felipehasashi Felipe Hasashi

Lutando para viver o presente e esquecer as mágoas do passado, Anna Hardwick está de recesso das suas obrigações como maga para cuidar de sua filha e distante do conflito mágico, não desconfia que por trás das cortinas, a corrupção se instalou no sistema e um coração foi quebrado. Tendo de voltar à ativa, o mundo ao qual se ausentou lhe mostrará as respostas para curar as feridas abertas, nem que para isto tenha de encarar a morte. O renascimento. Uma nova chance. Uma flor crescendo em águas turbulentas.


Fantasia Fantasia urbana Para maiores de 18 apenas.

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De Volta ao Mundo


Aqueles pequenos dedos eram quentes. Tão calorosos quanto aquela noite abafada, sem uma única brisa para aliviar. Sem problema, era a temperatura ideal para um piquenique, para estar ali com ela, a sentir seu calor. Era um sol a afastar a escuridão, afugentando dúvidas e medo. Era sua fonte de luz. Sob o céu negro sem estrelas da noite texana, não precisava de outra luminescência.



Eram dias quentes de um verão seco de repouso para Anna, dispensada temporariamente de sua escola após dar à luz à pequena Lisa e se tornar uma tradicional dona de casa. Uma realidade bem diferente das missões, aulas e batalhas proporcionadas pela Thundero. Das longas viagens pelo mundo agora tudo se limitava ao quarto, sala, cozinha, banheiro e quintal. De licença, seu tempo se revezava entre os cuidados de sua pequena com as atividades domésticas e os treinos solitários no bosque ao redor de sua casa.


As habilidades de combate deram espaço ao talento na cozinha. Seu atributo, um terror para os infratores, agora enchia a piscina para refrescar a bebê. As tatuagens tributárias em ambas as mãos se ocultavam debaixo da espuma do sabão de lavar roupas. O traje de luta cedeu lugar para o vestido e as sandálias. Milhares de rostos desconhecidos foram substituídos pelas feições locais e costumeiras dos vizinhos nos mercados e farmácias. Das madrugadas sem sono em missões, soube o que era dormir até tarde nos domingos. A rotina pacata a absorveu por completo e aquele mundo conflituoso de nações divididas pela magia parecia cada dia mais distante.

Após longos nove meses sendo amparada pela escola Thundero, que recusou dispensá-la antes do parto, e pajeada carinhosamente pela sua guilda, Maregem, teve de procurar um lugar para se estabelecer e para sua sorte, conseguiu uma boa casa em Dallas. Afastada o suficiente do lar de seus pais. Ali seria seu recomeço ao lado de Lisa, longe das terríveis discussões e brigas com ele… Sempre ele. Theodore, seu pai. Incorrigível, irredutível, inacessível.


O velho estereótipo de cidadão nobre da comunidade e de linhagem antiga, descendente dos Hardwick, uma das maiores famílias mágicas de renome americano e influente no Texas, reconhecida por nomes como Susan Hardwick, avó de Anna e heroína de batalha. Para Theodore a honra e o legado dos Hardwick jamais seria maculado. E Anna era o joio em meio ao bom trigo.


Quando os dois se encontravam, a guerra estava prestes a estourar. Após anos de humilhação, Anna decidiu fugir para viver só, encontrando na Thundero um porto seguro. Sem o pai para condená-la e dona de si, tudo o que importava agora era aquele piquenique que planejou o dia inteiro para sua menina, no vasto gramado de casa. Frutas, sucos, biscoitos e a tradicional papinha indicada pelo pediatra para ajudar no peso da pequena, pois se descuidasse, Lisa comia tudo o que enxergava à frente.


Dentro de Anna, um furacão de sentimentos a instigava, nublando o desejo de paz que tanto almejou. Se por um lado sentia-se só para alguém que vivia longe do lar e acostumada aos destinos incertos, vivendo uma atual vida provinciana e caseira, por outro os dias com Lisa eram uma completa aventura de descobertas e surpresas. Era diferente de tudo o que já experimentou e cada instante era mágico, único.


Quando descobriu que seria mãe, seu mundo parou e a conturbada adolescência rebelde passou veloz diante de seus olhos. Pela primeira vez, sentiu medo. Um medo de saber que não era mais apenas a sua vida que estava em jogo, mas também uma outra, abstrata e iminente. O processo de metamorfose mental se iniciou e aquela garota amante de festas e bebidas, sempre ansiosa para desafiar e desagradar o pai com uma postura promíscua, foi vencida por uma mulher responsável, focada em se aperfeiçoar como maga e decidida a dar um futuro para aquela criança que estava à caminho.


Porém, a nova postura não fora suficiente para apagar as mágoas do passado e Theodore não dava o braço a torcer, não para a única filha pródiga que tinha todas as possibilidades de elevar os Hardwick internacionalmente. Em sua cabeça conservadora, Anna estava suja, maculada, impura e não menos diferente do que uma meretriz. Como ousava falar de futuro? Logo ela que se deitou com tantos que mal sabia quem a engravidou? Numa comunidade reclusa onde a reputação imperava acima de tudo? Respeito era a moeda de troca.



Depois de uma violenta discussão onde Theodore desferiu palavras brutas e um derradeiro tapa em seu rosto, aquela abrupta atitude foi o estopim para sua fuga. Sem ter para onde ir, foi recebida pelo diretor Terence e convidada a morar num quarto improvisado aos fundos da instituição enquanto continuava os estudos ao lado dos Maregem. As duas conquistas consecutivas no The Mage, as missões de escolta para a Nigra Terra em parceria com os Oblívios, as viagens de paz à outras nações, a captura de potenciais terroristas e o crédito do sobrenome renderam à Anna o anonimato, afinal a notícia de uma maga a se refugiar na sua escola repercutiria negativamente para a Thundero. Não demorou para a barriga crescer e impedi-la de emoções mais fortes.

Não podia negar. Foram dias incríveis ao lado de colegas, amigos e pessoas carinhosas que a acolheram. Ganhou inúmeros presentes, comemorou a ecografia de revelação do sexo da criança com sua antiga turma e teve direito á um chá de fraldas no melhor estilo country texano, com músicos e muita festa. No fundo, temia perder todo aquele encanto e as horas finais chegaram, quando deu entrada no hospital para a conclusão da turbulenta jornada. Agora os ventos de mudança sopraram-na para longe de todos eles. Por esse motivo, não deixava de treinar suas técnicas, jamais se permitiria defasar em seu atributo durante a licença, terminar como secretária da direção ao invés de lidar com aquilo para o qual nascera: a magia.


Aprimorou com esforço a água de seu atributo, desenvolvendo ao longo dos meses a técnica de intangibilidade física, onde podia em breves segundos liquefazer seu próprio corpo. Uma habilidade de muitas utilidades, mas que sozinha se tornava um desafio incerto. Desenvolveu melhor as polaridades negativas e positivas de Aquam, gelo e vapor, forçando sua mana a condensar, sublimar, ferver e congelar as centelhas líquidas mais rápido. Exercícios físicos também ajudavam a manter o foco. Ninguém mais além de Lisa assistia às suas performances, o que muitas vezes a desconcentrava pelas agitadas palmas e gritos de entusiasmo da menina que a admirava incondicionalmente. A criança se apegava cada dia mais à sua mãe ao ponto de chorar quando não a via por perto.


Mas agora era o momento de desligar seus pensamentos e voltar para o piquenique. Absorta no passado, não reparou que a bebê se empanturrava com os biscoitos enquanto ignorava a mistura nutritiva da pediatra.


— Não mesmo! — Exclamou autoritária, apanhando Lisa para seus braços e retirando o doce de suas mãos. — Sabe que daqui a pouco vai sair rolando como uma bola? Vamos, é hora de ajudar a mamãe, abra a boquinha!


Não pôde conter uma gargalhada ao ver Lisa encher os olhos de água e fazer bico, estendendo as mãos para suplicar pelo biscoito e rejeitando a colher com a mistura à sua frente. Protestou com sons e miados ininteligíveis. Teimosa! Quando aquele pingo de gente insistia em desobedecê-la, nem mesmo o mais atroz inimigo era capaz de suportar a cena. Começou a disputa e o duelo de vontades, a bebê a se jogar para os lados numa frenética esquiva das colheradas enquanto Anna engrossava seu tom de voz.


Porém, a algazarra de gritos fora interrompida por um longínquo ruído de motor. Aos poucos, luzes de faróis cortavam o breu noturno e o som de pneus sobre a grama ecoava lento, reduzindo a velocidade. O clarão parou sobre os rostos das duas e logo a ignição desligou, dissipando de imediato a luminosidade cegante. A porta do carro abriu lentamente e Anna engoliu em seco, lembrava daquele veículo só de fitar o pára-choque. Os cabelos grisalhos em contraste com as distantes luzes da varanda confirmou sua certeza.


— Boa noite, filha… — Theodore esboçou, visivelmente retraído.

Anna estagnou por um instante. Não o via desde que fugiu para a Thundero. Três anos afastados, um tempo onde ambos nem sabiam se cada um ainda estava vivo. Aquele semblante era como um fantasma a novamente lhe inundar de amargas lembranças. Recompondo-se, manteve a postura orgulhosa e levantou, pousando Lisa sobre a toalha na grama.


— Olá, Sr. Theodore… — Ironizou a ruiva, fria. — Pensei que nunca mais nos veríamos de novo! Como descobriu meu endereço?


— Também tenho um contato de confiança dentro da Thundero, a única escola de magia do estado inteiro e você esperava confidencialidade? Na verdade, já sabia do seu destino há um bom tempo, só precisava reunir… — O velho puxou o ar com dificuldade, lutando para cessar o nervosismo. — C-coragem para vir falar com você e…


— E… — Instigou Anna, ressabiada.


— Te pedir desculpa! — Despejou Theodore, suando frio. — Fui um covarde, monstro ao ter te deixado fugir daquela forma e por ter te tratado mal todos esses anos, logo você, minha única menina…


— Nós dois sabemos que pedir desculpas não é o seu forte. Duvido que destas palavras não tenha saído um pingo de soberba imbuída. Tá tudo bem, sério mesmo! — Anna suprimia todo o ressentimento interno enquanto encarava seu pai com um olhar destemido. Ela não podia fraquejar, demonstrar sua mágoa antes de saber a real razão dele estar ali. — Eu estou reconstruindo minha vida e não quero mais viver do passado. Aliás, não notou a sua neta desde que chegou, não é?


Theodore havia notado a bebê, mas sua ansiedade cegou-lhe tanto que mal viu Lisa sobre seus pés. Rechonchuda, a garotinha de madeixas ruivas e curtas, pele alva e olhos verdes lhe exibia um largo e aberto sorriso, demonstrando as gengivas rosáceas de poucos dentes. Riu para si, era muito graciosa. Uma cópia exata de Anna. Olhou para a mãe que consentiu o iminente gesto carinhoso. Abaixou-se e agarrou a criança, levantando-a para si.


— Ela é muito linda! — Elogiou Theodore, emocionado. Por um instante esqueceu aquela situação. Lembrou-se de Anna em seu colo naquela idade. Depositou um tímido beijo no rosto da neta e a sensação de nostalgia lhe atingiu em cheio. — Lisa, certo?


— Isso. Homenagem à vovó Susan e suas histórias de guerra. — Respondeu Anna, sorridente. Susan Hardwick e suas memórias foram sua inspiração para tornar-se maga. Agridoces relatos de um tempo negro onde magia e sofrimento andavam juntos. Voltando ao presente, Anna indagou contundente. — Posso saber porque está aqui?


— Pode ser difícil acreditar no meu arrependimento agora, mas… Preciso pedir perdão a você. Estou aqui não só por mim, Amelie também sente muitas saudades de você e assim como eu, ela ainda não conhece a própria neta. A sua mãe não está nada bem…