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Generalizações...

As generalizações não nos servem mais como exemplos. Essas malditas generalizações! Quanto mais geral é, mais massas amorfas queremos nos tornar, menos corpos somos. Ora nos mostram o quão perto estamos daquele corpo não-mais da aula de anatomia, que exala odor de amônia. Ora nos mostram, nos templos do bem-viver, o quão mais próximos estamos da transcendência.


Poxa, como é possível uma vida onde não podemos nos expressar, ou não podemos sentir o atrito entre nossas imperfeitas arestas? Precisamos sempre viver colados uns aos outros, comprometermo-nos com uma suposta vida eterna ao lado dos outros? Ou então, precisamos ser sempre cruéis a ponto de aniquilar qualquer substância que ameace nossa pele? Precisamos ser belos cristóvãos que se contentam com a rotina diária do eterno trabalho/lazer e conforma com uma moral que não nos permite expressar as diferenças?

Logo pegamo-nos pensando: “Que tal fazermos uma eugenia? Não é muito difícil! É só criarmos manuais de bem-viver, agentes instruídos de verdade, políticas invasivas, instruções bem prescritas.... Podemos dar na mão dos burgueses para espalhá-los pelos lares. E, no fim, falar que somos todos doentes. Falar que para não morrermos é preciso se tornar um rebanho livre de qualquer resquício animal.

Os burgueses virão com detalhes belos, felizes e de intelectuais para ensinar o povo a perfeição do que eles precisam ser (ora, mal sabem que nunca virão a ser).

Já falamos que somos todos doentes e fracos? Sim! Agora, podemos utilizar dos manuais de bom-viver et al., para propagar a consciência de que precisamos ter a beleza, inteligência e espírito dos europeus. Não, né? É muito cruel!

Então vamos fazer uma eugenia positiva. Vamos falar que precisamos ser tão belos quanto eles, tão felizes quanto eles, tão inteligentes quanto eles? Vamos vender ídolos com personalized speech, como aprendi na nova tendência estadunidense. Acho que é melhor fazer isso. Precisamos extrair o melhor possível de suas capacidades intelectuais, morais e físicas…., ou melhor, de seu bem estar intelectual, moral e físico. Logo mais, nos tornaremos belas sociedades limpas e perfeitas, leves e fortes, felizes e produtivas.”


Espera! Vamos parar com isto! Vamos abalar toda essa mediocridade! Precisamos apenas de informações, não de sufocamentos.


Deixemo-nos simplesmente vir-a-ser. Deixemo-nos levar pelo mundo, sem forminhas para blocos de concreto. Deixemo-nos produzir experiências. Contudo, saibamos: “Nosso corpo nunca será único na/da terra”.

Assim, é possível deixar nossos corpos experienciarem os extremos da existência!

Pensa comigo como é bom viver em um mundo de arestas irregulares e seres imperfeitos que coexistem conosco no mundo. Flutuamos como devires paradoxais em um espaço junto a outros, e, durante estas viagens, vivenciamos encontros que nos possibilitam criar experiências. Ora tensas, ora excitantes. Ou porque não ambas ao mesmo tempo?


“Então, bora nos permitir viver as diferenças? Bora viver as diferenças!

Bora nos permitir ter arestas imperfeitas? Bora ter arestas imperfeitas!

Bora nos permitir transformar a vida? Bora transformar a vida!

Bora nos permitir ser servos?...” NÃO! Calma lá! Sem pressa! Não vamos ser servos.

Criaremos formas de tensionar a servidão.

Vamos nos permitir ser obrigados? Não. Não vamos ser obrigados. Criaremos formas de abalar as obrigações.

Nada disso é fácil! Não nos enganemos com o A, B, C… O menos é mais…. Não podemos deixar que as correntezas das generalizações nos leve, ou sequer nos dar o luxo de deixá-las nos levar em demasia. Caso contrário, cairemos na anomia, e a anomia nos traz um kit de dispositivos microeugênicas. Lembremo-nos: “O inimigo está sem à espreita”.

Deixemo-nos jogar loucamente no mundo a qualquer contingência do possível e, quando não, usar nossas estratégias meticulosamente arranjadas, que aprendemos nos encontros, para existir. Vamos falar do passado de tudo que ameaça nossas ambiências, só assim faremos com que o caminho até o caixão não seja um tapete, vermelho e cheio de ondulações, até à cova.


Ora, me perdi nas divagações. Enfim, só queria falar que os números brutos estão nos sufocando, que as fórmulas gerais nos sufocam. Não digo que precisamos parar, seria jogar no lixo tudo que acredito. Mas precisamos, também, olhar para mim e para você!

9 de Dezembro de 2020 às 21:08 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Sertidão do Cer "Querido diário...." Sou um mero vagante curioso pelo mundo que não se contentou apenas em pesquisar. Vim de um lugar, no interiorzinho de Minas Gerais, onde várias forças confluiram para que eu não chegasse onde estou, mas cheguei! Então, aqui nada mais é que uma fuga do ringue (ou será uma extensão dele?). Aparentemente, cada texto é uma inquietação do meu eu tentando se achar em meio ao carretel interno de sentimentos, formalismos e rebeldias, e tentando deixar pegadas pelo mundo.

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