silvamaro Gabriel Amaro

Uma exposição de momentos importantes do histórico cultural do Brasil e uma exaltação a alguns de seus aspectos mais marcantes. História participante do desafio "O Macro-País" da Copa dos Autores 2020.


De Época Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#conto #brasil #carnaval #futebol #história #rio-de-janeiro #samba #theauthorscup #TheMacroCountry
4
6.6mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Cartola



VINTE E OITO DE ABRIL DE 1928. O homem saiu de seu barraco no Morro da Mangueira e percorreu o caminho que o levaria até o Bar do Jorge, um lugar hospitaleiro onde se encontrava com os amigos para beber, cantar e farrear regularmente. Angenor de Oliveira era morador da Mangueira desde os seus onze anos de idade e, mesmo com o tempo, seu amor pelo lugar continuava a crescer.

A Mangueira era uma comunidade de gente pobre, constituída em sua maioria por negros. Serviu de abrigo e moradia para escravos alforriados e os seus descendentes, que se identificavam inteiramente com as várias manifestações culturais e religiosas de origem africana. Algumas casas serviam de templos para os muitos adeptos do Candomblé e da Umbanda.

— Bom início de tarde, meu querido! — Angenor adentrou o bar, sorriu para o garçom, se sentou e retirou o seu chapéu-coco, depositando-o sobre o balcão de madeira. — Uma cerveja bem gelada, Jorge, por gentileza.

— Opa, meu amigo! Boa tarde. É para já! — O homem sorriu e estendeu a mão para Angenor, que a apertou. Retirou um copo de debaixo do balcão, largando-o em frente ao homem.

Os homens eram amigos de longa data, mas Angenor sabia que o parceiro era contra a vida que muitos de seus clientes levavam, inclusive ele mesmo. Jorge era, possivelmente, um dos únicos homens que nunca levara uma vida boêmia em toda Mangueira. Ele era focado na pequena família que estava construindo; abrira o bar poucos anos antes para juntar dinheiro com a esperança de evitar que o filho pequeno seguisse o caminho daqueles homens. Cresceu traumatizado pela convivência com o pai: um alcoólatra que abusava de sua mãe e descontava raiva e frustrações no filho indefeso. Admirava o amigo por não cair em tentações, mas Angenor possuía demônios internos para lidar diariamente; apenas o álcool permitia que ele se mantivesse minimamente são.

— Como estão as coisas por aqui, Jorge? Muito movimento? — perguntou Angenor enquanto observava o homem se retirar por um momento para buscar a garrafa de cerveja.

— Graças a Deus temos muito movimento, sempre com os mesmos clientes fiéis. — respondeu Jorge ao despejar o conteúdo da garrafa no copo à sua frente. Quando terminou, a depositou sobre o balcão e enxugou as mãos no avental que usava.

— Fico contente com essa notícia, meu amigo! Você sempre terá uma parte do meu dinheiro enquanto eu estiver vivo. — Ele mostrou um sorriso e levantou o copo na direção de Jorge, como se brindasse a ele.

Jorge o olhou com desdém, balançou a cabeça negativamente e retribuiu seu sorriso. Angenor sabia boa parte do que acontecera na vida dele; era um amigo fiel e, de fato, desejava que alcançasse o sucesso com o bar.

— Como está o pequeno João? — Angenor notou o rosto do homem se iluminar com a pergunta.

— Ele está enorme e saudável. Torço para que continue crescendo bem. Venha até a minha casa vê-lo, Angenor. Cícera irá adorar recebê-lo — disse Jorge.

A conversa entre os homens seguiu sem interrupções por longos minutos, até que Jorge se afastou para permitir que o amigo tivesse um momento de introspecção. Angenor agarrou o copo e acendeu um cigarro, permitiu-se saborear a bebida gelada silenciosamente. O bar fora reformado recentemente e tinha um aspecto convidativo; ele estava sentado de frente para um balcão alto de madeira escura, garrafas de um tom amarronzado enfeitavam uma prateleira acima da cabeça de Jorge. Uma vitrola estava alocada em um dos cantos do bar e tocava uma música calma. As paredes foram pintadas em um tom creme e estavam decoradas com fotos de carnavais passados, além de quadros e faixas com o emblema do time mais popular do estado do Rio de Janeiro: o Flamengo. O homem torcia para o Fluminense, um time favorito da localidade em que vivera antes de se mudar para a Mangueira, o bairro das Laranjeiras.

Assim que se mudou para a Mangueira, iniciara a sua vida no mundo da boemia, da malandragem e do samba. O homem estudara somente até o primário até decidir largar os estudos e, apesar de realizar serviços como pedreiro, preferia dedicar seu tempo para compor e tocar em bares da região. O Bar do Jorge era um dos locais que recepcionava sua música.

— Cartola! Vejo que está apreciando uma bela gelada. — Um homem riu e apertou o ombro de Angenor.

Cartola foi o apelido que Angenor recebera dos amigos quando começou a trabalhar como pedreiro, pois, para evitar que respingos de cimento caíssem em seu cabelo, passou a usar o famoso chapéu-coco preto durante as obras. Diziam que o chapéu se parecia com uma cartolinha e, consequentemente, o apelido foi bem recebido pelo homem. Estava feliz com a chegada de seu grande amigo José.

— Sim, meu amigo. Felizmente, não há hora para iniciar e muito menos para acabar! — Cartola riu e se levantou, abraçou o amigo e lhe deu tapinhas nas costas.

— O que acha de tocarmos um samba mais tarde? — O homem se sentou ao lado de Cartola e, em seguida, se dirigiu a Jorge. — Também vou querer uma cerveja, amigo.

Cartola integrava uma turma de brigões e arruaceiros, juntamente com Carlos Moreira de Castro e José Gomes da Costa. Mais conhecidos, respectivamente, como Carlos Cachaça e Zé Espinguela. Os três, juntamente com outros compositores, criaram no ano de 1923 o Bloco dos Arengueiros. Era composto somente por homens e o intuito era reunir sambistas da região que gostariam de desfrutar do carnaval com muita farra, brigas e bagunça. Os homens saíam às ruas vestidos de mulher à procura de briga com blocos que estivessem desfilando. O Bloco dos Arengueiros conquistou popularidade entre os demais; entretanto, os idealizadores se reuniriam mais tarde naquele dia com o propósito de definir o futuro do amado bloco.

— Após a reunião com os amigos? Com todo prazer! Quando eu recusaria um pedido como esses? — Cartola riu para o amigo e botou mais um gole de cerveja para dentro.

Jorge depositou mais um copo e uma garrafa sob o balcão, mas dessa vez em frente a José. O homem acenou com uma mão e dispensou Jorge para que ele desse atenção a outros clientes que chegaram. Se seguiu uma conversa calorosa entre os homens sobre samba, futebol e mulheres. Espinguela era um famoso mulherengo da região, mas Cartola, apesar de novo, decidiu parar em Deolinda. As brigas constantes com seu pai se tornaram insustentáveis e, pouco tempo após a morte de sua mãe, o homem decidiu por expulsá-lo de casa, pois ele era contra a vida que o filho mantinha. Angenor levou uma vida de vadio por um tempo, regada a muita bebida e mulheres. Contraiu doenças venéreas pelas frequentes idas aos prostíbulos e os hábitos que escolhera para a sua vida o levaram a se enfraquecer fisicamente. Adoeceu e mal se alimentava, mantendo-se preso a uma cama em seu pequeno barraco. Porém, uma vizinha passou a cuidar do homem e, consequentemente, se apaixonou. Os dois decidiram viver juntos e Deolinda deixou o marido para se juntar ao amado juntamente de sua filha, que o rapaz criava como sua.

Após muita conversa, os amigos puxaram um samba alegre e cantaram para os clientes do bar, encantando e chamando atenção de cada adulto e criança que passava pela rua. O bar se encheu de júbilo e palmas, os presentes faziam barulho e entonavam a canção ao redor dos músicos; bebiam e gargalhavam ao som da melodia agradável. Finalizaram a cantoria com imenso fervor dos clientes do Bar do Jorge que, insaciados, clamavam por mais samba.

— Foi um prazer enorme cantar para vocês nessa tarde tão agradável! Se vocês me chamarem, eu volto! — Cartola disse e, no mesmo instante, as pessoas pediram por mais samba. — Mas não agora! — O homem riu, pagou ao Jorge pela cerveja e agarrou o seu chapéu-coco.

O clima do Rio de Janeiro era sempre quente, mas o tempo estava incrivelmente agradável naquele dia. Crianças brincavam e corriam nas ruas, aproveitavam o dia fresco e ensolarado. Cartola saiu do Bar do Jorge e caminhou ao lado do amigo pelas ruas da Mangueira em direção à casa de Euclides Roberto dos Santos, um dos fundadores do Bloco dos Arengueiros. O homem morava no Buraco Quente, um local que integrava o complexo do Morro da Mangueira.

Cartola pensava sobre o futuro do amado bloco dos Arengueiros. Conhecia comunidades onde os sambistas tinham o objetivo de não apenas terem o seu próprio bloco, mas também uma escola de samba, devido à popularização do carnaval e ao desenvolvimento do samba. Os foliões arruaceiros possuíam bastante prestígio na Mangueira e em outras localidades. Sendo assim, por que não fundar uma escola de samba no morro?

Ao alcançarem a porta de entrada da casa do amigo, gritaram pelo homem e aguardaram por alguns instantes. Joana Velha, mulher de Seu Euclides, os recepcionou alegremente e os conduziu porta adentro. Se encontravam no local: Saturnino Gonçalves, Euclides, Marcelino José Claudino, Pedro Caim e Abelardo da Bolinha. Todos bebiam e conversavam descontraidamente. Se alegraram ao notarem a presença dos amigos.

A casa de Euclides era muito bem cuidada pela esposa, no local havia sofás e cadeiras para acomodar a todos. Um samba tocava ao longe e a sala era espaçosa; estantes de madeira e as paredes pintadas cuidadosamente em um tom claro de azul estavam adornadas com quadros, fotos e pequenas esculturas de gesso muito bem trabalhadas. Tudo tornava o ambiente realmente confortável.

Cartola se sentou próximo a José e acendeu outro cigarro, se serviu de um uísque barato que estava em cima da mesa de centro. Ouviu a conversa calorosa dos homens sobre futebol: o Flamengo enfrentaria o Fluminense no dia seguinte e os homens combinavam de assistir ao jogo juntos. Passados alguns momentos, o tema principal do encontro entre os amigos finalmente veio à tona, o homem se levantou e deu sequência aos seus planos, se direcionando aos amigos presentes.

— Meus amigos, após muito pensar, cheguei a uma conclusão e gostaria de compartilhá-la com vocês. Pensei em unirmos os blocos do nosso querido Morro da Mangueira. Porém, o intuito não é somente unificá-los, mas sim termos um bloco que também seja uma escola de samba. Vejam, analisei que muitas das comunidades vizinhas estão aderindo essa ideia. O propósito maior é ensinar samba, possuímos muito prestígio e reconhecimento com o nosso amado Bloco dos Arengueiros. Entretanto, se desejamos maior reconhecimento e um local onde todos os moradores da Mangueira possam se sentir realmente unidos, a ideia me parece mais do que justa. — O homem finalizou e voltou a se sentar; aguardava ansioso a resposta dos amigos.

Os homens pareciam encantados com a ideia, de fato estava aumentando o surgimento na região de sambistas que tinham a intenção de fundar blocos e escolas de samba. O Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz era um exemplo amplo dessa nova forma de fazer samba; estavam crescendo e recebiam o devido reconhecimento em várias localidades do Rio de Janeiro.

A ideia foi aceita e bem recebida por todos, Cartola confiava no valor dos sambistas de Mangueira e estava feliz por tomarem um passo como aquele.

— E qual nome daríamos a essa escola? — Zé Espinguela perguntou ao amigo.

O homem olhava atento na direção de Angenor, que pensou por um momento e buscou em sua mente o nome que havia escolhido. Lembrou de toda sua história na Mangueira, pensou no samba e nas tantas culturas que ali estavam enraizadas. Por um momento, sua mente foi invadida por lembranças das linhas férreas e dos trens que serviram de cama para ele assim que fora expulso de casa, da dor que sentira quando sua mãe o deixou; Cartola reconhecia que o samba havia salvado a sua vida. A partir da Central do Brasil, o Morro da Mangueira era a primeira estação de trem de um lugar em que havia samba.

— Estação Primeira de Mangueira. — Cartola respondeu ao amigo e recebeu apoio dos demais.

Angenor agarrou o copo que estava em cima da mesa de centro e ingeriu o líquido amargo com vigor. Evitava pensar na mãe, na mágoa que sentia do pai e da saudade incômoda que invadia seu peito toda vez que pensava nos irmãos mais novos. Fora abandonado pelo pai em um dos momentos mais difíceis de sua vida, tinha apenas quinze anos quando a mãe faleceu e o deixou sozinho neste mundo.

A sugestão parecia agradar a todos, não houve objeções e, então, estava definido o nome da primeira escola de samba do Morro da Mangueira. Os homens discutiam animadamente a ideia de Cartola, estavam ansiosos para saber a opinião dos outros blocos existentes no amado morro. No momento seguinte, deram início a uma discussão importante sobre as cores que representariam a Estação Primeira de Mangueira. Prontamente, Cartola deu a sua sugestão.

— O que acham das cores verde e rosa? — disse ele.

— Mas por que verde e rosa? Você acha que são cores que combinam? Não acredito que a bandeira ficará bonita com essas cores. Podemos pensar em outras. — Seu Euclides perguntou, nitidamente incomodado com a sugestão de cores do amigo.

— Existe combinação tão bonita quanto a de um caule verde com uma rosa na ponta? — disse Cartola, por fim.

Os homens pareceram satisfeitos com a resposta de Angenor e decidiram que seriam essas as cores que representariam a escola de samba. Porém, o homem viu seus pensamentos vaguearem mais uma vez: se viu em um desfile do Rancho Arrepiados, que possuía as cores verde e rosa, quando ainda era garoto e morava nas Laranjeiras. Sua voz era boa e chegou rapidamente à Ala do Satanás, se viu pela primeira vez com uma fantasia e ajudava a carregar as gambiarras que iluminavam o rancho. Estava acompanhado do pai, que tocava cavaquinho, além de sua mãe e os irmãos. Lembrou que sua mãe teve muito zelo e cuidado para caprichar em sua fantasia: queria que ele estivesse apresentável. Sabia que era o filho mais querido dela, por ser o primeiro homem, pois ouvira ela dizer ao pai. Aquele momento o marcou e seu peito ardeu de saudade, sentiu que a qualquer momento desabaria se não afastasse tais memórias. Tornou a encher o copo com uísque e o ingeriu rapidamente, sentiu a tão familiar ardência percorrer sua garganta.

No momento instante, se lembrou de um samba que compôs para a ocasião. Seria bom para ele, naquele momento, se manter focado nos planos iniciais e na companhia dos amigos. Era doloroso lembrar da mãe e dos anos seguintes após o seu falecimento, das doenças, das noites em que se deitou para dormir com a barriga vazia nos trens da Central do Brasil, da solidão que castigava o seu peito. Sua genialidade o transformou em um dos maiores compositores de toda Mangueira e, apesar da dor, preferiu dedicar-se à arte ao transformar todo sofrimento em samba.

Cartola interrompeu os amigos e pediu para apresentar a eles o samba composto para a ocasião especial. Ao receber a atenção de seus amados amigos, sorriu triunfante e iniciou a cantoria.


Chega de demanda

Chega!

Com este time temos que ganhar

Somos da Estação Primeira

Salve o Morro de Mangueira

29 de Outubro de 2020 às 14:53 3 Denunciar Insira Seguir história
7
Leia o próximo capítulo Carnaval

Comente algo

Publique!
Amanda Luna De Carvalho Amanda Luna De Carvalho
Que texto rico! Muito bom realmente!
November 22, 2020, 15:41

Camila Masumy Camila Masumy
amei anjo
November 13, 2020, 02:57
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 2 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!