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arnaldo-zampieri Arnaldo Zampieri

Essa série de textos foi inspirada nas fotografias da Luana Padilha. Além de me encantar elas também estampam as capas de cada publicação.


Conto Todo o público.

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O Portão

Conto da série de textos inspirados nas fotografias da @luanapadilha,

que além de lampejo para o texto também estampa essa capa. 💛




6:00

O despertador toca.

Um suspiro, um beijo sem graça no seu amor,

uma caminhada até o banheiro sem tirar os pés do chão,

arrastando a sola do chinelo velho.

Um banho com aquele sabonete que tem cheiro de erva doce

e enquanto à água quente cai sobre as costas é o momento

pra escovar os dentes.

Desodorante de embalagem azul.

Perfume do frasco marrom.

A mesma força na mão pra não errar o penteado.

Aquece o café, prepara o pão e senta no seu lugar cativo, com o cotovelo
esquerdo sobre a mesa

enquanto rola pelo feed da rede social com a mão direita, dando likes para as
mesmas pessoas, independente do que elas publicaram.

Levanta, pois já é hora de sair.

Quando chega ao portão vê uma linha fina amarrada unindo o portão e a
grade.

Abre o portão arrebentando a linha facilmente e sai.

Chega pontualmente no mesmo horário pra trabalhar.

Não consegue dizer bom dia para as pessoas que enxerga.

Somente manifesta um sorriso sem mostrar os dentes.

Após a jornada, vai até a padaria comprar pães.

Eles já estão separados nem precisa pedir e já recebe o pacote.

O dinheiro pra pagar já está no valor exato separado no bolso.

Volta pra casa, chega na hora habitual

Um beijo sem graça no seu amor.

Desaba no sofá e ali fica imerso em postagens

até o sono vencer.

Arrasta os pés até a cama.

Então passaram 34 dias.

E as 6:00

O despertador toca.

Um suspiro, um beijo sem graça no seu amor,

uma caminhada até o banheiro sem tirar os pés do chão,

arrastando a sola do chinelo velho.

Um banho com aquele sabonete que tem cheiro de erva doce

e enquanto à água quente cai sobre as costas é o momento

pra escovar os dentes.

Desodorante de embalagem azul.

Perfume do frasco marrom.

A mesma força na mão pra não errar o penteado.

Aquece o café, prepara o pão e senta no seu lugar cativo, com o cotovelo
esquerdo sobre a mesa

enquanto rola pelo feed da rede social, dando likes para as mesmas pessoas,
independente do que elas publicaram.

Levanta, pois já é hora de sair.

Quando chega ao portão vê uma fita de seda amarrada unindo o portão e a
grade.

Entra, pega um tesoura, corta a fita e sai.

Chega 3 minutos atrasado no trabalho.

Alguém pergunta se está tudo bem,

mas não há empolgação pra responder um sim.

Apenas sacode a cabeça em sinal de positividade e segue.

Após a jornada, vai até a padaria comprar pães.

Eles já estão separados nem precisa pedir e já recebe o pacote.

O dinheiro pra pagar já está no valor exato separado no bolso.

Volta pra casa, chega na hora habitual

Um beijo sem graça no seu amor.

Desaba no sofá e ali fica imerso em postagens

até o sono vencer.

Arrasta os pés até a cama.

Passam outros 58 dias

6:00

O despertador toca.

Quando chega no portão existe uma corrente e um cadeado.

Só pode ser brincadeira!

Eles não tem um cadeado, muito menos uma chave que abra.

Entra em contato com um chaveiro que vai levar três horas até chegar.

Volta pra cama. Recebe um sorriso, um beijo com amor, caricias, paixão.

Duas horas depois toma um banho com companhia, ouve a sugestão de que

poderia não pentear o cabelo.

Prepara ovos mexidos para dois e esquece que possui um celular com internet
por alguns momentos.

O chaveiro chegou, fez o serviço rapidamente e agora é hora de ir ao trabalho.

Sai de casa com alegria e ao mesmo tempo culpa por precisar sair.

É obrigado a contar a história de que havia uma corrente em seu portão pra
justificar o atraso.

Sorri ao lembrar do fato.

Todos ali presentes também sorriem.

Após a jornada, vai até a padaria comprar pães.

Eles já estão separados.

Mas ele pede pra trocar por pães de queijo

Volta pra casa, chega na hora habitual

Um beijo com paixão no seu amor.

Recebe um sorriso e um olhar marejado que expressa o fim da saudade.

De ambos.

Entra a noite filosofando sobre a vida e a existência.

Sobre política, economia, alienígenas, religião, história, origem das palavras,

piadas velhas, humor duvidoso, segunda guerra, truques de mágica e redação.

Sobre amor, sob amor.

Então o despertador toca.

E o desejo nesse momento é que haja uma corrente no portão.



26 de Novembro de 2020 às 15:09 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Arnaldo Zampieri Assimétrico como a vida é o meu trabalho. Dividindo essa existência em: Composições, crônicas, contos, poesias e HQs.

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Bruna Dondé Bruna Dondé
Bela fotografia, texto incrível.
December 03, 2020, 17:10

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