vatrushka Vatrushka

[História inspirada na vida do rei William I da Inglaterra e da rainha Matilde de Flandres, no ano de 1051] Matilde é uma donzela muito espirituosa. Neta do rei Robert II da França, não só está ciente de seus privilégios de berço como os defende com garras e dentes. Seus ideais se abalam, entretanto, ao se apaixonar por um duque bastardo - ninguém menos que o futuro rei da Inglaterra. Quem iria imaginar que um rei bastardo e uma petulante rainha baixinha marcariam para sempre o curso da história de seus reinos? *Esta história também foi publicada nas minhas contas do Nyah!, Spirit e Wattpad


De Época Todo o público.

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Hóspedes

Ano 1051 d.C., em Flandres.


Como esperado, Matilde desceu para recepcionar os convidados. Seu pai, Baldwin V, Conde de Flandres, oferecera a fortaleza para hospedar alguns nobres normandos por uma breve temporada.

“Ficarão aqui por muito tempo?” Perguntara à sua mãe Adela, quando esta lhe comunicara a notícia.

“Não sabemos ao certo, mas provavelmente não. Suponho que algumas semanas. Aparentemente, estão em uma viagem para divertir-se e conhecerem a região, não devem estar com pressa.” Adela lhe respondera, tirando um fiapo de deu vestido.

“Oh!” Matilde não pôde evitar de gracejar. “Nos pouparão das conversas políticas então?”

Adela tentou controlar seu sorriso, mas não conseguiu. Trocaram um olhar cúmplice, não foi necessária uma palavra para entenderem o que as duas pensavam. ‘Lógico que não. Tudo é político.’

“E quem serão nossos estimados convidados?” Perguntara Matilde, erguendo a sobrancelha. Sua personalidade espirituosa não conseguia evitar sarcasmo.

Adela tentou recordar-se. “Do que ouvi, dois condes e um duque. Irmãos, todos eles. E jovens!”

‘Sorte a minha.’ Concluiu.

Ao percorrer as escadas, Matilde já conseguia ouvir o som de cavalos se aproximando da fortaleza. Apressou-se para se aproximar de seus pais. Adela sorriu em aprovação ao ver a filha se aproximar. “Está muito bonita.” Elogiou-a. Seus longos cabelos dourados estavam presos em elaboradas e pesadas tranças, como o de costume.

“Puxou a mãe.” Concordou lorde Baldwin.

As portas abriram-se para os três nobres recém-chegados e sua comitiva. Baldwin tomou a frente, cumprimentando-os.

Matilde julgou-os silenciosamente. Ao que pôde perceber, o irmão que vinha da direita tratava-se de um clérigo - logo não lhe prendeu muita atenção.

Os outros dois tinham traços evidentemente mais parecidos - tinham mais ou menos a mesma idade. Bonitos, tinha de confessar. ‘Uma difícil escolha. Para desempatar, só me resta descobrir qual é o duque.’

Não pôde deixar de reparar no mais alto, que se encontrava no meio dos outros dois irmãos. Não sabia explicar como nem porquê, mas este destacava-se de sua própria forma. Não apenas pela altura... Como também postura e presença. Algo em sua expressão. Algo por trás de seus olhos, talvez uma profunda fúria ou profundo luto, que lhe endureciam a feição - deixando-o com a aparência de ser muito mais velho do que realmente era.

Uma figura deveras enigmática.

E Matilde adorava resolver quebra-cabeças.

Talvez tenha o encarado por muito tempo, pois sentiu os olhos deste irem em sua direção. Abaixou o olhar automaticamente, envergonhada.

“Esta é minha esposa, Adela da França, segunda filha do rei Robert II. E esta é minha filha, Matilde de Flandres. Meus dois outros filhos não se encontram no momento, uma pena - acredito que teriam se dado bem.” Baldwin apresentou-as aos nobres cavalheiros. Estes curvaram-se às damas, e estas devolveram-lhes os cumprimentos.

Ao aproximar-se, Matilde percebeu o quão mais alto que ela era o rapaz do meio. Não que já não estivesse acostumada com a ideia de olhar para cima para conversar com qualquer um.

Matilde era terrivelmente baixinha.

“Este é Robert, conde de Mortain.” Seu pai apresentou-os, da esquerda para a direira. “Este é William, duque da Normandia, e este é Odo de Bayeux, conde de Kent.”

Comemorou silenciosamente em sua cabeça. ‘Sabia que era o duque! Claramente soberano aos próprios irmãos. Tal título se impõe naturalmente.’

Matilde estava plenamente convencida de que aquela era a ordem natural do mundo. O percebia nas pequenas coisas - como no casamento de seus pais, por o exemplo. Não importava se seu pai era o homem da casa e senhor de sua mãe; era notável o quanto o título de princesa de Adela a destacava como soberana de seu lar. Sua graça lhe era genuína, sua autoridade e habilidades de negociação, inquestionáveis.

Seu pai era um bom marido, mas era apenas um conde. Jamais alcançaria-lhe em tais atributos.

‘O nascimento nos determina.’ Concluiu. ‘Um berço é um berço.’

E Matilde sabia que havia sido abençoada por sua posição de nascimento, naturalmente. Aproveitaria-se dela.

‘William.’ Guardou o nome em sua memória. ‘O duque de Normandia.’



Estavam ceando, no início daquela mesma noite. A conversação entre os cavalheiros mostrou-se incrivelmente agradável, ainda que para homens tão poderosos. Por coincidência ou não - acreditava que não - Matilde sentou-se de frente para William.

Mentiria se dissesse que não estava sentindo o olhar do duque em sua direção. ‘É lógico que tentará me cortejar. Sou a melhor pretendente que encontrará em décadas.’

“Suponho que goste de cavalgar, senhorita.” Surpreendeu-se a ver que William se referira a ela diretamente.

Para seu alívio, conseguiu se recuperar do susto rapidamente. “É um de meus passatempos preferidos.” Admitiu, com casualidade.

“Em minha humilde ousadia, confesso que imaginei que se dedicaria mais à leitura e bordado, dentre outras atividades domésticas... Supus que deveria gastar boas horas de seu dia trançando seus cabelos... Mas felizmente, creio ter me enganado.” William respondeu, sorrindo. Os outros na mesa riram.

Seria aquilo deboche?

Abriu um sorriso venenoso. ‘Então é assim que vai ser?’

Matilde pousou a mão em seu peito, teatralmente. “Não mais se surpreendeu do que eu, lorde William, ao vê-los aqui hoje - lhe asseguro. Por acidente, creio ter associado a imagem de normandos à de vikings - talvez por seu próximo parentesco? Esperava encontrá-los também de tranças e saias, imagine só! Lá se foi a minha vã esperança de compartilhar segredos de penteados com os senhores...” Tomou um gole de seu vinho, fazendo questão de repetir lentamente as mesmas palavras do duque. “Felizmente, creio ter me enganado.”

Os dois irmãos mais novos do duque gargalharam alto. William ainda a encarava, um pouco perplexo com a rapidez da resposta. Matilde lhe sorriu, com uma sobrancelha erguida. Que ousadia! Tentar disputar gracejos? Justo com ela? ‘Espero que esteja preparado para esta guerra, duque.’

‘Ou lhe massacrarei.’

William abriu um largo sorriso, ao reconhecer seu temperamento forte. “Vejo que se orgulha muito de suas tranças.”

Adela riu. “Matilde as usa desde pequena. Se algum dia minha filha sair sem elas, dificilmente a reconhecerão!”

De fato, era sua marca registrada: loira, baixa, de tranças e gênio forte - só poderia ser Matilde.

O duque arriscou-se: “Neste caso, não vejo porquê não convidá-la também para cavalgar conosco amanhã. Se conseguir me perdoar algum dia o infeliz comentário, é claro.”

“Rezarei a noite toda para que Deus me ajude a curar o rancor em meu coração. Pela manhã, já devo tê-lo superado.” Foi sua resposta.

8 de Dezembro de 2020 às 13:40 0 Denunciar Insira Seguir história
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