brunadonde Bruna Dondé

Pequeno texto sobre os dias que se arrastam e parecem não ter fim.


Drama Todo o público. © Todos os direitos reservados

#Apatia #drama #HistóriaCurta
Conto
3
3.6mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Resquícios de uma vida inexistente

Para ela era mais um dia comum, igual a todos os outros de sua vida. Nada novo. Mais um dia cinza de setembro com a chuva ameaçando cair. Mais um dia sem graça em que os ponteiros do relógio parecem não se mover. Estava na sala de espera do consultório de sua psicóloga e cansada da conversa fiada dela, das conclusões totalmente baseadas em mentiras. Então bastava entrar e seguir o roteiro. Sorrir, fingir felicidade, dizer que as vidas pessoal e profissional estão ótimas. Por fim, ouvir a psicóloga dizer que percebeu uma boa melhora desde a primeira consulta.

Saindo do consultório foi até a parada de ônibus e esperou por vários minutos até o ônibus chegar. Não estava ansiosa, nem com pressa para chegar em casa. Não estava feliz, nem triste, não sentia nada além de indiferença. Indiferença por ser quem é, por ser como é. Sentia-se vazia e não sabia explicar o motivo. O ônibus chegou. Durante todo o trajeto, ficou com os olhos vidrados admirando a infinidade de nadas dentro dela.

Em casa, a rotina diária se repetia. De novo, e de novo, e mais uma vez. Parecia viver no automático, uma existência repleta de regras e horários. Olhou pra janela da casa vizinha, já fazia uma semana que ninguém a abria. Tomou um café. Sentou no sofá e ficou ali até se tornar parte dele. Aos poucos foi sumindo. Sumindo até não restar vestígios de que um dia houve vida naquele lugar.

13 de Janeiro de 2021 às 11:13 4 Denunciar Insira Seguir história
10
Fim

Conheça o autor

Bruna Dondé Bebedora de café, escritora de histórias incompletas, fotógrafa, gateira, leitora (aceito livros de presente, sempre).

Comente algo

Publique!
Meiling Yukari Meiling Yukari
A senhorita tem muito talento para destruir o coração dos leitores que se identificam com os personagens das suas histórias... Tantos de nós vivemos assim, é tão triste e parece não ter fim... Muito bom mesmo! Obrigada por compartilhar conosco! Um abraço!!
April 23, 2021, 15:46

  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Não sei se fico feliz em ter talento para destruir o coração dos leitores, mas vou aceitar como um elogio, hehehe. Eu que agradeço tua disposição para ler e comentar, isso me deixa muito feliz e com vontade de continuar. April 23, 2021, 18:13
Aarvyk Caires Aarvyk Caires
Olá, Bruna. Como estás? Pois confesso que em vários momentos me sinto dentro deste teu conto. Já adianto que adoro este método que usas: não citar nomes, apenas "ela" ou "ele". Amo o anonimato e vivo por ele. Alguns bons trechos dos quais escreveu foram ótimos highlights que gostaria de pontuar. E bem o sabes como é ótimo escrever frases marcantes rsrs "os olhos vidrados admirando a infinidade de nadas dentro dela" e "os ponteiros do relógio parecem não se mover". Essa primeira me marca mais que a segunda, já que a segunda a pontuei por me lembrar aquele poema de Buk (alguns o odeiam, mas irei citar): "há uma solidão tão grande neste mundo que você pode vê-la no movimento lento dos ponteiros de um relógio". O tempo se esvai e parece que nos leva também, a medida que as coisas nao fazem sentido nenhum... Melancólico? Talvez, mas real. Enfim, estou a adorar tua escrita, pois já não lia algo do gênero em bons meses. Espero que continues a postar o que tens nos blocos de notas, uma vez que são ótimos textos dotados de um sentimentalismo intrigante.
March 13, 2021, 00:37

  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Estou bem e você? Realmente gosto de não dar nomes aos personagens. Teu comentário fez com que eu me sentisse muito incrível, obrigada. Não tenho problemas com Bukowski, então fico feliz que tu tenha lembrado dele. Mais uma vez, obrigada por ler e comentar. :) March 13, 2021, 12:15
~