-pedromilagres-efi Sertidão do Cer

Essa história é fruto de um os dos diálogos entre os meus diferentes "eus". Dessa vez, já me é aceito que aquela bela casa cabocla entre as montanhas de Minas jamais irá voltar. Mas confesso que me encantei em ter voltado até lá. Quem quiser, e estiver despido de suas indumentárias, está convidado a entrar nesta que parece ser a minha nova morada.


Conto Todo o público.

#vida #morte #liberdade #Nietzsche #martelo
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Vocês querem entrar?

Bem vindos! Sejam bem vindos à minha vida!

Podem sentar aí!


Bem, esta última década da minha vida foi difícil e cansativa, mas também feliz. Até não sinto mais falta da minha infância e da feliz época que morei na roça, em uma cidade pacata de Minas Gerais. Minha última década, de 2011-2020, foi um período de descobertas das minhas raízes étnicas, dos meus gostos e da minha indignação com o que nós estamos fazendo com os nossos corpos e os corpos dos outros seres no mundo. É doloroso viver em uma cela amordaçado e amarrado por inúmeras cordas morais, tendo como único companheiro um palhaço que me estende a mão e repete incessantemente: Times is Money! Times is Money!


Ah..,, nem lhes ofereci um vinho. Vocês aceitam? Há muito tempo não recebia ninguém aqui, desculpe!

Esperem aí, irei buscar mais 12 cálices. Enquanto isso, respirem um pouco. Diferente daquele negro norte-americano, we can breath!




Pronto!

Voltando ao que eu estava falando, foi duro romper com tudo que me foi ensinado desde à minha tenra infância, mas permaneço vivo. Foi após meus 15 anos que a busca pelo super-homem começou, bem latente, e só tenho suposições de onde começou. Nenhuma certeza! Ah..., é até bom lembrar daquela pontinha interna de felicidade em estar no caminho para o além-mar! Tenho, desde àquela época, uma certa mania em querer olhar para além do visível à minha frente, e para além do meu passado material também! Aliás, observava os riscos de se viver a vida após os excessos e buscava viver em suas diferentes amplitudes. Naquela época não tinha qualquer interesse pelos livros, mas uma consciência interna já me despertava a necessidade de romper com os falsos moralismos e as promessas de uma salvação eterna – infeliz e triste.

Acredito que tudo isso me instigou hoje à complexidade humana. Se entranha na minha memória as diferentes máscaras da vida e as expressões dos sentimentos, que no momento estão só em telas. Daí meu conforto em permanecer isolado com o meu ego e as minhas representações, enquanto esse vírus maldito circula pelas ruas, escoltado pela irresponsabilidade dos meus contemporâneos que colocaram o poder nas mãos de vermes.


Mas, como sempre suspiro para mim mesmo: “calma, a responsabilidade não é só nossa!”


São nestes suspiros, nestas respostas jogadas pelos cantos, que me vêm a feliz expressão de Gonzaguinha: “viver e não ter a vergonha de ser feliz!” ou, se quer um tom mais melancólico, é ser um bluesman. Lembra aquilo que Baco nos contou?

"1903
A primeira vez que um homem branco observou um homem negro, não como um "animal" agressivo ou força braçal desprovida de inteligência. Desta vez, percebe-se o talento...,

a criatividade...,

a música....

O mundo branco nunca havia sentido algo como o blues. Um negro, um violão e um canivete. Nasce na luta pela vida, nasce forte, nasce pungente. Pela real necessidade de existir.

O que é ser bluesman? É ser o inverso do que os outros pensam. É ser contra a corrente, ser a própria força, a sua própria raiz. É saber que nunca fomos uma reprodução automática da imagem submissa que foi criada por eles.

Foda-se a imagem que vocês criaram... Não sou legível... Não sou entendível... Sou meu próprio deus; meu próprio santo; meu próprio poeta.

Me olhe como uma tela preta, de um único pintor. Só eu posso fazer minha arte. Só eu posso me descrever. Vocês não têm esse direito. Não sou obrigado a ser o que vocês esperam. Somos muito mais."



Percebe a diferença? rsrs

Sim! E, também, sempre bate aquele frio na barriga que dá um certo medo, e me vêm Nietzsche à memória. Nietzsche, e seu existencialismo que penetra na carne, me ajuda a explorar essa vida ao máximo, sem materialismos e imposições. Seu informante, Zaratustra, me falou: “Sucede ao homem o que sucede à árvore. Quanto mais que subir às alturas e à luz, mais vigorosamente estende suas raízes para a terra, para baixo, para o obscuro e profundo: para o mal.”


Cada vez fico mais intrigado pelo pior do ser humano, seus sentimentos ruins, o pior da civilidade e do bom senso. Também, continuo mergulhando ao máximo em páginas e telas para sentir a experiência dos demais, onde meu medo não me costuma deixar chegar.

Toda esta década, que se finaliza com um ano caótico lá fora, só intensifica o meu desejo em continuar falando da dor dos meus, dos que estão sendo violentados, e buscar apontar novos caminhos para que todos sigamos juntos, happy together.


Mas, então voltando, são nesses que estou sós comigo mesmo que me vem estes suspiros.


Assim, minha vontade de estar só é a mesma vontade de permanecermos juntos.


Para vocês terem uma noção lá, de onde eu venho, todos os dias se vive uma violência de não receber uma boa educação, uma boa saúde, uma boa consciência política e de suas memórias, à não ser que você se submeta à uma melancolia eterna na busca de moedas simbólicas. Muitos pularam da janela do 5º, e não acho que é certo trocar a busca de viver incessantemente uma ínfima parte boa da nossa existência por aquilo...


Mas, então, me falem! Se eu não continuar falando e escrevendo, como as pessoas a mim próximas irão descobrir que não é possível se libertar de algo, mas sim se libertar para algo? Que nós existimos para se sentir bem!


Bom, o que eu queria falar é isso. Espero que o senhor e seus 12 amigos não tenham se importado com os simbolismos que eu quebrei, com as descrenças que eu plantei e, mais precisamente, o que eu sinto ser uma consciência emancipadora, que estou compartilhando com alguns de seus filhos. Mas, no final, possivelmente você irá se orgulhar de estar permitindo-lhes ultrapassar seu medo, pois todos eles morrerão com uma bagagem enorme de experiências boas e ruins, com orgulho por ter vivido até a última gota de cada encontro. Eles não foram nem bons, nem ruins. Aliás, eles foram sim! Eles foram os dois ao mesmo tempo.


Ah..., e não se esqueçam, se seus amados filhos alcançarem o além-mar isso não te custarás tanto, já que eles mesmos poderão ser seu próprio messias.


No mais, é isso...

Podem sair!

Abraço!

10 de Janeiro de 2021 às 16:33 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Sertidão do Cer "Querido diário...." Sou um mero vagante curioso pelo mundo que não se contentou apenas em pesquisar. Vim de um lugar, no interiorzinho de Minas Gerais, onde várias forças confluiram para que eu não chegasse onde estou, mas cheguei! Então, aqui nada mais é que uma fuga do ringue (ou será uma extensão dele?). Aparentemente, cada texto é uma inquietação do meu eu tentando se achar em meio ao carretel interno de sentimentos, formalismos e rebeldias, e tentando deixar pegadas pelo mundo.

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