wilde-green Welington Pinheiro

Um homem está em casa com a mulher, depois de quinze dias no mar. Ele trouxe consigo algo terrível, que transformaria a noite de sua cidade no marco zero de um pesadelo sem fim.


Horror Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#epidemia #pestilência #doença
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Paciente Zero

Júlio trabalhava embarcado, 15 dias no mar e 15 dias em casa. Aquela era sua primeira noite em casa desde que chegara de viagem. Era uma noite como qualquer outra, não parecia haver nada de errado com ele. Assistíamos seriado quando um sono pesado chegou para mim.


- Vou dormir, amor.

- Tudo bem, vai lá. - ele disse - Vou terminar o episódio e depois também vou.


Assim que deitei, peguei no sono. Numa certa hora da madrugada, contudo, acordei com muita sede e fui à cozinha beber água. Logo que abri a porta, algo me aterrorizou.

Havia um rastro de sangue pelo chão, partindo da cozinha em direção à porta. A maçaneta estava bem suja de sangue, como se alguém tivesse tentado abrir desesperadamente.

"Amor, não estou passando bem. Fui para o hospital. Não se preocupe, resolverei tudo". - dizia o bilhete sobre a mesa.

A cozinha estava uma enorme bagunça. Junto ao bilhete, havia vários dentes, a maioria com pedaços de gengiva. Um pó alaranjado estava por toda parte. Algo horrível acontecera ali e eu não poderia ficar parada.

Coloquei um casaco, peguei a chave do carro e rumei para o hospital. Chegando lá havia polícia por toda parte e muito movimento de pessoas.


- Por acaso um homem chamado Júlio, de seus 30 anos, deu entrada aqui? - perguntei à recepcionista.


A moça me olhou assustada:


- Acompanhe-me, senhora.


Ela me levou até uma certa ala do hospital e pediu que chamasse um certo Doutor Francis.


O homem demorou. Enquanto isso eu olhava assustada para o ambiente ao redor. Estava tudo revirado, havia sangue para todo lado, o chão estava vomitado e havia cheiro de excremento por toda parte. O mesmo pó alaranjado estava por toda parte, inclusive sobre a manta dos outros doentes.


- A senhora é esposa ou irmã do homem? - perguntou um velho de voz rouca deitado num dos leitos.

- O que houve aqui? - perguntei.

- Deus tenha piedade de nós, moça. - e virou-se para o canto, voltando a dormir.


Olhei para fora do hospital e percebi que um cordão de isolamento estava sendo colocado ao redor do prédio. Algo estava acontecendo e eu não estava entendendo nada. Um homem careca e grande começou a debater com os seguranças e uma confusão se iniciava.


- Não vou ficar preso aqui, vocês não podem me manter confinado, isto é cárcere privado. Não sou culpado de merda nenhuma, vim aqui apenas trazer meu pai.


- Senhor, por favor se acalme. - o guarda tentava em vão contornar o problema - É para sua segurança e a segurança de todos. Aguarde até entendermos o que está acontecendo e liberaremos o senhor.


O grandalhão subiu o tom da conversa e uma pancadaria generalizada começou na sala de espera. Aproveitei a confusão e consegui fugir daquele lugar.


Era madrugada e as ruas estavam vazias. Fui até meu carro. Aproveitei o flanelinha me pedindo dinheiro e perguntei o que acontecia ali.


- Um cara maluco apareceu aí. Ele teve um surto e quebrou tudo lá dentro. Tão falando aí que o cara tá com um troço brabo, daí isolarem a área. - disse o rapaz - É o fim dos tempos, dona. A peste anda à solta.


- E o homem está lá dentro? - perguntei.


- Não, o cara fugiu. A polícia tá atrás dele.


- Ele foi em que direção?


- Foi na direção do Centro.


- Obrigada. - agradeci, dei umas moedas ao rapaz e girei a chave do carro.


Parei na esquina, esperando o momento certo de pegar a rua principal. Percebi que havia manchas do pó alaranjado naquelas paredes. Comecei a rezar mentalmente.


Rodei por todo o Centro da Cidade por meia hora e não encontrei nada. Somente ruas desertas, algumas vagas de sem-tetos ao redor de fogueiras sob os viadutos, como neandertais se abrigando da noite em suas cavernas.


Muros pichados, becos sombrios, prédios abandonados... Até que vi algo sugestivo. Parei e desci do carro. Aquela era uma área perigosa na cidade, próxima a uma cracolândia, cheia de ladrões, viciados e estupradores, mas era a única pista que eu tinha. Havia uma montanha de lixo e uns cães de rua revirando latões. Atrás deles, na parede de um posto de saúde abandonado, uma mancha alaranjada.


Os animais rosnavam uns para os outros, disputando um pedaço de alguma coisa. O animal mais fraco apanhou e fugiu para o meio da rua, entrando no cone de luz do farol. O animal tinha os quadris caídos e parecia gravemente machucado. Tombou ali mesmo e ficou. A matilha imediatamente atacou o corpo, rasgando-lhe a carne. À medida que atacavam o outro a mesma nuvem alaranjada subia do meio da confusão de animais. Buzinei e joguei o carro na direção deles, de modo que pudessem ir embora. Funcionou.


Estacionei, desliguei o carro e saí, fechando a porta atrás de mim. O silêncio era absoluto naquele lugar. Fui até a parede examinar a mancha. Ela seguia pelo beco escuro. Acendi a lanterna do celular, o rastro seguia pela parede e desaparecia no que parecia a entrada de uma construção abandonada. Ouvi ruídos vindo de dentro. Seriam moradores de rua? Seria um antro de viciados? Naquele lugar, nada de bom poderia ser e eu sabia que me expunha a perigos imensos.


- Saaaandra… - uma voz débil vinha de dentro. Mas eu reconheci.


- Júlio!


- Sandra, vá embora...


Apontei o celular e continuei mantendo uma conversa a fim de seguir na direção do voz moribunda. Tábuas atravessadas, vergalhões expostos e muito entulho, lugar era muito difícil de acessar. Então atrás de uma porta em ruínas, vi a visão do horror.


Um cheiro fortíssimo de excrementos dominava aquele lugar. Aquela deveria realmente ser uma morada de sem-tetos. Júlio estava sentado num canto, jogado entre papelões e uma pilha de entulho. Sua pele estava coberta de erupções grotescas e pustulentas, de um vermelho encardido. As pernas e os braços pareciam tortos, como se acometidos por algum mal degenerativo. O corpo parecia estar desabando sobre si próprio, implodindo. Os grandes calombos na pele estouravam emitindo nuvens daquela poeira alaranjada.


- Querida, - dizia a voz débil e monstruosa - me desculpe por isso. - E tentava se levantar sem sucesso, estendendo a mão em minha direção.


Tomada pelo pavor, levei a mão ao rosto, deixando o celular cair. Fui andando para trás aterrorizada, peguei o celular e corri em direção ao carro. Precisava tirá-lo dali. Para o bem dele… (ou seria para o bem de todos nós?)


Dei então um telefonema anônimo revelando o esconderijo. Enquanto dirigia, eu chorava e soluçava e queria gritar. Estava definitivamente abandonando meu amado marido àquele fim miserável. Mas… mas eu o amava… nós fizemos juras… até ontem nos amávamos, matando a saudade de quinze dias longe um do outro.


Cheguei em casa e fui direto para o banheiro. Tirei todas aquelas roupas e joguei todas no lixo. Entrei debaixo do chuveiro e chorei compulsivamente, as lágrimas se misturando à água. Então abri os olhos. A água que escorria pelo ralo… era alaranjada.

3 de Janeiro de 2021 às 02:44 5 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Bruna Dondé Bruna Dondé
Parabéns pelo texto! Tive a brilhante ideia de ler antes de dormir, vai ser uma noite longa.

  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Juro que acordei com uma marca laranja na mão esquerda. Mas tá tudo bem aqui. 1 day ago
  • Welington Pinheiro Welington Pinheiro
    Ahahahah olha só! Esteve numa plataforma de petróleo em alto mar? Se esteve, comece a rezar pela sua alma rsrs. Quero te ler mais. Me sugere algo seu pra eu ler. 18 hours ago
  • Bruna Dondé Bruna Dondé
    Indico o "resquícios de uma vida inexistente" e o "reunião (de contos) de condomínio" que é um projeto com o Arnaldo Zampieri. :) 18 hours ago
Max Rocha Max Rocha
Terror traduzido de enfermidade e pestilência que alude ao filme "A Mosca" ( David Cronenberg- 1986). Infectado e destinado a uma metamorfose grotesca? Infeliz primeiro portador de uma pandemia sem controle? Vale lembrar o filme "93 dias" (Steve Gukas). Texto fluido, simples na forma e pesado no conteúdo. Parabéns Will.
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