S
Sueli Salles


Jorge preparou tudo para comemorar os quinze anos de casamento, mas Luísa esqueceu a data. Agora, ela teria apenas alguns minutos para resolver a situação.


Conto Todo o público.

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Agulha de crochê

- Amor, já estou chegando, você está pronta?

A emoção na voz dele a perturbou um pouco. Por que ele insistia tanto em jantar fora, justo no dia em que os dois mais trabalhavam e chegavam tarde em casa? Respondeu para ele, meio ressabiada:

- Quase, quase, mas nem precisa subir, eu desço já! era melhor ir logo, pois se ele entrasse iriam sair tarde demais e ela estava louca para voltar e esticar na cama.

Estava virando a chave da porta quando o vizinho saiu do elevador:

- Oi, Lu! Então vocês estão de aniversário hoje, hein! Vi o Jorge lá embaixo e ele me contou. Parabéns!

Luísa engoliu seco. Era isso, aniversário de casamento! Como podia ter esquecido? Falou alguma bobagem desconexa para o vizinho e voltou correndo para o apartamento. Precisava reorganizar a cabeça.

Confirmou o calendário: sim, 15 anos de casados. O tempo passa mais rápido do que a gente percebe... Mas não era hora de filosofar, pois Jorge a aguardava no carro, possivelmente com mais um presente caro, como era de costume. Para ela, presentes em datas oficiais muitas vezes eram um ato de obrigação ou de exibição de poder, coisas que ela sempre rejeitara. Mas desta vez ela não tinha comprado nada. NADA! Nem um cartão.

Começou a vasculhar as gavetas. Devia haver alguma coisa que ele não conhecesse e que serviria como presente. Mas também precisava de embalagem, afinal, essa era a grande prova de que o presente fora providenciado com antecedência.

Achou uma caixinha ótima, onde caberia uma caneta ostentação. Mas, é claro, não achou nenhuma MontBlanc solta na bolsa ou na estante ou em qualquer gaveta. Só Bic, com tampa roída.

O celular começou a tocar. Era ele, perguntando se havia algum problema, se queria que ele subisse...

- Não! Não estrague a surpresa! resposta com a qual, sabia, iria segurá-lo no carro, criança feliz com a brincadeira.

Na pressa de guardar a bagunça que retirara da gaveta, viu um objeto metálico fininho que despencou no chão: uma agulha de crochê, comprimento exato para aquela caixinha. Era ela! Não dava pra enrolar mais. E assim se fez o presente para homenagear aquele homem pelo fato de estarem casados há quinze anos.

No caminho, cabeça a mil. Ele elogiou o batom novo que ela usava e voltou o assunto para banalidades do trabalho: o cliente de Manaus, a entrega atrasada, a promoção do Barros, o carro novo que ele paquerava, a ligação da mãe. Tudo intercalado com monossílabos abstratos que ela fingia exclamar, interessadíssima. A cabeça mergulhada na busca de uma solução...

Chegaram ao restaurante e, estavam sentados, o vinho servido e as mãos dele, esticadas, entregavam-lhe o pacote delicado, de embalagem discreta, destaque apenas para o nome da joalheria. O diamante, maior do que todas as pedras raras que ele já lhe tinha dado, chegava a ofuscar a mão que, quinze anos antes, havia sido dada a um homem sensível (e bem mais pobre do que o atual) em uma cerimônia discreta, à beira-mar. Também entregou cartão, mais um pequeno álbum com fotos de todos esses anos, os dois juntos, casal perfeito. Tudo formatado com molduras de coração e frases românticas que ele recuperara das correspondências que trocaram.

Cena encerrada, ela, muda, percebeu que era a sua vez de começar. Ele a olhava encantado, talvez por amor, talvez pela expectativa de conhecer a surpresa que ELA lhe havia preparado: conseguiria superá-lo?

Respirou fundo e, com expressão muito séria, entregou-lhe a caixinha dourada, fechada com uma etiqueta meio amassada com a palavra “felicidades”:

Jorge pegou o presente cheio de cautela, flor última do jardim. Medo de se decepcionar? A embalagem realmente não estava ajudando muito...

- Você conhece o lema da esfinge? Abra! ordenou a mulher, disposta a acabar logo com a angústia.

Jorge tirou a etiqueta, abriu a caixa e encarou sério o enigmático conteúdo. Apanhou a agulha e a aproximou dos olhos, tentando encontrar algo escrito, um botão secreto, alguma pista que o ajudasse a descobrir como aquele objeto o ajudaria a encontrar seu presente. Depois revirou a caixinha para confirmar se não havia um fundo falso, como naqueles filmes em que o anel fica escondido em um bolo ou dentro do botão de rosa... Não conseguia entender e a brincadeira já estava começando a ficar chata:

- Você venceu, eu não consegui encontrar...

- Encontrar o quê, Jorge?

O marido ficou mudo, não conseguia decifrar o enigma. Sentia-se constrangido diante do olhar fixo da mulher, esfinge prestes a devorá-lo.

- Jorge, depois de 15 anos você não é capaz de interpretar o meu sentimento? Eu poderia ter comprado um presente convencional, um relógio, um casaco, um carro... Sabe o que isso significaria? Que para mim essa data não passaria de uma convenção social forjada pelas pressões do mercado!

Com olhar baixo deixou um suspiro escapar do biquinho batom de amora:

- Você tem ideia de quanto tempo eu meditei sobre nosso casamento, sobre o meu amor por você, para achar o símbolo exato para esta data?

Envergonhado, sem saber como corrigir a falha terrível, Jorge recuperou a vez de falar:

- Ah, meu bem, me perdoe! Como eu fui idiota, é lógico que essa agulha é um presente incrível: não se tece uma relação de 15 anos se não for ponto a ponto, todos os dias. Vou tomar isso como um talismã para fortalecer nossa união. Quem sabe até não aceite isso como um desafio e tente aprender a fazer crochê? Minha avó fazia e eu...

- Tudo bem, querido, não se preocupe! Vamos esquecer isso. Sei que você irá descobrir, aos poucos, toda a potencialidade significativa do seu presente. O que importa é o nosso amor... Agora vamos comer?

O marido suspirou aliviado por ter conseguido recuperar o sorriso da mulher. Tomou-lhe a mão para um beijo e, aproveitando a situação, desvestiu-lhe o diamante do dedo anular:

- Só para terminar: o mínimo que eu posso fazer, numa situação como esta, é aprender com a sua postura tão sábia e livrá-la desse presente fútil e comum, que tanto desvaloriza nosso relacionamento. Fique com a caixinha, símbolo da infinidade de momentos maravilhosos que guardamos juntos. Amanhã mesmo vou até a loja e me desfaço desse equívoco.

Ela, um pouco atônita, engoliu um vinho mais seco do que o normal.

Ele, com certa satisfação, apalpou por alguns instantes a joia, pensando na troca. O novo relógio que exibiria orgulhoso no escritório – “presentão da mulher, hein, Jorge!” - ficaria realmente muito bem em seu pulso.

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19 de Janeiro de 2021 às 11:13 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Sueli Salles Escrevo desde a adolescência, mas esta é minha primeira experiência em publicação pela internet. Sou professora e gosto de escrever contos sobre a difícil arte de conviver.

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Clau Terra Clau Terra
Su, adorei a reflexão... o valor de um presente vs o valor de estar presente?!!!
January 19, 2021, 20:19

  • S S Sueli Salles
    Pois é, Clau! Que sentidos cada presente pode ter? E a falta de um presente numa data especial também não é um gesto carregado de sentido? As relações humanas... January 19, 2021, 20:53
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