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"Você pode sair da escola, mas a escola nunca sai de você." É uma lição que Leopoldo Fagonça aprendeu na marra, quando começou a trabalhar como professor. Acreditava que, ao ser um educador, passaria a ter o comportamento de um. Nunca imaginara, entretanto; o quanto o diretor, os funcionários e (principalmente) seus colegas de trabalho o fariam sentir mais rebelde e inconsequente que seus alunos. *Esta história também foi postada nas minhas contas do Nyah!, Spirit e Wattpad


Humor Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#zoeira #random #professores #professor #nonsense #humor #escola #comédia #colegial #antropologia
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Eu podia jurar que estava tudo indo bem.

E estava mesmo! O meu Nokia S30 conseguiu me acordar na hora. Eu achei minha pasta de dente, e ainda bem que tinha me lembrado de passar minha camisa no dia anterior. O gel tinha acabado, e isso deixou o meu cabelo respirar um pouco.

O tanque de gasolina do meu carro estava cheio, e não faltou água no carburador. Até o trânsito resolveu colaborar comigo.

Primeiro dia de trabalho na escola do meu tio… Suspirei. O quê poderia dar errado?

Lá no fundo, eu já sabia muito bem o quê.

O meu tio - que a partir de agora eu teria de chamar de Senhor Fagonça, o diretor - tinha me chamado para conversar.

E daí que eu tenho medo dele. Sempre tive. Como iria conseguir conversar sem me borrar todo? Eu fugi dele a minha infância inteira!

O conceito do gênero "terror" foi criado por causa do meu tio.

Chuck Norris se inspirou no meu tio.

Até o John Cena sairia correndo do meu tio.

Tenta imaginar um homem de 65 anos com a aparência de um The Rock, com o mesmo tom de autoridade do Poderoso Chefão.

Sendo o diretor de uma escola.

Por isso que eu hesitei muito quando fui convidado a lecionar.

Ali.

No Colégio Stella Santoro.

No colégio dele.

A início, pensei que seria uma espécie de colégio interno ou militar. Mas a fachada do prédio era comum, como de qualquer outra escola saudável e tradicional.

O susto foi aumentando ao longo que entrei. Os alunos não usavam uniforme. E pareciam… Normais. Felizes.

Claro, felizes ao máximo que a vida de estudante permitia.

O que quero dizer, é que eles andavam nos corredores de forma desordenada e falando alto. Que nem numa escola normal.

'Tem algo errado.' Pensei. Aquela deveria ter sido a minha deixa.

Do jeito que meu tio aparenta ser, não me surpreenderia se os funcionários controlassem os alunos na base do chicote.

Mas não. Esses também pareciam ser pessoas comuns, de estatura mediana. Não eram os capatazes assassinos e sanguinários que imaginei haver aqui…

Parei na frente da sala do diretor, suando como um porco. Idealizei a sala. Imaginei que, assim que batesse na porta, uma voz rouca e ameaçadora me convidaria a entrar. E quando entrasse, meu tio estivesse do outro lado de uma grande escrivaninha de mogno, de costas para mim em sua poltrona com rodinhas.

Sabe? Que nem naqueles filmes?

Mas eu nem precisei bater. Ele abriu a porta em um movimento rápido, quase me matando de infarto.

"Leopoldo!" Ele exclamou, com um longo sorriso e um tom de voz alegre e paternal. Em seguida, me aprisionou em um forte abraço de caráter afetuoso. Ele riu do meu susto. "Garotão, olha pra você!"

Ele coçou minha cabeça. Agradeci mentalmente por não ter usado gel. "Entra, menino, entra! Estava louco pra conversar com você!"

Para minha surpresa, eu entrei mais por boa vontade do que intimidado. Senhor Fagonça fechou a porta, cumprimentando uns três alunos que por ali passavam.

Sentei, esperando por uma reviravolta. Que meu tio revelasse uma atitude assustadora e intimidante.

Mas não: continuou se comportando como um paizão.

Minha mente estava rodando. Não sabia mais o que era real, e o que não era.

Para ser honesto, o meu tio sempre foi uma incógnita para mim. E assim… Eu nunca exatamente vi ele sendo grosso ou maltratando ninguém… Mas também nunca o vi sorrir, ou ser tão simpático daquela forma.

Não tenho a menor ideia de com o quê ele trabalhava antes, mas há cerca de uns 7 anos ele resolveu abrir uma escola. E surpreendentemente, foi bem-sucedido. Os parâmetros apontavam o Colégio Stella Santoro como um dos melhores na região.

A minha família ficou espantada com essa tomada de atitude do meu tio, mas ao mesmo tempo, ficou orgulhosa. Aquele trabalho, pelo visto, estava o fazendo muito bem.

“Sabe, Leopoldo…” Ele começou, se sentando.

“Leo.” Interrompi. Odeio meu nome. “Por favor.”

“Leo.” Ele assentiu. “Sabe como eu consegui fazer essa escola crescer tanto em tão pouco tempo?”

Eu tinha as minhas teorias. Nos últimos 20 minutos, parcialmente descartadas. “Excelente pergunta…”

“Eu me abro a novas oportunidades. A novas perspectivas. E quando sua mãe me contou de sua especialização em Antropologia, bem… Fiz questão de te chamar na hora, para ser professor aqui!”

Me acomodei na cadeira. Como estava me sentindo mais à vontade, arriscaria. “Senhor Fagonça, estou curioso.”

“Isso é bom.”

“Antropologia é uma matéria de Ensino Superior. Por quê você está incluindo no currículo do colégio?”

Meu tio riu, levemente corado. Ele se inclinou, com os olhos brilhando.

“Isso me lembra de uma pergunta que fiquei de te fazer.”

Arqueei a sobrancelha, incentivando-o a continuar.

“O quê demônios é Antropologia?”

8 de Dezembro de 2020 às 18:03 0 Denunciar Insira Seguir história
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