ele olha pra ela.

BARBARA: - Porque é isso o que acontece com todos os casais que se amam de verdade. Um zela pelo outro. Eu tenho amor demais pra dar e você precisa de muito amor. E eu sou carente de cuidados e você tem cuidados de sobra pra sua Malyshka aqui. Cuida de mim? Hum? Faz amor gostoso comigo, do jeito que só você sabe fazer, e depois me deixa descansar nos seus braços? Me faz uma mulher feliz?

Krycek acaricia os cabelos dela.

KRYCEK: - Pelo resto da minha vida, garota. Eu juro. Pelo resto da minha vida.

Os dois se beijam apaixonados.



1984


Havana, Cuba

Tonhão em cima do telhado, ajeitando a antena de televisão. Serena no pátio, alternando o olhar pra dentro de casa e para o marido lá em cima.

SERENA: - Não!!! Agora ficou pior!

TONHÃO: - Mas que merda! E agora?

SERENA: - Agora aparece a imagem, mas tá com listras!

TONHÃO: - E agora?

SERENA: - Nada! Chuvisco! Volta um pouco... Deu!!! Não mexe mais!!!

Tonhão desce pela escada. Seca o suor da testa.

TONHÃO: - Tudo pela Bábi e os telejornais dela. Um amigo meu vai me trazer um aparelho que instalando escondido pega até a CNN em espanhol. Pelo menos ela vai ver o que é liberdade de imprensa, porque aqui...

SERENA: - Tonho, por favor! Eu vivo com o coração apertado, morrendo de medo de que você seja considerado um traidor do governo e você ainda quer enfiar emissora estrangeira pra dentro de casa? Já chega a Bábi aprendendo inglês escondido! Pare de fazer os caprichos da sua caçula, estamos nos arriscando demais! Ela é uma criança, nem sabe o que quer da vida, se balé ou jornalismo, e você um adulto que dá corda pra sonhos de criança?

Serena pega o cesto de roupas do tanque.

TONHÃO: - Ela gosta de telejornais, quer ser jornalista.

SERENA: - Tonho, seria muito mais fácil ela ser bailarina. Podia até estudar em Moscou! Nem precisaria de visto no passaporte!

Serena começa a estender as roupas no varal.

TONHÃO: - Não é o mais fácil, Serena, mas sim os sonhos da nossa menina. Certo? Olha pra mim. Sou um estivador. Carrego peso feito um burro o dia todo. Gosto do que faço, mas sou um burro de carga. Minha filha não vai ser burra de carga dos outros.

Barbara, 12 anos, sai correndo da casa, num vestido, pés descalços e com um gravador e o microfone na mão, dando pulos de alegria.

BARBARA: - Olha mamacita! Olha o que papacito me deu!!! Agora tenho um microfone e um gravador pra entrevistar as pessoas!!!

Serena começa a rir.

SERENA: - Não tem jeito mesmo! Você e o seu pai vão me deixar de cabelos brancos!

Tonhão pega a filha no colo.

TONHÃO: - Gostou mesmo?

BARBARA: - Adorei, papacito! Agora não preciso ficar anotando tudo rápido, as pessoas falam depressa demais.

Barbara dá um beijo no pai. Ele dá um beijo nela.

BARBARA: - Eu amo você!

TONHÃO: - E eu amo você. Vamos ver se essa coisa funciona? Posso ser o primeiro entrevistado?

BARBARA: - Claro que sim!!!

TONHÃO: - Serena, larga essa roupa e vá tomar um banho e se arrumar. Eu vou dar uma entrevista pra Bábi. Depois vamos os três dar uma volta de moto no Malecón e comer uns petiscos de peixes, tomar uma gelada e ver o pôr-do-sol.

BARBARA: - Êba!!!!!!!!!!!!! Posso tomar sorvete?

TONHÃO: - Pode. Daqueles bem grandes.

BARBARA: - Mas aqueles grandes eu não consigo comer sozinha. Você me ajuda?

TONHÃO: - (RINDO) É, vou ter que fazer esse sacrifício...

SERENA: - (RINDO) Eu faço esse sacrifício, meu marido. Não tem problema!

TONHÃO: - (COCHICHA) Bábi, sua mãe tá mentindo. Ela come um inteiro daqueles em menos de cinco minutos e acaba com a sorveteria toda em meia hora.

Barbara solta uma gargalhada.


Base Militar de Achinsk, Sibéria - URSS

Dois soldados abrem a masmorra coberta de neve. Um deles atira um cobertor pra Krycek, que está com cabelos longos e barbudo, com 22 anos de idade. Krycek sai do buraco enrolado no cobertor, tremendo e congelando. Os soldados o empurram pela neve. Krycek, fraco, cai. Eles o erguem. Krycek olha para o sargento, falando com dois oficiais que aguardam ao lado do caminhão. O sargento olha pra Krycek. Sorri debochado, apertando as partes íntimas.

SHARAPOV: - (RINDO) Ty moya suka*... (Você é minha vadia*)

O ódio dentro de Krycek começa a se manifestar em seus olhos. Numa ação rápida, Krycek emite um urro como animal selvagem e com fúria solta-se dos soldados, avançando no sargento. Sharapov cai ao chão. Krycek o asfixia com as mãos.

Os soldados tentam puxar Krycek, mas ele não solta o pescoço do sargento que já está ficando roxo. Krycek então morde a orelha do sargento, arrancando outro pedaço com os dentes, olhando pros céus feito um animal que agradece a caça, com o sangue escorrendo pelo queixo e pescoço. Depois cospe o pedaço de orelha na neve. Os soldados conseguem afastar Krycek, enquanto Sharapov grita e sangra. Krycek puxa a arma de um deles e alterna a mira entre os soldados e o sargento.

KRYCEK: - (FORA DE SI/ AOS GRITOS) Me deixem em paz!!!!!!!!!!!

Num descuido, um soldado acerta Krycek no rosto com o fuzil. Krycek cai na neve, desmaiado.



1991


Havana, Cuba

No aeroporto, Tonhão e Serena bem arrumados, com apenas uma mala. Barbara com 18 anos, já uma jovem bonita. Os três se aproximam do guichê. Tonhão entrega os passaportes ao oficial.

OFICIAL ATENDENTE: - México? Por quê?

TONHÃO: - Sim, viagem de férias em família. Minha esposa e minha filha querem conhecer Teotihuacán e aquelas coisas todas de índios. Eu vou comer tacos enquanto elas se divertem.

OFICIAL ATENDENTE: - Preciso de papéis e comprovantes. Tem emprego fixo em Cuba?

Tonhão retira alguns papéis do bolso e entrega, junto com a carteira de trabalho.

TONHÃO: - Pode checar aí. Trabalho no porto de Havana, sou funcionário público há 25 anos. Não acha que vou fugir pro México e deixar minha aposentadoria pra trás, não é? Minha filha acaba de se matricular na universidade. Minha mulher é dona de casa. Pode olhar aí. Tem a documentação da matrícula dela.

O atendente checa os papéis e carimba os passaportes. Entrega pra Tonhão. Os três passam pelo guichê em direção a sala de embarque. Tonhão solta o ar dos pulmões.

TONHÃO: - Deu certo. Vamos embarcar logo.

BARBARA: - Calma, papacito. Se Deus quer que isso aconteça, tudo vai dar certo.

SERENA: - Eu quero chorar...

BARBARA: - Mamacita, não faz isso ou vão desconfiar! Quem vai viajar de férias chorando de tristeza? Se contenha, dona Serena.


Residência dos Ruiz - Cidade do México - México

Pedro Ruiz acende um charuto, sentado na varanda da casa. Tonhão sentado ao lado dele, fumando um charuto.

PEDRO: - Não quero que se preocupe, vamos fazer isso legalmente. Eu tenho colegas professores na Universidade de Miami, americanos que passam as férias aqui em casa, gente de bem. Barbara vai entrar no programa de bolsa de estudos para estrangeiros. Ela vai fazer um teste de aptidão e passando no teste, já está matriculada. A universidade ajuda com bolsa e moradia. Eu posso mandar dinheiro pra ela também.

TONHÃO: - Eu posso enviar pagamentos pro México, mas não para os Estados Unidos... Deposito na sua conta e você envia pra ela.

PEDRO: - Certo. E existem programas remunerados na universidade e Barbara é uma garota lutadora. Ela vai se virar, Tonhão. Já tem 18 anos, não é uma criança.

TONHÃO: - Pra mim vai ser uma criança sempre. Parece que aquela coisinha nasceu ontem durante uma tempestade tropical dos infernos.

PEDRO: - Meu amigo, sossega seu coração de pai. Vamos dar mais uns reforços de inglês pra ela, vamos com ela pra Miami até tudo dar certo. Depois tem muito hispânico por lá. Ela vai se sentir em casa.

TONHÃO: - Pedro, como vou pagar esse favor pra você e a Madalena?

PEDRO: - Não é favor, Tonhão. É uma honra fazer por você o que fez por nós em Cuba, quando começaram a perseguir os professores universitários imigrantes que estavam falando sobre capitalismo nas aulas de história. Nunca vou esquecer que tive a ideia infeliz de me esconder com a Mada e o pequeno Alfredo dentro de um navio venezuelano pra fugir de Cuba e não ser preso. Você nos viu escondido e não nos delatou. Ainda nos deu comida e dinheiro. Não fosse por você, Mada e eu teríamos sido executados como outros colegas foram. E meu filho, sabe Deus o que aconteceria com ele! Então, eu devo a minha vida pra você. É de um pai pra outro. E vou realizar o sonho da sua filha. E você vai ter muito orgulho dessa menina, porque ela é muito inteligente.

TONHÃO: - Minha preocupação é a de todo o pai. Uma moça latina bonita e sozinha nos Estados Unidos. Aqueles gringos gaviões... Acha que ela terá chances de carreira lá? Não vai ser menosprezada por eles? Jogada a serviços humilhantes que americanos não fazem? Ou a coisas piores, se é que me entende.

PEDRO: - Tonhão, lá a realidade é outra, certo? Essas coisas acontecem muito, você sabe disso, eu sei disso. Os latinos vão pra lá achando que viverão como os gringos, mas tudo é mais difícil pra quem não é americano. Contudo, as oportunidades existem pra quem quer trabalhar mesmo. Por enquanto Barbara é uma estudante, pegando um diploma universitário americano, as chances dela dobram.

TONHÃO: - Desde criança o sonho dela é ser jornalista. Sei que minha filha é esforçada, dedicada, trabalhadora, mas não sei como dizer a ela que não espero que ela consiga sentar na bancada da CNN, embora mereça.

PEDRO: - Amigo, nem mesmo todos os jornalistas americanos nativos conseguem sentar na bancada da CNN. Isso vai da competência da pessoa e não da cor da pele ou nacionalidade. E depois eles têm muitas emissoras de TV aberta, a cabo... Jornais, revistas, uma infinidade de trabalho pra fazer. Ela tem chances. Acredite. Só depende dela.


Krasnoyarsk, Sibéria - Proximidades do Rio Tunguska - URSS

Parte de uma floresta de árvores secas e tombadas, os guardas montados em cavalos e armados. Krycek, 28 anos, agora de cabelos curtos e barba por fazer, usando uma camiseta branca e a calça cinza do uniforme. A camisa cinza do uniforme amarrada sobre o rosto tapando boca, nariz e orelhas. Dois outros presos com ele, vestidos da mesma maneira. Todos em cima de uma larga rocha semienterrada, tentando partir com a picareta um pedaço grande dela. A cada descida da picareta, eles viram o rosto, cerrando os olhos.

Um deles acerta a picareta e o óleo negro espirra. Eles se afastam, rapidamente.

Imagem sobe o foco. A floresta de árvores secas e caídas vai se ampliando até vermos que é uma imensa cratera no meio da vasta floresta siberiana.

Tela escura.


Tela se abre nas sombras humanas, refletidas na parede de pedras.

As sombras de dois homens. Um terceiro homem ao centro, Krycek, pendurado pelos pulsos. Agora com cabelos compridos.

SHARAPOV: - Sentiu saudades minhas? Pois agora eu serei o seu sargento de novo.

A sombra do homem à esquerda, Sharapov, ergue o bastão de madeira, arrebentando-o com força nas costas de Krycek. Ele grita. O corpo vai de encontro à parede, balançando.

Foco apenas na sombra do bastão que desce diversas vezes contra as costas de Krycek, até que finalmente, os gritos dele cessam, cansado da tortura.

A sombra do corpo de Krycek cede, o deixando pendurado pelos pulsos.

Sharapov e o homem da direita agacham-se. O corpo de Krycek cai, deixando nenhuma sombra restante na parede de pedras, a não ser a sombra das duas correntes.

Os dois se erguem, puxam as correntes para baixo. A sombra de Krycek se ergue novamente, desta vez com as pernas para cima. Escutam-se leves murmúrios em russo. Sharapov ergue o bastão e acerta nas solas dos pés de Krycek. Ele grita.


Base Militar de Achinsk - Imediações de Krasnoyarsk - URSS

A luz repentina do isqueiro quebra a escuridão, acendendo o cigarro. A ponta acesa do cigarro no escuro, move-se algumas vezes, mostrando as barras de uma cela. O cigarro levado à boca e tragado, aumenta a luz revelando a face sombria do Canceroso.

A luz de um lampião acesa por Pescow, ilumina o lugar.

Krycek dorme no chão da cela entre ratos. Cabeludo, barbudo, magro, pés machucados, cabeça sangrando e o olho esquerdo inchado e cortado. As roupas encardidas e manchadas de sangue.

PESCOW: - Podemos usar outro, mas esse é durão, acredite. Só precisa de um banho, corte de cabelo, fazer a barba, roupas boas e comer alguma coisa decente. Em alguns meses ele vai parecer um jovem bonito e saudável de novo. Tem 28 anos, vai fazer 29 em breve.

CANCEROSO: - (TRAGA O CIGARRO) Gostei da ficha dele. Além de saber inglês, é jovem e ambicioso. Treinamento no exército, sede de vingança, olhos frios. Filho de um reacionário. Viveu na pobreza. Um sonhador. É só dar a ele o que quer e fará qualquer coisa que pedirmos.

PESCOW: - Acho que podemos confiar nele. Nunca acreditei que fosse um traidor.

CANCEROSO: - Ele não foi condenado por traição? Vamos deixar que o rapaz faça jus a sua condenação. Não vamos ficar com ele por muito tempo. Apenas enquanto nos servir.

O Canceroso fica observando Krycek. Solta a fumaça do cigarro, num sorriso.


Aeroporto Internacional John F. Kennedy - Nova Iorque - USA

O Agente da CIA, um homem sério, usando terno, gravata e sobretudo, entra rapidamente no saguão do aeroporto segurando uma folha de papel. Observa o painel de chegadas. O Agente se dirige rapidamente para o portão 3, olhando para o relógio. Procura com os olhos entre as pessoas que andam por ali. Abre a folha de papel onde vemos escrito: Krycek.

Krycek, magro, em roupas bem simples, segurando uma sacola de viagem, com a cabeça enfaixada cobrindo um dos olhos, se aproxima dele. O Agente da CIA ao vê-lo, desconfia.

AGENTE DA CIA: - Alexander Krycek? Fala minha língua?

KRYCEK: - Perfeitamente.

AGENTE DA CIA: - Desculpe o atraso. Esperava um russo no estilo Schwarzenegger, mas... Me siga.

KRYCEK: - (CURIOSO) E quem é esse?

AGENTE DA CIA: - Está brincando, não é? Ah, esqueci que você veio de outro mundo. Vamos?

Krycek o segue, feito um turista que observa tudo maravilhado.

O casal Ruiz e Barbara ao lado deles, olhando impressionada para todos os lados. Ela passa por Krycek e ele por ela, mas não se percebem. Estão admirando tudo, com olhos curiosos.

PEDRO: - Gostaria que você conhecesse Nova Iorque, Bábi, mas precisamos correr ou perderemos o voo pra Miami.


1994

Washington D.C.

Krycek termina de fazer o nó da gravata em frente ao espelho do banheiro. Não acerta. Suspira irritado.

KRYCEK: - (MURMURA) Pareço um idiota engomadinho com esse cabelo lambido...

O Canceroso fuma um cigarro perto da janela, segurando uma pasta. Krycek sai do banheiro.

KRYCEK: - Não consigo acertar isso, senhor.

O Canceroso se aproxima, larga a pasta na cama e começa a dar o nó na gravata de Krycek.

CANCEROSO: - Um dos meus colegas, chamado Strughold, vai entrar em contato com você.

KRYCEK: - Muda alguma coisa? Devo me reportar a ele?

CANCEROSO: - Sempre se reportará a mim, Alex Krycek. A mais ninguém. Qualquer ordem dada que não seja diretamente por mim, você virá até mim e me contará. Fui claro?

KRYCEK: - Sim, senhor.

O Canceroso se afasta. Observa Krycek.

CANCEROSO: - Parece um agente do FBI. Passou no teste. Fez o dever de casa?

KRYCEK: - Sim, sei tudo sobre os agentes Mulder e Scully e os Arquivos X. Estudei todas as apostilas do FBI e sei como um agente deve se portar.

CANCEROSO: - Se você for convincente, vai fazer ele cair. Mulder é o inimigo, fui claro?

KRYCEK: - Sim, senhor. Mas por que esse Mulder incomoda vocês? Só por que investiga extraterrestres? Vocês podem desmenti-lo, ele não é nada mais que um agente federal. Isso pra vocês é muito fácil.

CANCEROSO: - Como eu disse, não cabe a você fazer perguntas, mas cumprir suas ordens.


Miami, Flórida

No campus, Barbara sentada na grama, debaixo da árvore, lendo um livro. Byers se aproxima dela e senta-se ao lado.

BARBARA: - Conseguiu os papéis, Byers?

BYERS: - Deu certo, Barbara.

BARBARA: - Seja sincero. Quando cheguei aqui você foi o único veterano que ficou meu amigo. Você tá formado há três anos, passou num concurso público, virou assessor de imprensa do governo... O que posso esperar do mercado lá fora?

BYERS: - Complicado e disputado. Mas com lugar pra alguém competente como você.

BARBARA: - Gostou mesmo da minha reportagem?

BYERS: - Alguma vez menti pra você sobre a qualidade das suas reportagens?

Ela sorri. Envolve o braço no braço dele.

BARBARA: - Estou feliz que tenha me ligado pra dizer que viria aqui. É bom ver antigos colegas. Você me ajudou muito, sabia?

BYERS: - (SORRI) Sei os seus segredos cubanos, mas sua nacionalidade permanece segura comigo. Você também me ajudou muito.

BARBARA: - Ajudar você me fez dar um salto. Aprendi coisas que só aprenderia muitos semestres depois.

BYERS: - Você é esforçada, Barbara. Mesmo as coisas não sendo fáceis pra você. Me manda um convite pra formatura. Eu virei, com toda a certeza...

BARBARA: - Eu sei que virá. E como é a vida em Washington?

BYERS: - Mais releases que pautas jornalísticas. Muita política, muita mentira e engodo. Tem vezes que dá vontade de jogar farinha no ventilador deles. Você me conhece, não compactuo com esse tipo de coisa, mas... Enquanto aguentar, é um bom emprego. Conheci dois caras malucos como a gente.

BARBARA: - Sério?

BYERS: - Estou morando com eles. Criamos uma revista chamada Pistoleiros Solitários. Como tenho acesso a informações do governo, fica fácil expor verdades, conspirações... Bom, não é uma revista mesmo, se fosse eu já tinha emprego pra você. Tá mais pra um boletim com meia dúzia de assinantes que o recebem por e-mail. É uma maneira de fazer a minha parte, sabe? Expor coisas que me incomodam. Jornalistas não gostam de mentiras.

BARBARA: - Eu entendo. Quero assinar.

BYERS: - Pra você é de graça. Eu quero que dê uma olhada, você é melhor em diagramação. Não consigo me decidir pelo formato...

BARBARA: - Eu faço a diagramação dela pra você. Pistoleiros Solitários... Gostei do nome, remete a conspiração Kennedy e ao seu nome, John Fitzgerald. Qual foi o decisório?

BYERS: - (SORRI) Ambos. Você tinha que conhecer um cara que eu e os rapazes conhecemos. Um dos nossos assinantes. Ele é do FBI. Se você acha que é doida, não viu esse cara.

BARBARA: - Imagino, pra um agente do FBI assinar uma revista sobre conspirações...

Os dois riem.



1996


Miami, Flórida

Barbara isolada, sentada numa mesa vazia na biblioteca da universidade. Um livro aberto sobre a mesa, ela cabisbaixa, fingindo ler, mas chorando. Grace, a bibliotecária, se aproxima, colocando um copo de café na frente dela.

GRACE: - Não está bem hoje, não é mesmo? Posso ajudar? Problemas com a formatura?

BARBARA: - Não... Eu adiei o que pude, mas... Preciso me formar.

Barbara seca as lágrimas com os punhos do casaco.

BARBARA: - Meu visto de estudante acaba quando eu me formar. Terei que voltar pro meu país.

GRACE: - Tentou o greencard?

BARBARA: - Tentei tudo, mas... Sou cubana.

GRACE: - Ah, entendi...

BARBARA: - O jornal onde estou estagiando quer me contratar. Já tenho emprego garantido, mesmo assim... Não me querem aqui.

GRACE: - Lamento, querida... Lamento de verdade. Olha, não é algo que eu aconselharia pra ninguém, você nem ouviu essa sugestão da minha boca. Conhece algum rapaz americano que poderia se casar com você? É uma maneira.

BARBARA: - Só tenho um amigo aqui e ele mora em Washington agora. Ele é bem mais velho, mas não é por isso. Eu nunca colocaria o Byers numa situação dessas. Não posso atrapalhar a vida dele e colocá-lo em risco. Se a imigração nos pega, vai ser ruim pra ele. Ele já ralou numa segunda faculdade pra mudar de vida e profissão, eu não posso brincar com a vida dele.

Barbara se levanta, pegando a bolsa.

BARBARA: - Obrigada por me ouvir. Eu tenho que ir agora, não posso me atrasar no estágio.


Jornal Florida Daily

Barbara digitando no computador. Uma colega se aproxima e fixa um aviso no mural. Barbara se levanta e aproxima-se do mural, lendo.

GRETCHEN: - O presidente da RBN está aqui e vai participar de uma festa amanhã à noite com os funcionários.

BARBARA: - ... E estagiários podem ir?

GRETCHEN: - Claro que sim. Rockfell sempre dá festas ótimas. Costuma fazer isso quando o jornal atinge um bom desempenho de vendas e esse ano estamos de parabéns. Vá, você vai se divertir.

BARBARA: - E... Qual o tipo de roupa?

GRETCHEN: - Social. Um vestido bonito, nada com muito brilho.

BARBARA: - Será que consigo falar com o senhor Rockfell?

GRETCHEN: - Ah, querida, isso é impossível. Ele não fala com estagiários e até com alguns jornalistas. Ele fica uns 30 minutos, conversa com os editores e os importantes daqui, como o prefeito e políticos e dá o fora rapidinho. Ele é muito ocupado. O que queria conversar com ele?

BARBARA: - Nada de importante. Curiosidade sobre o patrão.

GRETCHEN: - Bom, ele não gosta de muita curiosidade. Ele é divertido, social, mas é um homem de negócios.

Uma jornalista mais velha passa por elas.

KRISTEN: - E um safado que não pode ver mulher bonita. Não consegue deixar o pinto dentro das calças.

GRETCHEN: - Kristen!

KRISTEN: - Tô mentindo? Lembra da Judith? Chegou aqui como jornalista, depois acabou como editora-chefe do jornal da Louisiana! Acha que foi competência? Nunca vi precisar de competência pra coluna de horóscopo!

Barbara fica pensativa, enquanto as duas conversam.


Nova Iorque

Marita Covarrubias, vestida apenas num robe, abre a porta do apartamento. Krycek entra colocando a arma na testa dela e fechando a porta atrás de si.

KRYCEK: - (FURIOSO) Precisamos conversar, Mata Hari.

Marita dá as costas e senta-se na poltrona. Cruza as pernas e pega a taça de vinho na mesinha ao lado.

MARITA: - Você me deixou pra morrer... Me ignorou no Fort Marlene, mesmo vendo o que fizeram comigo!

KRYCEK: - Queria que eu tomasse você nos meus braços, como um príncipe que veio salvar uma pobre donzela indefesa? Depois de transar comigo, me deixar na cama e roubar de mim aquele garoto infectado com o óleo negro e entregá-lo ao Sindicato? O seu amiguinho Fumante me trancou num silo e me deixou pra morrer com aquela porcaria lá dentro! Você não é indefesa e donzela muito menos, sua piranha cínica!

MARITA: - Eu fiz pela vacina... Você disse que tinha a vacina e mentiu pra mim!

KRYCEK: -Vou dizer uma coisa pra você, garota. Você não sabe nada sobre mim. Eu conheço mulheres como você, agentes duplas, que abrem as pernas para arrancarem informações dos idiotas que pensam com o pau! Eu nem ousaria chamar você de vadia, porque isso ofenderia as prostitutas que são mais honestas que você!

MARITA: - Não tem o direito de falar assim comigo!

KRYCEK: - (GRITA) Eu tenho sim! Nós russos confiamos em você! Você fez uma aliança pra me ajudar contra aquele Fumante desgraçado e o que fez? Ahn? Trepou comigo e pensou que ia arrancar verdades, mas eu sou cachorro velho nesse jogo! Eu comi você e menti que tinha a vacina! Não deveria ter mentido? Porque assim que fechei os olhos, você pulou rapidinho da minha cama, vestiu suas calcinhas e foi entregar a minha cabeça para o Homem das Unhas Bem Feitas!

MARITA: - Você entendeu tudo errado, Alex...

Krycek se atira no sofá, segurando a arma.

KRYCEK: - Ah não, eu entendi muito bem a sua. Você traiu a minha confiança. E estou falando de negócios, porque é isso o que há entre nós. Apenas negócios.

MARITA: - Quer jantar comigo?

KRYCEK: - Quer tentar me envenenar agora?

MARITA: - Olha, eu gostei do que aconteceu entre a gente. E entendo seus motivos para não confiar mais em mim, mas estamos do mesmo lado, Alex. Precisamos nos unir contra aqueles homens e estamos lá dentro, quer melhor meio do que esse?

KRYCEK: - Foi sexo, apenas sexo. E uma idiotice da minha parte. Só porque você fala russo, eu achei que teria alguém pra conversar. Não se tem amigos e nem se pode confiar em ninguém nesse ramo. Menos ainda em mulheres lindas. Escolheram você de propósito, Mara Hari. Então, ainda é informante do Mulder? Já dormiu com ele para tirar informações e manipulá-lo? Ou ele prefere ruivas baixinhas e não vai cair na sua lábia?

MARITA: - Deixe de ser grosseiro, Alex Krycek!

KRYCEK: - Deixe de parecer uma donzela virgem e imaculada em inocência, sua piranha da ONU!

Marita se levanta. Krycek aponta a arma pra ela.

KRYCEK: - Fica sentadinha aí decorando a sala com suas pernas à mostra. Se abri-las eu atiro no meio delas.

Marita senta-se.

MARITA: - Você entendeu tudo errado... Eu não fiz sexo com você apenas por fazer. Eu fiz porque sinto algo por você, desde que o conheci. E sei que você também sente, ficou interessado. É uma atração, eu não sei, mas gosto de estar com você...

KRYCEK: - Vire o disco. Quero saber por que me ferrou.

MARITA: - Lamento pelo que aconteceu, mas eu fiz mesmo pela vacina, as coisas estavam fora de controle, os rebeldes alienígenas, o descumprimento do acordo deles conosco... Eu queria que nós tivéssemos a vacina para imunizar as pessoas antes que a guerra começasse e pensei que vocês russos já a tinham e estavam segurando a tecnologia...

KRYCEK: - Você não sabe nada sobre nós russos. Você é outra que pensa que comemos criancinhas no café da manhã, que odiamos o mundo inteiro e só pensamos em nós mesmos! Vocês americanos é que são egoístas! Se tivéssemos a vacina teríamos negociado com o Sindicato! Porque também não somos burros pra dar nada de graça pra vocês nos foderem depois! Pescow tem razão. Ele sempre diz pra desconfiar dos americanos e suas boas intenções.

MARITA: - Você me acusa de ser uma agente dupla, porque trabalho pra ONU e para o Sindicato, mas você é um agente duplo. Você leva informações para os russos e as traz para os americanos! Somos iguais, não percebe?

KRYCEK: - Não somos iguais, querida, você não entendeu nada ainda. Eu dou informações para os russos e informações falsas para vocês, americanos, porque eu não sou um traidor do meu país, como vocês são, mesmo que meu governo não mereça a minha lealdade. Mas isso é passado, o regime comunista de merda acabou e mesmo que o povo russo nunca saiba a verdade e quem eu sou, eu me sinto feliz em saber que ajudei a abrir a porta da liberdade pra eles e a foder com a vida de quem fodeu a minha vida e a dos meus pais! Você nada sabe do meu passado, então não fique aí me olhando com essa carinha bonita, me julgando um traidor, achando que sabe tudo sobre mim, porque você não sabe porra nenhuma! Só eu sei a merda de vida que eu tinha e juro pra você que nunca mais vou voltar pra sarjeta de novo, mesmo que eu tenha que matar e ferrar quem estiver pela frente e sem piedade alguma!

Krycek se levanta. Vai até o bar e serve uma vodca.

KRYCEK: - E tanto o meu governo não merece, que eu doso o que devem saber e vendo o que sei sobre vocês a quem me pagar melhor. Eu tenho o meu próprio negócio, trabalho pra mim mesmo e pela primeira vez na vida as pessoas dependem de mim, eu sou alguém importante na merda dessa vida! Alguém me disse uma vez que devemos sobreviver do jeito que podemos, porque a vida é linda, as pessoas é que a estragam. E Vanya tinha razão. Eu vou sobreviver do jeito que puder, vou encher o meu bolso pra garantir o meu futuro e depois sumir de vista pra curtir um pouco dessa coisa chamada vida, porque vocês fodem com tudo nesse planeta! Fodem com a vida das pessoas comuns que nem fazem ideia do que acontece todos os dias fora das telas das televisões!

MARITA: - Alex, você não enxerga que eu penso como você? Acredita que estou nesse jogo porque gosto?

KRYCEK: - Eu não confio em você.

MARITA: - Mas confia em Pescow!

KRYCEK: - Com certeza não, mas confio bem mais em Pescow do que confio em vocês americanos, pelo menos ele me tirou de um gulag antes que eu fosse morto! E eu serei eternamente grato a ele, portanto não me peça pra ser fiel ao Sindicato, porque aquele Fumante desgraçado me prometeu uma coisa, me usou, mentiu pra mim, me fez matar o pai do Mulder, entregar a Scully e me deixou trancado pra morrer num silo com um alienígena! Eu quero a cabeça dele. E vou atrapalhar a porra toda dos planos dele dando migalhas ao Mulder e até mesmo manipulando o Skinner pra sacudir aquele cérebro careca até ele perceber que devia fazer mais pelo Mulder e a Scully dentro do FBI. Ele é o único que pode ajudar os dois a exporem essa merda e fica em cima do muro se fazendo de idiota. Ou Skinner dá ou desce.

MARITA: - Acha mesmo que confio no Fumante? No Sindicato? Estou lá apenas para descobrir a verdade, assim como você. Estou deixando me usarem como informante, porque assim posso ajudar o Mulder. Alex, nós temos os mesmos interesses e se não nos aliarmos, nunca seremos bem sucedidos! Eles vão continuar mentindo pro Mulder, fazendo ele de idiota e você sabe que Mulder é a única chance que temos pra expor a verdade.

KRYCEK: - Mulder é outro peão idiota no jogo deles, como eu era e como você ainda é! Não há piedade naquele Fumante, escute o que eu digo. Se ele tiver que matar o filho, ele vai matar. É mais fácil ele apertar o gatilho contra o Mulder do que eu!

MARITA: - Gosto do Mulder. Ele é honesto.

KRYCEK: - Gosto do Mulder também, mas ele não sabe jogar, mesmo depois de tudo o que eu já disse pra ele. Mulder ainda acredita em justiça. Acha que vai resolver tudo pelos órgãos oficiais e sabemos que se não lutarmos com as mesmas armas deles nunca chegaremos a um resultado positivo.

MARITA: - Já disse isso a ele?

KRYCEK: - Já, mas Mulder é surdo.

Marita se levanta. Krycek solta o copo e aponta a arma pra ela. Marita abre o robe, deixando os ombros de fora.

KRYCEK: - Nem vem. Eu disse mais a você sobre mim agora do que diria depois do sexo. Pode poupar seu instrumento de trabalho para os outros. Quando quiser saber alguma coisa, basta me perguntar e não me seduzir, porque isso é tempo perdido e eu vou ficar tão aborrecido que vou mentir.

MARITA: - Você não disse nada que eu já não soubesse e tanta agressividade da sua parte só me diz que você tem medo. Qual o seu problema? Por que tem medo de se relacionar com alguém?

KRYCEK: - Eu não quero me relacionar com alguém. E essa pergunta vindo de você chega a soar irônica. Você sabe o que eu faço! Eu vivo disso! Não tenho tempo pra coisas comuns!

MARITA: - E você sabe o que eu faço! Nenhum dos dois aqui corre riscos além do que já está correndo!

KRYCEK: - Marita, você mente pra eles, mentiu pra mim, quem me garante que não está mentindo agora? Ahn? Você tá dormindo com o cara errado, é o Mulder que eles querem que você pegue e não eu!

MARITA: - Uma coisa é meu trabalho e outra é minha vida pessoal! Eu não vou dormir com o Mulder pra separá-lo da coisinha chata lá! Eu já disse isso para o Sindicato, eu não sou prostituta!

KRYCEK: - Ah, mas dormiu comigo pra arrancar informações sobre a vacina? Tem certeza mesmo que está tentando seduzir o cara certo? Por que você se insinua pro Mulder o tempo todo, bancando a informante. Lamento dizer, mas ele teve informantes bem melhores que você, a única diferença é que não tinham uma vagina!

Marita acerta um tapa na cara dele. Krycek a segura pelo pulso.

KRYCEK: - Não tenho nada pra você. O que quer de mim, Marita?

MARITA: - ... Gosto de você, Alex. Gosto mesmo. O que aconteceu foi porque eu realmente gosto de você.

KRYCEK: - Também gosto de você. O problema é que não confio em você. E você não confia em mim.

MARITA: - Lamento que pense assim, porque eu confio em você.

KRYCEK: - Você não sabe nada sobre mim. E o pouco que sabe não me rende uma boa ficha pra causar interesse em uma mulher como você e muito menos confiança. Qual é a sua? Estão usando você pra chegarem em mim, é isso?

Marita se desvencilha dele.

KRYCEK: - Me responde, porque eu não sou idiota! Eu já enxerguei a verdade, sei com que tipo de gente estou lidando e não confio em ninguém. Quer saber minha fidelidade ao Sindicato? Enquanto eles tiverem assuntos que me interessa, eu vou estar na cola deles, vou jogar o jogo deles e tudo vai cair no colo do Pescow, aquele outro filho da puta, mas pelo menos ele é compatriota!

MARITA: - Não estou querendo me casar, ok?

KRYCEK: - Ótimo, porque nem eu quero me casar. Se quiser continuar brincando, vamos brincar. Nada além disso. Não posso dar pra você o que uma mulher quer.

MARITA: - Nem todas as mulheres querem a mesma coisa, Alex.

KRYCEK: - Concordo, mas as que não querem, eu não costumo deixar que voltem no outro dia. Eu já facilito as coisas pra elas.

MARITA: - Por que tanta revolta, tanto ódio, tanto medo? O que assusta você, Alex Krycek? O Fumante? O Sindicato? Mulder? Os alienígenas? Ou o que sente por mim?

KRYCEK: - O que me assusta é o passado, Marita. E voltar pra ele me assombra todos os dias da minha vida.

Marita deixa o roupão cair e o chama pra um beijo. Krycek solta a arma no balcão e a empurra contra a parede. Os dois esfregam os corpos, enquanto ele beija o pescoço dela e a ergue.


Miami, Florida

Barbara entra no salão do hotel. Vestido vermelho e longo com decote na frente e nas costas, bem maquiada, cabelos presos no alto da cabeça, brincos longos, saltos e segurando uma carteira. As outras jornalistas olham impressionadas. Rockfell conversa com alguns homens, que desviam a atenção para a beldade escultural que chega na festa. Rockfell também desvia os olhos.

ROCKFELL: - (IMPRESSIONADO) Quem é a morena?

MYERS: - Não faço ideia, mas caso com ela agora.

BENSON: - Vou descobrir se está com alguém...

Benson vai até Barbara e no meio do caminho pega uma taça de champanhe da bandeja do garçom. Entrega pra ela.

BARBARA: - (SORRI) Obrigada, editor-chefe.

BENSON: - (INCRÉDULO) Barbara? (SORRI) Nossa, nem reconheci você!

BARBARA: - Exagerei?

BENSON: - Não, de maneira nenhuma, está... Nossa! Está linda!

BARBARA: - Aquele é o senhor Rockfell?

BENSON: - Sim, aquele é o nosso patrão.

BARBARA: - Queria muito conhecê-lo...

BENSON: - Se me der o braço e atravessar o salão comigo para eu me sentir um privilegiado, posso apresentar o chefão pra você.

Barbara sorri e dá o braço pra ele. Os dois vão até Rockfell, que olha pra Barbara, de cima pra baixo, a comendo com os olhos.

BENSON: - Sr. Rockfell, essa é Barbara Ramirez, nossa mais nova aquisição no Florida Daily. Barbara, esse é o senhor Thomas Rockfell, presidente da RBN.

BARBARA: - Oi, é uma honra conhecer o senhor, sou sua estagiária...

Rockfell pega a mão de Barbara e a beija.

ROCKFELL: - Encantado, senhorita Ramirez. Então ainda é estudante?

BARBARA: - Na verdade estou me formando, senhor.

BENSON: - Devo dizer que é uma ótima jornalista. Sempre pontual e não recusa pautas. Aquela reportagem sobre as mortes dos cubanos tentando entrar no país em balsas, lembram? Foi dela, o jornal ganhou um prêmio por isso. Como a entrevista com um dos filhos daqueles malucos da tal seita lá, que morreram carbonizados na Montanha Sky Land, na Virgínia. Barbara conseguiu a entrevista pra nós.

ROCKFELL: - Sério? Então já a contrataram, não é mesmo?

BENSON: - O contrato já está sobre a mesa.

BARBARA: - Gostaria de falar com o senhor em particular.

ROCKFELL: - Podemos conversar sim.

Rockfell tira o cartão do paletó e entrega pra ela.

ROCKFELL: - Marque um horário com a minha secretária.

Barbara leva a taça à boca, sem desviar os olhos dele, numa insinuação.

BARBARA: - Receio que o assunto seja... Urgente.

O garçom passa com uma bandeja de frutas. Barbara pega um morango e leva aos lábios vermelhos, mordendo sensualmente. Rockfell sorri. Benson percebe.

BENSON: - Rockfell, me desculpe. Myers, venha comigo, quero falar sobre a capa de amanhã.

Os dois se afastam.

ROCKFELL: - Me espera na porta. Eu saio em dez minutos. Meu chofer está lá fora parado na limusine. Diga que mandei você entrar. Não deixe que ninguém a veja.

Barbara amolece as pernas, trêmula. Vira-se de costas e se afasta. Rockfell vira a cabeça pra olhar o traseiro dela. Ela caminha falando baixo consigo mesma, nervosa e indecisa.

BARBARA: - (MURMURA) Você tá maluca, você nunca fez isso, não é mulher disso, seu pai se envergonharia de você, desiste, não vai até aquele carro... Ou é isso ou voltar pra Cuba... Mas eu nunca transei! Eu queria fazer isso com alguém que eu amasse... Droga, e se o cara que você amar for um canalha e largar você depois, vai botar a sua virgindade fora também! Pelo menos o Rockfell não é feio, é até bonitão... Ai, o que eu fui fazer? O que faço agora? Corro?

Barbara para na porta, nervosa. Olha pra trás, Rockfell conversa com outros jornalistas. Olha para a frente, a limusine parada, o motorista fumando um cigarro.

BARBARA: - (MURMURA) Você chegou até aqui, Barbara. Por sua competência. Mas acabou, porque nunca darão um visto pra você. Ou você encara aquela limusine ou volta pra Cuba sem saber se teria conseguido vencer na vida. Suas irmãs vão rir da sua cara e da cara do seu papacito. Todo o esforço dele e da mamacita terão sido em vão... (RESPIRA FUNDO) Termine o que começou. Pede pra ele ajudar com o greencard, seja cara dura, ele tem influências, você ouviu das meninas e afinal, ele é seu patrão, o interesse é dele também em ficar com uma ótima funcionária. Tenta só conversar. Vai que ele tope apenas conversar, se quiser uns beijinhos e amassos você dá, e cai fora. Importa conseguir um visto pra ficar em Miami e começar a sua carreira.

Ela fecha os olhos, soltando o ar, nervosa e tremendo as pernas. Então respira fundo e vai até a limusine.

Corte.


A limusine parada na beira da praia. O chofer ao longe, fumando um cigarro.

Barbara sentada dentro da limusine. Rockfell sentado ao lado dela, olhando pra ela e com a mão no joelho dela.

BARBARA: - Eu... Eu acho que foi um erro, me desculpe... É que...

ROCKFELL: - Relaxa, garota. Barbara, não é? Um nome lindo que combina com a sua beleza.

Rockfell serve um champanhe e entrega um copo pra ela.

ROCKFELL: - Então... Me fala sobre você. Como uma mulher gostosa assim resolve ser jornalista? Não deveria ser Miss Universo?

Rockfell novamente avança a mão nas pernas dela. Barbara, nervosa, toma a taça inteira de champanhe. Rockfell sorri e serve mais.

BARBARA: - Eu sou cubana.

ROCKFELL: - Por isso tem essa cor linda. Você é perfeita, sabia?

Rockfell avança em cima dela, beijando o pescoço dela, deixando o corpo cair e a empurrando contra o assento. Barbara nervosa e assustada, deixa a taça cair.

BARBARA: - E-eu não tenho visto de permanência aqui.

ROCKFELL: - Que pena... Mas posso visitar você em Havana.

BARBARA: - O senhor não está entendendo...

ROCKFELL: - Pare de me chamar de senhor. Me chame de Rockfell.

BARBARA: - Eu... Eu...

Barbara empurra ele. Rockfell olha incrédulo.

ROCKFELL: - O que foi, garota? Está me fazendo de idiota? Você insinuou a brincadeira e agora quer pular fora?

BARBARA: - Eu... Eu precisava chamar sua atenção, porque só o senhor pode me ajudar. O senhor conhece pessoas influentes. Eu sempre sonhei em ser jornalista. Eu dei um duro tremendo, aprendi inglês, fugi de Cuba, meus pais voltaram sozinhos pra Havana mentindo que eu havia sido sequestrada no México, eu ralei estudando na faculdade, consegui o estágio disputando com mais de 50 candidatos, finalmente consegui me formar e consegui um emprego no seu jornal e não posso realizar o meu sonho, pois não me dão um visto pra viver aqui porque sou cubana!

ROCKFELL: - O quanto você quer ser jornalista?

BARBARA: - Muito! É tudo o que eu mais desejo!

ROCKFELL: - Então relaxa, você já é jornalista.

BARBARA: - Eu sei, mas não posso voltar pra Cuba e...

Rockfell a cala num beijo de língua. Barbara arregala os olhos, tensa, atrapalhada. Rockfell leva a mão entre as pernas dela. Barbara, parece uma múmia, sem reação, assustada e apreensiva. Rockfell se afasta.

ROCKFELL: - (INCRÉDULO) Você é virgem?

BARBARA: - (ASSUSTADA) ...

Rockfell sorri.

ROCKFELL: - Certo, entendi o seu problema, é mais uma garota pobre, que veio de um lugar de merda e não quer voltar pra pobreza, mas agora entenda o meu problema. E depois conversamos sobre o assunto.

Ele avança em cima dela, afastando a perna dela e enfiando o rosto embaixo do vestido. Barbara enche os olhos de lágrimas e os fecha, deixando as lágrimas escorrerem pelo rosto.

Corte.


Barbara desce da limusine em frente a república universitária, descabelada, vestido caindo pelo ombro e os sapatos de salto na mão. Séria, confusa, arrependida. O vidro da limusine desce.

ROCKFELL: - Faça um favor pra si mesma. Não use Ramirez. Escolha um sobrenome americano, vai facilitar a sua vida nesse país. E nunca diga de onde veio. Americanos não gostam de cubanos e comunistas. Se insistirem, diga que é filha de mexicanos.

Barbara vira-se pra ele, sem conseguir sorrir.

ROCKFELL: - Pegue o seu diploma. Se me deixar cuidar de você, se for minha amiga, em quatro dias, o meu jatinho vai pegar você no aeroporto e você vai pra Nova Iorque com um greencard na mão. Tenho um apartamento esperando por você e um emprego bem melhor, na minha televisão. Vou colocar você como a moça do tempo no jornal das oito e caso me deixe feliz, vai ascender rapidinho. Você é linda demais pra combinar com pobreza. E é mulher demais pra esse lugar que fede a mariscos. Vá se despedindo de Miami. Seus sonhos serão realidade em Nova Iorque, é só me dizer sim.

BARBARA: - (FECHA OS OLHOS) Sim...

Ele sorri. O vidro se fecha. A limusine parte. Barbara fica olhando pro nada. Então abaixa a cabeça e começa a chorar.

Corte.


Barbara caminha pela calçada com os pés descalços, se aproximando do dormitório. Olhos inchados de chorar. Se recosta na lixeira, cansada e confusa.

BARBARA: - Você é pior que esse lixo todo, Barbara Ramirez... Nem é digna do sobrenome do seu papá.

Barbara olha para o lixo. Vê uma fita de vídeo. Puxa ela de entre os papéis. É um desenho animado: Wallace & Gromit.

BARBARA: - Gosto de inventar coisas e gosto de queijo como o Wallace, mas acabo de ser uma cadela muda, um cão como o Gromit... Barbara Gromit. Não combina... Barbara Wallace soa melhor. Ok, já encontrou seu sobrenome. É inglês, mas serve, Barbara Wallace.

Ela entra no prédio, levando a fita consigo e contra o peito.



TEMPO ATUAL


Residência dos Krycek - 1:12 PM

Krycek entra em casa com sacos de compras e uma sacolinha de presente. Nenhum movimento. Ele coloca as compras sobre a bancada da cozinha e vai pra sala levando a sacolinha. No caminho percebe o painel de fotos no chão, apoiado na parede. Fotos dele, das crianças e de Barbara. Krycek se agacha e observa as fotos em molduras cheias de corações, bichinhos, românticas e engraçadas.

KRYCEK: - (RINDO) Essa Malyshka... A maníaca das fotografias e scrapbooks. Essa mulher acabou com a minha fama de mau. Olha pra essa foto, eu tô até rindo! Desse jeito ela vai pintar um ratinho fofinho na minha arma e vou terminar meus dias usando pijamas do Ligeirinho!

Krycek segue rindo pelo corredor. Barbara sentada na escada, cabisbaixa, olhos vermelhos de chorar.

KRYCEK: - (PREOCUPADO) O que aconteceu, Barbara?

BARBARA: - (SORRI) Nada, Ratoncito.

KRYCEK: - Como nada? Você tá chorando, garota!

Ela bate a mão no degrau. Ele se aproxima e senta-se ao lado, passando a mão nos cabelos dela.

KRYCEK: - Quem magoou você? Ahn? Diz o nome do safado que eu vou fazer ele se arrepender de ter nascido. Ninguém mais vai magoar você, não enquanto eu viver.

BARBARA: - (CABISBAIXA) ... Eu... (SECA AS LÁGRIMAS COM AS MÃOS) Eu estava lembrando de coisas do passado. Hoje fui eu quem abriu a gaveta das recordações nada boas...

Krycek envolve o braço nela e a puxa contra si. Ela se aninha nele.

KRYCEK: - Quer conversar sobre isso?

BARBARA: - Eu saí com as crianças, fomos comprar o painel de fotos. Dimi me ajudou a escolher algumas, Svetlana mordeu e babou outras, fiz molduras digitais, passamos a manhã inteira se divertindo... Aí almoçamos, as crianças foram cochilar e eu comecei a olhar fotos antigas da família... Deu saudade deles, sabe?

KRYCEK: - Malyshka, logo nós vamos viajar pra Cuba. Já estamos com as passagens, os padrinhos, seu pai já marcou o casamento na tal igreja e ai de mim que não apareça! Ele vem nadando de Cuba até aqui só pra me bater! Ele é baixinho, mas é lutador profissional, eu não vou ter chances!

Barbara sorri. Brinca com os dedos, com a cabeça recostada em Krycek.

BARBARA: - Não é isso... Você sabe que eu menti pra eles. Nunca tive a coragem de dizer como consegui cidadania aqui. Papá ficaria muito chateado comigo, acho que nunca me perdoaria. Eu sempre fui a esperança dele. Ele tanto sacrifício fez pra eu chegar a algum lugar na vida...

KRYCEK: - E você chegou por mérito próprio. Barbara, quantas vezes eu disse que aquele almofadinha só promoveu você porque sabia da sua competência? Não foi porque você era amante dele, nem foi presente ou favor. Foi por interesse! Nenhum cara na posição do Rockfell faria a besteira de colocar uma novata comandando o jornal de maior audiência da emissora dele. O greencard? Você fez o que tinha que fazer pra ficar aqui. O resto foi trabalho duro, garota.

BARBARA: - Imagina contar tudo o que fiz pro papacito e ainda dizer que fui amante de um cara casado? Que decepção pra ele! A mesma coisa foi quando eu engravidei do Dimi. Eu não quis contar antes da gente se casar, porque minhas irmãs engravidaram antes do casamento e isso aborreceu tanto o meu velhinho. E as duas também se envolveram com... Deixa pra lá.

KRYCEK: - (SEGURA O RISO) Tipos imprestáveis como eu?

BARBARA: - Ai, amor, desculpe, não é que você...

KRYCEK: - Ô família de mulheres que adoram os canalhas! Sossega, Barbara. Eu não sou perfeito, só não me compare com seus cunhados, eu não pertenço a categoria beberrão, mulherengo e explorador de sogro aposentado. E fala sério, eu não conheço as suas irmãs, mas eu sei o que elas falavam e aprontavam pra você.

BARBARA: - Papá é culpado disso, Ratoncito. Nunca escondeu que eu era a favorita dele. No fundo são ciúmes.

KRYCEK: - Ciúmes e inveja também. Eu não sou bobo. Eu vejo você ligar e mandar presente pra todo mundo, todo o ano e só quem liga pra saber de você é a sua mãe, seu pai e o seu irmão Guilherme. Nem um cartão! Nem uma mensagem no celular. Não existe relação alguma com você. Eu acho isso muito triste, porque eu sempre quis ter irmãos.

BARBARA: - É que elas têm filhos, problemas, trabalham fora e...

KRYCEK: - Muita gente tem filhos, problemas, trabalha fora e ainda acha tempo pra mandar um emoticon. Não vem com essa. Você acha tempo, por que elas não acham? Sempre foi assim, desde que você veio pra cá. A desculpa da ligação ser cara já era nos dias de smartphone e rede social. Eu não gosto de ver você bancando a boba pra gente que não se preocupa com você. Não importa se é família, você tem um coração enorme e bondoso, não merece tanta ingratidão.

BARBARA: - (DERRUBANDO LAGRIMAS) ...

KRYCEK: - Eu fico triste e aborrecido com gente que magoa você, porque você não merece. Você vive agradando todo mundo, sendo legal, sorrindo, sempre positiva com a vida. Uma coisa é me magoarem, afinal sou o oposto de você. Agora magoar você? Eu confesso que estou com medo de conhecer seus irmãos e irmãs. Vai dar merda se um deles ofender você na minha frente. E quer saber? Seu pai não é bobo, ele fez as contas sobre o Dimi e o nosso casamento em Moscou. O Tonhão foi linha dura comigo, espremeu o meu caráter naquela varanda, o Mulder é testemunha. Por fim, quando a gente foi pescar aquele dia eu acabei contando as merdas que eu já fiz. Em nenhum momento ele me julgou. Tudo o que importou pra ele é se eu havia mudado realmente e se cuidaria bem de você e da nossa família.

BARBARA: - As preocupações do papacito sempre se resumem ao que minhas irmãs arrumaram na vida. Gabi casou com o Mathias Júnior, mas terminou criando o filho com a ajuda dos nossos pais, porque ele foi embora. Depois ele voltou, ela aceitou e agora tá lá vivendo com o malandro beberrão e mulherengo, que passa mais tempo no bar que em casa e adora bater nela. Alice casou melhor, o Gustavo não é mulherengo, mas é viciado em jogatina e ela vive sempre preocupada em terminar morta com os filhos, ralando numa loja pra pagar as dívidas dele.

KRYCEK: - Agora entendi porque virei o genro favorito do seu pai...

BARBARA: - Acha que devo contar pra ele, Ratoncito? Ele já tem tanta desilusão na vida. E olha que mamacita não conta muita coisa pra ele não ter um enfarto. E nem vou falar do Jorge, que deixou a esposa e os filhos por causa de outra mulher e a mamacita ajuda ela como pode.

KRYCEK: - Mentir você nunca mentiu, Barbara. O que você fez foi esconder pra não magoar. Se você acha que deve contar, que isso vai fazer você se sentir melhor, ainda há tempo. O lugar do passado é onde ele está, Malyshka. Já era, já foi, não importa mais. Só que tem coisas que nos incomodam o resto da vida e é melhor se livrar dessas culpas se elas atormentam. Eu fico do seu lado se resolver abrir o coração para os seus pais.

BARBARA: - Eu só não quero que minhas irmãs saibam disso. Acha que papá vai me perdoar?

KRYCEK: - Acho que vai, Malyshka. Vai ter uma decepção, mas vai. Ele é coração mole como você.

Barbara se abraça nele. Krycek a mantém contra si. Entrega a sacolinha pra ela.

KRYCEK: - Um mimo que você comentou que gostaria de ter.

Barbara abre a sacolinha, curiosa e afoita. Retira um CD. Abre um sorriso.

BARBARA: - Eu não acredito que você achou um CD do Caetano Veloso! Ratoncito, como você conseguiu?

KRYCEK: - Eu tenho meus contatos que também gostam de música popular brasileira.

BARBARA: - Se me disser que sabe tocar Tom Jobim naquele piano...

KRYCEK: - Eu tenho algumas partituras...

Ela dá um beijo nele.

BARBARA: - Ai, adorei! Agora me deve Tom Jobim. E você gostou das fotos? Coisa de mulher adorando brincar de casinha.

KRYCEK: - (SORRI) Sabe que eu reclamo, começo a rir de você, mas no fundo eu entendo o que isso significa. É meu medidor da sua felicidade. Se você está feliz, eu fico feliz. Gosto de demonstrações de carinho. Posso ser meio seco e arredio, mas eu gosto de você do jeitinho que você é, minha garota romântica e sonhadora...

BARBARA: - Mesmo que eu estrague a sua fama de mau?

Ele fica pensativo. Olha disfarçado pra ela. Barbara olha incrédula pra ele.

KRYCEK: - (SEGURA O RISO) É... Não ia ficar bem Alex Krycek com uma arma na mão numa moldura cheia de corações com "I love You" ou um ratinho fofinho segurando flores, não é mesmo?

Os dois começam a rir.

KRYCEK: - Depois eu vou pendurar o seu painel na parede, mas saiba que você ferrou com a minha fama, garota! Olha o que fez comigo! Virei marido domesticado e pai de família! Devo chorar? Eu disse que nenhuma mulher faria isso comigo!

BARBARA: - Eu não sou qualquer uma, eu sou a gata-rata que roubou o coração do malvadão. Vou colocar uma daquelas fotos suas na moto, bem badboy, só pra me redimir com você.

KRYCEK: - Quer se redimir comigo? Pega aquelas suas fotos. Aquelas, sabe?

Barbara solta uma gargalhada.

KRYCEK: - Aquelas fotos que você fez pra mim e aquelas que fez pra tal revista e faz um álbum e me dá de presente. Aí eu perdoo você por estragar a minha fama.

BARBARA: - E o que vai fazer com o álbum, Ratoncito?

KRYCEK: - Vou esconder muito bem. E quando você tiver seus surtos comigo e fizer greve de sexo, eu levo pro banheiro.

Ela solta outra gargalhada.

BARBARA: - Ratoncito!!! Você anda muito safadinho, sabia?

KRYCEK: - E alguma vez eu disse que não era safado? Eu não tenho culpa pelas coisas erradas que pensam de mim. Só porque eu sou tímido, não significa que me dando intimidade eu vou bancar o santinho. Me diz se dá pra ficar cego com um mulherão como você? Eu sei o que tenho em casa. E por falar nisso, faz tempo que meu celular não recebe um nude.

BARBARA: - É, acho que dei intimidade demais pra você!

KRYCEK: - E eu acho que você tá confundindo pessoas, Malyshka. Eu sou tímido, mas sou o safado da ação. O sujeito descontraído, que gosta de ficar falando safadeza e não faz nada é o nosso vizinho da frente. Pode perguntar pra Scully!

Os dois riem. Krycek se levanta, pega ela nos braços.

BARBARA: - O que foi?

KRYCEK: - Tá quente, preciso de uma ducha e já é hora de dar banho na gata.

BARBARA: - Vai sair todo arranhado.

KRYCEK: - Eu não tenho medo de arranhões de felinas selvagens.

BARBARA: - Vou devorar você, rato. Todinho.

KRYCEK: - Eu sempre gostei de brincar com o perigo.

Ele sobe as escadas com ela.


2:18 PM

[Som: Caetano Veloso - Você é linda]

O aparelho de som sobre o tapete ao lado da banheira.

Krycek dentro da banheira cheia de espuma. Barbara com os cabelos presos no alto da cabeça, deitada entre as pernas de Krycek, recostada com a cabeça no peito dele, de olhos fechados. Ele a envolvendo com um braço e com a outra mão aperta a esponja sobre as costas dela, soltando água e espuma. Depois desce a esponja suavemente pelas costas, num carinho. Ela ajeita a cabeça e aproxima mais o nariz do pescoço dele. Ele continua a fazer carinhos com a esponja. Ela leva a mão acariciando o rosto dele com ternura. Depois pousa a mão no ombro dele e acaricia o pescoço de Krycek com a ponta do nariz. Ele vira o rosto e beija a testa dela.

Barbara senta-se sobre Krycek. Volta a se recostar nele e fechar os olhos. Krycek continua brincando com a esponja nas costas dela. Ela aninhada nele, suspira. Ele solta a esponja e a envolve nos braços, fechando os olhos, ouvindo a música. Beija a cabeça dela. Barbara se afasta, olhando pra ele. Krycek abre os olhos. Ficam se olhando por segundos parados no tempo. Ela passa as mãos no peito dele, com a espuma. Beija o peito dele com carinho. Ele leva as mãos ao rosto dela. Passa delicadamente as pontas dos dedos, como quem explora enquanto acaricia.

Ela enche os olhos de lágrimas de felicidade. Ele fecha e abre os olhos suavemente, como quem entende. Ela pousa a mão sobre o coração dele. Ele já com os olhos querendo marejar, morde os lábios, olhando pra ela num sorriso. Passa as mãos pelos braços dela, suave e lentamente. Ela se arrepia. Ele sorri. Os dois erguem as mãos, colam as palmas e enlaçam os dedos. Ele admira os dedinhos pequenos dela. Beija-os, fechando os olhos e coloca a mão dela sobre seu coração. Ela desliza a outra mão pelo rosto dele, o afagando. Ele deita o rosto contra a mão dela, de olhos fechados.

Barbara o admira apaixonada. Krycek olha pra ela, igualmente apaixonado. Leva a mão ao rosto dela, a puxando pra mais perto e beija-lhe a testa suavemente. Eles recostam as testas.

KRYCEK: - (MURMURA/ OLHOS FECHADOS) ... Eu nunca fui arredio a sentimentos, nem a demonstrá-los. Nem a me entregar a eles. É que eu nunca havia encontrado uma mulher disposta a se entregar como você se entregou. Alguém em quem eu pudesse confiar a minha vida, sem medo algum.

BARBARA: - (MURMURA/ OLHOS FECHADOS) E eu nunca havia achado alguém que quisesse receber o meu amor e a minha entrega, apenas o meu corpo. Alguém que quisesse ser amado, da forma mais simples e bonita possível. Que me deixasse cuidar e ser cuidada.

KRYCEK: - (MURMURA/ OLHOS FECHADOS) Eu me rendi pra você, sem resistência alguma. Você tira o melhor de mim. Você me dá vontade de chorar. Amar você é a coisa mais doída que eu já senti na vida.

BARBARA: - (MURMURA/ OLHOS FECHADOS) Meu coração também dói de tanto amor.

Os dois se olham nos olhos. Ela desce o dedo pelo nariz dele. Ele sorri. Desce o dedo pelo nariz dela. Ela sorri. Ele a abraça forte. Ela se entrega ao abraço, fechando os olhos num sorriso, se aninhando nele. Ele deixa as lágrimas caírem, fecha os olhos e recosta a cabeça nela.



Nova Iorque - 1996

Apartamento de Krycek - 8:23 PM

Krycek abre a porta do apartamento. Marita entra. Krycek fecha a porta. Ela vem pra dar um beijo, mas ele vai pra cozinha.

KRYCEK: - Não seguiram você?

MARITA: - Não. Tomei cuidado como sempre.

Marita deixa a bolsa cair na poltrona. Tira o blazer.

KRYCEK: - Quer beber alguma coisa?

Ela tira os sapatos altos. Se joga no sofá.

MARITA: - Quero.

Krycek pega a garrafa de vinho e serve uma taça. Leva pra ela.

MARITA: - O cheiro está ótimo. Não sabia que você cozinhava.

Krycek senta-se na poltrona.

KRYCEK: - É comida pronta. Eu cozinhava, mas você não chegou a provar minha comida. Há um bom tempo não faço mais isso.

Ele ergue o braço com a prótese.

KRYCEK: - Agora ficou impossível cortar legumes. Esqueceu?

MARITA: - Não culpe o Mulder...

KRYCEK: - Não culpo o Mulder. Culpo a mim mesmo.

MARITA: - Alex, você insinuou pra mim que não foi pra Krasnoyarsk apenas por causa do óleo negro. O que foi fazer lá?

KRYCEK: - Eu tinha outros assuntos pendentes, da época em que eu era um soldado naquele lugar, mas infelizmente, quem eu procurava não estava mais lá. Pra sorte dele e infelicidade minha.

MARITA: - Quem?

KRYCEK: - Não importa. Sou o cara dos segredos, mas não sou o único por aqui.

MARITA: - Gostei do apartamento... Melhor que o outro.

KRYCEK: - Mas sabe que logo tenho que me mudar. Preciso me manter em movimento, ou eles me matam.

MARITA: - Bom, eles não sabem de nós dois... Sei que parece absurdo dizer isso, mas estou me sentindo como a Scully, lembra? Quando eles esconderam o relacionamento do Sindicato? Mulder e Scully foram espertos...

KRYCEK: - Eu lembro. A diferença é que não temos o que eles têm.

MARITA: - (SORRI) Como não temos? Não estamos nos encontrando?

KRYCEK: - Encontros raros e sexo casual às escondidas é relacionamento? Puxa, como sou antiquado mesmo!

Marita leva a taça à boca, desconfiada. Olha para o violão.

MARITA: - Por que tem isso ainda?

KRYCEK: - Um aleijado não tem direito a ter um violão, mesmo que nunca mais possa tocar?

MARITA: - Você está se transformando num monstro amargurado, sabia?

KRYCEK: - Eu sempre fui um monstro.

Marita olha para o rifle de precisão encostado na parede.

MARITA: - Sei o que fez mais cedo.

KRYCEK: - Não fiz nada que já não tenha feito antes.

MARITA: - Isso não perturba você? Matar pessoas?

KRYCEK: - E não perturba você fazer esse leva e traz de informações que podem matar essas mesmas pessoas? Ah, não! É um trabalho! O meu só ficou mais difícil de fazer à distância. Agora a vítima agoniza até eu conseguir acertar o alvo. A pistola é mais eficiente. Basta apenas uma das mãos.

MARITA: - ... Alex, precisamos conversar.

Krycek pega a garrafa e serve outra taça.

MARITA: - O que estamos fazendo?

KRYCEK: - Sobrevivendo.

MARITA: - Não falo de trabalho. Falo de nós dois.

KRYCEK: - Eu não sei. Me diga você.

MARITA: - ...

KRYCEK: - Cansou?

MARITA: - Eu cansei disso tudo. Vamos fugir.

KRYCEK: - Vão nos encontrar. Eles sempre nos encontram.

MARITA: - Olha, eu sei que se a gente desistir, eles ganham. Eles e os alienígenas. Mas se o mundo vai explodir, que pelo menos eu tenha sido feliz, entende?

KRYCEK: - E acha que vai ser feliz com um monstro amargurado? Um aleijado? Eu não sei fazer outra coisa, a não ser o que faço. E agora com esse braço, ficou pior ainda. Acha que vou conseguir um emprego decente? Vai me colocar na ONU? Eu não tenho nem o ensino primário! Ou vou viver de esmola do governo como todo aleijado vive? Ahn? Ah não dá! Eu sou um falso americano!

MARITA: - Você não está bem, estou preocupada.

KRYCEK: - E era pra estar bem, Marita? Ahn? Eu tô fodido! Quanto mais tento sair dessa merda, mais atolado nela eu fico! Acha que eu não gostaria de ter uma vida boa?

MARITA: - Você tem uma vida boa. Só não gasta o dinheiro. Eles pagam bem o que você faz. E você ganha dinheiro por fora.

KRYCEK: - Dinheiro, dinheiro e só dinheiro! Eu não tô falando de dinheiro! Estou falando de uma vida comum e ordinária! Pescar, acampar, sair na rua, passear no shopping, isso tudo sem usar disfarce ou olhando pra todo o lado, esperando uma bala me acertar! Acha que eu não queria que essa merda toda acabasse?

MARITA: - Nunca vai acabar, só quando dissermos chega.

KRYCEK: - Não tenho como dizer chega. Alguém tem que fazer o serviço sujo e adivinha quem foi o escolhido nessa merda de vida? Ahn? O idiota aqui que só nasceu pra se ferrar! Eu não pedi por essa merda, eu não tive escolha! E se o idiota do Mulder fizesse um ponto em cima daqueles caras, eu podia cair fora rapidinho porque acabava o meu trabalho!

MARITA: - Alex, eu sei. Eu sei, só estou preocupada com você, porque está imerso em revolta e...

KRYCEK: - (RI) Revolta? Você entendeu alguma coisa do que eu falei do meu passado pra você? Ahn? Você acha realmente que eu ainda tenho algum resto de sanidade mental? E você é mais louca ainda por estar aqui comigo. Cai fora, antes que se machuque mais.

MARITA: - Eu me apaixonei por você.

KRYCEK: - Sério? Pensei que eu tivesse me apaixonado por você. Nunca vai dar certo.

MARITA: - Por que diz isso?

KRYCEK: - Por que não confio em você. Marita, você nunca me dá motivos pra confiar. E ainda acha que sou idiota e isso é o que me deixa mais furioso!

MARITA: - ... Pescow?

KRYCEK: - Não interessa quem me contou. Só queria saber como tem estômago. Foi trabalho ou diversão?

Ela se levanta. Pega os sapatos e os calça.

MARITA: - Agora entendi porque está desse jeito, irritado e soltando coices desde que cheguei!

KRYCEK: - A vez que peguei Diana Fowley saindo de um quarto de hotel com o Fumacinha, eu tive um acesso de riso. Certamente, assim como você, não estavam jogando paciência. Ah, desculpe. Ingleses preferem bridge. O velho é melhor que eu na cama? (RINDO) Deve ser, pelo menos ele tem dois braços.

MARITA: - Por favor, Alex!

KRYCEK: - (IRRITADO) Por favor você, que vem aqui transar comigo, diz que me ama e depois vai abrir as pernas pra aquele velho! Como vou confiar em você? Ahn? Me diz que homem aceita uma coisa dessas? Vem me falar de amor, eu não quero esse tipo de amor que você me oferece!

MARITA: - É trabalho! Você mata pessoas, ferra com a vida delas, chantageia, vende informação, explode tudo e tem a coragem de apontar o dedo na minha cara?

KRYCEK: - ...Só posso apontar os dedos da mão direita. Os da esquerda já eram.

Marita veste o blazer.

KRYCEK: - Certo. Foi trabalho. Usou preservativo ou foi uma luta pro velho ter uma ereção? Ou ajudou ele com a mesma boca que me beija?

Marita pega a bolsa, enfurecida. Krycek bebe todo o vinho da taça.

KRYCEK: - Devia ter transado com o Mulder, ele é mais bonito e é jovem. Eu me sentiria menos ofendido, até entenderia. Pelo menos conseguiu arrancar informações do Lorde Inglês? Aquele com as unhas sempre arrumadas. Aquele que dorme com o que é meu!

MARITA: - Não senti prazer, se é isso o que quer saber. E não sou sua. Amar você não me torna sua propriedade!

KRYCEK: - Verdade. Eu não entendo nada dessa coisa de relacionamentos, eu nunca tive um. Mas entendo de sexo. Isso eu tive bastante. Talvez seja isso o que você quer de mim e eu de você. Mas não fica com pena do aleijado aqui, não precisa transar comigo por piedade, pode ficar lá com o seu Lorde Inglês. Eu ainda tenho a mão direita pra bater uma em sua homenagem.

Marita mete um tapa na cara dele. Krycek começa a rir.

KRYCEK: - Você tem razão, Marita. Olha pra você, uma mulher linda, inteligente, bem estudada, trabalha na ONU, fala algumas línguas... Sempre bem vestida, cheirosa, arrumada. Agora olha pra mim. Não estamos no mesmo nível. Eu sou um rato de esgoto, ignorante, burro, aleijado e que só serve pra apertar gatilhos e acender pavios. Você merece algo melhor. É areia demais pro caminhão desse russo fodido.

Marita sai, batendo a porta. Krycek fica sentado na poltrona. O celular dele toca. Ele olha revoltado pro aparelho. Então abre e olha no visor. Atende.

KRYCEK: - (AO CELULAR) O que quer e quanto eu vou levar, Canceroso? ... (COMEÇA A RIR) O Mulder de novo? Não tem outra novidade pra mim, eu já tô cansado do Mulder! ... Hum? Quando? ... Quanto? (SORRI) Quê? Cem pra começar né? Olha, não vou barganhar com você, é trezentos mil mais as despesas ou desligo agora... (ÓDIO) ... Ok, entendi, então já que valho a metade do valor, porque agora sou um aleijado, eu fecho por cento e cinquenta mais as despesas, seu filho da puta.

Krycek desliga. Pega a garrafa de vinho e bebe no gargalo, quase de uma vez só. Limpa a boca com o braço. Fixa o olhar de ódio num ponto, segurando as lágrimas.

KRYCEK: - (ÓDIO) Você me paga, seu velho filho da puta fumacento. Agora eu sei o seu segredinho sujo. Escondendo o filhinho de todos. Se não posso ferrar com o pai, vou ferrar com o filho! Mas que eu vou atingir você, eu vou, porque você me meteu nessa merda, seu mentiroso desgraçado!


Apartamento de Rockfell - 8:23 PM

Na varanda da cobertura do prédio, Barbara, num vestido de paetês e toda produzida, observando o Central Park iluminado, enquanto fala ao celular e anda perto da piscina.

BARBARA: - (SEGURANDO AS LÁGRIMAS) Não, mamacita. Eu tô bem, apenas sinto saudades de vocês todos... Sim, sim, consegui um emprego, sou a garota do tempo no jornal do horário nobre do canal 13... Não, eu também escrevo as pautas para os jornalistas de rua fazerem as reportagens... Não, mamá, eu não apareço como jornalista na tevê, isso leva tempo... (FECHA OS OLHOS) Onde estou morando? Em Nova Iorque, eu falei... Sim, num lugar seguro, uma amiga que fiz me emprestou um apartamento... (DERRUBA LÁGRIMAS) É, os americanos são legais sim... Não se preocupe, eles não podem me mandar embora, eu tenho um visto de residente agora... É, eu consegui o visto porque eles gostam de mim... Mandei um dinheiro pra vocês via o senhor Ruiz... É pra ajudar vocês todos aí, não vai me fazer falta, eu estou ganhando bem, vou enviar todos os meses... Mamacita, e-eu preciso desligar, dá um beijo em todos e um beijão no meu papacito. Eu amo vocês.

Barbara desliga o celular. Coloca o aparelho contra o peito, seca as lágrimas, tentando não borrar a maquiagem.

BARBARA: - (MURMURA) Me perdoe por mentir, mamá. Eu tenho vergonha do que aconteceu, mas eu não tive outra escolha. Eu não podia voltar pra casa derrotada, depois de todo o sacrifício de vocês. Não seria justo com vocês e nem comigo e minhas irmãs adorariam ver isso. Não, papá não merece ser motivo de chacota delas.

Rockfell se aproxima vestido num smoking.

ROCKFELL: - Está pronta? Temos que chegar na festa às 22 em ponto... Está chorando?

BARBARA: - Cisco no olho. Acho que borrei a maquiagem.

ROCKFELL: - É, borrou, melhor dar um jeito nisso. O que foi morena? Não gosta como eu trato você? Está faltando alguma coisa? As empregadas não são legais com você? Demito as duas agora!

BARBARA: - Não! Elas são legais sim... E-eu... Não fica aborrecido, mas tem uma coisa me incomodando.

Ele a abraça por trás, ela se solta dele.

ROCKFELL: - O que foi? O que incomoda você? Está há apenas seis meses aqui e já está aborrecida?

BARBARA: - Quando você disse lá em Miami que me traria pra Nova Iorque, me colocaria no jornal como a garota do tempo, que eu deveria ser legal pra você e que se eu fosse, você me ajudaria... Eu não sabia que isso envolveria... Essa coisa errada que a gente tá fazendo.

ROCKFELL: - Que coisa errada, minha morena?

BARBARA: - Você é casado e dorme comigo, Rockfell! Não acha isso errado? Você tá me sustentando, me enchendo de presentes caros, as pessoas na redação notam que existe alguma coisa entre a gente e ficam fofocando pelos cantos e rindo da minha cara!

ROCKFELL: - Me dá o nome de quem está fofocando e rindo de você que eu jogo na rua. Ninguém é indispensável. E vamos terminar com essa sua visão errada das coisas, morena. Eu sou casado, mas minha mulher e eu não temos mais nada, nem sexo. É um casamento de aparência, por conveniência. Ela tem um namorado, como eu tenho você. Cada um na sua, no seu quarto, como amigos que dividem a mesma casa.

BARBARA: - E-eu não entendo isso!

ROCKFELL: - Somos de famílias ricas e importantes, não convém divórcio. Combinamos que seria assim, pelas crianças, pela nossa imagem pública e amigos que temos em comum na elite. Isso acontece muito no meu mundo.

BARBARA: - Não compreendo esse seu mundo. Pensei que amor era o que importava para se continuar ou não casado.

ROCKFELL: - Você é muito boba, sabia?

Rockfell vai até o quiosque e serve uma bebida.

BARBARA: - Rockfell, eu não amo você. Preciso ser sincera quanto a isso. Não acho justo viver às suas custas, morar aqui no seu apartamento e ganhar presentes caros. Olha pra esses sapatos! Eles custaram cinco mil dólares!

ROCKFELL: - Não gostou?

BARBARA: - Claro que gostei, mas custaram cinco mil dólares!

ROCKFELL: - Dinheiro de sorvete. O dinheiro é meu, morena. Se eu quero deixar você mais linda do que já é, eu tenho esse direito. Você é a minha boneca cubana.

BARBARA: - Não me sinto bem, eu sou sua amante, pouco importa o que você diga. Podemos terminar isso, não acho legal transar com que eu não amo e...

ROCKFELL: - Morena, me escuta. Eu me apaixonei por você e quero cuidar de você. Com o tempo você vai aprender a me amar, minha flor de Havana. Quantas mulheres adorariam estar no seu lugar? Você alguma vez na sua vida pensou que teria uma vida de princesa?

BARBARA: - Nunca nem imaginei andar de limusine!

ROCKFELL: - Então? Vai jogar tudo fora por que as invejosas riem de você? Aposta quanto que trocariam de lugar com você agora mesmo? Amor... Amor é detalhe, morena! Você é muito jovem, ainda não tem juízo.

BARBARA: - (BEIÇO) Estou me sentindo usada, a verdade é essa. Como um pedaço de carne num açougue.

ROCKFELL: - Você me ofende e me deixa triste com isso. Agora pega a sua bolsa, retoca essa maquiagem e vamos pra festa nos divertir. Gosta de dançar? Pois vamos dançar a noite toda. Aproveite para conhecer pessoas importantes, seja educada e cortês, desfile sua beleza pelo lugar e não fale nada sobre o nosso relacionamento. Eu vou apresentar você para os meus amigos como uma amiga. Entende o porquê, não é?

BARBARA: - Mas e se alguém desconfiar? Uma amiga da sua esposa pode estar lá...

ROCKFELL: - Nenhuma esposa vai em festas de negócios, certo? Barbara, antes... Eu tenho notado que passa muito tempo na redação, correndo atrás de matérias, ajudando os colegas e dando ideias de pautas. Na Flórida você nos trouxe um prêmio ainda quando era estagiária e sei que tem faro jornalístico, competência, criatividade e boa vontade para nos trazer mais prêmios e aumentar nosso ibope. Então estive pensando... Acha que consegue encarar o telejornal das oito?

Barbara olha incrédula pra ele.

BARBARA: - Como assim? Vai me tirar das pautas e me colocar na redação do telejornal? Vou fazer matérias e reportagens na rua? Mostrar a minha cara finalmente?

ROCKFELL: - Eu vou colocar você sentada na bancada ao lado do Calvin Bryant. Vocês dois vão comandar e apresentar o jornal das oito.

BARBARA: - (INCRÉDULA) E a Sheila Myers? Ela é famosa! Não pode demiti-la, ela é sensacional e...

ROCKFELL: - Sheila Myers já foi notificada que não estará mais conosco em duas semanas, o contrato dela acaba e não vou renovar. Aquela mulher deixou o sucesso subir à cabeça, começou a criar atritos na redação com o Calvin, inclusive ofendeu a sexualidade dele na frente de toda a equipe de redação. Calvin saiu chorando. Isso chegou aos meus ouvidos.

BARBARA: - Caramba! Eu achava ela bem metida, mas não imaginava que...

ROCKFELL: - E Sheila começou a espalhar boatos sobre a minha pessoa pelos corredores da emissora. Consultei o Calvin sobre você e ele concordou comigo. Calvin gosta do seu jeito de trabalhar, você não tem hora pra sair e chegar, assim como ele. Sheila já estava deixando tudo nas costas dele, Calvin está sobrecarregado. Barbara, você não fará amigos nessa profissão. Fará inimigos que querem seu lugar a todo o custo, me entendeu? Aqui é regime capitalista, essas pessoas aprendem desde cedo a competirem. Portanto é melhor que se imponha, não se abra muito com ninguém e se limite a fazer o seu trabalho de forma impecável.

BARBARA: - (NERVOSA) E-eu já percebi e... Deus! Rockfell, você sabe que estudei pra isso, é o meu sonho sentar à frente de uma câmera e dar as notícias do dia, mas... Eu tenho seis meses de emissora! Não tenho um ano de formada! Você tem outras pessoas competentes, que estão há anos esperando uma oportunidade dessas e...

ROCKFELL: - E elas não são legais comigo como você é. Ou você não quer mais ser legal comigo? Hum, Barbara? Talvez queira tentar outra emissora, mas deve saber que novatos como você levam anos ralando para mostrar mérito e criar um nome na área, ganhando pouco e talvez nunca cheguem aonde desejam chegar. Uns 99% deles nunca chegam sequer a porta dessa oportunidade única que estou oferecendo. A não ser que queira desistir e voltar pra Cuba. Talvez lá consiga apresentar notícias, depois de passadas pelo crivo da censura para serem transmitidas. Ou talvez ser presa e torturada por tentar entrevistar quem não deveria. Se gosta de miséria e desemprego, posso conseguir isso pra você rapidinho. Eu sei como funcionam as coisas nas repúblicas das bananas.

Barbara engole em seco.

BARBARA: - Eu tô com medo. Rockfell, eu saí de um jornal local em Miami, estou agora como garota do tempo, eu não acho que...

ROCKFELL: - Você é legal comigo e quero ser legal com você. Você é bonita, tem presença na tela. Tem uma voz agradável, opinião, postura... Tenta. Vamos fazer um teste. Se as pessoas gostarem de você, você fica no lugar da Sheila. Barbara, eu tenho visão do negócio ou não teria uma rede inteira de comunicação. Você é sucesso potencial. Então?

BARBARA: - Posso pensar?

ROCKFELL: - Não. Pode fazer o teste amanhã à tarde com o Calvin, vamos ver se há química entre vocês dois. Se tudo der certo, já vamos partir pra fazer a propaganda e sua estreia será em duas semanas. Agora vamos, estamos atrasados. Vá arrumar essa maquiagem, você está ao lado de Thomas Rockfell, morena! Não pode andar de qualquer jeito! Tem que estar à altura.

Barbara vai pra dentro do apartamento, empolgada. Rockfell acena negativamente com a cabeça, num sorriso. Pega o celular e aperta uma tecla.

ROCKFELL: - (AO CELULAR) ... Sou eu, Alberthi, desculpe não ter respondido sua chamada antes, estou com uma confusão dos infernos na emissora e... Ando ocupado, eu achei um brinquedo novo pra me divertir... Sim, sim, pode confirmar, eu vou com você na entrega do prêmio em Los Angeles, somos as estrelas da noite, como eu não iria? ... Sim... Ah! Vai ter festa... É pública? (SORRI) Privada? Ótimo! Eu vou levar uma amiga que anda meio entediada... Sabe como é, não dá pra dispensar uma morena gostosa... Não, não é prostituta... (RINDO) Não, ela não quer ser atriz, não tem pra você nessa... Sim, vale o investimento, seu sacana, acha que só você desfila com mulher bonita, é? ... Não, não é espertalhona não, muito pelo contrário, é boba e ingênua, apenas uma miserável de país latino, cheia de sonhos que eu posso realizar... Não, uma comunista, acredita? Vale a velha piada sobre os americanos foderem os comunistas? Eu achei em Cuba, caiu de paraquedas no meu colo! ... Baixinha, magrinha, 24 aninhos, peitinhos e bundinha gostosa, eu fui o primeiro naquela carne... (RINDO) Pra isso serve o dinheiro, não é mesmo? Para nossos pequenos prazeres... Alguma novidade da Ordem?



Nova Iorque - 1998


Apartamento de Krycek - 7:17 PM

A TV da sala ligada, sem som. Sobre o balcão que divide a sala da cozinha, os classificados abertos, uma garrafa de vodca, um controle remoto, a arma, o silenciador e um cartucho de balas. Krycek fala ao celular. A camisa aberta, um nó na manga esquerda, está sem a prótese do braço. Olha para a televisão, um comercial passando.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Agente? Não, eu não tenho agente. Realmente precisa disso?

Ele desvia a atenção da TV. Começa o telejornal na televisão, com Barbara dando as notícias, mas ele não olha mais pra TV.

KRYCEK: - (SORRI/ INCRÉDULO) É apenas um teste, não é? ... Sim, é claro que sou barítono, chego a conseguir um médio tenor... Hum... Certo, entendi, precisa de um agente. Ok, obrigado.

Ele desliga o celular e atira em cima da bancada. Pega o jornal, amassa e joga no lixo. Olha para a TV e nesse momento quem fala é Calvin, o outro jornalista. Ele senta-se no banco e abaixa a cabeça.

KRYCEK: - Agente... Se eu me expor, acabo morto.

Krycek leva a mão e pega o controle remoto, apontando pro aparelho de som. Joga o controle sobre a bancada.

[Som: Jimmy Fontana - Il mondo]

Ele abre a garrafa com a boca e cospe a tampa fora. Toma alguns goles e solta a garrafa. Fecha os olhos.

KRYCEK: - (CANTANDO) Gira, il mondo gira, nello spazio senza fine, con gli amori appena nati, con gli amori già finiti, con la gioia e col dolore della gente come me... Oh mondo... Soltanto adesso io ti guardo. Nel tuo silenzio io mi perdo. E sono niente accanto a te... Il mondo non si è fermato mai un momento... La notte insegue sempre il giorno, ed il giorno verrà...

Krycek assovia a música enquanto pega a arma e solta o cartucho sobre a bancada. Coloca a arma entre as pernas, a segurando e pega o cartucho cheio. Enfia o cartucho com a única mão. Depois pega a arma e aperta contra o tampo do balcão para fixar bem o cartucho.

KRYCEK: - Pronto, sonhador. Volta pra real e tenta ficar vivo, isso já é lucro. Hora de trabalhar. Um dia, se você se cuidar e for esperto, vai conseguir viver e se aposentar muito bem, sumir sem deixar rastro... Um país na América Latina ou na África, algo perto do mar... Montar um restaurante na beira da praia com boa comida e música ao vivo... Vai poder finalmente cantar, tocar não vai dar mais. Arrumar uma mulher decente e confiável, que goste das coisas simples da vida, uma que não saiba do seu passado e não se importe em conviver com um aleijado. Viver o resto dos dias fazendo o que realmente gosta.

Krycek volta a segurar a arma entre as pernas e coloca o silenciador na ponta. Põe a arma sobre o balcão. Vai pra sala, deixando a camisa cair pelos ombros e coloca no sofá. Desliga a televisão. Veste uma camiseta. Senta-se e pega a prótese, colocando-a no braço e tentando encaixar.


10:11 PM

Krycek entra no depósito escuro. Se oculta entre as caixas, com a arma na mão. Espia e vê dois homens negociando, ambos com valises. Eles trocam as valises. Krycek se aproxima rapidamente, mirando na cabeça de um e acertando um tiro. O outro vira-se, puxando a arma, mas Krycek mete uma bala na cabeça dele e guarda a arma dentro da jaqueta. Coloca uma das valises embaixo do braço com a prótese. Pega a outra e segura.

KRYCEK: - Tô cansado dessa merda.

Apartamento de Rockfell -10:11 PM

Barbara sai da banheira cheia de espuma, se enrolando numa toalha, num beiço. Rockfell permanece na banheira, tomando champanhe.

BARBARA: - Tô cansada dessa merda.

ROCKFELL: - Qual o problema agora? Não gostou dos brincos que eu trouxe de Paris?

BARBARA: - O problema? Eu vou dizer pra você qual é o problema! Estou há um ano aqui e cansei de ser objeto decorativo nesse apartamento!

ROCKFELL: - Não gosta de uma cobertura em frente ao Central Park? Sem problemas, arrumo outro lugar pra você.

BARBARA: - Eu não quero presentes! Eu não quero cobertura no Central Park! Eu quero você!

ROCKFELL: - Ora, garota, nunca prometi nada. Você sabe, sou casado.

Barbara começa a rir.

BARBARA: - Casado? Não vem com esse papo de novo! Sua mulher vive viajando e enchendo a sua cabeça de chifres como você enche a dela!

ROCKFELL: - É um acordo, já expliquei pra você, não posso me divorciar...

BARBARA: - (IRRITADA) Eu me culpando... A idiota aqui. Eu sou idiota mesmo, sabe? Quando trepamos naquela limusine, eu me senti arrependida por dias e só superei quando peguei o greencard nas mãos! Então cheguei nessa selva de pedra, virei a garota do tempo e você me visitando quase toda a semana, pra transar. Eu olhei pra esse luxo todo, que nunca tive na vida, para as joias que você me deu, o carro importado que nem consigo dirigir! E me senti uma vadia! Mas não, você disse que me amava. Então me colocou no comando do jornal mais importante da emissora! Eu pensei, nossa, ele realmente gosta de mim pra me dar tudo isso!

ROCKFELL: - Claro que gosto. Você é a minha flor de Havana. Sou louco por você!

BARBARA: - Gosta, nada! Você cansou de mim!

Barbara vai pro quarto. Ele pega a toalha, sai da banheira e enrola na cintura. Vai atrás dela.

ROCKFELL: - Barbara, volta aqui! Eu não cansei de você, morena! O que quer de mim? Eu sou casado, preciso manter as aparências, aparecer com a família e pra isso preciso ter tempo com eles. Sou um homem de negócios e viajo muito. Quando posso eu venho ver você, não é?

BARBARA: - (BEIÇO) Eu me apaixonei por você, tá? Você cuida de mim, faz tudo por mim. Eu só tenho você! Não conheço ninguém nessa cidade, não tenho amigas porque no trabalho não dá pra confiar em ninguém. Eu não saio, é do trabalho pra casa e o único que ainda sai comigo pra tomar um drinque sem segundas intenções é o Calvin!

ROCKFELL: - Espera... Tem algum palhaço querendo alguma coisa com você?

BARBARA: - (IRRITADA) Tem! Um monte de porco chauvinista na emissora, que me acha uma mulher fácil! E sabe por quê? Porque já que o chefe come, todo mundo pode comer, não é mesmo?

Rockfell começa a rir. Barbara fica furiosa.

BARBARA: - Não tem graça, Rockfell! Faz meses que você raramente aparece! Estou entediada! Não tenho nada pra fazer nessa droga de apartamento, nem mesmo compras, tenho duas empregadas. Você me leva nas suas festas e me apresenta como amiga. Eu aceito a situação, porque sei que quer manter a sua imagem. Até aceito aqueles seus amigos imbecis que passam por mim nas festas e beliscam a minha bunda!

ROCKFELL: - Não os culpe, você tem uma bunda bonita!

BARBARA: - Não muda de assunto! Você me dá um monte de coisas, mas a única coisa que eu quero mesmo você não me dá: a sua presença. Uma aliança no meu dedo! Um vestido de noiva! Um marido só meu! Ai, Rockfell, por favor! Eu sou carente, eu quero cuidar de você, fazer as coisas pra você, ser a sua mulher e não a sua amante!

ROCKFELL: - Mas e a sua carreira? Você não disse que quer se dedicar a sua carreira?

BARBARA: - Eu posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo, não posso? Ou é proibido ter uma carreira e um casamento ao mesmo tempo? Eu trabalho pra você, esqueceu? Podemos ficar mais tempo juntos, amor.

ROCKFELL: - Barbara, vamos com calma. Eu prometo que vou tomar uma decisão, só não me apresse. Estou no meio de uma negociação importante, não é o momento.

Ela cruza os braços e vira de costas pra ele, aborrecida.

BARBARA: - Você sempre está no meio de negociações importantes. Tudo é mais importante que eu. Não tem espaço pra mim na sua vida.

ROCKFELL: - O que eu posso fazer, morena? Não posso largar os negócios! Se eu ficar brincando de casinha o dia todo com você, eu vou à falência!

Ele a envolve por trás, beijando o ombro dela.

ROCKFELL: - Minha cubaninha linda e ciumenta, você ainda é uma jovem, não entende muito desses compromissos que um homem da minha importância tem. Eu juro pra você que até o final desse ano, eu me divorcio e a gente vai ficar juntinhos aqui todos os dias.

BARBARA: - (BEIÇO) Não acredito mais em você. Você tá mais sujo comigo que pau de galinheiro!

ROCKFELL: - (RINDO) Adoro esses seus trocadilhos... Minha flor de Havana, nós vamos ficar juntos sim, é uma promessa. Eu não sou o seu amor? Pra que ficar brigando com o seu amor quando ele está aqui? Vamos aproveitar a noite. Quer jantar aonde dessa vez?

BARBARA: - (BEIÇO) Eu prefiro um refrigerante com cachorro quente e ficar aqui com você.

ROCKFELL: - Barbara, eu te amo, você sabe disso. Desde a primeira vez que vi você em Miami. Eu fiquei doido! Eu não vi mais nada, eu queria ter você!

BARBARA: - (BEIÇO) Não foi nada romântico aquilo na limusine. Nossa primeira vez foi humilhante.

ROCKFELL: - Eu compensei o romantismo depois, não compensei? Jantar, flores, um hotel fantástico... Não me culpe, eu estava doido por você, não podia esperar! Ah, não briga comigo, morena... Eu sou louco por você! Me dá mais uns meses e vou resolver tudo. Está bem?

Ela se vira pra ele.

BARBARA: - Tá falando sério?

ROCKFELL: - Claro que estou, Barbara. Você é tudo pra mim, a única mulher que eu amo de verdade. Acha que daria tudo isso se não amasse você? Todo esse conforto e cuidado? Eu quero o melhor pra minha cubaninha da pele bonita, bronzeada, a minha morena linda...

Ele começa a beijar o pescoço dela. Barbara sorri.

ROCKFELL: - Não tem pena desse pobre escravo apaixonado? Levo tantos dias pra ver você, chego aqui doido de saudades e você briga comigo?

BARBARA: - Tadinho!

Barbara empurra ele na cama. Rockfell sorri.

BARBARA: - Vou cuidar bem do meu amorzinho. Ele cuida bem de mim.


12:11 AM

Krycek sentado dentro do táxi. O taxista dirige.

KRYCEK: - Estaciona e deixa o taxímetro rodando.

O taxista obedece. Krycek abre uma das valises com uma chave micha. Há uma pasta de papéis escrito "confidencial". Krycek abre a pasta, lendo os papeis.

Fusão.

Krycek pega um dos papeis e coloca dentro da jaqueta. Fecha a valise. Abre a outra valise. Cheia de dinheiro. Krycek sorri.

KRYCEK: - Ok, agora pode ir.


Rua Este - 1:19 AM

Krycek entra na sala com as duas valises. Coloca sobre a mesa. O Canceroso, sentado, acende um cigarro, num sorriso cínico.

KRYCEK: - Os dois estão mortos e aqui está o que queria. Quem eram os caras?

CANCEROSO: - Não importa para você... Não abriu as valises, não é mesmo?

KRYCEK: - Estão trancadas, mas vi quando um deles mostrou o conteúdo dessa aqui. É dinheiro.

O Canceroso leva a mão sobre uma valise, Krycek a puxa de volta.

KRYCEK: - Primeiro vem o dever, depois a diversão.

O Canceroso puxa um envelope do bolso interno do paletó e entrega. Krycek o guarda dentro da jaqueta. Pega a valise do dinheiro.

KRYCEK: - Isso é pelas despesas extras.

O Canceroso sorri debochado. Krycek sai. O Canceroso abre a valise com uma chave. Pega a pasta de papeis e joga na lixeira. Pega o abridor de cartas e começa a soltar o revestimento interno. Rasga. Pega o vidrinho de cor amarela na mão. Sorri, olhando pra porta.

CANCEROSO: - Tolo, Alex Krycek. Vai vender informação errada.


Loja de CD's do Dylan - 1:24 PM

Krycek entra, com as mãos nos bolsos da jaqueta. O atendente, um cara alto e meia idade, ao vê-lo sinaliza pra ele. Krycek se aproxima do balcão.

KRYCEK: - O que tem pra mim, Dylan?

DYLAN: - Coisa boa pra um cliente especial.

Dylan se agacha atrás do balcão e pega uma enorme caixa de papelão. Coloca sobre o balcão. Krycek sorri. Abre a caixa, empolgado.

DYLAN: - Selecionados a dedo por mim e separados por décadas, certo? Vai conseguir colocar em dia todas as melhores bandas que já existiram nesse planeta. E tem a discografia completa dos dinos sagrados.

KRYCEK: - Devo parecer um alienígena pra você.

DYLAN: - Claro que não, Alex. Sei que você viveu num regime fechado que não aceitava cultura estrangeira. Mas aqui tá a nata do rock mundial. Coloquei umas coletâneas também.

KRYCEK: - E os tenores?

DYLAN: - Chegou um novo do Bocelli. E aí, gostou da seleção de clássicas?

KRYCEK: - Rapaz, nem faz ideia! Agora eu quero que você faça uma seleção de bandas e cantores da música popular, sabe? As que tocavam no rádio. Por mais bregas que possam parecer, porque russo adora música. Até um cachorro uivando na porta de uma ópera. Desde que no ritmo da ária.

DYLAN: - (RINDO) Pode deixar.

Krycek puxa um envelope de dentro da jaqueta. Coloca no balcão. Dylan observa. Krycek empurra o envelope. Dylan abre e vê muitas notas de dólar. Arregala os olhos.

KRYCEK: - Pelos CD's, pelo seu tempo e pelo seu bom gosto musical.

DYLAN: - (SORRI) Não, amigo. Não posso aceitar, é muito dinheiro...

KRYCEK: - Aceite, pode investir em mais música pra loja. E na sua banda, eu ouvi vocês naquele bar, tocam muito bem, mas a sua guitarra tá uma porcaria, ela não segura a afinação.

DYLAN: - (SORRI) Vou ter que concordar.

KRYCEK: - Então? Compre uma guitarra decente.

DYLAN: - Com isso posso até gravar um CD com a banda!

KRYCEK: - Faça isso. Vou dar uma olhadinha nos tenores...

Krycek vai até a prateleira. Dylan guarda o dinheiro, olhando pra prótese de Krycek com piedade. Krycek pega um CD do Bocelli. Do outro lado da prateleira, Barbara segurando o mesmo CD do Bocelli, enquanto procura outro. Os dois não se veem. Krycek volta para o balcão.

KRYCEK: - Quanto tá esse?

DYLAN: - Brinde pra um cliente especial.

KRYCEK: - (SORRI) Obrigado. Adoro Bocelli. Passo em duas semanas aqui de novo.

DYLAN: - (GRITA) Ei Allan!!! Leva essa caixa até o carro do cliente!

O rapaz vem apressado e pega a caixa. Krycek agradece Dylan com um sorriso e sai da loja, segurando a porta para o rapaz passar com a caixa. Quando a porta se fecha, Barbara se aproxima, colocando o CD sobre o balcão. Abre a carteira.

DYLAN: - Vinte dólares, senhorita Wallace.

BARBARA: - Me avisa se conseguir aquele outro do Bocelli. Eu amo Bocelli!

DYLAN: - Eu só tenho dois clientes malucos pelo Bocelli. Você e o outro cara que acabou de sair.

BARBARA: - (SORRI)Aposto que o safado levou o Bocelli anterior antes de mim! Dylan, seja gentil e me reserve um CD da próxima vez. Ou vou falar mal da sua loja na televisão.

Os dois riem.


RBN Television - 7:11 PM

Barbara sai do estúdio, entrando na redação. Movimento e burburinho de jornalistas apressados e agitados. Barbara passa entre eles. Calvin sai apressado do estúdio.

CALVIN: - Barbie, preciso falar com você.

Calvin sai de braço dado com Barbara. Olha pra todos os lados.

BARBARA: - O que foi? Tá me assustando, Calvin.

CALVIN: - Espera.

Calvin abre a porta corta-fogo e vai pras escadas com Barbara.

CALVIN: - Sou seu amigo, não sou? Somos mais que apenas colegas de bancada e redação.

BARBARA: - Claro. O que aconteceu?

CALVIN: - Sabe que todo mundo aqui fala que você só está naquela bancada porque dorme com o dono da emissora.

BARBARA: - E não estão mentindo.

CALVIN: - Estão! Porque ele não seria idiota de colocar você lá apenas porque dorme com ele. Você é boa no que faz. E ele sabe disso.

BARBARA: - Eu só não posso expor o Rockfell, entende? Andar junto com ele por aqui. Enquanto estiverem fuxicando, não tem provas. Não por mim, mas por ele. E não me olha com cara de destruidora de lares! Ele disse que vai se separar da esposa, que não tem nada com ela há muito tempo... Me pediu um tempo e vai resolver isso.

CALVIN: - Barbara... Eu sou seu amigo e descobri uma coisa, mas se eu disser, você não vai acreditar em mim e ainda vai ficar brava comigo. Então...

Calvin tira um bilhete do bolso.

CALVIN: - Você é jornalista, tem faro investigativo. Então checa esse endereço.

BARBARA: - O que tem lá?

CALVIN: - Vá checar. Depois me liga. E Barbie... Muita calma nessa hora. Não me coloca nessa história, porque eu preciso desse emprego. E antes de cometer uma loucura, me liga!

Calvin abre a porta e volta pro corredor. Barbara fica olhando pro endereço no bilhete.

Restaurante Mandarim - 10:37 PM

Um banheiro estilo oriental e bem chique. Krycek entra no banheiro, segurando a valise debaixo do braço com a prótese. A outra mão dentro da jaqueta. O sujeito de traços orientais e bem arrumado entra no banheiro, com outra valise. Tranca a porta. Chang coloca a valise sobre a bancada das pias. Abre. Há barrinhas de ouro. Krycek examina o ouro.

CHANG: - Um milhão em barras. (SORRI) Sem impostos. Não rastreável.

Krycek entrega a valise com o dinheiro. Chang abre e examina o dinheiro.

KRYCEK: - Um milhão de dólares, sem impostos e limpos. Feito?

CHANG: - Feito. Economizando para a aposentadoria, russo?

KRYCEK: - Lavando dinheiro, China?

Os dois riem. Chang abre a porta e sai levando a valise, olhando pra todos os lados. Krycek sai atrás dele.


Apartamento de Rockfell - 1:34 AM

Barbara entra chorando no apartamento. Se atira no sofá, aos prantos. Calvin entra e fecha a porta. Vai até o bar e serve uma bebida.

BARBARA: - (CHORANDO/ ÓDIO) Desgraçado!!!

Barbara se levanta e começa a quebrar tudo, tomada de ódio. Calvin olha pro copo, ergue os ombros e bebe.

BARBARA: - (AOS GRITOS) ¡¡¡Mentiroso, traidor!!! ¡¡¡Quiero matar a ese hijo de puta!!!

CALVIN: - Depois que se acalmar, a gente conversa.

BARBARA: - (CHORANDO) Eu o amo!!!

CALVIN: - Eu sei, querida. Eu sei. Como aquela outra lá deve estar amando e pensando também que é a única.

BARBARA: - Desde quando sabe que Rockfell tem outra amante?

CALVIN: - Tem dois dias que descobri. E ela tem 21 anos.

Barbara se abraça nele.

CALVIN: - Amiga, me escuta. Agora que viu, vai acreditar em mim. Você e a loura não são as únicas. Ele tem mais.

BARBARA: - (INCRÉDULA) Quê?????

Barbara cai sentada no sofá. Calvin senta ao lado dela e entrega o copo.

CALVIN: - Bebe, bebe pra acalmar.

Ela bebe, trêmula.

CALVIN: - Ele não ama você. Nunca amou. Ele diz que deu tudo isso pra você, que cuida de você, mas se pensar nada aqui é seu, nada está no seu nome! Lembra que me disse que quando chegou encontrou um batom caído atrás da cômoda? Outra já morou aqui, já esteve no seu lugar. Eu sei que dói ouvir a verdade, mas ele mantém amantes em apartamentos dele e nenhuma sabe da outra. Por isso ele nunca tem tempo pra ficar mais que uma noite com você. Ele tem esposa, filhos, negócios, viagens e tem um harém enorme pra cuidar!

Barbara cerra o cenho e chora, magoada. Calvin a abraça. Faz carinhos nos cabelos dela.

CALVIN: - Chora, amiga. Chora, bota pra fora, alivia esse coração. Só que eu vou ser sincero com você, por mais cruel que eu possa parecer. É por isso que Rockfell está evitando vir aqui, você começou a pressionar muito. Ele não contava que você fosse se apaixonar e começar a falar em casamento. Ele nunca vai largar a esposa, você não é a primeira e nem a última na vida dele. O brinquedinho dele ficou esperto e perdeu a graça. Ele quer brinquedo novo e bobo. E aquela loura é estagiária do jornal Washington Daily, outra das empresas dele.

BARBARA: - Eu juro... (SECA AS LÁGRIMAS/ ÓDIO) Eu juro pra você que ele vai me pagar! Ah ele vai! Aquele cretino mentiroso, dormindo comigo, mentindo pra mim e me enganando com promessas vazias e um monte de mulher! (CERRA O CENHO PRA CHORAR) E a tonta aqui... Fazendo todas as perversões sexuais daquele cachorro sarnento, me submetendo a ser tratada como um objeto de prazer! Eu confiei nele, entende? Aquele desgraçado! No início ele gostou que eu era virgem, depois começou a reclamar que eu não era boa de cama, eu não sabia mexer, eu não era criativa. Eu fui até uma locadora de filmes e o cara deve ter achado que eu era uma pervertida saindo com 20 DVDs pornôs de lá!!! Eu cheguei a assistir mais de 24 horas de filmes pornôs sozinha, só pra aprender a fazer coisas que eu nem imaginava existir!!! Até treinei por horas chupando uma cenoura, minha boca ficou dormente, quase que me engasgo e morro asfixiada!

Calvin tenta segurar o riso, mas não consegue.

CALVIN: - (RINDO) Barbie, se queria dicas sobre um bom boquete pra deixar um homem doido eu podia lhe dar né? Não precisava atacar a pobre da cenoura. Ela virou salada depois?

BARBARA: - Não, virou suco.

Os dois começam a rir. Barbara cerra o cenho e volta a chorar.

CALVIN: - Barbara, me escuta e não brigue ou fique chateada comigo, porque eu quero o seu bem. Você não tem malandragem da vida, você tem um coração puro, é inocente demais, as pessoas são cruéis, interesseiras e jogam o tempo todo. Querida, caras mais velhos querem é apenas sexo, de preferência com garotas lindas como você. E ricos? Amor, nem seu eu desse o meu rabo pra ele, esse cara casaria comigo! Não somos da estirpe dele, entende? Podemos fazer parte do mundo deles enquanto eles estão interessados nisso, depois... Pé na bunda e realidade dura!

BARBARA: - É, mas eu fiquei esperta, eu aprendi a lição. E oque faço agora, Calvin?

CALVIN: - Tem medo de quebrar os pratos e ele demitir você. A sua situação tá difícil, mas... Barbara, você tem duas escolhas certas. Uma delas é fingir que não sabe das outras, não ligar pra isso, matar o amor no seu peito, deixar o idiota pagar tudo pra você, viver nessa cobertura maravilhosa e cara, curtir sua piscina e arrumar um bofe de verdade pra gastar o dinheiro do espertalhão.

BARBARA: - Não posso fazer isso. Não conseguiria. Eu sou burra, né?

CALVIN: - Não, você não é burra, só não é oportunista. Você tem caráter, é bem diferente de burrice. Só precisa aprender a sobreviver nesse mundo. Então resta a segunda opção. Já tem sua cidadania americana e isso Rockfell não pode revogar. Ele já não tem vindo tanto, está empolgado com as novidades. Você tem medo de represália e perder seu emprego. Então quando ele aparecer, dê o que ele vem buscar. Como deu tantas vezes por amor, agora dê pra sobreviver. Logicamente você está magoada, não vai ser difícil não demonstrar frieza com ele. Faça ele perder totalmente o interesse por você. Sabe aquela coisa do abre as pernas e enquanto ele fica se divertindo, você fica pensando em qual cor o teto ficaria bonito? Assim.

BARBARA: - (TENTANDO NÃO CHORAR) ...

CALVIN: - Ele vai cansar e não virá mais, não vai encontrar a Barbara feliz e boba que ele encontrava. Sangue frio, amiga. A necessidade obriga. É a sua carreira que está em jogo. Sabe que o desgraçado é poderoso, se você terminar com ele, ele vai ferrar com você no mercado, suas portas se fecharão nesse país e você não terá outra opção, a não ser voltar pra Cuba. Então, segue fingindo e fazendo ele se desinteressar, até que ele acabe com o relacionamento. Entendeu? Pode ser que expulse você daqui...

BARBARA: - Não me importa. Tendo meu emprego, eu consigo me virar.

CALVIN: - E vai ter, porque vai se fazer de burra, não vai discutir e ele não culpará você, foi ele quem terminou... E fique de boa com ele, ainda se faça de culpada, diga que sempre vai admirá-lo por tudo o que fez por você. Seja cínica, quem pode manda, quem não pode obedece... Bom, se não se importar, tem um sofá no meu apartamento se não tiver pra onde ir. Só que o Freddie vem nas sextas, então... Pode dar de cara com dois homens em trajes íntimos se beijando na cozinha...

Ela ri. Ele ri com ela.

CALVIN: - Fé, amiga. Você precisa é de uma boa noite de sono, acordar com a cabeça fria e pensar no que é melhor pra você, antes de tomar qualquer decisão. E seja o que decidir, estarei do seu lado, certo?

BARBARA: - Vou me dedicar totalmente ao meu trabalho, Calvin. Sempre foi meu objetivo, homens não estavam nos planos. Meu pai não me criou pra isso, ele me criou pra batalhar na vida. E eu quero que meus pais sintam orgulho da filha, até agora só menti pra não magoá-los. Tudo é mais difícil para as mulheres, não importa o lugar do mundo. Somos vistas apenas como uma vagina com um par de pernas. Mercadoria. Carne.

CALVIN: - Barbie... Não seja tão dura consigo mesmo. Um dia você vai encontrar alguém que ame você pelo que você é.

BARBARA: - Não quero mais, Calvin. Não quero mais me apaixonar. Eu tenho o dedo podre pra homens. Quando era adolescente fiquei apaixonada pelo rebelde da escola, mas ele nem sabia que eu existia. Pensei que Rockfell seria o meu parceiro pra todas as horas, que a gente viveria juntos e curtiria a vida, afinal ele também é um jornalista... A verdade é que não existem homens decentes, os que existem são como você e não gostam de mulheres.

Barbara se abraça nele. Calvin a abraça.

CALVIN: - Amiga, eu concordo em partes, porque também não tenho sorte com os homens, mas eu ainda acredito no amor verdadeiro. Um dia ele chegará pra você. Não será perfeito, ninguém é, mas ele amará você pelo que você é. Seu par certamente está por aí apanhando da vida como você está, talvez procurando por você ou talvez acreditando que também nunca será feliz. E se tiverem que se encontrar, vão se encontrar. Se tiver que acontecer, certamente vai acontecer.



TEMPO ATUAL


Krycek e Barbara nus entre os lençóis. Os dois em silêncio. Ela fazendo carinhos no peito dele, recostada nele. Ele com o braço ao redor dela. Ajeita os cabelos dela, brinca com eles entre os dedos. Ela suspira, fechando os olhos, se aninhando mais contra ele.

BARBARA: - Ele era o caos. Incerto e imperfeito. O melhor no seu pior. Representando vários, num exército de um homem só.

Krycek olha pra ela.

BARBARA: - Por vezes se odiava, outras se orgulhava do fato de ser tão ímpar. Ganhou perdão e punição. Também lhe estenderam a mão, mas ele riu com rancor. Tentou refúgio na multidão e, talvez por ironia, encontrou na solidão sua única companhia. Bandido e canalha, andou no fio da navalha. Era caça e caçador... Afogou-se em tanta mágoa... Mas no fundo da sua alma, só queria um grande amor, coisa que sempre negou. Dentro de si, o menino, procurava o carinho que a vida louca lhe furtou. E nessas coisas de destino, seus olhos se viram refletidos em outros olhos de amor. Seu coração, descompassado, se viu preso e algemado. E ele então se apaixonou. Ele era o caos, e o caos se transformou.

Barbara olha pra ele. Krycek sorri tímido.

BARBARA: - Poema do livro Nuances de Sentimentos, de Neide Alves.

KRYCEK: - Você também é louca por poesia.

BARBARA: - Que culpa tenho se acho o amor a coisa mais linda do mundo? Eu vi você nesse poema. Vi meu Ratoncito.

Krycek pega a mão dela e beija. Coloca sobre o seu coração. Barbara o admira. Ele brinca com o dedo no anel de casamento dela.

KRYCEK: - Eu cansei de ser julgado no tribunal das aparências. Muitos julgaram esse canalha aqui pelas coisas que ele fazia. Ninguém nunca perguntou por que ele as fazia. Ninguém sequer teve a curiosidade de saber o meu nome completo, onde eu morava, o que fazia além de serviços sujos. Sabe por quê? Ninguém se importa, Barbara. Ninguém quer ouvir o outro, é sempre mais fácil julgar as atitudes que ter conhecimento da causa.

BARBARA: - Infelizmente, Ratoncito.

KRYCEK: - ... Quando você chegou na minha vida... Você queria ouvir o que o bandido aqui tinha pra dizer. E você tem razão. Eu só queria ser amado. Porque o amor transforma, se você permite ser transformado por esse amor. Se ele é verdadeiro. Mas o que Alex Krycek sabe do amor, alguns diriam. Ele sabe. Ele é gente. Ele também sangra. Também tem sentimentos. Também erra. Eu admito que não sou o melhor dos homens, mas também sei que não sou o mais vil de todos. Há gente bem pior do que eu nesse mundo. Pior do que eu era. Fiz coisas das quais não sinto orgulho. Tentei compensar. Nunca saberei realmente se compensei. Mas quando olho pra você...

Ele se vira. Os dois ficam se olhando. Ele afaga os cabelos dela, olhando em seus olhos.

KRYCEK: - Não tem dor, nem passado. Tem um presente que promete um futuro. Tem luz nesses olhos quando sorriem e brilham, e tem luar quando estão tristes. Tem vida, não tem morte. Eu moveria mundos por você. Eu me entreguei como jamais me entreguei a alguém. Eu despi minha alma pra você, soltei as armas e levantei as mãos. Me pergunto por que fiz. Me pergunto que poder você tem sobre mim. E a única resposta que encontro é: você é meu destino. O que sinto por você é mais forte do que eu, do que qualquer raiva ou vingança. Não sei demonstrar esse sentimento da maneira que você merece, algo em mim se perdeu no turbilhão da vida. Só sei que ele é verdadeiro. É real. É poderoso. E é a melhor coisa que eu já senti em toda a minha vida.

Krycek a abraça forte. Barbara se aninha nos braços dele. Ele faz carinhos nos cabelos dela.

KRYCEK: - É forte demais, derrota qualquer homem e o faz querer e desejar ser derrotado. Nenhum dos meus sonhos se realizou na minha vida. Mas o meu desejo mais profundo, o que mais importava mesmo, aquele que eu negava, como diz o poema... Esse se realizou. E mudou tudo pra melhor.

Barbara brinca com os dedos nos pelos do peito dele, olhando pra ele.

BARBARA: - Já os meus sonhos se realizaram, não como eu desejava, nem da forma como eu queria. E o meu desejo mais profundo, assim como você, esse se realizou. Você mudou minha vida, Alex Krycek. Você me deu o que eu mais queria: um amor de verdade. Você sim cuida de mim verdadeiramente. Não me traz ouro nem joias. Me traz seu coração. A sua maior riqueza. Não me diz palavras bonitas todos os dias, não sabe como dizê-las, mas as diz nos gestos que tem comigo. Você me diz eu te amo quando toca piano ou violão pra mim. Me diz eu te amo quando cozinha pra mim. Quando dança comigo, quando assiste um filme abraçadinho, quando lê pra mim, quando sorri, me abraça, me beija e faz amor comigo. Você diz eu te amo 24 horas por dia sem mencionar sequer a palavra amor. Você realmente não é um homem de palavras, é um homem de ações. E eu sou a mulher mais feliz do mundo, porque tenho um homem de verdade do meu lado.

KRYCEK: - ... Quer fazer amor de novo com esse homem aqui? Porque ele adora sentir você.

Barbara sorri e toma o rosto dele nas mãos, dando-lhe um beijo suave. Olha nos olhos dele. Krycek se vira sobre ela, olhando nos olhos dela.

KRYCEK: - (SUSSURRA) Você é linda e perfeita, minha Malyshka.

Barbara sorri tímida. Ele passa o dedo no nariz dela, sorrindo. Aproxima os lábios semiabertos dos lábios de Barbara. Roça os lábios nos lábios dela, que fecha os olhos. Ele toma o lábio superior dela nos seus, puxando-o com os lábios. Ela olha ansiosa pra ele. Ele sorri. Roça novamente os lábios nos dela e toca o lábio com a ponta da língua. Barbara tenta beijá-lo, mas ele afasta os lábios, olhando pra ela. Percorre o dedo pelos lábios dela, os contornando. Ela o observa em expectativa. Novamente ele aproxima os lábios dos dela, roçando-os e agora a beija. Barbara retribui, envolvendo os braços nele. Ele aprofunda o beijo.

Krycek solta os lábios e os percorre pelo pescoço dela, enquanto lhe acaricia o seio com a mão. Desce entre os seios dela, dando um beijo entre eles. Barbara acaricia os cabelos dele, observando. Krycek apoia o queixo entre os seios e olha pra ela.

KRYCEK: - Acredite, milhares desejariam estar no meu lugar agora.

Ela dá uma risada. Ele beija o seio dela. Ela o observa brincar com a boca e a língua, alternando entre os mamilos, enquanto faz carinhos nos cabelos dele, mordendo os lábios, excitada. Ele volta procurando os lábios dela e trocam um beijo suave e demorado. Ela parece afundar na cama, se entregando e sentindo-o entrar nela. Barbara, de olhos fechados, solta os lábios dele e solta o ar num gemido. Agarra-se nele, que se move lentamente sobre ela. Barbara respirando pela boca, desce as mãos pelas costas dele, então para.

KRYCEK: -(MURMURA) Tudo bem.

Ela sorri de olhos fechados, desce as mãos pelo lençol e agarra o traseiro dele, o puxando mais contra si. Krycek, se movimentando contra Barbara, recosta o rosto contra o pescoço dela. Ela sente a respiração quente e descompassada dele. Envolve as mãos nos cabelos e nas costas dele.


Continua...

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19 de Fevereiro de 2021 às 23:25 0 Denunciar Insira Seguir história
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