mazzaro Gabriel Mazzaro

Uma história em três histórias. Um nó contínuo, talvez, de realidades históricas que não são menos fictícias que a realidade.


Drama Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo 1. O coração revelador.

Ricardo deixou o Hospital de Cardiologia sentindo-se aliviado. O Instituto de Cardiologia de Corrientes "Juana Francisca Cabral" era um dos hospitais mais importantes do país com relação a aspectos preventivos, diagnósticos, terapêuticos e de reabilitação cardiovascular. Seu design, amplo e moderno, foi inteiramente pensado para os pacientes, algo verdadeiramente inovador. Claro que, além dessa particularidade, o instituto contava com alguns dos melhores profissionais do país, tanto na área de ciências médicas quanto em seus acessórios e anexos.

Não foi a primeira vez que ele se consultava. Seu coração, ligeiramente disfuncional, era como uma espécie de termômetro emocional que se desequilibrava toda vez que algo o estressava com impacto. Sua pressão arterial, por outro lado, ia de um pólo a outro quando ele estava em situações estressantes. Ricardo não era um homem velho, na verdade mal tinha quarenta anos. No entanto, ele era uma daquelas velhas almas que parecem cansadas de reencarnar. Ele tinha uma visão particular do mundo e principalmente da sua cidade. Imaginava cenas diferentes, do passado, do presente e do futuro. Quando ia caminhando ao trabalho, quando voltava do trabalho, quando ia passear de carro com sua esposa e seus dois filhos: Esteban e Martín. Inclusive quando dormia, Ricardo fantasiava sobre eventos que não poderiam ser considerados com precisão como verdadeiros. E era algo que ele fazia desde que conseguia se lembrar. Quando ele consultou um psicólogo, instigado por um de seus amigos do ensino médio, ele foi testado com base em diferentes testes, juntamente com algumas séries de entrevistas.

O que Ricardo tinha chamaram de imaginação. E desde então ele parou de se preocupar e se concentrou com mais empolgação nisso. Quando tinha tempo livre, Ricardo era contador em uma empresa de ervas que exportava seus produtos para alguns países vizinhos como Brasil, Paraguai, Chile e até Uruguai. A empresa, batizada de “Yerba Buena”, focava sua atenção comercial no exterior. No país, centralizou em Corrientes tudo o que dizia respeito à administração geral e algumas atividades de recursos humanos. Ricardo era um bom profissional. De manhã cedo, ele preparava o café da manhã para sua esposa e filhos e saia para o trabalho. Ele preferia tomar café da manhã no escritório. Uma grande sala, com uma enorme escrivaninha de pinho que sustentava altas pilhas de documentos, era seu esconderijo do submundo. Sua esposa, Irma, trabalhava em tempo integral para uma seguradora de riscos do trabalho, que tinha como principais clientes várias empresas nativas do estado. Seus filhos, por outro lado, frequentavam a Universidade Nacional do Nordeste, um dos centros públicos de ensino mais importantes da região. Esteban fazia o curso para ingressar na carreira de médico e Martín seguia os passos do pai, cursando o segundo e o terceiro ano da carreira de Contador Público Nacional. Eram uma família funcional, um tanto hermética e de poucas palavras, mas unidos como o fio do machado ao cabo.

Naquela manhã, após sua consulta anual, ele se sentou em um dos bancos ao ar livre e respirou o ar puro de Corrientes. Ele ouvia o trânsito, deixava o barulho da cidade arrepiar os pelos do seu corpo, sentindo-se parte de algo maior e mais profundo, mais antigo. A alegria, entre outros sentimentos que ele mal conseguia determinar, o pegou de surpresa. Não tinha horas para entrar ou sair do trabalho, era um dos principais contadores da empresa, por isso conhecia perfeitamente as suas responsabilidades. De qualquer forma, embora ficava em êxtase por ver além do cotidiano, criando cenas e personagens fora do comum e usual do mundo, Ricardo sabia quando era a hora de voltar ao trabalho, em casa, conforme o caso.

Ele se sentou e deu uma última olhada no céu azul, profundo e claro como uma espécie de mar invertido. Ele ajustou os óculos e começou a caminhar em direção à empresa.

Após alguns passos, Irma ligou para ele, perguntando como ele havia se saído. Ricardo respondeu o de costume, para sorte dele, que estava tudo bem, que as arritmias não eram pronunciadas e que o resultado do eletrocardiograma coincidiu com a sua patologia controlada. Irma disse a ele a mesma coisa que fazia todos os anos e eles cortaram a comunicação. Depois de tantos anos de relacionamento, o fogo foi apagado, embora não completamente. Eles se encostaram um no outro, compartilhando os golpes da vida. Quando algum acontecimento fortuito reacendia as chamas, Ricardo levava o carro à lavanderia, vestia jeans e camisa nova e a convidava para um passeio pela orla de Corrientes. A Avenida Costanera General San Martín, fundada em 1929, tinha uma extensão de quase três quilômetros de passagem tanto de pedestres como de veículos. A oeste, a orla margeava todo o sinuoso Rio Paraná, uma majestade natural que era conhecido como o 14º maior rio do mundo com seus imponentes 4.880 quilômetros de extensão. Ver o brilho das luzes da orla refletias nas costas do calmo e profundo Rio Paraná, era uma visão que causava admiração por mais que já tenha sido observada diversas vezes. Talvez, além do trabalho, dos filhos e da digestão do destino como tal, o amor entre eles fossem aqueles momentos fugazes. Aquelas oportunidades em que estacionavam o veículo, traziam uma caixa térmica com bebidas geladas e davam as mãos como na primeira vez que se conheceram. Pelo menos para eles, esses momentos eram mais do que suficientes.

Ao chegar à esquina do cardiologista, Ricardo olhou para trás e se perguntou quantas pessoas entrariam por aquelas portas e nunca mais sairiam. Embora tivesse a certeza de que, em algum momento, ele também passaria por uma porta pela última vez. Não importava qual fosse: daquele hospital, a de outro, ou mesmo a da sua casa. E dentro desta, talvez a do quarto ou do banheiro. Na verdade, havia sempre uma última porta. Ele olhou para os dois lados antes de atravessar a rua Córdoba e percebeu que não havia carros circulando, nenhuma bicicleta em movimento e ele não viu ninguém. Uma de suas cenas da irrealidade acabou pegando-o quando ele alcançou a próxima calçada.

O que Ricardo via, ou imaginava de acordo com os especialistas, era uma cidade de edifícios terrivelmente imponentes, cujos picos não podiam ser vistos de onde ele estava.

—É o futuro —disse a si mesmo—, e como nunca o vi antes.

Ricardo já tinha visto imagens do futuro, mas não assim. Desta vez, ele estava totalmente imerso em sua fantasia. Além disso, todos os seus sentidos estavam envolvidos, ao contrário de outras oportunidades em que era surpreendido por cheiros, ou texturas, ou simplesmente imagens. Agora, ele estava totalmente inserido naquele lugar que ele reconhecia, já que era Corrientes, mas era uma Corrientes diferente. Muito, muito distante.

Ricardo observou como grandes retângulos prateados se moviam de um lugar para outro pelo que pareciam ser as ruas daquele lugar. Fazendo uns bipes semelhantes aos sons da conexão dos primeiros modems que conheceu quando era adolescente. Essas estruturas, com quase três metros de altura, eram aos pares. "Eles serão as pessoas do futuro?" pensou.

Um cheiro metálico invadiu seus pulmões e ele pensou que estava mascando pó de alumínio no ar. Seu pai, já falecido, era um metalúrgico que o treinou com conhecimentos bem básicos sobre algumas de suas práticas. Ricardo, com excelente certeza, pôde considerar os metais envolvidos em algumas ligas, olhando sua forma, seu brilho, considerando o peso... Foi a herança mais importante que seu pai lhe deixou. E uma das poucas maneiras de se lembrar disso, já que todas as fotos de sua família haviam sido queimadas em um incêndio na sua casa.

—E isso é enxofre —disse ele, erguendo os olhos.

Sob seus pés, uma superfície escorregadia de platina cobria todo o território até o horizonte. Havia pouca luz, todo o local, com estruturas repetidas até cansar, ficava praticamente às sombras, embora pudesse ver claramente o brilho daqueles objetos e edifícios.

Não havia cartazes, não havia sinais, não havia nada mais do que essas duas coisas. Os corpos móveis e as enormes torres tubulares que pareciam ser o mesmo material.

Ricardo quis aproximar-se de uma dessas coisas, mas considerava inseguro. Além disso, seu coração, pelo qual procurava evitar sensações extremas, como aquela, por exemplo, era um fator que ele não podia ignorar.

—Tenho que ir embora —disse ele. E se concentrou o máximo que pôde, cerrando os dentes com tanta força que um dos arranjos explodiu dentro de sua boca.

Quando abriu os olhos, Ricardo estava de volta à esquina das ruas Córdoba e Bolívar.

Ele entrou no mercado bem à sua frente e pediu meio litro de água mineral.

—Você está bem, cara? —perguntou o comerciante.

Ele era um jovem de 22 anos, vestindo uma camiseta do Club Boca Unidos e calça jeans na altura dos joelhos. Ricardo já o vira várias vezes e até o cumprimentara em mais de uma. Ele considerou que, de alguma forma talvez implícita, eles se conheciam o suficiente para que o menino tivesse a coragem de lhe perguntar sem formalidades.

—Sim, chamigo —disse ele, também querendo expressar proximidade na conversa—, eu simplesmente pensei ter visto um fantasma.

—Uhhh, não patrão, não me diga isso que eu também trabalho no turno da noite.

—Estou só brincando. Mas não acho que você seja do tipo que tem medo ”, —disse Ricardo, apoiando-se no balcão enquanto abria a água.

-Por quê?

O jovem ajeitou o cabelo e com o controle remoto na mão abaixou o volume da televisão. Na tela, o governador falava sobre os avanços no controle da dengue e como as patrulhas de fumigação do bairro representavam uma excelente ferramenta no combate ao mosquito.

—E porque você trabalha bem na frente do hospital, imagino que já tenha visto de tudo.

—Sim, bem, pode ser. Eu não sei, você se acostuma.

Ricardo se acalmou aos poucos, tentando não contar ao jovem sobre seu nervosismo. Ele saboreou a água gelada, deixando sua língua mergulhar de prazer enquanto se lembrava do lugar onde estivera minutos atrás.

—Que problema com o mosquito! —disse o jovem, depois de servir outro cliente enquanto Ricardo bebia. Era um funcionário sociável, que não detestava as conversas diárias. No entanto, algumas delas eram complexas e ele frequentemente se encontrava em situações para as quais não estava preparado. Nisso o Ricardo tinha razão, ele trabalhava na frente de um hospital e em qualquer lugar da Argentina, isso tinha seus prós e contras. Na semana passada, por exemplo, ele estava com um cara que tinha colocado três stents naquela tarde e estava xingando a todos que não podia mais fumar. Ele teve de aturar o cliente irritado e torcer para que ele decidisse não comprar os cigarros que viera buscar.

—Cara, essa coisa da dengue parece grave. —Ricardo disse, logo depois que toda a água acabou.

Devido à sua condição de zona tropical, durante o verão -principalmente, embora não exclusivamente- Corrientes sofria esporadicamente com surtos de dengue, doença viral transmitida por mosquitos. A doença era caracterizada por sintomas como: febre, dores musculares e erupção cutânea. Sendo que, se a pessoa se infectasse uma segunda vez, corria o risco de desenvolver uma variação mais complexa da doença que consistia em hemorragias generalizadas. No entanto, nos últimos anos, as campanhas de prevenção e tratamento avançaram enormemente em termos sanitários.

—Sim, como qualquer outra doença. Mas estamos fazendo as coisas bem. Você apenas tem que continuar se cuidando.

«É só se cuidar», Ricardo repetia mentalmente, enquanto repetia a imagem dos blocos de metal que pareciam levitar pelo chão.

—Cara, você está bem? —O menino perguntou novamente.

Ricardo voltou a si.

-Por quê? —Ele perguntou, tentando fingir que não entendia.

—Porque você está pálido. Você não quer se sentar?

Ricardo sorriu.

—Não, estou bem, não se preocupe. Apenas tiraram meu sangue ainda agora e com certeza é por isso. Eu não gosto de sangue.

—Que bom que você não é médico, então! —O jovem disse brincando enquanto ia até a despensa do mercado em busca de outra embalagem de água mineral. A que Ricardo havia tomado era um das poucas que permaneciam na geladeira da vitrine. Era um dos produtos mais consumidos no verão, e os donos sempre ressaltavam para o jovem a importância de ter bebidas geladas para os clientes que as pediam. De certa forma, era um alívio esperado para qualquer paciente ou conhecido. Corrientes era uma cidade linda, terrivelmente cultural e com avançada tecnologia médica, mas suas altas temperaturas sempre testavam os pedestres mais experientes.

Ao sair da despensa, Ricardo já havia saído, levando consigo a garrafa vazia.

Que bacana, pensou o jovem. E ele aumentou o volume da televisão novamente.

As notícias agora falavam de uma espécie de gripe que deixou preocupados os cidadãos de Wuham, capital do estado de Hubei, na China. A notícia da doença, que começava a ser conhecida, foi transmitida por uma rede de transmissão internacional, as demais continuaram falando do cotidiano.

Ricardo, a poucos metros da empresa, jogou a garrafa plástica em uma lata de lixo em uma das esquinas. Ele era um cidadão responsável com o cuidado de seu lugar de origem.

As pistas de Corrientes eram muito estreitas, assim como suas ruas. Nas calçadas, apenas dois pedestres podiam andar ao mesmo tempo. Fundada em 1588, era a província mais antiga do nordeste argentino e isso explicava em grande parte sua arquitetura geral, principalmente no centro da cidade.

Quando estendeu a mão para a maçaneta de entrada da empresa, pronto para inserir a chave no lugar, aquela visão de um futuro extremamente distante o atingiu novamente. Tão longe, que mesmo os seres humanos não eram conhecidos, a não ser como parte de um antigo folclore.

Desta vez, foi curto e incompleto. Ele ouviu vozes do céu emitindo uma mensagem repetida e monótona. A linguagem era a mesma dos grandes blocos de metal. Ele se perguntou se em algum momento essas fantasias iriam embora, se isso tivesse algo a ver com as arritmias que o afligiam. Ou se eram parte de um processo psicopatológico que estava apenas começando.

Ele balançou a cabeça, como quem tenta se livrar de uma memória ruim, e entrou na empresa suspirando. Ele correu para seu escritório, tentando não observar ninguém no caminho. Por alguma razão, enquanto caminhava pelas estações de trabalho, ele ouviu um barulho estridente, como se algo estivesse viajando em alta velocidade acima dele. Ele olhou para cima e pensou ter visto flechas de junco com pontas de madeira em forma de arpão voando de uma ponta a outra.

«Ora, chega Ricardo», disse para si mesmo «há muito trabalho e não é hora de misturar uma cidade futurística com uma tribo de índios».

Finalmente sentado em sua cadeira, ele ligou o computador e abriu os arquivos de trabalho do dia. Naquela noite, ele convidaria Irma para dar um passeio, afinal, seu coração ainda estava batendo dentro do esperado e isso não merecia nada menos que uma comemoração.

—Vy'a —disse ele—, sem motivo. E sorriu.

5 de Dezembro de 2020 às 00:20 0 Denunciar Insira Seguir história
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Leia o próximo capítulo Capítulo 2. Seta perdida.

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